quarta-feira, 16 de agosto de 2006
paga-vale
Os dois não vem sozinhos, chegarão com os pas numa linda e brega limousine branca. Caipira sempre caipira, com ou sem dinheiro.
O "chiquê" da história é que eles vão embora de jatinho pra Sandy não perder a de aula amanhã de manhã na faculdade.
Por essas e outras, prefiro a Wanessa Camargo.
terça-feira, 15 de agosto de 2006
mezcal
“Mezcal”, filme mexicano de Ignacio Ortiz Cruz, deixou a sensação de “quero provar”. Um bando de lunáticos passa o tempo todo bebendo mezcal “para acalentar a dor da alma”. Acho isso brilhante. Tenho feito isso a vida toda ouvindo Portishead. E ouço mesmo quando não estou triste, como é o caso do atual momento da minha vida. Mas acho que só a tristeza e o sofrimento são capazes de criar obras de arte incrivelmente lindas.
“Mezcal” é isso. Dor em doses cavalares e copos cheios de lucidez. Tem um quê de Fellini misturado a Buñuel, mas as comparações param no segundo copo.
Assista sem moderação, isso se um dia chegar numa locadora brasileira. Porque em cinema...
koyaanisqatsi brazuca
A sinopse resumida: Um índio foge de uma emboscada e perde-se da sua tribo. Fica vagando 10 anos e então é reintegrado aos seus pares.
Até aí nada demais. A não ser a reclamação de Zuzuwah, um dos integrantes da banda Coletivo Shangai.
- Isso me cheira a cópia do roteiro do Coletivo hein!?! Pega o nome do cara que vou PROCESSAR.
Well, de resto o filme é um emaranhado de zilhões de cenas que preenchem 135 minutos da vida. A edição lança na tela tudoemaisumpoucojáagoraaquitambémpradizerqueomundoéontem.
Sério.
Parece confuso, mas é verdade.
Eu que nunca gostei do "Koyaanisqatsi", não curti "Serras da Desordem".
E tenho dito.
O resto tá na Invertebrado, quando escrevi sorbe "Koyaanisqatsi".
oremos
Oremos para que o filme não avacalhe ainda mais com a Santa. Porque a primeira versão de "Nossa Senhora de Caravaggio - O Filme" exibida em 2005 em Gramado (fora de competição) assustou santos de todas as querências.
cara de pau
Sim, ele mesmo Fábio Barreto. O diretor veio desesperadamente atrás de fundos pra terminar o interminável "Nossa Senhora de Caravaggio - O Filme".
Como se fosse uma criança mal-criada tomou um puxão de orelha do padrinho, o Germano Rigotto, que por acaso é o governador.
O dindo quer o filme terminado logo!
Barreto deu de ombros e promete até novembro.
Oremos.
a lista (breve)
Rocco Pitanga
Lucia Veríssimo
Luciano Szafir
Paula Burlamaqui
mal-estar
Vocês tinham de ver a cara do Fagundes quando o prefeito de Gramado sugeriu que outras "estrelas" (aquele bando de gente que só faz novela tipo C) ficassem ao seu lado.
O cara vem a Gramado depois de 20 anos longe daqui pra receber o Oscarito, o prêmio mais pop do país, e ainda por cima aplicam dessas pra ele?
Tem mais que ficar outros 20 anos sem vir.
tapete molhado
Mesmo com a chuva fininha a penca de artistas-papagaio-de-pirata que surge em Gramado a cada fim de inverno posou pra fotos em frente ao Palácio dos Festivais.
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
domingo, 13 de agosto de 2006
cidade nua
Novidade só o Kikito. Ou melhor a maneira coomo o Kikito está à mostra. Nesse ano o Kikito tá enjaulado dentro de uma esfera. Parece acuado, com vergonha de levar nas costas o peso da chacota. Também pudera, é difícil pra esse deus seguir sorrindo com tanta gente fazendo tanta merda e no final das contas restar o velho Kikito pra salvar o Festival.
Agora são 21h58min. Cidade nua. Assim como em 2005, Gramado silencia na estréa do Festival de Cinema. Antes silenciosa do que ruidosa de gente sem importância querendo levar vantagem nas costas de quem respira cinema.
Que Alá e todos os outros deuses nos protejam.
quarta-feira, 26 de julho de 2006
muito além do inferno
Ontem ainda cedo, saindo de casa fui atropelado e lançado do outro lado da calçada. Ainda zureta da porrada na orelha levantei e sacudi a poeira. Não contente, o motorista tascou spray de pimenta nos meus olhos. Óbvio, caí de maduro. É sério, vó, não faz essa cara de desconfiada. Durante um tempo não vi nada, só ouvi. Entre sirenes, tinha gente paranóica gritando: "Mata esse safado, deve ser ladrão"; outros complacentes, balbuciavam: "Ajuda o menino, chama a ambulância". E veio, zunindo.
Não me perguntaram nada. Arregaçaram a manga da minha camisa de flanela florida e cravaram a agulha na primeira veia que encontraram. Adormeci. Fui acordado com um tapa carinhoso que quase me derrubou da maca. A enfermeira, ranzinza, olhos esbugalhados e fumando, resmungou: "Te arranca, guri". Saí de mansinho e mancando.
Já passava das 16h. Morrendo de fome resolvi entrar na primeira biboca que apareceu. Bar do Lorival. Ambiente requintado, prato-feito por seis pila e compacto de Flamengo e Vasco na tevê. "Vai beber o que, patrão?". Qual é a ceva mais barata?, retruquei. "Só tenho das mais barata". Então, escolhe a mais gelada. Conversa vai, conversa vem. Acabei me estendendo. Saí do recinto depois da novela das nove.
Atravessando a Praça Dante Alighieri, presenciei a cena lírica e louca. Lembra da musa Anita Ekberg banhando-se na Fontana di Trevi, no filme La Dolce Vita, de Fellini? Pois bem. Troque os personagens e o cenário. No lugar da Anita coloque uma velha caquética rolando dentro do chafariz da Praça Dante. E o pior, assim que me viu, a coroca gritou: "Vem Mugnolini, vem".
E fui pra casa correndo rever Anita.
domingo, 23 de julho de 2006
curta 1
A seleção do elenco está sendo feita essa semana. Ficou interessado? Liga aí: 9122.5230.
celebridades
música de hoje
(Rodrigo Amarante)
Deixo tudo assim.
Não me importo em ver a idade em mim,
ouço o que convém. Eu gosto é do gasto.
Sei do incômodo e ela tem razão
quando vem dizer que eu preciso sim
de todo o cuidado.
E se eu fosse o primeiro a voltar
pra mudar o que eu fiz,
quem então agora eu seria?
Tanto faz que o que não foi não é.
Eu sei que ainda vou voltar... mas eu quem será?
Deixo tudo assim, não me acanho em ver
vaidade em mim. Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.
Sei do escândalo e eles têm razão
quando vêm dizer que eu não sei medir
nem tempo e nem medo.
E se eu for o primeiro a prever e
poder desistir do que for dar errado?
Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!
Ah, se o que eu sou é também
o que eu escolhi ser aceito a condição.
Vou levando assim
que o acaso é amigo do meu coração
quando fala comigo, quando eu sei ouvir...
quarta-feira, 19 de julho de 2006
ralo adentro
Paulo Leminski, em De Frente pra Luz, do livro Gozo Fabuloso.
Gosto desse cheiro de cidade imunda. Gosto de ver gente tresloucada esfregando as feridas nas vitrines das lojas glamourosas. Tudo fede e, por isso, alucina. Não fosse assim, teria me mudado pro interior do interior pra plantar arbustos carnívoros. Mas sigo aqui, reinventando velhas histórias que meu avô contava pro boi dormir.
Não tem vista melhor do que o rebuliço de meia dúzia de cachorros sem dono lambendo o asfalto molhado e revirando o lixo da segunda-feira. Entre latidos e bengaladas pra afastar a cachorrada duas senhoras atravessam a rua de braços entrelaçados. Logo são tragadas pela neblina. Quem sabe mais a frente sejam expurgadas e reapareçam. Sinceramente, espero que não.
O primeiro ônibus da manhã larga uma revoada de gente sem dente. Todos cristalizados pela apatia do verso que nunca saiu do papel. Um só do bando fica plantado na encruzilhada. Conheço a figura. Não sei o nome, a profissão ou a origem, mas sei do paradeiro. Aquele velho boteco esquecido no meio do nada. Entra de mansinho e senta no terceiro banco. Não fala nada e logo acomoda a angústia com dois copinhos de uma bebida incolor.
Cruzo de uma rua para outra através de uma galeria escura e decadente. Um lunático grita o nome de Deus em vão. Veste terno escuro e gravata esguia. Tem uma cicatriz grotesca que corta parte a boca e termina no pescoço. De longe, se parece com Tom Yorke. Quem sabe com uma guitarra em punho e trocando os nomes dos personagens que cita à toa não fizesse mais sucesso.
quinta-feira, 13 de julho de 2006
lírios cravados em terra seca
Silêncio. A casa velha de madeira cravada no meio do nada amanhece mais uma vez. O sol lava as paredes umedecidas de orvalho. Como uma criança, Genaro desperta. No quarto não há quase nada - como nunca houve quase ninguém na sua vida. Uma cama, um armário sem portas e um livro jogado no chão, sem capa.
Genaro arrasta os pés pela casa. O assoalho rangendo acorda os gatos. Todos albinos e mal acostumados. Só bebem leite sentados à mesa. Gostam de leite ainda cedinho da manhã e ao entardecer.
Música à tarde, quando assistem ao coro das meninas cantando e correndo pelo pátio. Genaro prefere o canto triste e sussurrado de Marina. A menina de olhos cor de mel e cabelos negros e encaracolados passa as tardes andando de balanço e cantando sozinha.
A melodia impiedosa atravessa a sola dos pés sem pedir licença. E não adianta lamber o freezer da geladeira, nem coçar a frieira com o garfo. Não é simples assim para acabar com a agonia. Não encerra com veneno. Porque nada mata a lesma para sempre. Quando você menos esperar terá uma à sua espera embaixo do travesseiro. É só uma questão de tempo.
Genaro sonha acordado. Relembra do quase amor, mas logo a cena desaparece. Vem com força o tapa na cara. E o não. Pior que desamor. Abandono. Laura sumiu. Deixou as chagas e o desencanto. Genaro virou um velho moribundo desde os 20 e poucos anos.
- E o senhor nunca foi atrás dela?
Genaro esquiva-se e sorri. Sentado na escadaria da velha casa de madeira, roça o pé no assoalho riscado, suspira e seca algumas lágrimas com a manga da camisa. Apóia-se nos joelhos e levanta. Bate as botas cheias de barro e, antes de entrar em casa, fita Marina.
Mesmo infeliz e definhando busca no canto da menina o último resquício de vida. Genaro sabe que Laura voltará. Mas só depois da remoída ida. Só voltará para cravar as flores de lírios na terra seca.
Conto publicado nesta quarta-feira no Pioneiro.
quinta-feira, 29 de junho de 2006
silêncio e dor
"Material" colhido em São José dos Ausentes durante a viagem do Nordeste Gaúcho, no inverno de 2005. Texto do Mugnolini.
clipado
Gondry é figurinha fácil em shows de gente como Björk, White Stripes e Chemical Brothers, entre otros. Não à toa dirige clipes pra essa gente.
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Thereza
É noite. Inverno. Mais uma noite sem ninguém servindo a sopa de Thereza. Quase morta. Que nada, quase grávida. Leva no ventre o filho que não veio nem depois da velhice. As mãos trêmulas e macias como um pedaço de seda, mas flácidas e rugosas. O medo já não assusta mais e a vertigem Thereza trata com um genérico de quinta rifado em balaios.
Nas madrugadas mais geladas levanta-se da cama e sorve um palheiro. Abre as janelas e deixa o vento cortar-lhe a face. O palheiro acalma a ansiedade e dribla o frio, mas Thereza odeia o cheiro. Depois de uma ou duas baforidas gospe o gosto de fumo forte e palha seca impregnado à boca. Pra encerrar o ritual invernal toma uma banho gelado na bica. Depois do banho, bebe dois goles de vinho bordô e cai na cama.
quarta-feira, 21 de junho de 2006
música de hoje
Samba do Arnesto*, de Adoniran Barbosa
O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no brás
Nóis fumo e não encontremos ninguém
Nóis vortemo cuma baita duma reiva
Da outra veiz nóis num vai mais
Nóis não semos tatu!
Outro dia encontremo com o Arnesto
Que pidiu descurpa mais nóis não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nóis não se importa
Mais você devia ter ponhado um recado na porta
Anssim: "ói, turma, num deu prá esperá"
A vez que isso num tem importância, num faz má
Depois que nóis vai, depois que nóis vorta
Assinado em cruz porque não sei escrever Arnesto
* É possível encontrar a música também como "Samba do Ernesto".
seu genaro se foi
Há 10 anos não durmo. Não fecho os olhos sob condição nenhuma. Durante o dia, reviro gavetas, empilho bugigangas, varro o pátio, almoço com os pássaros. À noite, janto com os abutres, corro atrás dos gatos albinos, chuto garrafas no pátio. Alivio a ansiedade bebendo gim. Sempre puro, às vezes com gelo. Nem sempre uso copo, prefiro o gargalo.
Dona Alzira insiste. Não passa um só dia sem me lançar um olhar. Ela acredita no seu poder de sedução. Veste sempre um longo vestido florido e decotado. Só me sinto atraído pelos seios enormes e caídos, típicos de uma velha ama de leite. Alzira mora numa casa de madeira, verde e apodrecida pelo tempo. Nunca entrei por medo de não sair vivo. Pobre coitada, dizem ainda é virgem.
Entre uma piscada e outra, dentro da madrugada veloz, respiro. Prefiro a escuridão da noite, sem luzes, nem ruído. O silêncio acalma o turbilhão de desencontros neurais, entorpece a memória, afeta a lucidez do pensamento. Esculhamba. Causa dor e me faz gritar por piedade. RISOS.... Acho tudo isso tão engraçado. Porque assim que o sol se põe diante da janela da sala tudo passa. É como se eu sempre soubesse lidar com as falhas do meu inconsciente e a insanidade da consciência.
– Já pra jaula, Genaro.
E fui.
quinta-feira, 15 de junho de 2006
outro dia quem sabe
quarta-feira, 14 de junho de 2006
viva lutero
E tem gente que ainda manda se foder o Martinho Lutero. Olha só, enquanto os padres brasileiros censuraram, em abril, obra de arte que estava em exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil (RJ), as "santidades" alemães nem deram bola para a série Desenhando em Terços, da artista plástica Márcia X (1959-2005).O desenho fica exposto até 9 de julho na Galeria Weisser Elefant, integrado a mostra Brasil + Berlin – Arte Contemporânea Brasileira em Berlim. Se você for a Alemanha, confira de perto a obra. Mas se preferir seguir sentado e pulando de site em site, clica em http://marciax.uol.com.br
calmaria
Hoje só tenho ouvidos pra pancadaria. Guitarreira rasgada, tosca, ensurdecedoramente suja. É tão bom, dá uma vontade de chutar mesas e cadeiras e espalhar cacos de vidro pela casa. A dádiva seria, se em meio a essa confusão, as paredes rompessem com a pressão d'água.
terça-feira, 13 de junho de 2006
cena de hoje
Na cozinha, abre a geladeira tira seis gatos albinos do freezer e os acomoda em seis pequenas cadeiras. Ele e os gatos à mesa jantam um rescaldo do almoço. Uma certa coisa gosmenta, fedorenta e, mesmo assim, de dar água na boca. A primeira garfada só vem depois da oração. Entre miados e grunhidos, todos dizem amém e devoram a comida.
sábado, 10 de junho de 2006
Mugnolini contra o velho da Kombi
Seguiu caminhando. Atropelando a ansiedade, tropeçando na inquietude. Sem cigarros entrou na primeira espelunca. Acomodou-se no balcão. Pediu a especialidade da casa. No balcão um velho amigo que servindo algo que jamais tinha bebido. Desconfiado, olhou em direção da porta antes de tomar num gole só aquele copo borbulhante, de líquido amarelado e cheiro defectível.
Bateu forte com o copo na mesa. Limpou a boca com a manga da camisa branca, deixando um rastro amarelado. Tudo então ficou lindo e colorido. O mundo em câmera lenta, vozes arrastadas, olhos esbugalhados. Virou-se para trás e viu uma mulher loira descabelada cantando sobre uma mesa. Sacudiu a cabeça. Levantou do banco e tomado de uma raiva contida, vociferando como um mamute rouco da amidalite chutava cadeiras e derrubava copos e garrafas das mesas.
Não sentiu nada antes do soco. Um cruzado de esquerda. Caiu sobre uma pilha de garrafas vazias e adormeceu. Dois outros cavalheiros encarregaram-se de arrastá-lo para fora do bolicho. O bar ficava numa elevada. Nosso amigo então foi rolando morro abaixo. Acordou. Sacudiu a poeira e levantou. Atravessou a rua e tomou o primeiro ônibus que apareceu. Linha 40? Não, linha 20, respondeu o cobrador. Tudo bem, pego dois de 20, então. E sentou-se ao lado do motorista. Desceu na parada seguinte. Tomou outro Linha 20 e desceu na última estação.
Olhou para os lados. Alto da madrugada. Acendeu o último cigarro da carteira e seguiu pela rua, chutando uma lata de sardinha perdida na sarjeta. Três quarteirões depois, um bando de chinelos jogava conversa fora. Assim que avistaram nosso caríssimo amigo, foram pra cima dele. Sem titubear, nosso compadre puxou da cintura um revólver e disparou seis balas. Seis moleques caíram como saco de lixo lançado no banhado. Sorriu, guardou o revólver. Seguiu pela mesma rua. Tirou uma anotação do bolso: “Terceira casa à esquerda depois dos disparos”.
Entrou na casa, puxou pelos cabelos uma menina. Amarrou-a, vendou os olhos e deixou-a na calçada. Voltou e tirou da casa outra mulher, mais velha. Mesma coisa. Leia o que ele fez com a menina fez o mesmo com essa mulher mais velha. Voltou e arrancou a tapas um senhor careca e bigode preto. Tirou as calças do velho e bateu com um sarrafo de taquara. O velho caiu de joelhos e espatifou os dentes no jardim da casa. Amarrou uma corda nas pernas do velhote e na outra ponta prendeu a Kombi estacionada em frente da casa.
Desvendou a menina e a mulher e disse: “Divirtam-se”. As duas entraram na Kombi e saíram pelo bairro arrastando o velho pelas bibocas, passando em todas as ruelas por onde o velhote saia a caçar suas menininhas.
E assim termina mais uma história do nosso herói do desenho inanimado que você pode ler todos os sábados aqui na sua telinha. Um dia desses teremos dinheiro para rabiscar essas cenas papeleiras.
quarta-feira, 31 de maio de 2006
não
Se tiverem paciência...Buda ensinará o caminho. Se tiverem pressa e muito dinheiro, rapidinho dou um jeito nisso.
Fui.
Até ontem.
segunda-feira, 29 de maio de 2006
andróides e ligantes e guitarras elétricas
Imagine um som tosco e rasgado de guitarras soando um timbre de raiva e mandando se foder. Em segundo plano um ruído andróide perfurando os tímpanos. Já na primeira audição dos primeiros acordes é impossível não gritar: "Andróides sonham com guitarras elétricas".O novo CD da Ligante Anfetamínico será enviado sexta-feira pra prensa. Que venha logo.
sábado, 20 de maio de 2006
Um dia desses, na beira de um rio fumegante de frio, ouvi Oblivion. Caminhei rio adentro, pés gelados e o sangue bombando desenfreadamente. A melodia fisgava meu corpo como se fosse uma bando de piranhas rasgando a pele. Fechei os olhos e segui caminhando. Atravessei o rio, atrás um rastro de sangue. Do outro lado do nevoeiro, Piazzolla seguia tocando Oblivion.- Eu tiro o que é da vida e entrego à morte. E quero que você continue devolvendo à vida cada morte sua.
sexta-feira, 12 de maio de 2006
quinta-feira, 4 de maio de 2006
mil dias depois
o coice
depois da ira
o verbo
um dia desses
a vertigem
de uma noite maldormida
enfim.
segunda-feira, 3 de abril de 2006
dia 15, nas lojas
sábado, 1 de abril de 2006
sexta-feira, 31 de março de 2006
sim
Era isso....
não desgrude da vela.
terça-feira, 28 de março de 2006
ponto final




Tá achando que tem muitas fotod da Scarlett Johansson? É que ela é protagonista do filme Ponto Final, do Woddy Allen. A ordem das fotos, tudo mais, é só uma questão de...de...acaso. Até porque sem o carinha da última foto não sairia o filme.Mas tudo isso é só um pretexto pra dizer pra vocês que , filme mais recente de Woody Allen, estréia (ATÉ QUE ENFIM) nesta sexta-feira, dia 31, em Caxias.
Horários e etc. e tal, leiam no Pioneiro, nesta sexta.
nova e velha geração róquenrol!
É coisa de Contigo!, mas esse flagra é do Revival Rock Gol, que ocorreu sábado, dia 25. Na foto-social Esqueleto aparece ao lado de um fã que sequer conhece a Mulher Ocupada da Ligante Anfetamínico. O clique (como escrevem nas revistas do gênero) é da fotógrafa, bailarina e atriz Carolina Campos. Se quiser vê-la em cena assista ao filme Uma Certa Noite Vazia.
quinta-feira, 23 de março de 2006
salve jorge
O Tim Festival negocia há cinco anos a vinda da banda, e espera confirmá-la esse ano, provavelmente em outubro.
Shows já confirmados:
Copenhagen KB Hall (6 e 7 de maio)
Amsterdam Heineken Hall (9 e 10 de maio)
Blackpool Empress Ballroom (12 e 13 de maio)
Wolverhampton Civic (15 e 16 de maio)
London Hammersmith Apollo (18 e 19 de maio)
V Festival (19 e 20 de agosto)
Edinburgh Meadowbank Stadium (22 de agosto)
Dublin Marlay Park (24 de agosto)
Oremos, pois.
If you think that you're strong enough
If you think you belong enough
If you think that you're strong enough
If you think you belong enough
[Just as well Just as well Just as well]
Nice dream, nice dream
Nice dream, nice dream
quarta-feira, 22 de março de 2006
protesto de olhos bem abertos
sábado, 18 de março de 2006
vaia de bêbado não vale
Ó, nem vem. Se já bebeu uma vezinha na vida, não vale tocar pedra. Tá vendo a fotinho aí acima? É de um encontro na Espanha que mobilizou 20 cidades e acabou em pancadaria. Até aí, tudo bem, novidade nenhuma. O causo é que a baderna foi provocada por uma galera que queria quebrar recordes. Explico.Um bando de jovens se reuniu em cidades espanholas na sexta-feira à noite para tentar promover um recorde de bebedeira na rua, conhecida como "botellon" (garrafão). "Botellon" é tão somente ficar na rua e beber. O saldo disso? Confrontos entre jovens espanhóis e policiais deixaram 80 feridos e 70 presos em Barcelona e Salamanca.
Olha o tamanho da muvuca: Granada (25 mil participantes), Salamanca (2 mil) e Barcelona (30 mil). E, Barça, reinado de Ronaldinho Gaúcho, 68 pessoas, incluindo 37 policiais, ficaram feridas e 54 foram presas.Ainda em Barcelona, onde ocorreram confrontos pesados, os bombeiros foram chamados para acabar com 50 focos de incêndio. Vitrines de lojas foram quebradas e muitos estabelecimentos saqueados.
sexta-feira, 17 de março de 2006
coletivo shanghai - entrevista
Ao retornarem para a pequena aldeia cravada entre as montanhas, entregaram às pessoas o legado se sua memória. Nessa dura caminhada, não só encontraram a essência de Wang Zu, como deram início a uma nova Era.
Leia a seguir uma entrevista EXCLUSIVA com Lefonque (baixo), Zuzuwah (guitarra), Zuwaraj (programações) e Salvatore (saxofone). Nela, os caras falam sobre a transitoriedade e o caos. Revelam ainda, onde andará Wang Zu.
[mugnolini] Durante esses dois anos em que vocês ficaram fora da cidade natal, correndo o mundo afora procurando por Wang Zu, que tipos de sons vocês mais se identificaram? De que região do mundo?
[lefonque] Olha, eu gostei bastante da música negra americana, aquelas linhas de baixo groovadas me seduziram.
[zuzuwah] Bom, eu gostei bastante da galera das bandas de Los Angeles do fim dos 90s, principalmente Jane´s Addiction, Porno for Pyros e Red Hot Chili Peppers. Bem violent and funky.
[zuwaraj] Curto as broken beats da Alemanha e o uk garage londrino. Fora o drum and bass, que é o retrato da periferia inglesa.
[salvatore] Pra mim, a parte da viajem mais proveitosa foi a passagem pelos clubs de jazz parisienses, que já abrigaram todas as figuras ilustres do jazz americano e mundial.
[mugnolini] Vocês acham que é importante, ou mais, imprescindível até, viver afastado dos grandes centros urbanos para compor? Vocês se sentem vivendo numa ilha? Se sentem bem de volta ao interior da China?
[zuwaraj] Hoje em dia, com o advento da banda larga, eu consigo me manter conectado com a música mundial através do meu notebook com wireless.
[lefonque] Gosto muito do barulho do vento, da natureza, da neve pesando sobre os galhos das árvores castigadas pelo inverno rigoroso chinês.
[zuzuwah] O Lefonque falou tudo, o silêncio tem um enigma, uma paz, que é imprescindível para minha criação.
[salvatore] Não concordo, pra mim quanto mais barulho, poluição e asfalto, melhor. Quero o caos sonoro!!!
[mugnolini] Essa travessia mundo afora fez de vocês ocidentais? Qual é o legado mais importante da cultura chinesa que vocês perpetuam?
[salvatore] Para onde quer que eu vá, sempre levo a China comigo. Pois é daqui que eu vim, e somos a nação do séc XXI.
[zuzuwah] Que papo mais capitalista, Sal. A China hoje anda meio ocidental, admito. Mas não dá pra esquecer que nossa cultura é milenar, somos os pais da Ásia!
[lefonque] Vocês são uns doidos, isso sim (risos).
[zuwaraj] Eu carrego comigo a leitura de 5.300 caracteres chineses. Isso ninguém me tira!
[mugnolini] E afinal de contas, o que aconteceu com Wang Zu, onde andará?
[zuwaraj] Ele se transformou em música!!!
[salvatore] É isso aí!
[zuzuwah] Um acorde dissonante menor, com 7°.
[lefonque] Eu ainda acho que ele foi pro Brasil e virou o Djavan!!!!!!
hoje, no zarabatana
quinta-feira, 16 de março de 2006
por amor, ana ceifou a dor
o que era um sentimento e assim
Fez dele razão... Pra se perder no
abismo que é pensar e sentir.
(Rodrigo Amarante, em Sentimental)
Deitado no pátio. Não um pátio qualquer, mas o meu pátio, onde guardo as minhas lembranças. As memórias se esvaem como a chuva que penetra terra a dentro e some na vaguidão. Mas se recordar é viver, insisto. Silencioso, ora afoito, ora lânguido, mas persisto. Há cinco dias, às 5 horas da tarde, encaro um ritual nada convencional. Não alivia a dor, não devolve a calma, não traz ao peito a mão que ardia em desejo. Mas insisto.
Deito à sombra de uma árvore. Espero paciente o vento derrubar as folhas secas. Dançam no ar e caem sobre o meu corpo. No último resquício do dia, antes da lua invadir o céu, meu corpo todo é coberto. Folha sobre folha, embaralhadas pelo tempo. Entra a noite. Eu ali, corpo entregue à decomposição. O silêncio é quebrado pelo som das formigas transitando entre meu corpo e as folhas secas.
Não interrompo o ofício das formigas, porque elas ajudam a acelerar meu percurso. Rasgam as folhas antes do tempo real de decomposição. Cada picote, mesmo que minúsculo, abranda minha raiva, minha angústia, minha incapacidade de domar o tempo. Porque o único remédio para o desencanto é rasgar o ventre e silenciar o coração. Mesmo quando acaba, mesmo que há cinco dias isso venha se repetindo e parece nunca se aproximar do fim, ainda sinto as formigas trabalhando. Sorve um punhado delas pelas narinas.
Amanhece e o ritual precisa ser estancado, porque mesmo ávido pela decomposição do tempo, é preciso respeitar o limite do esmorecimento. A purificação do corpo em putrefação precisa de perdão. Se até a alma mais carola, se entrega à remissão dos pecados, porque um corpo como o meu, que jamais esquivou-se dos encantos do amor, mesmo àquele malfeito, sob a luz vermelha, não precisaria de um ritual de perdão?
Sexto dia. Olhos cinzas, embotados de lágrima, fitando o nada através da janela. Nada além de um punhado de folhas secas dançando num canto do pátio. Silêncio. Por amor, Ana ceifou a dor.
Conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.
quinta-feira, 9 de março de 2006
quando os lírios se fecharam
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei
(Minha Casa, de Zeca Baleiro)
Morde os meus desejos. Porque os teus o tempo desperdiçou. Lançou pia adentro. Estão agora lavando o musgo enraizado nas pedras de um riacho amaldiçoado. Desisti quando as flores de lírios se fecharam. Quando abertas, alvas e perfumadas, tragavam os dias aflitos e as noites maldormidas. As flores conduziam a paixão pelos corredores da casa.
Nem o piano resistiu. E não por desamor, mas desencanto. Porque o tempo de decomposição transformou o lirismo em brisa soturna. A vivacidade perdeu o ritmo, a cadência. Porque se antes o samba preenchia a casa com as armas de Jorge, mais tarde, as mesmas notas, dessa vez embaralhadas, trôpegas e amarguradas, espalharam vertigem.
Trouxe todos os animais do pátio para dentro de casa. Preciso espantar o orvalho avermelhado que mancha as paredes e o assoalho. O carinho vem do cisne, roçando seu bico na minha canela; o medo, da ovelha, girando ao redor de si mesma, como cão querendo morder o próprio rabo; a raiva do zebu, chifrando as portas e janelas trancafiadas; o definhamento, da cobra, paralisada, deixando o tempo esfarelar sua pele.
Não haverá, porém, tempo de renovação. Não há religião que explique nada e me traga algum sentido nessa hora. É o fim. Abrupto. Não espero nada diferente. E nenhuma dor superará o que meus olhos já apreenderam durante essa jornada. Nessa dura caminhada, sozinho, enfrentando desarmado aos espectros de todo o sempre, não sei quanto tempo ainda resisto.
O carinho morreu e adormece no bucho da raiva. O medo avançou sobre o tempo de definhar e foi picado. Arde em febre. Não há mais janelas nem portas e as paredes caíram sobre as últimas lembranças. Se ainda havia algum sonho o teto desabado encerrou esse ciclo. A raiva suplica, cai de joelhos e tomba ao meu lado.
Se o sorriso é a última faceta antes da derrocada, não sei. Mas é deliciosamente narcotizante.
Conto publicado hoje no Pioneiro.
terça-feira, 7 de março de 2006
sexta-feira, 3 de março de 2006
herança do pai traído *******
Um tiro. Só. Mais nada. Além do apêndice rasgado e da bílis lavando as coxas...nada mais. Um impulso renegando a existência. O véu cobrindo a face.Antes do tiro. Ali na cama, os dois enrolados entre lençóis amarelados pelo tempo. Ela muda, corcunda e paranóica. Recolhia bolinhas de plástico e as guardava numa caixa. Depois tirava-as e espalhava uma por uma pela cama. E assim seguia, entre dias e noites como se pudesse afastar o medo da ausência. Ele duro, carne putrefata, olhos esbugalhados.
Cortina balançando, voando alva e pura, entrando e saindo da janela, indo e vindo pra espalhar a boa nova. Ele morto, ela louca. Nas paredes do quarto escritos entre rabiscos – tudo em sangue, pra não sumir depois da demolição. Tudo seria lindo, não fosse o sermão das velhas em romaria gritando e gemendo uns versos tresloucados.
O tiro rasgou a porta. Era noite. Ela com a boca no falo. Ele deitado sorvendo o prazer. O pai traído. A mãe acariciando o filho cego, surdo, mudo e paralítico. Pau mole lambuzado de sangue e bílis. E a mãe seguia o ritual demente. De pau mole na boca sentiu o filho esfriar. Devolveu-lhe o sangue com um beijo nos lábios. A mãe espalhou as bolinhas de plástico pela cama.
E nasceu o dia. E mesmo depois da morte do filho não havia vida sequer nos pulsos da mãe. Marteladas na porta. Silêncio. Aos poucos, vagarosa como a sombra da morte, um pouco d'água entrava por debaixo da porta. A água seguiu subindo até o entardecer. Lavando o sangue embevecido nos lençóis, a angústia, a febre, os sermões e a mão que balança o berço. Tudo debaixo d'água.
A água alcançava a altura da janela e corria parede abaixo manchando a tinta branca. Uma corredeira suja, fedorenta, amarga e venenosa. A mãe não suportou e mergulhou. Fechou os olhos, ouviu um coro de björks tristes e melancólicas, e deu adeus. O filho não ouviu. O corpo ganhou escamas, braços e pernas viraram nadadeiras. Ela seguiu corredeira abaixo. Rastejou pelo cordão da calçada e vazou pelo bueiro.
O filho acordou dois dias depois. Corpo envolto em tripas de porco, balançava num balanço estendido na copa de uma árvore encravada num bosque de fadas sem asas. Acordado, flutuou e foi acomodado numa cama de flores amarelas e perfumadas de campo. Recebeu a bênção de um unicórnio de chifre serrado e adormeceu.
Acordou na mesma casa. Paredes lavadas, perfume de gardênia. Levantou-se da cama e viu-se à imagem e semelhança da mãe, mas com pênis – herança do pai traído.
******* Republicado aqui depois que recebi um presente, a ilustra do Pablo Perini. Trimassa. Obrigado Pablo. Pode enviar mais.
águas de março
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
(Vitor Ramil, em Foi no mês que vem)
Deixei trancado, ali, atrás da porta do quarto, um velho baú. Desci lentamente os degraus da escada. Nas paredes retratos que o tempo jamais apagará, mesmo que a minha lembrança continue rasgando cena por cena. Picotando essa história até eu não poder mais reconta-la. E não sei se o que sinto é saudade ou é mais um delírio passageiro da minha vaga memória. Memória despedaçada, desperdiçada nessas últimas horas.
Vem da cozinha o único ruído da casa. Água escorrendo por sobre a louça da pia. E nem isso incomoda aos gatos que ainda dormem na soleira da janela. Lá fora, no pátio, folhas dançam silenciosas em redemoinho. Não há sol. Essa manhã fria de nuvens cinza e carregadas promete despejar as primeiras águas de março. Em tempo, porque é preciso varrer daqui uma certa lembrança de um momento singelo que tenta travestir-se de angústia.
E já não sei que sentimento é esse que bota. Há uma hora e de olhos ainda fechados, sabia. Já não sei mais. Não quero saber. Só sobreviver a essa vaguidão moribunda dessa manhã. Bem cedo o medo parecia só uma brisa de fim de verão. Mas não cessa de balançar aquele candelabro quebrado. Não reconheço o relógio pulsando na minha mão. Ou é o café gelado escorrendo do canto da boca ou a vertigem sorvendo quando deito na cama.
Passo as noites anotando em papéis a minha incapacidade de ordenar a vida. Fim. Ou memória desconstruída. Parte do desenlace. Porção de descontrole. Brevidade. Ou desapego da lembrança. Mas por que deixar sair às memórias da casa? Perdi. O tempo se esvai e eu ainda não encontro àquela menina de olhos azuis e cabelos cacheados. Febre. Não posso parar.
Um beijo me sopra ao ouvido. Lembro de Piazzolla e seu lirismo numa melodia cadenciada, mas sinuosa. Veio de repente pra dizer alguma coisa e logo se foi. Sem dizer, disse "eu te amo". O vento cessou. A casa virou pó. Só resta o velho baú e a única lembrança do amor que jamais esqueci. Parti sozinho para reencontra-la. Chove.
quinta-feira, 2 de março de 2006
mesmo depois da morte da cura
quarta-feira, 1 de março de 2006
amar é um jogo de armar
Para Pati, amor da minha vida
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006
não é piada
- Tu vai no show da Natiruts hoje?
- Não vai dar. Minha vó vai fazer sopa de agnoline lá em casa.
domingo, 26 de fevereiro de 2006
chove
Despenca o dia todo.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
música de hoje
depois do primeiro coice não dói mais nada
– Pára! pra quê isso?
– Vocês não sabiam? Ele tem dois dentes de ouro – respondeu o agressor.
– Verdade?
– Se eu estiver mentindo que uma raio cai na cabeça do senhor, agora mesmo.
– Ai, deus me livre.
No sofá o velho, agora sentado, ainda cuspia sangue. Na boca dele poucos dentes, no chão nada de dente de ouro. No saguão da sala o bando de velhos e velhas caquéticos e histéricos gritava mais do que cego em tiroteio. Uma velha (foto acima) metida enfia os dedos na boca do velho à procura dos tão sonhados dentes de ouro.
– Abre a boca, porra.
– Uhuhiua...
– Não adianta tentar morder. Só sobrou uma meia dúzia de dentes – retruca a velhota.
Sem que ninguém percebesse um velho calado, alto, magro e de longos cabelos brancos se aproxima. Busca no fundo do peito o último suspiro e acerta o queixo do velho banguela com uma bengala. Sangue pra todo lado. O banguela rolou pelo chão. Como piranhas sedentas por sangue o bando de velhotes se lançou por cima dele. Ávidos pelos dentes de ouro a velharada desferia tabefes, puxões de cabelo e dedos nos olhos (e em outros lugares).
Quando uma velha quase careca conseguiu enfim espantar os outros para que saíssem de cima do corpo do velho, puderam certificar-se de que os dentes de ouro ainda estavam lá – INTACTOS na boca do coitado. Os dois dentes teimosos seguiam firmes e fortes. Eram dois molares. E nada – nada até agora, tinha abalado-os.
– Porra, mas que velho mais sovina! Quer levar para tumba esse ouro?
– Essa mula, nem pra ajudar os amigos na beira da morte...
– Calem a boca. Não adianta a gente ficar batendo-boca o que temos de pensar é num objetivo claro: como arrancar esses dentes dessa boca podre e fétida.
– Mas não adianta, se não saiu até agora não vai sair mais.
– Ah, vai sim!
– E se a gente jogar ele da sacada?
– Não, né, porque aí ele morre.
– E se um por vez, pularmos do sofá na cabeça dele?
– Cala a boca seu velho, não consegue nem sentar na privada vai conseguir pular do sofá. Pensa que é o Tarzan?
– Chega!!! Só tem um jeito. Podemos perder um pouco de ouro, mas ele não correrá risco de vida.
– Que idéia mágica é essa?
– Espera, eu já volto.
Dois minutos depois, o velhote gordo, barbudo e careca voltou. Na mão, uma faca Ginsu. Na cabeça uma idéia esdrúxula, mas jurava de pés juntos que funcionaria.
– Vamos serrar os dentes.
– Com essa faca? Tá louco? Não é por nada que injetam um monte de merda nessas veias caquéticas.
– Ô, cala essa boca, senão enfio essa faca no teu bucho.
– Calem a boca os dois. Ou vocês acham que a gente tem todo tempo do mundo?
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
microconto
as memórias da casa
7h59min. O sol avança sobre a porta. 24 olhos despertam. As mulheres da casa reviram-se sob os lençóis. É uma única cama, enorme, redonda, presa ao teto. Correntes fortes sustentam os sonhos das 12 mulheres. Uma a uma escorregam da cama e planam até tocar a planta dos pés no chão. Quando a última desce do pedestal o sol escancara portas e janelas. Os raios invadem cada peça, varrendo o mofo das paredes e o musgo do assoalho.
A criança nascera na primavera. Inicia o verão e ainda não sorriu. Os olhos albinos sorveram apenas lágrimas. Engatinha pela casa à procura de um peito-leito. As 12 mães divagam pela casa à procura do filho. Cantam um coro desajeitado, mas fiel à melodia do piano. O filho perdido no labirinto da casa pára de chorar. Na mesa da cozinha nada mais é o que parece. As frutas secaram e o café evaporou das xícaras.
Quase noite. O filho parido por 12 mães gêmeas ainda engatinha pela casa. O sol se põe e com ele o verão de um só dia adormece. As mães desoladas correm de peça em peça. Parecem abobadas como a revoada de urubus espantada pelo trovão da chuvarada que se aproxima. O vento forte bate janelas e portas antes escancaradas pelo verão. Uma rasga o vestido branco da outra. O piano cessa. De corpos nus e cândidos, tremem de frio abraçadas umas às outras.
Dentro dessa noite veloz, quase inútil, uma súplica rasga o peito. Um grito agudo, não desesperado, mas sutil e intenso como a melodia de um trompete tateando o resto do improviso. A mão quentinha do bebê enfim toca os pés gelados e esbranquiçados da mãe. A criança, apoiada na mãe, ergue-se. Ainda sob o frio e o breu da noite abraça as pernas da mãe. Ajoelhado, agarrado ao ventre da mãe, o filho já maduro, diz:
– Voltei, mãe. Por todo sempre...
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
Caio F.
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.
Fragmento de Lixo e Purpurina, escrito em 1974, em Londres. Caio Fernando Abreu morreu em 25 de fevereiro de 1996. Revista Almanaque (encartada no jornal Pioneiro de sábado e domingo) do próximo sábado traz matéria especial sobre o escritor.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006
vai pro ordovás!
Ó. Na sala de cinema do Ulysses Geremia, lá no Ordovás, rola hoje (só hoje) uma exibição de vídeos de alunos e ex-alunos do curso de Artes da UCS. A Mostra Vídeo-Arte Caxias começa às 19h e apresenta sete projetos:
Alice
Alice se maquia enquanto outro tempo discorre em sua memória.
Lúdico
Sonho e realidade apresentados a partir do lúdico, criando uma atmosfera irreal que desperta a imaginação do espectador.
Inspire
Explora a solitária experiência do ser em sensações não-verbalizáveis que oscilam entre o desconforto e o aconchego.
Sentidos
Confusão, fusão e humor se fundem num vídeo que explora os sentidos.
Vídeo(mastig)ação
O observador/performer é atingido pelo áudio (ou pela ausência dele) e pelo vídeo. Recebe a influência imagética e sonora do registro videográfico do que assiste.
Insano
Esconderijos e camuflagens. Distorções da imagem em constante ajuste. Que ingênuo-louco é você?
Calendário
Pensamentos impuros em uma rotina de desgaste. Repetições e decepções em um tempo marcado. Indispensável é o tempo ou o cotidiano?
É de graça. Vai perder por que?
até o anjo foi pro inferno
Tem dias que nem dói. É como se nada tivesse acontecido. Como se o gato ainda rosnasse na soleira da janela. Tudo continua ali, presente, mas não era como antes. Porque sempre haverá dias cinzas pra devolver a dor. Chove na cadência de um piano lírico e louco, cacofônico, não desafinado. A memória reconstrói e destrói cenas em frações de segundos. Num piscar de olhos dezenas de pessoas abarrotando a casa, lisérgicas, dançando no escuro. Em seguida, silêncio, água escorrendo do telhado pela parede, encharcando o assoalho.
Trocaria todo o tempo que tenho daqui até a eternidade por uma aparição divina de Tom Waits cantando Everything Goes To Hell. Não hoje, mas ontem. Antes da revoada de Ana. Antes das trovoadas e dessa chuva descontínua. Tom Waits me lembra do avô caolho, demente, quase sem dentes. Sentado na cadeira de balanço inspira o resto do tempo e expira fragmentos dessa vida que ainda persiste.
Ana desistiu. Antes da chuva cessar. Antes do beijo áspero de Tom Waits. Antes da pergunta do avô. Eu nunca quis saber. Nunca perguntei nada. E deixei bem claro que também não queria uma pergunta sequer. Só amor. Mais nada. Ah, e tesão, claro. Ana não disse nada. Arrancou tudo da casa vazia. Todo sentimento do mundo. Sem dizer nada, disse adeus. Até o anjo foi pro inferno. Eu não. Sigo agarrado ao piano de Tom Waits.
Ainda chove. A água invade a casa e ocupa essa ausência. A lembrança morreu na demência do avô. Depois do fim da chuva e da troca de pele, quem sabe eu volte a respirar. Ana, não. Preferiu a vertigem através da janela.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
quem quer ver?
Olha o que acabo de receber do Márcio Schenatto. As duas fotinhos são as primeiras de cena do filme Menino Lipe, Cachorro Sabão. É o primeiro curta de ficção do cara como diretor, aliás, um média-metragem porque fechou em 25min. O filme tá prontinho, mas vai ser meio complicado pra assistir.
- Acho que não vou fazer nada de lançamento nem nada, só distribuir as cópias pras escolas, algumas pessoas e deu. E inscrever em festivais pra passar vergonha - se esquiva Márcio.
Ah, pára com isso, Márcio. Lança aí numa dessas salas de cinemas ociosas da cidade. É fácil encontrar. Aproveita e lança junto o documentário sobre o Ligeirinho (personagem pop das ruas de Caxias).
Se alguém quiser ver o filme do Márcio envie e-mail pra ele.
Ó: marcioschenatto@yahoo.com.br
Minhas impressões antes de ver o filme
Conhecendo o Márcio tenho certeza de que o filme é desconcertante. Se isso é bom ou ruim, só assistindo. Mas como li o roteiro, vi fotos e conversei de revesgueio com um dos atores, o João Tonus, fiquei cuiroso pra assistir.
O filme tem a nunce dos filmes iranianos. Tem a simplicidade que disseca a alma. Desprovido de toneladas de equipamento, traz à tona o que realmente tem de ser interessante num filme: a história, o enredo, as tramas entre os atores.
O Márcio curte Woody Allen, mas não deve ter quase nada de Woody Allen nesse média-metragem. Quero ainda ver o Márcio dirigir com o olho apontado pra hipocrisia, com um ácido sabor de ironia e muitos espamos de sarcasmo. Talvez tenha um pouco disso em Menino Lipe..., mas acho que ainda é pouco.
Tem um pouco disso no documentário do Ligeirinho, mas eu sei que tem muito mais sarcasmo do que isso nesse cérebro insano.
Quero ver.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006
as melhores (categorias) do grammy
Categoria 86 - Melhor embalagem de disco
The Forgotten Arm – Aimee Mann & Gail Marowitz, art directors (Aimee Mann) [SuperEgo Records]
Putz, preciso desse disco, imagina que maravilha ter na estante de casa um disco que venceu como melhor EMBALAGEM no Grammy. A capa é bem feinha, mas a Aimee Mann tem talento. Alguém lembra da trilha do filme Magnólia?
Categoria 77 - Melhor disco de narração – "Dreams From My Father (Senator Barack Obama)" – Senator Barack Obama [Random House Audio]
Melhor narração? É sério. Eu acho que a narração da Bíblia feita pelo Cid Moreira impecável. Deveria ganhar sempre o Grammy.
Categoria 74 - Melhor disco de polka – "Shake, Rattle And Polka!" – Jimmy Sturr And His Orchestra [Rounder]
Polka, legal. Acho trimassa. O tal Jimmy é uma cruza de Ronnie Von com Tony Bennett. Mas por que não ampliar ainda mais as categorias, tipo melhor disco de bugio? Aí a Cabaret poderia ser indicada.
Categoria 69 - Melhor disco de música indígena americana
"Sacred Ground - A Tribute To Mother Earth" – Various Artists – Jim Wilson, produtor
[Silverwave Records/Katahdin Productions]
Essa é a melhor categoria. Definitivamente, "melhor disco de música indígena americana" é mais ou menos, se entendi bem, algo como "melhor disco de música caxiense italiana". Se for, o melhor concorrente da versão cassias-itália seria o Mario Michelon.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
nunca disse adeus
Aos 15 anos ganhei um violoncelo e um tapa na orelha. Nunca disse adeus.Lembro da sua mão doce, suave, quente, afável, afastando os sonhos ruins da minha pele. Seus olhinhos brilhantes me guiavam através da noite. Acordar era vê-la sorrir antes mesmo do raiar do dia. Andava pela casa como se pairasse pelo ar, como se espalhasse todos os perfumes das flores jamais encontradas. Esse encanto, quase magia, nunca me convenceu. Às vezes, através da janela, assistia ao balanço dançando ao vento sozinho. Em casa tudo sempre foi tão limpo, claro, alvo e ao mesmo tempo tão confuso.
Na infância a luminosidade dos raios de sol sempre lavou a casa. Mas há tempos que as janelas seguem trancadas. O pai ajoelhado sobre o tapete diz umas coisas que não entendo, nunca entendi e nunca me explicou. A mãe agarrada a imagem de um homem de braços abertos e pregados numa cruz não diz uma só palavra. Apenas chora. Tenho medo desse delírio. Mas não é delírio. Porque o primeiro tiro acertou o peito do pai. Não ouvi nada.
Adormeci e acordei com o sol invadindo o quarto. Não vi sorriso algum. Nunca me disseram nada. Cresci com a falta do pai. Essa falta que rouba a fala. Essa falta que ama. A mãe amorosa ainda recolhe as poucas frutas do quintal e as espalha sobre a mesa. Mas o perfume das flores foi secando junto com as folhas. As paredes que eram brancas agora têm mofo. A soleira da janela descasca e o assoalho esfarela.
Pra espantar a solidão, acalentar a saudade e impedir a decomposição da casa, minha mãe toca violoncelo. Não sempre, só nas noites frias. Frio de cristalizar a espinha. Aquele frio prenúncio de morte. Nunca reconheci a música, jamais a interrompi pra me explicar que sonoridade era essa. Mas espantava minha dor. Espantava o medo. Lançava-me janela afora pra correr o mundo.
Numa noite dessas, que o frio congela a lágrima, a mãe entrou no quarto. Largou o violoncelo ao lado da cama, ajoelhou-se e sem dizer nada, beijou-me a testa. Nunca disse adeus.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
quero de presente
SinopseEm seu Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, Moacyr Luz conta 25 deliciosas histórias ambientadas nessa instituição tão tipicamente carioca que é o boteco. Ilustradas por Jaguar, as crônicas vêm acompanhadas de entrevistas com boêmios célebres, que narram casos peculiares e expõem a relação afetuosa que mantêm com seus bares preferidos.
Para comprar meu presente clique aqui.
Mugnolini agradece.
sai sim, um dia sai
Na foto, Lobinho se esquiva do flagra enquanto Fabrizzio revela a paleta adorada pelas fãs cabaretianas. Na cama, a adorável menina protagonista do clipe.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Samba da bênção
Miguel Faria Jr. conviveu com Vinicius. Primeiro, conhecia-o da boemia, e segundo, porque aos 22 anos casou-se com Susana de Moraes, filha do poeta. Faria Jr. escolheu bem os personagens para o documentário. Ferreira Gullar (um dos grandes poetas brasileiros ainda vivos), Caetano, Gilberto Gil e Maria Bethânia (clã-Tropicalista), Tonia Carrero (só amiga mesmo), Tom Jobim e Baden Powell (dois dos principais parceiros musicais, o primeiro na onda da bossa, o segundo, dos afro-sambas).
Os depoimentos são entrecortados por participações especiais de gente como Adriana Calcanhoto (Eu Sei Que Vou te Amar), Zeca Pagodinho (Pra que chorar), Mônica Salmaso (Insensatez) e Mariana de Moraes (Coisa mais Linda), entre outros. Mas causa um certo desconforto na platéia uma versão rap do texto Blues para Emmett, escrito em tributo ao jovem negro assassinado nos anos 50, nos Estados Unidos. O retrato do poeta só não é completo por não conter depoimento algum das nove ex-mulheres de Vinicius.
De resto, resta a bênção do "capitão do mato, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil". Da memória não sai tão fácil o dueto com Tom Jobim, numa imagem raríssima, ambos de cara cheia de uísque; muito menos aquele olhar triste, cansado, do velho poeta deitado no sofá, dizendo que não se sentia muito bem. A mão que acaricia seu rosto deseja estancar o pranto que viria no adeus, em 1980. No entanto, quase 15 anos antes já versava: "A bênção, que eu vou partir/ Eu vou ter que dizer adeus". Saravá, Vinicius. Saravá!
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
enquanto isso, no brasil...
Enfim um bom motivo pra encarar um show do Rolling Stones. O problema é que eu teria de ir pros EUA. É que o Queens of the Stone Age - uma das bandas mais interessantes pós 2000 - vai tocar com os amigos do titio Mick Jagger em duas noites: 4 de março em Las Vegas e dia 6 em Los Angeles.Enquanto isso, no Brasil...Stones na beira do mar. Entre Carnaval e show do Stones, prefiro lamber o freezer do refrigerador.
quem sabe
Talvez eu compre. Quem sabe. Compraria pelo Xico Sá. Talvez me surpreenda com algum outro colaborador. Mas aí vejo que tem o Leo Jaime (que parece o Maradona mais gordo) e desisto. Na real, quem tinha de desistir era o Leo Jaime. Primeiro, porque ele não está mais nos anos 80, se alguém tiver o telefone dele, ligue e avise-o. E, segundo, que ninguém mais se preocupa com ele.Quem sabe, se um dia desses, num final de tarde eu ver o livro na estante da livraria do Arco da Velha, talvez eu compre.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
samba da bênção
Nessa procura louca, surda e desesperada por alguma boa surpresa nos cinemas de telas vazias, enfim avisto a luz no fim do túnel. E essa luz é Vinicius de Moraes. O documentário sobre o poeta e etc., dirigido por Miguel Faria Jr. estréia sexta-feira, no GNC/Iguatemi, sala 5. Não é curioso, como uma companhia exibidora que só deseja o lucro - e nada mais do que o lucro - tenha a sensibilidade de exibir um dos filmes mais aguardados?
Se o filme é bom, ruim, excelente, ou uma bosta, ainda não sei. Não vi, mas vou assistir. Porque já não aguento mais varrer as prateleiras das locadoras. Ando revendo mais do que assistiando a filmes novos. Ou tu acha que vou perder a chance de ver o Chico Buaque e o Ferreira Gullar falando sobre o poetinha. E mais, que eu perderia as valiosas imagens do Vinicius bebericando uísque e sorrindo, como se a vida fosse só alegria.
"Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não"

A quem não assistir, meus pêsames. Pode deitar. E bons sonhos.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
o dedinho gordo no gatilho
Um tio solteiro, meio bêbado e meio dado a libertinagens com crianças beijou Hervé depois da meia-noite, quando todos já estavam embebecidos de vinho e champagne. O petit ficou assustado, não dormiu. Anos mais tarde revelou durante uma entrevista a uma revista americana que teria sentido um delicioso prazer depois daquele beijo. Um prazer de doer o peito.
Daquele dia pro resto dos seus dias amor e desejo sempre seriam sinônimos de dor. Saindo da adolescência, e ainda com 1m47, conheceu Laura, uma mulher de 1m75, olhos claros, pele alva e sorriso encantador. Apaixonado, fugiu de casa e agarrou a pequena com todo o tesão do mundo. Pra seu desgosto, aos poucos ela se revelava uma praticante de sadomasoquismo. O "casamento" durou um ano. Um tapa na cara e um "fuck you" selaram o "fim de um romance banal", como mais tarde o próprio anão descreveria o amor por Laura.
Nesse período, Hervé já fazia um certo sucesso no cinema. Mas só em 1974 ele teve a chance de encarar um grande papel (sic). O Homem da Pistola de Ouro (The man with the golden gun), narrava mais uma aventura do agente secreto 007, que em meio a uma e outra fuga dantesca, transava por aí com uma ou outra bondgirl. Pra quem não lembra, nesse filme Hervé interpretava Nick Nack, o capanga mortífero de Francisco Scaramanga (Christopher Lee). Hervé era uma espécie de Zacarias-do-mal.
Depois do tapa na cara, do amor se esvaindo boeiro abaixo, e do sucesso em O Homem da Pistola de Ouro, Hervé alcançou a glória absoluta na série de televisão Ilha da Fantasia (Fantasy Island, 1977). O personagem do petit era o Tatoo, uma espécie de ajudante do faz-nada milionário Sr. Roarke (Ricardo Montalban, um ator mexicano de terceira categoria que vive sonhando com a reedição de Ilha da Fantasia).
Na série, Hervé andava de um lado a outro colhendo flagras dos visitantes da ilha e fofocando ao patrão. Uma espécie de Nélson Rubens que não cresceu. O texto do anão era tão curto quanto suas canelas inchadas. Sua frase mais importante era: "Mr. Roarke, the plane! the plane!". Como era um anão subalterno não comia ninguém e não tinha motivo algum para sorrir, mas então porque sempre sorria momentos antes do intervalo comercial, quando enquadravam seu rosto em close?
Há duas explicações coerentes, que na real se entrecruzam. O sucesso fez de Hervé Villechaize um homem bonito, atraente, desejado e com uma boa poupança. O resultado? Mulheres e mais mulheres, das divas da Broadway às empregadas da zona sul carioca, todas desejavam ver o tamanho do talento do francesinho. E com as mulheres, noitadas, dias sem dormir, farras – sempre regadas a doses de álcool e drogas. Essa sbórnia durou seis temporadas. Hervé não sentira tamanho prazer e dor desde a adolescência, na época em que se deliciava com os beijos do tio às escondidas.
Em 1983, o início da queda. O petit exigiu o mesmo cachê de Montalban quando da renovação do contrato. Nada feito. Hervé fora demitido sem o menor pudor, desprezado como um caroço de azeitona. A série não durou um ano sem o anão. Deixado às traças, as mulheres afastaram-se do petit, agora uma ex-celebridade. Num repente ele voltou a ser feio, baixinho, broxa e veado. A bebida, parceira de festas e orgias em anos passados, havia se transmutado na sua única e inseparável companhia.
Sem trabalho, sem mulheres, e depois do falecimento do tio, o ator reclamava de Hollywood – que só queria lhe dar papéis de anão (sic). Em 1993, aos 50 anos e sozinho, resolveu os problemas num estopim. Carregou de balas um revólver semi-novo e disparou contra a própria cabeça. Entre migalhas de cerebelo espalhados pelo chão, havia um copo de uísque quase vazio. Antes do gelo derreter, morreu. Assim pretendia espantar de vez a dor que o perseguiu em todos os momentos de prazer. Enfim, pode amar em paz.
no escurinho do cinema
Antes de mais nada, só discuto a programação dos filmes da sala Ulysses Geremia (Centro de Cultura Ordovás), porque é pública, e UCS Cinema, porque é uma universidade, espaço de discussão e teoricamente, o berço do saber. Não me interessa o que os cinemas de shopping venham a exibir, porque, como empresas privadas, querem só lucro. E estão no seu direito.
Entendo as dificuldades enfrentadas pelos ex-coordenadores dos cinemas da UCS e Ordovás. Negociar com distribuidoras de filmes não é nada fácil. Mas não posso aceitar que toda e qualquer pessoa que esteve ou esteja ocupando esses cargos aceite ser manipulado pela falta de visão daqueles que pagam seus salários.
Porque 2005 foi o ano mais fraco da curadoria de filmes do Centro de Cultura, em comparação ao melhor período, de 2002 a meados de 2004, em que se viu na tela, entre outros, filmes de David Lynch e Luiz Fernando Carvalho, só pra citar dois cineastas inventivos. Enquanto isso, na UCS, 2005 foi o melhor ano, mesmo assim, ficou longe, distante anos-luz dos melhores anos da programação do Ordovás.
Todas as justificativas para a falta de uma programação alternativa apontam que esse "tipo de filme" tem uma baixíssima aceitação. Como se esse "tipo de gente" que gosta de assitir cinema de verdade fosse de outro planeta, repulsivos e gosmentos.
Na minha opinião (aí está o que pediram) o erro não está na escolha, mas em tudo o que andam desprezando. Porque eu já vi gente empilhada, abarrotando mais de uma sessão, pra ver uma seleta de curtas-metragens de diretores caxienses. Como repetir esse interesse? Bom, aí é querer demais, porque há segredos nessa vida que não se conta nem ao melhor amigo.
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
and woody goes on
Quanto vale uma indicação ao Oscar? Não sei. Não conheço ninguém que trabalhe na Sony, Warner, ou Dream Works. O que importa é o descaso de Woody Allen para com a Academia. Nem mesmo a indicação para o Oscar de Melhor Roteiro por Ponto Final mudam o humor desse velhinho simpático, um tanto esquizofrênico, e sempre interessante.Fiz um ctrl c + ctrl v em uns trechos de uma entrevista de Woody Allen, concedida ao jornalista Sérgio Dávila, da Folha de São Paulo. Lucidez é coisa rara. Salve Woody.
Folha - Hollywood não o está tratando direito?
Allen - Até que eles me tratam bem, quando acham que eu posso trazer dinheiro para eles, o que nem sempre é o caso. Mas eu nunca fiz parte do chamado sistema hollywoodiano, eu trabalho no "sistema nova-iorquino", ou seja, independente, sozinho. Acho, porém, que é justo que eles não queiram perder dinheiro num filme e só me dêem orçamento quando pensam que eu possa dar lucro. A indústria do cinema norte-americana sempre foi norteada por lucros, não tem nada a ver com arte ou conteúdo. Por isso que todo cineasta americano que se preze têm de sofrer.
Folha - Seu filme mereceu quatro indicações do Globo de Ouro; as indicações ao Oscar saem na terça-feira [amanhã]. O sr. se importa com prêmios? Dessa vez, iria à cerimônia da Academia? [Allen foi indicado a 20 Oscar; ganhou três; no primeiro, não apareceu na cerimônia pois acontecia no mesmo dia em que tocava clarinete com sua banda de dixieland, em Nova York.]
Allen - Não me envolvo muito nisso, geralmente não vou a esses eventos porque eu desgosto deles. Acontecem na Califórnia, eu moro em Nova York, tenho de pegar avião, viajar milhares de quilômetros, atrapalhar minha rotina, uma chatice, prefiro ignorar.Artisticamente, não significam nada, mas os estúdios acham que é importante para a bilheteria. Então, pode ser que eu vá, se me convencerem que aumentará a venda de ingressos...
versão sem cortes - 11 anos depois
Sorrisos de uma atuação caquética na sofrida adaptação de Fábio Barreto para o livro O Quatrilho
Quem lê o Pioneiro já sabe que enfim será exibido (1º de março) na tela da sala Ulysses Geremia, do Centro Municipal de Cultura, O Quatrilho, de Fábio Barreto. Enfim, porque mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer, mas bem que podia ter sido durante as minhas férias. O por quê disso? A explicação oficial: 10 anos do lançamento do filme. Só que na verdade, O Quatrilho foi lançado em 1995. Eu que rodei em matemática duas vezes, acho entre 1995 e 2006 tem 11 anos e não 10, mas enfim....
Ah, essas informações foram repassadas pelo Uilli, coordenador da sala de cinema Ulysses Geremia, que assim como eu, não viu essa versão particular de O Quatrilho.









