quinta-feira, 8 de maio de 2008

cinema brasileiro em paris

Saguão do cinema L'Arlequin: tá vendo o cartaz do Lavoura Arcaica? Eu vi!
Então. Se não tiver o que fazer por esses dias e tiver a fim de encarar um vôo internacional, te sugiro Paris. Por mil motivos. E não tem nada a ver com Napoleão (se bem que...deixa pra lá). Tem a ver com cinema. Mas nada (dessa vez) com Truffaut e Godard. E sim, com a invasão de uma penca de filmes brasileiros na Cidade Luz.

E aqui o Philippe Barcinski emparedado

É que tá rolando por lá a 10ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, com exibições programadas para o Cinema L'Arlequin. A programação iniciou ontem, com a projeção de "Não por Acaso", de Philippe Barcinski, e segue até o dia 27 desse mês. E não é só de filmes que é feito o Festival de Paris, além dos 44 longas-metragens, haverá exposição de fotos, pockets shows e debates com os diretores.

O festival abriga diversas mostras especiais, além da competitiva. Confere aí:

Mostra Competitiva:
Não por Acaso, de Philippe Barcinski
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Incuráveis, de Gustavo Acioli
Maré, nossa história de amor, de Lúcia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado
Sem Controle, de Cris d'Amato
A Via Láctea, de Lina Chamie
Alucinados, de Roberto Santucci

Fora de Competição:
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Bellini e o Demônio, de Marcelo Silva Galvão
Cidade dos Homens, de Paulo Morelli
Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho
Olho de Boi, de Hermano Penna

Noutro local, na Action Christine, ocorrem as mostras:

Grandes clássicos: Maio de 1968
Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade
Terra em Transe, de Glauber Rocha
Histórias Cruzadas, de Alice de Andrade

Homenagem a Roberto Farias : os clássicos
Assalto ao trem pagador, de Roberto Farias
Barra pesada, de Reginaldo Faria
Com licença, eu vou à luta, de Lui Farias
Pra frente, Brasil, de Roberto Farias
A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura
Roberto Carlos em ritmo de aventura, de Roberto Farias
Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor

Homenagem a Sílvio Tendler: Personagens que fizeram o Brasil
Jango
Os Anos JK - uma trajetória política
Glauber o filme - Labirinto do Brasil
Marighella, retrato falado do guerillero

E por fim, em Le Latina ocorre a mostra de documentários

Documentários do cinema brasileiro
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Ninguém Sabe O Duro Que Dei - Wilson Simonal, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
Encontro com Milton Santos, de Sílvio Tendler
O Coco, a roda, o pneu e o farol, de Mariana Fortes
Condor, de Roberto Mader
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Ginga, de Tocha Alves, Hank Levine e Marcelo Machado
Hercules 56, de Silvio Da-Rin
Mestre Bimba, a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart
Onde a coruja dorme? Bezerra da Silva, de Márcia Derraik e Simplício Neto
A Pedra do Reino, de Luiz Fernando Carvalho
Pindorama - a verdadeira história dos sete anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare
Velhas Guardas, os encontros, de Joatan Berbel
Transocéan, de Adriana Komives

terça-feira, 6 de maio de 2008

o grande chefe

Até 1995 ninguém prestava atenção ou tinha a mínima curiosidade pelo cinema dinamarquês. Aí, um grupo de jovens realizadores de lá resolveu criar um manifesto. Então listaram 10 regras, chamaram de Dogma 95 e foram reconhecidos mundo afora, vez ou outra até com a chancela de importantes festivais como Cannes, na França. Dessa turma saiu o diretor Lars von Trier. É dele Os Idiotas, segundo filme do Dogma95, lançado em 1998, e ainda hoje um dos mais populares.

Dez anos depois, chega às locadoras brasileiras O Grande Chefe, produzido por Trier em 2006. Enquanto em Os Idiotas, a câmera disseca um bando de jovens abusando do humor negro em situações envolvendo portadores de Síndrome de Down, em O Grande Chefe, a foco da narrativa é idiotização do manda-chuva de uma pequena empresa afogada em incompetência e mágoas.

Um empresário da Islândia está prestes a comprar a companhia dinamarquesa, gerenciada por Ravn (Peter Gantzler). Mas a transação só será efetivada com a presença do Grande Chefe, até então uma figura mítica e desconhecida dos funcionários. Só que na real, esse Grande Chefe não existe. Era só uma forma de Ravn "domar" os empregados e dizer que todo mal ocasionado não era culpa dele, mas de uma entidade superior.
Só que o tal empresário da Islândia se nega a fechar negócio sem a presença do Grande Chefe. Eis então que Ravn tem uma idéia de gênio (aliás, de mané mesmo, risos), e contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus) para fazer o papel de chefe. A comédia da história, não está só nas piadas, mas sobretudo na satirização da relação entre patrão e empregados. E tem mais, o ator passa a gostar da função de chefe e resolve atrapalhar os planos de Ravn.

O Grande Chefe parece mais uma revisão de rumos, como se Trier tivesse relendo sua carreira a partir de Os Idiotas, do que fiel às suas últimas produções como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Manderlay (2005). Primeiro, porque resolve criar um novo método de realização. Ao invés de câmera na mão como em Os Idiotas (conforme as regras do Dogma 95), Trier fixa a câmera em um tripé e só trabalha com planos estáticos. Utiliza-se ainda de um recurso que ele chamou de Automavision. Ou seja, é o computador que seleciona a melhor posição da câmera e o enquadramento e não o diretor de fotografia.

Mas o discreto chame de O Grande Chefe é a narração em off do próprio Trier, que vê tudo (o filme e por conseqüência o seu cinema) do lado de fora do prédio da empresa. E logo no início Trier assume que O Grande Chefe é um filme estranho. Aos incomodados e insatisfeitos, uma pena terem desgostado. No entanto, quem se identifica com esse jeito bem particular de contar uma história banal, diz Trier, despido de qualquer modéstia: "é porque merece".

Comédia, Dinamarca, 2006, 100min.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

na hora em que eu te quis

Num dia desses tão cheios de tédio que nem o verme tem vontade de secar as tripas da vaca moribunda, resolvi guardar tudo num velho baú, trancá-lo no sótão e dar a chave pro meu filho brincar. No velho baú ficaram dias e noites intermináveis, parte do assoalho da sala, dois ou três gatos raivosos, a geladeira vermelha lascada, meu tênis de jogar futsal e seis ou sete roteiros de filmes que jamais serão realizados e, talvez por isso, virem obras primas depois das cinzas.

Na real eu nunca tive mesmo tanta vontade assim de tornar públicas minhas incertezas. Porque não é como ouvir Adriana Calcanhotto ou Vitor Ramil. Muito menos como carnear uma ovelha. Demora. A Adriana diz: "é o que o tempo leva". E como decidi não mais deixar as coisas espalhadas pela casa, senão não conseguiria mais chamar de casa esse espaço onde acomodo as coisas da minha vida, inclusive meu amor e meu filho, o sentido está em trancafiar. Tudo. Ou quase, porque o Vitor sempre repete: "O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é onde quero estar".

Mas nem sempre é tão bom dar-se conta do inextinguível. É como se eu já soubesse o que insisto em esconder. Ou pior, não ver. Porque meu avô já dizia, antes de esquecer onde colocava o molho de chaves, "que o pior cego é o que não quer ver". E mesmo assim, sem saber onde colocava as chaves da casa o meu vô via sentido no mundo. Nesse mundo. No dele, pelo menos. E nem precisava se preocupar com a horta, nem se o mel escorria pela pia e dava de comer aos gatos quase caolhos de tão magros.

Então o que importa se os melhores filmes vão morrer trancafiados no velho baú? Porque na verdade os seis ou sete são o mesmo. Afinal, só existe um tipo de desejo. É que dentro dele a gente cria tantos outros confusos e difusos, que tudo parece ainda mais complexo do que é. Se pudesse comeria um roteiro por dia. Aos sábados sempre seria do Fellini, porque aproveitaria a narrativa pra sesta. Dormiria sonhando ser o piloto da motocicleta do Amarcord. Enquanto não chega o tempo de comer roteiro sigo aqui a zero por horta lambendo as tigelas de sopa de beterraba. E tem mais uma coisa, não é porque virei vegetariano que vou topar a mesma comida da Adriana. Comer Caetano, não.

Se for pra apelar prefiro carnear umas ovelhas que meu pai cria lá em Criúva. Mas só depois de estender os livros no varal e esperar pela chuva. Meu filho adora jogar futebol na chuva. Na semana passada, antes de trancafiar as coisas da casa no baú, assisti ele deslizar pela grama molhada e vibrar sozinho os gols feitos e perdidos. Porque a cada gol perdido, me dizia ele, o outro eu dele tinha uma nova chance de vencer a partida. Vi ele entrar pela porta da sala, encharcado de chuva e lama. Aí, a Adriana distante de todas as minhas incertezas, pegou o guri pela mão e me olhando disse: "vem vambora, que o que você demora é o que o tempo leva".

Eu demoro. Porque sempre confundo dias e noites. Enquanto escrevo me despeço de quem nem mesmo conheci; amo quem já desamou; esqueço de velhos amigos; e sepulto quem sequer nasceu. "E tudo isso / foi no mês que vem / foi quando eu chegar / foi na hora em que eu te vi". E mesmo sem te ver desisti de trancafiar as coisas da casa no baú. Porque ainda espero rever teu verso rasgando meu peito. Prometo até juntar os pedaços de tudo o que juntos quebramos e reconstruir. Ainda melhor. Mesmo sem manual. Só não esquece o guri no colégio. E vem jantar que hoje a noite tem música ao sabor de um tango muito antigo.

Vambora, amor?

sábado, 22 de março de 2008

ANDRÓIDES SONHAM COM GUITARRAS ELÉTRICAS

Aqui.

Paul e os irmãos Coen na terra do sol

O melhor duelo cinematográfico sob a terra árida é o de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Nesse filme, o baiano Glauber Rocha (1939-1981) revela a vida desgraçada do sertão, mostrando de beatos a matadores de aluguel. Mas que raios "Deus e do Diabo na Terra do Sol" tem a ver com os oscarizados "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" (vencedor de quatro estatuetas, incluindo melhor filme)?


- Tudo! Absolutamente tudo - diria o cineasta brasileiro, em tom debochado.

No filme de Glauber, Santo Sebastião e Corisco representam Deus e o diabo. Na cola deles, segue Antônio das Mortes, uma figura sinistra. Quem viu "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, já matou a charada. Esqueça a metáfora religiosa e rebatize os personagens. Então teríamos Anton Chigurth (Javier Bardem) como Antônio das Mortes. Ambos são impiedosos e cumprem o que prometem. Sem dó.

No outro extremo, "Sangue Negro", de Paul Thomas Anderson, revela a epopéia de um zé-ninguém que arrisca a vida para enriquecer. Daniel Plainview (interpretado por Daniel Day-Lewis, Oscar de melhor ator) passa o filme todo duelando com o jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano, de "Pequena Miss Sunshine"). Rapidamente, dá pra identificá-los como Corisco e Santo Sebastião, o diabo e Deus, respectivamente. No entanto - e aí reside o grande trunfo de "Sangue Negro" - , Daniel e Eli mostram-se ao mesmo tempo homens canalhas e bem intencionados, ainda que sutilmente, e por isso fica difícil rotulá-los.

A situação é totalmente diferente de "Onde os Fracos Não Têm Vez", em que Llewelyn Moss (interpretado por Josh Brolin) é o tempo todo o homem de bem que pegou um dinheiro que não era seu, e Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria, que retarda o que pode as investigações para sair de fininho e tranqüilo, rumo aos dias intermináveis de lazer. Sem esquecer, é claro, de Anton, matador de aluguel sempre pronto a riscar do mapa gente sem princípios. Porque ele, ao contrário dos demais personagens, é homem de palavra. E o rastro de sangue que deixa para trás confirma isso.

No filme de Glauber, Antônio das Mortes acredita que ao eliminar Deus e o diabo, enfim o sertão será livre. Pensamento descaradamente anarquista. E aqui reside a divergência entre Glauber, os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson. "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" são filmes individualistas (para não dizer capitalistas) até o pescoço. Não há sequer uma luz de coletividade. Daniel Plainview, o sedento por petróleo, quer enriquecer a todo custo, assim como Eli, o pastor que deseja aumentar seu rebanho. Ou ainda Llewelyn Moss, que escapa como uma galinha de um lobo para ficar com um dinheiro que não é seu.

As duas produções de Hollywood caem na armadilha de beber da fonte inesgotável de Glauber Rocha, autor do clássico "Deus e o Diabo...", produzido há quase 50 anos. Mas como, se é improvável que Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen tenham assistido ao filme de Glauber? Isso Freud não explica, mas Carl Jung, sim. O psiquiatra suíço diria que se trata de um rico exemplo de como o inconsciente coletivo conecta pensamentos aparentemente dispersos. E pensar que toda essa ficção tem lá seu fundamento com a realidade parece um absurdo. Mas, no cinema, é assim mesmo. É quase realidade, mas sempre invenção.

texto de hoje na revista Almanaque.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

ACCIRS

'Tropa de Elite' ganha o prêmio da Associação de Críticos do Rio Grande do Sul*

A recém-criada Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) elegeu 'Tropa de Elite', de José Padilha, como o Melhor Filme Nacional de 2007. A associação escolheu ainda 'Império dos Sonhos', de David Lynch (EUA), como Melhor Filme Estrangeiro, e 'Saneamento Básico, o Filme', de Jorge Furtado, como Destaque Gaúcho - Prêmio Luiz César Cozzatti.

A entidade instituiu um prêmio para Destaque Gaúcho com o objetivo de valorizar a produção local e, ao mesmo tempo, reconhecer um título que de alguma forma tenha contribuído para o cinema, seja quanto à linguagem, temática ou forma de produção e distribuição. O nome do prêmio é uma homenagem ao crítico gaúcho Luiz César Cozzatti, falecido em fevereiro de 2006.
A ACCIRS é composta por críticos e jornalistas que atuam nos mais diferentes espaços dedicados ao cinema - revistas, jornais, programas de TV e rádio, sites e blogs.

É a primeira vez na história que o Rio Grande do Sul, terceiro pólo produtor cinematográfico do país e que já conta com três cursos de graduação em cinema, ganha uma associação de críticos.

Votantes
Adriano de Oliveira Pinto
Marcelo Oliveira
Ivonete Pinto
Mônica Kanitz
Jacqueline Chala
Ticiano Osório (abstenção em Gaúcho)
Daniel Feix
Goida
Adriana Androvandi
Marcus Santuário
Paulo Casa Nova
Chico Izidro
Roberta Pinto
Marcelo Perrone
Enéas de Souza
Fatirmarlei Lunardelli
Marcus Mello
Roger Lerina
Robledo Milani
Marcelo Mugnol

* Release oficial de Ivonete Pinto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sermão do pai

Nunca escrevi uma ópera. Prefiro o drama que aparece em um gesto contido, quase sussurro. Aquele segundo antes da lágrima é mais importante do que o choro descabido. Na ficção vale quase tudo, e por isso a gente precisa aturar essa penca de histórias mal contadas na televisão, teatro e cinema, que juntas não dão caldo nem pro agnolini. Até aí tudo bem, porque a ficção é a mentirinha que buscou na realidade a inspiração. Mas no fundo não é verdade, é recriação.

Mas o pior mesmo é o que aparece travestido. É o que parece, mas não é beeeem assim. Por exemplo, tem gente (diretor de cinema, padeiro, encanador, advogado ou jornalista) que adora enfatizar a lágrima, só ela. Como se nem a pessoa mais existisse ali. Só a lágrima que escorre de um rosto qualquer. Se a lágrima veio de forma natural, se trouxe até alívio, que mal tem?

Só que esse tipo de gente que precisa explorar a lágrima de um sofrido qualquer deveria ser punido com o silêncio. A dor não existe para ser usurpada e controlada com maniqueísmo. A imagem da morte, e que deve perdurar, não é a do caixão aberto, dos olhos estalados, da face branca, e tudo emoldurado pelo sensacionalismo. A imagem da morte é o abraço apertado de quem fica. Isso sem falar do arranjo de lírio, flor do amor puro, que por si só diz tudo sem exagero, sem maneirismo.

É mais do que um ponto de vista, é questão de princípio. Tem a ver com o sermão do pai. Até porque ética e moral se aprende em casa. E não vem com a desculpa de que em casa humilde não tem lei. Respeito independe de condição social, é só procurar. Acha que não? Então me explica por que tem gente estudada, que fez faculdade, e vive de explorar a tristeza alheia?

Se essas pessoas que amam recontar histórias sob o prisma sensacionalista, passassem o mesmo tempo a procura da poesia ideal, que transcende a banalidade, talvez, talvez elas compreendessem a dor. Ou no mínimo, respeitariam aquele olhar desvairado, às vezes com ira, às vezes dopado de tristeza. E soubessem tirar daquela angústia um sopro de lucidez. Porque nessas horas o que menos interessa é qual orelha foi decepada.

Importa o que está por vir. Olhos no futuro, sempre. Não importa como, se agarrado a mão de Deus ou simplesmente dizendo "eu te amo" a quem realmente merece. Mas que coisa mais boboca dizer uma coisa dessas no jornal, TV, internet ou escambau. Onde já se viu fazer um documentário com gente comum que passa a vida fazendo poesia, mesmo sem escrever um verso sequer? Ainda mais numa época dessas que tem gente matando por um real. Questão de princípio, né, pai?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Nasce morre

Um andarilho desafia a sede. A terra seca racha a sola dos pés. O sol a pino corta os lábios cerrados. Nenhuma nuvem no céu. Quase tudo a perder de vista. Coberto de poeira, José avança. Deixa para trás a tristeza revestida de apatia. E mesmo com as pernas trêmulas dribla a incerteza da próxima curva. Não desiste. Crava as unhas no véu da esperança e arrasta o corpo convalescente.

Desafia o improvável e sorri. Não é sarcasmo, muito menos ironia. Não blasfema. Jamais. Sua travessia é assistida pelo divino. Vem lá do céu a proteção. Depois de encontrar a fé perdida no descampado da vida, desistiu até de usar facão. Não precisa do aço afiado. Agora não cabe mais na boca o ódio, só o perdão.

José não virou santo. Não mudou da noite para o dia. Resolveu só experimentar o caminho inverso. Ao invés de descer a lomba, aproveitando o declive para voltar atrás, despiu-se da insegurança e subiu. E nunca mais parou de caminhar. Tem dias que a sola dos pés quase não toca a terra seca. José parece flutuar rumo ao horizonte. Adentro da estrada sem fim.

Não come, não bebe, não pára. Sonha de olhos vidrados, encarando o futuro como quem seduz a mulher mais linda. E mesmo sem dizer uma só palavra José emociona. Nunca teve sua história contada. Ninguém sabe onde nasceu, nem onde morava antes de começar a andar por aí. Não usa lenço, nem documento.

Quando cansa, respira, encara o sol alaranjado, inspira, olha de soslaio para trás, balança a cabeça, como quem diz "nunca mais", pisa forte a terra seca, e caminha. Avante. Contra o sol, a chuva, as rajadas de vento. Contra todos que deixa para trás comendo poeira. José deixa sua marca no rastro do tempo. Mas ele sabe que nem todos enxergam as pegadas.

Preferem seu pesar que anoitece no passado. Porque é mais fácil perseguir a lágrima que desaparece na terra seca, do que o sorriso amoroso de despir o espinho das rosas. Enquanto isso, José nasce e morre todos os dias na lembrança de alguém.

conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Maldita sina do "eu faço"

Tem uma regrinha bem chinela que uns e outros teimam em consolidar como lei. É uma certa deturpação da fabulosa filosofia punk: "faça você mesmo". Não conhece punk rock? Sem problemas, explico. É uma guitarreira de três acordes. Tudo muito cru, nada lapidado, que se presta e muito bem para quem não sabe tocar nada. Não que o gênero só tenha revelado músicos desprovidos de talento, só pra ser eufemista. Nada disso. Sem essa de enfiar palavras na minha boca. O charme do punk é a atitude. Nenhum perfume e muito suor.

Voltando. Tem uma leva de gente desinteressante - inclusive em Caxias, lógico, cidade onde tudo nasce -, que insiste vender seu passe pra qualquer posição. É como se o talento pra fazer origami fosse similar ao de rachar lenha. Parece invenção, mas não é. Sério. Pode sair por aí e comprovar. Qualquer lugar serve. Até no Parque dos Macaquinhos onde sazonalmente ocorrem shows, numa rara demonstração de risos e aplausos. E olha que na hora da comédia, no último domingo, o parque tava vazio.

Esse desejo descabido de fazer tudo a qualquer preço é pior do que anúncio de classificados. Nunca se sabe se aquele tão desejado carro, com todos os itens de série, único dono, teto solar e o escambau, não tava submerso no Rio das Antas. E pior, se foi reconstruído com peças encontradas no ferro velho, e não, originais de fábrica. É como diz minha vó: "vendem gato por lebre". O problema, vó, não é o coitado do gato ridicularizado, mas o safado do cara que fantasiou o felino como uma lebre, enfiando chumaço de algodão nas orelhas e...deixa pra lá.

É como aquela padeira, que sabe como poucos vender o melhor pãozinho, quentinho, saboroso, que derrete a manteiga e faz qualquer um babar de gula. Pede pra ela reger um concerto de uma orquestra com mais de 100 músicos cujo repertório contempla toda a obra dodecafônica do austríaco Arnold Schoenberg. Não sabe o que é dodecafonia? Lembra das três notas do punk, que era só um subterfúgio pra virar o mundo de ponta-cabeça? Pois bem, a dodecafonia também queria subverter a ordem, mas ao invés de fixar-se em apenas três notas, Schoenberg desenvolveu séries preestabelecidas de 12 sons diferentes e independentes entre si.

Coisa de loco, né? Mas lá no fundo tem um sentido, mesmo que nas entrelinhas. Pronto, expliquei a piada. Não devia, mas contei. É que eu não descanso. Sei que nada adianta expor os velhos problemas que se arrastam desde quando o primeiro índio que morava por aqui viu sua arte boiando no mar de ignorância. Porque, já que o índio, do alto da sua sensibilidade não percebia que poderia ganhar uns trocados com os potes de barro que produzia, apareceu o astuto colonizador e disse: "eu faço". E desde então, os vasos, roubados, são vendidos como obras preciosas, cujo valor transcende o limite do cartão de crédito.

crônica desta quarta-feira no Pioneiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Joãozinho e o mordomo

Tem gente que sente calafrios só de imaginar-se assistindo a um "filme cabeça". O que dizer então de Santiago, que não é só um filme, mas a reflexão de um diretor sobre sua obra? E não uma obra qualquer, mas inacabada. Um projeto iniciado em 1992, mas só retomado em 2005, por não saber muito bem o que fazer com tantas horas de entrevistas, tantos olhares difusos, tamanha insensibilidade de não perceber nos pequenos gestos de Santiago, o filme ali, construindo-se diante do diretor.

João Moreila Salles, diretor de Santiago, não é só irmão de Walter Salles, o mais famoso cineasta da família. João é um dos melhores documentaristas brasileiros. Autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos. Faz boa dupla de ataque, marcando gols de placa, ao lado de Eduardo Coutinho (Edifício Master e Jogo de Cena). Santiago era o mordomo da Casa da Gávea, mansão do pai de João. A princípio é um filme sobre um único personagem. João vai então ao apartamento de Santiago, e revela, em preto e branco, um pouco da sua intimidade.

Mas sutilmente João acaba por trazer à tona mais um personagem, silencioso, nem por isso menos atormentado, a Casa da Gávea. Também em preto e branco mostra a casa vazia, os móveis empoerados. E nessa inconstância, João nos entrega o jogo. A narração, em primeira pessoa, acaba por revelar as dúvidas, as contradições e as impossibilidades de montar o filme, reorganizar as tantas cenas filmadas e quase esquecidas pelo tempo. João diz que Santiago o fez voltar à casa da família e reencontrar as imagens daqueles tempos de menino, nadando na piscina.

Todos os planos do filme mostram Santiago mais distante, nunca em close. Lá no fim vamos entender que os planos são todos referenciais à obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu. E João diz que só em 2005, quando voltou a montar o filme percebeu que ele, João, nunca deixou de ser o filho do dono da casa, e Santiago, nunca deixou de ser o Mordomo da Casa da Gávea. E foi por puro maniqueísmo de João que Santiago distanciou-se. Puro preciosismo, incapacidade de entrar na trilha aberta por Santiago. Como no momento em que Santiago quer dizer algo importante a ele, e Jão não quer escutar.

_ Joãozinho, Joãozinho...eu queria dizer que faço parte de um grupo de seres malditos.

_ Não, isso não Santiago...

Nem a câmera registrou o ato falho. Só ficou o áudio e a tela tingida de preto. João reconhece, agora, com o filme pronto, que errou. Não quis romper a barreira entre o filho do dono e o mordomo da casa. Pena. Santiago morreu em 1994. Fica agora só o filme em retalhos, tentativa de reatar cenas dispersas, e as costurar com um presente mais esclarecido, menos compexo do que em 1992. O João de hoje, quem sabe, teria feito outro filme, a partir de outras imagens. Quem sabe. Ele mesmo diz isso durante o filme.

Mas não seria esse Santiago. Seria outro. E esse é genial justamente pelo processo ao avesso. Do diretor revendo seus erros, expondo os problemas diante da platéia. É risível ver João forçando a barra, regravando takes de um mesmo plano. Um documentarista tentando extrair a realidade através das técnicas de ficção. Porque quer ver seu personagem atuando melhor. Nem que para isso tenha de perder a naturalidade. Talvez por isso, pela vergonha de rever-se, João disse quando do lançamento de Santiago que jamais voltaria a filmar.

Jamais voltará a filmar, espera-se, como durante a produção de Santiago. Inseguro, equivocado e insensível. Mas espera-se que volte a filmar com a mesma coragem, ousadia e capacidade reflexiva desse Santiago, finalizado e despido de todo pudor. Esse João de Santiago, montado sob a linha tênue da técnica apurada, despido da vaidade, e querendo dissecar a filosofia desse cotidiano que insiste em revelar-se em um filme melhor e diferente com o tempo. Até a morte da imagem, nem por isso, fim da fruição. Os silêncios do filme, na tela preta, que o digam.

MALDITA UTOPIA

Onde tiver arte haverá a maldita sombra da utopia. E se não for assim, não será arte. Será produto que se vende no supermercado, tipo sabonete, pra limpar o que quiser, menos ampliar os sentidos. E sem essa de elite e baixo clero. Arte é arte, independentemente da geografia, escolaridade e circunstância. Não é porque a obra foi uma encomenda que terá menor relevância. Ou ainda, ser desprezada porque não tem vínculo algum com as tradições do lugar onde foi concebida. Arte é quase sempre cisão e quase nunca reconstrução.

Lógico que esse é um papo filosófico. E se tiveres receio de continuar por medo de sentir-se seduzido pelos argumentos que seguem, podes descer e procurar o trem que vai de volta à Terra do Nunca. Podes voltar pra caverna e ler aquele pocket sobre o Platão. Isso não vai doer nada. Aliás, todo regresso é tranqüilo, nada traumático, e podes ter certeza de que aquele velho ancião que senta na história da cidade não vai escrever que foi por medo de avião que decidiste voltar de trem.

Maldita utopia. E bendita cidade que tem tudo ainda por fazer. Pipocam por aqui microorganismos ávidos por almoçar, jantar e embebedar-se de arte. Sei de gente que engordou 100 quilos em um ano só consumindo arte. Gente que despreza todo o tipo de dieta e só não vai a museu na segunda-feira porque está fechado. Outro não pára de acumular versos dissimulados de poetas forasteiros que fizeram dessa cidade a sua morada. Pena que nem sempre a oferta de arte dê conta de alimentar a tantos famintos.

Agora veio um tal suprimento extra. É um fome zero enriquecido de cultura. Não li a composição das embalagens de comida, mas dizem que agora vai ser possível engordar a gregos e troianos. Não duvido. Hoje tem ração transgênica capaz de fazer boi virar zebu do dia pra noite. Só não vi fazer vaca virar girafa. É o tal dilema da tecnologia genética. É possível um quadrúpede ser mais forte, mas não vi ainda fazer ele enxergar além da cerca de arame farpado. É outro prisma e, aí, vem denovo a sina da maldita utopia.

Mas e o que fazer com quem não tem a mínima sede de arte? A quem interessa mais o produto interno bruto do que a fruição de uma obra, criação de alguma mente insana dessa cidade? O cara da economia, que injeta dinheiro na cidade, pode sentir-se participante desse processo com o que ele tem de melhor: o capital. Não precisa gostar, nem entender, basta patrocinar. Basta alimentar com dindin uma horda de dementes desconectados com a realidade produzindo filmes dia e noite, sem pausa para café ou banho.

Lógico que é uma maldita utopia. Porque os donos dos cascalhos da cidade, armados de pudor e hipocrisia, não cederão aos encantos da arte. Nunca. A cena é tão carregada de asco como transar com um alien. E descabida, como temperar a salada com talco para os pés. Enquanto isso, cresce o produto interno bruto com uma leva de sabonetes que saem das fábricas com carimbo e embalagem de arte. Maldita utopia a da lei CONTRA o incentivo fiscal de tanta porcaria.

crônica desta quarta-feira, no Pioneiro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O CARA DA MALA*

Rio de Janeiro, final de tarde. Chuva fina e persistente.

Cena 1
Um cara de 30 anos entra no saguão do Aeroporto. Veste bermuda, camiseta e chinelo. Carrega uma mala daquelas que ninguém mais usa, modelo anos 70, bege. Parece atrasado. Gesticula muito, pede ajuda a quem encontra pela frente. Senta-se. Não permanece ali um minuto sequer. Levanta-se. Procura um daqueles televisores que informam os horários dos vôos. Esfrega os olhos no monitor, como se o piloto pudesse ouvi-lo. Sai falando sozinho, tropeçando e xingando a própria sombra. Some do saguão.

Cena 2
O mesmo saguão. Um homem de 40 e muitos anos puxa a fila. Cabelos compridos e encaracolados, camisa azul com flores pretas, calça de tergal de tom terra e óculos escuros, estilão Reginaldo Rossi. Atrás, vem seu filho. Mesmo cabelo, mesmo sorriso debochado, menos brega, mais hype, vestindo tênis Nike e mochila Adidas. Mais atrás ainda, vem uma mulher também de 40 e muitos anos, cara amarrada, cabelos longos e crespos, vestido abaixo dos joelhos, canelas finas e perebentas. Sentam-se. O filho abre a mochila e tira uma revista de mulher pelada. Antes de folhear a primeira página recebe um tabefe de mão fechada, da própria mãe.


Cena 3
Volta o cara de 30 anos. Ainda mais descabelado. Passou os últimos minutos varrendo o aeroporto rastreando o avião perdido. Ainda fala sozinho, cada vez mais alto, cada vez mais desesperado. Confere minuto a minuto o número do vôo, o destino, o portão e o horário (que foi pro espaço). Sacode a passagem como se fosse um lenço branco de súplica. Quase um último sinal de S.O.S daquele chato filme de náufrago. Seria engraçado, não fosse o manifesto sintoma de paranóia, quase esquizofrenia. Avoado, o cara sobe as escadas e desaparece.

Cena 4
A família Trapo, do guri tarado e do pai, sósia do Reginaldo Rossi, adormece no saguão. A mãe acorda e desajeitada levanta-se. Minutos depois, volta correndo, gritando como louca. A última chamada ressoa pelos corredores. É o avião quase partindo, e a mãe em desespero, sacolejando o filho e o marido. Ela corre, parecendo aqueles maratonistas de marcha atlética, tamanha desenvoltura. Assim que cruzam o portão 8, o quase-esquizofrênico reaparece, em segundo plano.


Cena 5
Paranóico, o cara quase-esquizofrênico, persegue uma aeromoça. Agarra-se às suas pernas, e de passagem em punho levanta uma das mãos ao céu. Deseja água como o herege que recebe a provação divina caminhando décadas pelo deserto escaldante. Cai e é atropelado pela mala de rodinhas da aeromoça. Sem largar da mala bege, estilo anos 70, levanta-se de sopetão e corre atrás de uma multidão que se dirige ao portão R6. Antes das crianças e dos anciãos, o quase-esquizofrênico tem preferência. É amarrado a uma cadeira de rodas, olhos e boca fechados, segue paciente pela esteira de carga.

Som de murmúrio. Fade out.

Fim.
*Conto de hoje, publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

CASA VAZIA*

Passa da meia-noite. Janelas escancaradas e a brisa leve de uma noite de verão que anuncia chuva ocupa a casa vazia. Lá fora, meia dúzia de fogos de artifício rasgam o céu nublado. Aqui dentro, um doce ruído de ninar em versos suspirados, como se a Björk tivesse embalando o filho que ainda não tive. Na mesa, um javali de 100kg, com uma maçã reluzente cravada entre os dentes, reina soberano. Tombou na mata virgem com um único tiro. Certeiro e indolor. É o que me disse o vendedor, um muçulmano radicado nos Campos de Cima da Serra.

Sentei na ponta da mesa. À minha frente, além do javali de olhar cândido, quase de súplica, outros 11 pratos. Cada uma das cadeiras vazias representa uma pessoa em quem eu cravei um punhal. Nunca pelas costas, sempre de frente e com um desejo libidinoso de arrancar-lhe o coração. Aprendi com Maria Bonita, a rainha da caatinga e mulher de Virgolino Ferreira, o Lampião, a ficar à espreita, de tocaia. E com Antônio das Mortes, herói às avessas criado por Glauber Rocha, a não ter pena.

Guardo os onze corações puros, cheios de amor indelével, em caixinhas especiais, envidraçadas, e acomodadas carinhosamente no freezer. É doce a vertigem de aprisionar o sentimento mais arrebatador que se pode sentir, no auge do seu prazer. O primeiro "eu te amo", dito com o peito ardendo em febre e com os olhos cheios de lágrima de felicidade, não pode ressoar assim irriquieto e perder-se na profusão do desejo. Por isso, retribuo sempre o "eu te amo", e cravo no peito a adaga de prata.

Sorve sempre o amor em tinta vermelha. Acomodo no meu peito o coração que bate em desatino. Aos poucos, passa da euforia à cadência melancólica de uma música iluminada por coros femininos dialogando com harpas e violinos. É como a aurora de um novo dia, sem o peso da dúvida. Por que afinal eu deveria protelar a imortalidade do amor com a incerteza do amanhã, se mais cedo ou mais tarde o sentimento será maculado pelo ciúme, traição e desamor? Melhor o amor eterno guardado no congelador.

Antes de cravar os dentes no javali, um brinde ao amor. Já aos desalmados, que arrastam os dias com sua incapacidade de amar, a quem congelou seus corações antes do suspiro de "eu te amo", a quem amarga as noites em rituais de auto-flagelação e aos pobres mortais devotos do ódio, um cuspe seco no chão. Resta a esse bando de inúteis afogarem-se nesse cotidiano cinza e tenebroso. Às minhas adoráveis mulheres, a dádiva da imortalidade, do amor cândido, insuspeito de ciúmes porque transmuta-se logo após o primeiro "eu te amo".

Depois de saciar-me com a carne selvagem, dentes afiados, não resisti e voei pela janela à procura de um novo amor de ano novo.

* conto novo de ano novo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ó, CASARA

Charge do Iotti, de hoje, publicada no jornal Pioneiro.




Homenagem ao Casara, líder de uma nova tribo
nos altos de um cidadezinha da África.
Cansado de comer zebra e beber cachaça de milho,
Casara anda rindo à toa com a papada na série B.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

AMANTES CONSTANTES


O mundo do cineasta francês Philippe Garrel é em preto e branco. Seus personagens não se deleitam na diversidade de cores do arco-íris, mas transitam entre o claro e o escuro, conduzidos pela sinuosa trilha entre a exaltação e a tristeza profunda. Parece dramático demais, mas assim é a vida. Ou alguém ainda acredita que a vida é algo parecido com aquele vôo de helicóptero através de um túnel de trem, cena de uma das mirabolantes seqüências de "Missão Impossível", com Tom Cruise?

Seja em "Amantes Constantes" ou mesmo em "O Nascimento do Amor" (1993, inédito no Brasil), Garrel disseca as relações amorosas. Dois filmes bem distintos, mas com o mesmo teor e a mesma câmera que não invade o espaço dos atores, muito menos irrompe o silêncio sem pudor. Garrel sabe como poucos, atualmente, ponderar necessidade e desejo; amor e vaidade; cólera e vaguidão. E o melhor, Garrel sempre deixa pistas falsas ao longo dos filmes. Entre uma cena e outra imprescindível, representativa para o enredo principal, o diretor arma uma porção de arapucas.

"Amantes Constantes" inicia com um bando de jovens metendo o pé na porta do sistema político burocrático, atrasado e centralizador da França, em 1968. Aquela virulência juvenil, desprovida de conseqüências, os coquetéis molotov que voam sobre a muralha de soldados, a fuga por entre os prédios esguios de uma Paris ainda com resquícios provincianos não é nada mais do que o pano de fundo. De todas as pistas, a única verdadeira é a de que o espectador conhece a partir daí o protagonista, François (Louis Garrel).

Os planos lentos, contemplativos, a música que aparece sutilmente, mas raramente, sem atropelar as cenas e os diálogos, tudo isso emoldurado sob uma harmônica estética, que fuzila a vigente necessidade de corroer o tempo. Porque em última análise, o tempo é o protagonista dos filmes de Garrel. Sua obsessão é transpor ao cinema o tempo da vida, o tempo de nascer o amor ou mesmo o tempo de perder o amor. Parece loucura, mas é só uma extensão do cinema idealizado por gente como Andrei Tarkovsky (1932-1986), que escreveu um livro para explicar essa pretensão: "Esculpir o Tempo". Infelizmente, Tarkovsky anda esquecido pelo nosso tempo.

"Amantes Constantes", no entanto, aos poucos, com a mesma incidência de encontros e desencontros da vida, acaba por colocar François diante de Lilie (Clotilde Hesme). Já passa da metade do filme, e não sabemos muito bem ainda se eles são de fato os amantes constantes que o título sugere ou são mais uma das pistas falsas. François e sua poesia parecem cada minuto mais em consonância das esculturas de Lilie. Assim como na vida, eles estão ligados pela arte em profusão naquele ano, já posterior aos confrontos de 1968.

É só um ano depois, mas muito da vida parece ter se esvaído. É porque o amor de Lilie e François perdeu-se no tempo. Não querem arriscar um amor que ainda nem parece consumado, mesmo depois da cama, mesmo depois da traição consentida. É como se a história de Lilie e François fosse a tentativa de reviver o amor de "Antes da Revolução" (1964), parafraseando o filme do italiano Bernardo Bertolucci, citado no filme de Garrel. No entanto, em "Amantes Constantes" tem o Sono dos Justos, que estabelece a antítese entre o antes e o depois da revolução, a de maio de 1968. E na vida de Lilie e François: antes e depois do amor.

Imovision, Drama, 178min, 2005.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

PRÊMIO

É brazuca o vídeo vencedor do Project Direct, um certo concurso internacional de curtas-metragens promovido pelo YouTube. "Laços", dirigido por Flávia Lacerda, tem roteiro de Adriana Falcão, esposa de João Falcão (diretor de "A Máquina"). A protagonista, Clarice, 18 aninhos, é filha Adriana e João.

O curta custou R$ 2 mil e levou como prêmio US$ 5 mil. Além disso, "Laços" será exibido em sessão especial no Sundance, festival de cinema independente norte-americano. O vídeo pode ser visto em diversos links pelo YouTube, mas estima-se que cerca de 200 mil pessoas já o tenham assistido.

A sinopse é a seguinte: menina conhece rapaz bizarro após a morte do pai.

Assista antes de julgar (sic): aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

UM FILME PUNK

Há muito tempo um filme deixou de ser só um filme. Explico: parece que o interesse é menor pelo que se vê através da tela do cinema ou mesmo pela telinha do computador, e se torna mais relevante a muvuca em torno da obra. Ou vai dizer que "Je Vous Salue Marie" (1985), do francês Jean-Luc Godard, se tornou célebre pela narrativa cinematográfica e não pela polêmica de ter sido vetado pelo Vaticano? Ou ainda o marketing do Manifesto Dogma 95, dos jovens realizadores dinamarqueses que impunham uma série de mandamentos para suas produções.

E quer saber, isso não é de todo ruim, o problema é esquecer que lá no fundo todo filme é uma pretensa obra de arte e assim sendo, precisa ser dissecado. "3 Efes", de Carlos Gerbase entra nessa corrente. É um dos primeiros filmes a ser lançado em diferentes mídias ao mesmo tempo: televisão, salas de cinema digital, DVD e internet. Felizmente, Gerbase, que é inegavelmente um dos realizadores mais importantes do estado, e ainda não tem boa repercussão no Brasil, seja do público ou crítica, meteu o dedo na ferida e diz que faz cinema, seja ele captado pela bitola que for, super-8, 16mm, 35mm, digital, ou o escambau.

"3 Efes" conta a história de uma série de personagens, interligados pela teoria do professor Valadares. Para ele, a humanidade depende de três apetites: fome, fasma e foda. Fome e foda não precisam de explicação. Mas fasma, pra quem não sabe, é o apetite de imitar a vida, assim como ocorre nos sonhos, pesadelos, fantasias, e claro, nos filmes. Revendo a filmografia de Gerbase, 3 Efes parece ter sido gestado como uma seqüência natural aos curtas-metragens "Deus ex-Machina" (1995) e "Sexo & Beethoven" (1997). No entanto, entre os curtas e "3 Efes" vieram os longas "Tolerância" e "Sal de Prata".

Nem "Tolerância" (2000), nem "Sal de Prata" (2005) tiveram a recepção idealizada. Não abarrotaram salas de cinema, não causaram frisson da crítica. Mas "3 Efes" é diferente, já nasce despido de toda pompa. Nasce mais como desejo de um cineasta que precisa fasmar como louco, sem se preocupar com o dia seguinte, com a bilheteria, com as péssimas críticas nos jornais. '3 Efes" não é uma obra-prima. Gerbase não ficará eternamente conhecido pela jogo de cena, nem pela estética, tão pouco pela harmonia do conjunto de atores.

Só que "3 Efes" é a justa medida do cineasta que revê sua obra e parece ter reencontrado o caminho que sempre perseguiu e lhe deu prazer. Não é só porque o filme fala e mostra sexo, a tal foda dos 3 efes, nem porque expõe os casais da história aos defeitos e contradições que em última instância refletem as vidas de todos nós, pobres mortais. "3 Efes" é coerente com Gerbase, porque revela a sua maneira de perseguir a vida dentro do cinema: arriscando, experimentando. Com simplicidade, sem perder de vista as viagens pretenso-filosóficas, e lirismo, temperado com boas doses de sarcasmo para não virar piegas.

Aqueles três acordes da vida como Replicante mostram-se imprescindíveis nessa retomada de Gerbase. Mesmo que pareça tão delirante quanto aquele refrão: "Os cegos também vão ao cinema", do LP "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", do tempo em que Gerbase virou vocalista dos Replicantes. Com 3 acordes ou 3 efes, Gerbase parece sedento por um mosh, louco para voar de braços abertos para a platéia. Estejam os espectadores abertos ou não ao seu irrequieto e incansável desejo de fasmar. Enfim, mais um filme punk do Gerbase.

Casa de Cinema, comédia dramática, 100min, 2007.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CARLÃO METE A BOCA

Leiam porque vale a pena o desabafo do Carlos Reichenbach...

"Como bem afirmou a montadora Cristina Amaral, após o impacto da premiação de Brasília 2007, festival de cinema brasileiro que envolve dinheiro na premiação, está virando turfe, com direito a rixas entre pangarés (nas quais eu me incluo) e até a claque contratada e organizada (na qual eu nunca me incluí). Cometi a mesma besteira que fiz com GAROTAS DO ABC, e aceitei (convencido por pessoas próximas) entrar na competição de Brasília. Acho que a cuspida que me deram (se não foi coisa pior) foi mais que merecida".
(...)

"Sei que a decisão é injusta para com os técnicos e atores que irão trabalhar comigo futuramente, mas eu prometo: de festival brasileiro com prêmios em dinheiro, meu caro Nirton, eu não participo nunca mais!".

"EM TEMPO - Gostei demais de CLEÓPATRA, MEU MUNDO EM PERIGO e ANABAZYS."

Esse é o Carlão, assim como Julio Bressane, um mal necessário ao cinema.

E vamo que vamo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

AINDA SOBRE SCHENATTO

O Márcio Schenatto foi a Flõ com outro curta, além do "Kylmair".

"Menino Lipe, Cachorro Sabão", estranho filme singelo sobre um menino e seu cãozinho, falado em dialeto, preto e branco, e coisa e tal, foi comparado pela Bia Werther, inventora do Flõ, com os filmes do Truffaut.

Mas áaah!

VENCEDORES DE BRASÍLIA

Saiu a lista dos vencedores do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Bressane foi vaiado pelo prêmio de melhor filme por "Cleópatra". Não via inda, mas tem jeito de que vou gostar.

De tabela, Alessandra Negrini, a Cleópatra, também foi vaidada pelo prêmio de melhor atriz.

Já o melhor filme pelo júri popular foi para "Chega de Saudade", de Laís Bodansky, que levou ainda o de melhor direção.

O cinemeiro de poesia, Joel Pizzini, ganhou o prêmio especial do júri, por "Anabazys".

PRÊMIOS OFICIAIS - TROFÉU CANDANGO

LONGA-METRAGEM 35MM
Melhor Filme – R$ 80.000,00
CLEÓPATRA, de Julio Bressane

Melhor Direção - R$ 20.000,00
LAÍS BODANSKY por Chega de Saudade

Melhor Ator – R$ 10.000,00
EUCIR DE SOUZA por Meu Mundo em Perigo

Melhor Atriz - R$ 10.000,00
ALESSANDRA NEGRINI por Cleópatra

Melhor Ator Coadjuvante – R$ 5.000,00
MILHEM CORTAZ por Meu Mundo em Perigo

Melhor Atriz Coadjuvante - R$ 5.000,00
DJIN SGANZERLA por Falsa Loura

Melhor Roteiro – R$ 10.000,00
LUIZ BOLOGNESI por Chega de Saudade

Melhor Fotografia – R$ 10.000,00
WALTER CARVALHO por Cleópatra

Melhor Direção de Arte – R$ 10.000,00
MOA BATSON por Cleópatra

Melhor Trilha Sonora – R$ 10.000,00
GUILHERME VAZ por Cleópatra

Melhor Som – R$ 10.000,00
E ainda Prêmio Dolby: consiste na licença para usar o sistema de som Dolby (equivalente a 4 mil dólares)
LEANDRO LIMA por Cleópatra

Melhor Montagem - R$ 10.000,00
RICARDO MIRANDA por Anabazys

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
ANABAZYS, de Paloma Rocha e Joel Pizini

CURTA-METRAGEM EM 35MM
Melhor Filme - R$ 20.000,00
TRÓPICO DAS CABRAS, de Fernando Coimbra

Melhor Direção – R$ 10.000,00
LEONARDO LACCA por Décimo Segundo

Melhor Ator – R$ 5.000,00
WOLNEY DE ASSIS por Enciclopédia do Inusitado e do Irracional

Melhor Atriz – R$ 5.000,00
LARISSA SALGADO por Trópico das Cabras

Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
CAMILO CAVALCANTE por O Presidente dos Estados Unidos

Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
LULA CARVALHO por Trópico das Cabras

Melhor Montagem – R$ 5.000,00
LUIZ GUIMARÃES DE CASTRO por Eu sou assim – Wilson Batista

CURTA OU MÉDIA OU LONGA-METRAGEM EM 16MM
Melhor Filme – R$ 15.000,00
CONVITE PARA JANTAR COM O CAMARADA STALIN, de Ricardo Alves Junior

Melhor Direção – R$ 10.000,00
RICARDO ALVES JUNIOR por Convite para jantar com o Camarada Stalin

Melhor Ator – R$ 5.000,00
ARDUINO COLASSANTI no filme Esconde Esconde, de Álvaro Furlan

Melhor Atriz – R$ 5.000,00
SUZANNA KRUGER no filme Esconde Esconde, de Álvaro Furlan

Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
ALVARO FURLONI, pelo filme Esconde Esconde

Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
TOMAS PERES SILVA, Convite para jantar com o Camarada Stalin, de Ricardo Alves Junior

Melhor Montagem – R$ 5.000,00
MARINA MELIANDE, por O LABIRINTO, de Gleysson Spadetti

Premio Especial do Júri para O CRIADOR DE IMAGENS, de Diego Hoefel e Miguel Freire

Menção Honrosa para SISTEMA INTERNO, de Carolina Durão

PRÊMIO JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem em 35mm – R$ 30.000,00
CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodansky

Melhor média ou curta-metragem em 35mm – R$ 20.000,00
EU SOU ASSIM - WILSON BATISTA, de Luiz Guimarães de Castro

PRÊMIO DA CRÍTICA
Troféu Candango

Melhor Longa 35mm
Pela excelência de uma realização que evidencia a disposição em correr riscos, a exemplo da ousada concepção da trilha sonora, da câmera e da fotografia, o prêmio da crítica em longa-metragem 35mm vai para:
MEU MUNDO EM PERIGO, de José Eduardo Belmonte

Melhor Curta 35mm
Pelo apuro de sua montagem, a força da expressão de seus personagens e os contrastes de sua história sobre a desconstrução de um amor exaltado pela melancolia de uma viagem silenciosa pelo abismo cotidiano, o prêmio da crítica em curta-metragem 35mm vai para:
TRÓPICO DAS CABRAS, de Fernando Coimbra

terça-feira, 27 de novembro de 2007

SALVE KYLMAIR, SALVE SCHENATTO

Um dia eu conto a verdadeira história do encontro (nada libidinoso) entre Kylmair, mais conhecido como Ligeirinho, e o videasta Márcio Schenatto. Mas isso só quando eu tiver um tempo pra ficar divagando.

Agora é hora de informação, e informação tem prioridade. O documentário "Kylmair", dirigido por Márcio Schenatto ganhou mais um prêmio. Foi eleito como o melhor filme pelo júri popular no Flõ - Festival de Porto Alegre.

LISTA DOS PREMIADOS:

- Ciber Espaço (Júri on Line): **BLOOD BROTHERS**, Maurício Fröhlich, Dois Irmãos-RS

- Prêmio 'Imersão': **SUBJETIVO**, de Erasmo Alcântara de Goiânia-GO

- Prêmio 'Sonidos' (Casa dos Cantos oferece estúdio pra gravação e edição de trilha para um curta):
**PORCOS NÃO OLHAM PARA O CÉU**, de Daniel Marvel, Gravataí-RS

- Prêmio 'Sujeira'': **O QUE SERÁ DA TV DIGITAL?**, de Adriana Veloso,Marcelo Reis e Richardson Pontone, BH-MG

- Prêmio 'Pequisa': **CASCADURA**, de Felipe Cataldo e Godot Quincas

- Prêmio 'Ousadia e Risco': Vídeo Terrorismo, de Vinicius Cabral, BH-MG

- Prêmio 'Contribuição'(TeleImage oferece 5 horas de Telecine Off Line e 10 horas de Edição de Som):
**NOTURNA**, Felipe Vernizi, Caraguatatuba-SP.

- Prêmio 'Inovação' (APEMA Porto Alegre oferece 5 mil reais em serviços para até 5 diárias):
**LULA A DORÉ**, Rafael Schiliting, Florianópolis-SC

- Prêmio 'Filme de Aluno': **UM FILME CHAMADO SFINCTER', Zeca Brito, Porto Alegre - RS

- Prêmio do Júri Popular: **KILMAIR** - de Marcio Schenato - Caxias do Sul-RS

- PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI:
O FILME DO FILME ROUBADO DO ROUBO DA LOJA DE FILMES - Marcelo Yuka, Júlio, Pecly e Paulo Silva, RJ-RJ
GALÁPAGOS - Fernando Secco, Niterói-RJ
ETERNAU - Gustavo Jahn, Florianópolis - SC
CLACK BOOM - Bruno Graziano, SP-SP

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

PAMPA ESTRANHO PAMPA QUE DE CERTA FEITA ESCONDIA BLAU

Se Blau Nunes anda divagando pampa afora, ninguém sabe. Nem mesmo André Costantin, documentarista caxiense que recém lançou "Blau Nunes, O Vaqueano", seu segundo filme selecionado pelo prêmio DOC TV. O documentário será exibido hoje (15/10) e amanhã (16/10), às 20h, na Sala de Cinema Ulysses Geremia (Centro de Cultura Ordovás, em Caxias). A entrada é franca.

"Blau Nunes, O Vaqueano" poderia ser só uma tentativa de personificar essa mítica figura que ninguém sabe se existiu ou foi só um espectro de Simões Lopes Neto. Só isso bastaria. No entanto, Costantin vai mais além. Aproxima dois distantes universos. Aproxima as contradições daquele passado poético e lendário de Lopes Neto (ou seria Blau Nunes?) com o tempo atual, e estabelece um diálogo com esse gaúcho estranho, que mesmo à cavalo parece léguas distante do pampa.

Blau é retratado nesse descampado. Solito. Crava o pé na pedra, acomoda o cotovelo no joelho, a mão no queixo, e olha ao longe, procurando uma pista qualquer do sentido do gaúcho. Um ator interpreta Blau, que interpreta o pampa sob a luz de Simões Lopes Neto, que é revisto por Costantin na voz de Vitor Ramil. É inquieta e reveladora a construção dessas múltiplas vozes. Mais delirante ainda é o diálogo entre duas fortes e determinantes imagens:

1) daquele pampa dos raios de sol atravessando as densas nuvens, de Blau;

2) da Pelotas (terra que parece perdida no tempo) chuvosa e serena, de Ramil;

A primeira, é recriada por Costantin. É aquela densa imagem do pampa que não precisaria ser filmada, porque todos, que de alguma forma, tiveram um mínimo contanto com a cultura gaúcha, têm impregnada na retina. O horizonte sem fim, enquadrando nos limites do céu nebuloso, acima, e da grama verde, abaixo. O gaúcho valente, guerreiro e truculento, ou o gaúcho apaixonado, acolhedor e honrado, só existe na memória de Blau. E passa a reencarnar na memória do espectador quando Costantin nos revela Blau nesse descampado do pampa do passado.

A segunda imagem nasce do olhar de Costantin pelo nosso tempo, seja da Pelotas (perdida no tempo) ou de Porto Alegre (mais veloz do que o próprio tempo). Começa por Pelotas, seguindo Ramil e sua estética que vem impregnada no tênis (não nas botas de couro) e arrasta-se pela América Latina. Entre as poças d'água na calçada, Ramil narra um certo desconforto, tenta reatar a lucidez perdida em alguma estância. Mas é mais poesia do que verborragia. É a imagem desse novo tempo, rápida, abrupta, câmera inquieta na mão, enquadramento relapso, passo ligeiro, chuva fina, sem fim.

Transitando entre esses dois cenários, do passado contemplativo, ao futuro vertiginoso, Costantin dá voz às histórias contadas por Blau Nunes (ou seriam documentadas por Simões Lopes Neto?). São colagens de depoimentos de gaúchos de todas as querências pontuadas pelo texto do escritor. Histórias de amor e morte, sem a tresloucada passionalidade de Julio Reny, mas com a veracidade do sangue escorrendo da ponta da faca. Tudo é verdade e ficção ao mesmo instante poético. Mesmo aquele amor conquistado com bravura, pode ser só um delírio de Blau Nunes.

Delírio ou não, Costantin não tem medo de revelar o truque que nos prende ao filme. Não é como chegar ao fim de uma jornada e perceber que não andamos um centímetro sequer. É mais denso e profundo, é dar-se conta da finitude do mito. Nem por isso, do seu completo esquecimento. No entanto, Blau segue, e seguirá eternamente, sendo velado à sombra de algum arranha-céu de alguma cidade desse rincão chamado Rio Grande. E nem mesmo a música de Ramil vai despertá-lo.

"Blau Nunes, O Vaqueano". De André Costantin. 52min, 2007.
Co-produção: André Costantin / Transe Imagem / TVE - RS / Fundação Padre Anchieta - TV Cultura

Publicado no blog Primeira Fila da Zero Hora, em 15 de outubro. Republicado aqui, por solicitação de butequim.

DIRETOR GAÚCHO PREMIADO NA ESPANHA

Rafael Figueiredo levou o prêmio de melhor diretor pelo curta-metragem "A Peste da Janice", sábado, na 33ª edição do Festival do Cinema Iberoamericano de Huelva, na Espanha.

Outros brazucas também foram premiados. "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, ganhou o Prêmio Especial do Júri; e Leonardo Medeiros foi escolhido o melhor ator, pelo filme "Não por acaso".

Enrique Fernández e César Charlone (meio-brasileiro, meio-uruguaio), receberam o prêmio de melhor roteiro original por "O Banheiro do Papa", co-produção entre Uruguai, Brasil e França.

Os longas-metragens premiados
* Melhor Filme: 'Luz Silenciosa', de Carlos Reygadas (México/França/Holanda)
* Prêmio Especial do Júri: `O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias' de Cao Hamburger (Brasil)
* Melhor Filme de Estréia: 'Maldeamores', de Carlos Ruiz y Mariem Pérez (Porto Rico/Reino Unido)
* Melhor Direção: Carlos Reygadas por 'Luz Silenciosa' (México/França/Holanda)
* Melhor Ator: Leonardo Medeiros por 'Não por acaso' (Brasil)
* Melhor Atriz: Sofía Gala por 'El Resultado del amor', de Eliseo Subiela (Argentina)
* Melhor Roteiro Original: Enrique Fernández e César Charlone por 'O Banheiro do Papa`(Uruguai/Brasil/França)
* Melhor fotografia: Paula Grandío por `La León', de Santiago Otheguy (Argentina)

Os curtas premiados
* Melhor Curta: 'Juanito bajo el naranjo', de Juan Carlos Villamizar (Colômbia)
* Melhor Direção: Rafael Figuereido por 'A peste da Janice' (Brasil)
* Melhor Roteiro: Ana Paulina por 'Una muerte menor' (México)

40 ANOS EM 10 CURTAS

Só pra variar o Festival de Brasília faz tudo o que sonha vossa vã filosofia. Ou ainda: mais uma lição de Brasília para Gramado.

Na 40ª edição, Brasília lança o DVD "Festival de Brasília: 40 anos em 10 curtas" contendo os 10 melhores curtas-metragens exibidos no festival. Lógico, é a lista dos 10 curtas que os curadores, o cineasta Vladimir Carvalho, o jornalista Sérgio Moriconi e o coordenador geral do Festival, Fernando Adolfo, acreditam ser a melhor seleta da sua história. E com certeza vai ter muuuuita gente reclamando a falta deste ou daquele.

O certo é que o DVD é um documento importante e que acaba por registrar não só diferentes fases do curta-metragismo, bem como a trajetória do Festival de Brasília. O projeto conta com o apoio do Fundo Nacional de Cultura do Minc, viabilizando a produção de 1.200 DVDs que serão distribuídos gratuitamente em todo o país.

FILMES DO DVD

DÉCADA DE 60
"Blá... Blá... Blá...", de Andréa Tonacci. Ficção, p/b, 30min, SP, 1968
"À João Guimarães Rosa", de Roberto Santos. Documentário, p/b, 14min, SP, 1969

DÉCADA DE 70
"Simitério do Adão e Eva", de Carlos Augusto Calil. Documentário, cor e p/b, 19 min,SP, 1975
"Brinquedo Popular do Nordeste", de Pedro Jorge de Castro. Documentário, cor, 25min, DF, 1977

DÉCADA DE 80
"Meow", de Marcos Magalhães. Animação, cor, 8min, RJ, 1981
"Porta de Fogo", de Edgard Navarro. Ficção, cor, 27min, BA, 1985

DÉCADA DE 90
"Maracatu, Maracatus", de Marcelo Gomes. Documentário/ficção, cor, 14min, PE, 1995
"Mr. Abrakadabra!", de José Araripe Jr. Ficção, p/b,13min, BA, 1996

DÉCADA DE 2000
"Rua da Amargura", de Rafael Conde Ficcão, cor, 15min, MG, 2003
"Rap, O Canto da Ceilândia", de Adirley Queiroz. Documentário, cor, 15min, DF, 2005

Mais no site do projeto: www.cultvideo.com.br

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

BRAZUCAS EM HAVANA

Saiu a lista dos filmes selecionados para o 29º Festival del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, que ocorre entre os dias 4 e 12 de dezembro, em Cuba. E tem gaúcho na lista. Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll, de Otto Guerra, concorre no concurso de animação.

Se vai ter ou não fumaceira ainda não sei, só sei que o Otto vai revirar todos os butecos de Havana em busca da Polar.

Na principal categoria, longas de fição, o Brasil entra com seis filmes. Até o Cobrador: In God We Trust, de Paul Leduc, co-prudção entre Espanha, Argentina, Grã Bretanha e Brasil, entrou na vaguinha brazuca.

CONCURSO DE FICÇÃO:
* A Via Láctea (Lina Chamie)
* Baixio das bestas (Claudio Assis)
* Cobrador: In God we trust (Paul Leduc) Espanha, Argentina, Grã Bretanha, Brasil
* Deserto feliz (Paulo Caldas)
* O ano em que meus pais sairam de ferias (Cao Hamburger)
* O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)


CONCURSO DE PRIMEIRO E SEGUNDO FILMES (OPERAS PRIMAS):
* A casa de Alice (Chico Teixeira)
* A ilha da morte (Wolney Oliveira)
* Mutum (Sandra Kogut)
* O grão (Petrus Cariry)
* Querô (Carlos Cortez)


CONCURSO DE DOCUMENTÁRIOS:
* Acidente (Cao Guimaraes, Pablo Lobato)
* Câmara viajante (Joe Pimentel)
* Descaminhos (Marilia Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, Joao Flavio Flores, Maria de Fatima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)
* Filipe (Margarita Hernandez)
* Jardim Ângela (Evaldo Mocarzel)
* Saba (Thereza Menezes, Gregorio Graziosi)
* Santiago (Joao Moreira Salles)
* Stela do Patrocínio - A mulher que falava coisas (Marcio De Andrade)


CONCURSO DE ANIMAÇÃO:
* Calango! (Alexandre Camargo)
* Crisálidas (Fernando Mendes)
* Dominós (Daniel Schorr)
* Engoleduaservilhas (Marcelo Marao)
* Garoto cósmico (Ale Abreu)
* Mercúrio (Savio Leite)
* Na corda bamba (Marcos Buccini)
* Vida Maria (Marcio Ramos)
* Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll (Otto Guerra)


CONCURSO DE FICÇÃO (CURTA E MEDIO-METRAGEM):
* Alguma coisa assim (Esmir Filho)
* O.D. - Overdose digital (Marcos DeBrito)
* Outono (Pablo Lobato)
* Quando o tempo cair (Selton Mello)
* Terra Prometida (Guilherme Castro)
* Trecho (Clarissa Campolina, Helvecio Marins Jr.)
* Um ramo (Juliana Rojas, Marco Dutra)


CONCURSO DE ROTEIROS INÉDITOS:
* Amor, Água Y Az Car, Gabriella Mancini
* Cupuaçu, Iana Cossoy Paro
* O filho da puta, Carla Guimaraes de Andrade


PANORAMA LATINO-AMERICANO (FORA DE CONCURSO):
* Achados e perdidos (José Joffily)
* Batismo de sangue (Helvécio Ratton)


SECÇÃO INFORMATIVA (DOCUMENTÁRIOS FORA DE CONCURSO):
* À margen do concreto (Evaldo Mocarzel)
* Cartola (Lírio Ferreira, Hilton Lacerda)
* Construção (Cristiano Burlan)
* Elevado 3.5 (Paulo Pastorelo, Maira Santi Buhler, João Sodre)
* Fabricando Tom Zé (Decio Matos, Jr.)
* O desafio de Zezão (Patricia Cornils)
* O engenho de Zé Lins (Vladimir Carvalho)
* O homem da árvore (Paula Mercedes)
* O homem-livro (Anna Azevedo)
* Oficina Perdiz (Marcelo Diaz)
* Tres irmãos de sangue (Ângela Patricia Reiniger)
* Um dia, um circo (Marcelo Laffitte)
* América minada (Vinicius Souza, Maria Eugenia Sa)


FORA DE CONCURSO:
* Tabaco (Renata Silva Meirelles Teixeira)

Confira a seleção completa aqui.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

CLIPE NA IMPRENSA 2

Olha aí, agora saiu materião no site do Kzuka falando sobre o clipe, contando alguns detalhes de produção, cenas de bastidores. Quem assina a matéria é o estagiário de produção e espião (sic) Marcelo Andrighetti.

Leia aqui.

CLIPE NA IMPRENSA

Ó, na coluna 3por4 de hoje o jornalista Carlinhos Santos publicou uma nota falando do clipe.

Leia aqui.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

THE END

Ok, that's all folk's.





Vou-me embora pra Passárgada, dormir um pouco e voltar a sonhar com manequins invadindo o mundo.

BASTIDORES DO CLIPE 9

O dia em que o macaco saiu pilotando a Mercedez. Pô, Paulinho, obrigado pela brava participação no clipe. Abrazzo

BASTIDORES DO CLIPE 8

E a tal Kombi? Esse é o carro que levou a banda aos lugares mais lindos da cidade. Nada de imagem turística. Só a podreira mesmo.

BASTIDORES DO CLIPE 7

Enfim o derradeiro dia. Por um lado é bom, mas que merda, acabou. Dá aquela ressaca e tal, mas fazer o que. É esse o ciclo. E que venham outros. Desde sábado, dia 17, estivemos mergulhados como velhos loucos e famintos nessa deliciosa e delirante produção.

Teve um monte de planejamento e outro tanto de improviso, ainda bem. E o mais interessante foi perceber que todos os envolvidos estavam realmente interessados no processo. Porque não é só um clipe, é um clipe que um bando de gente acredita ser a melhor expressão da banda neste momento. E para a música escolhida, lógico.

Desde os figurantes, da Fefa ao Mércio, passano por todas as gamas de beleza, disrepância, bizarrice, e o escambau, mas tudo com honestidade; do Pepe Pessoa e a Dai, que criaram a arte, baseado em muita conversa, tira daqui e põe dali, arranjaram objetos, transformaram um quarto de hotel numa locação perfeita pra cena do menino, e por aí vai; e teve ainda a Janete, na direção de fotografia, sempre pontual, sempre com boas saídas, trabalho simples, sem muito lerolero, e que dá um resultado muito bom; e a produção com Maneka, Letícia e Marcelo, que bela trinca, e isso que a gente quase perdeu a Letícia, porque ela anda na pré-produção de um longa-metragem, em POA, mas aí o Maneka entrou e deu conta do recado.

Agradeço a todas as pessoas que emprestaram manequins, roupas, objetos, suas casas, carros...agradeço a dedicação de toda a equipe, cada um teve um papel super importante. Muito boa tb a supresa de contar com o Leandro Badalotti, um cara que felizmente tá terminando seu documentário, e um cara que é sempre bom conversar sobre cinema.

Agora virá a edição, com o Lissadro Stallivieri, um cara que admiro, sempre quis trabalhar junto, e que mais uma vez vai dar conta de reorganizar toda essa demência que fervilhava pela minha cabeça e foi filmada para o clipe.

abrazzzos
muito obrigado a todos
e até a próxima

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 7

Tava devendo a inormação. O nome do ator que faz o papel de um jovem que adora os Ligantes e odeia os pais que ele tem, se chama Franco Sartori.

Eis o cara, mais uma vez. E olha, nunca tinha trabalhado com ele, mas o guri me surpreendeu.

Obrigado, Franco. Até o próximo trabalho.

BASTIDORES DO CLIPE 7

Esse é mesmo um mundo estranho. Isso não é uma cena do clipe, é a vida real, sem filtros e nada na lente.

Da esquerda para a direita: Luciano Paim (baterista), Esqueleto (vocalista), Sandrinha (atriz), e atrás, Mércio (o astro).

BASTIDORES DO CLIPE 6

Só pro Esqueleto não ficar com ciúmes, eis a foto dele, grandão, posando de verdadeiro magnata.

BASTIDORES DO CLIPE 5

A vida é dura, mas vale a pena. Que o diga o Mércio. O cara trabalha o dia toda, a semana toda, no bar do Cursão. No final de semana vai jogar um sinuquinha com os amigos, anda pelas ruas chutando latinhas de ceva, e vai nos melhores shows de rock da cidade. É o roadie oficial dos Ligantes. E fazendo jus ao seu dedicado trabalho à banda, resolvemos que ele seria o astro principal da festa. No clipe, ele tentava traçar todas as meninas, mas só levou fora. Nem por isso, deixou de curtir o show. Um brinde, saudoso Mércio.

- Ô, Mugnol tira uma foto comigo do lado da mina mais gata da festa. Essa eu preciso registrar no álbum da minha vida.

- Ô, ô...agora tira uma foto minha beijando essa mina aqui...


BASTIDORES DO CLIPE 4

Domingo é dia de ficar com a família. E isso também vale para as casas noturnas especializadas em diversão para pais estressados e noivos entediados. Sendo mais direto, isso também vale para a putaria. Dizendo com palavras mais bonitas e relembrando uma gloriosa fase da música brasileira, "saudosa maloca, maloca querida". E o que seria da humanidade sem sexo, sem aquele proibido, e fora do casamento. Quantas famílias são alimentadas porque uns e outros saem por aí redistribuindo a renda?

Pois bem, como uma homenagem a esse mundo fabuloso da redistribuição de renda, da vida em família, da putaria desenfreada e do sexo selvagem com meninas bem prestativas, a produção do videoclipe invadiu o Cassino, no domingo a tarde. Para trabalho. Apenas trabalho. Não havia expediente interno. Pois bem, e prosseguindo, entramos lá para gravar mais uma cena do videoclipe. Ceninha um tanto bizarra, mas interessante. Pra não entregar muito o jogo só vou colocar uma foto, que não diz quase nada.

domingo, 18 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 3

O Esqueleto deu um certo trabalho, mas depois que cravou os dentes num xisão ele ficou bem quietinho.

- Bah, fazia uns dois dias que eu não comia direito...


BASTIDORES DO CLIPE 2

Segundo dia. Aliás, primeiro, porque o primeiro "de verdade" falhou.
Cena no quarto do menino, cena do banheiro e cena da sala de jantar. Atores, um guri tri bom, que infelizmente esqueci o nome, mas depois prometo verificar a informação, um casal de manequins (esses de vitrine) com dois filhos pequenos (tb manequins) e o Paulinho, vestido com a máscara do macaco.
Ah, e claro, a banda. Primeira cena com a banda. Na hora marcada, aliás, meia-hora depois da marcada, chegam Pubby, Luciano e Esqueleto, ah, e o Mércio, que não é da banda, mas é da família. E uma hora depois do trio chega o empresário e baixista Parisoto. Figurino no corpo, ensaio e tal, hora de gravar.
Primeiro o piá, vendo tv no quarto.


Depois, a banda invade o quarto do piá.

então vem o macaco no banheiro

e enfim, fomos pra outra locação pra gravar a cena do jantar da família



BASTIDORES DO CLIPE 1

Ou ainda: a cena que não foi. Ainda não foi.

Tudo marcado para começarem as gravações na sexta-feira. Porém, e como dizia Plínio Marcos, sempre haverá um porém, o que era pra ser não foi. Depois de uma pré-produção de quase duas semanas, efim iríamos gravar na sexta, dia 16, mas aí furou. Furou o empéstimo do principal carro que utilizaríamos. Em uma das cenas a banda, assim como no filme do Tonacci, os quatro rapazes ligados iriam trafegar pelas ruas da cidade, por lugares decadentes, por lugares depredados dessa linda cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, mas não conseguimos o carro que seri ausado pra banda.

O Maneka, que tá produzindo o clipe, que na real é um curta, tinha agendado tudo certinho, mas aí, o tal cara do carro, que ainda bem não sei o nome senão citaria aqui com alguns palavrões, resolveu sumir da cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, e desligar o celular. Tudo bem, desfeitos do susto e do balde água fria, resolvemos esquentar a cabeça bebendo cerveja.

E como tudo na vida se resolve de cabeça quente encontramos o macaco no São Patrício. Explico, é que no clipe que é um curta, assim como no filme do Tonacci, tem um cara que veste uma máscara de macado. No filme é o Peréio, e teríamos de encontrar alguém a altura, alguém que medisse mais de 1m78. E encontramos na nossa mesa, nosso amigo de brindes, nosso amigo de festinhas proibidas na escola da vida. Paulinho, um cara bem apresentado, cabelo bem cortado e moreno, porte de modelo.

-Vai fazer o que amanhã, Paulinho?
- Nada, por que?
- Tu vai ser o nosso macaco?
- Que??????
- É pro clipe da Ligante. Tu só terá de ir no banheiro com uma máscara de macaco, fazer a barba no espelho e cantarolar uma música do Ray Connif.
- Tá, beleza. Que horas amanhã?
- Ah, o Maneka te explica depois.

BASTIDORES DO CLIPE

Esse negócio fazer videolcipe é uma cachaça que não se vende a qualquer preço. Não tem em qualquer esquina, nem é fácil encontrar um bom contrabandista. E só uma bicadinha basta pra ficar ligadão, e querer mais, sempre mais. E antes que eu começasse a ver bebezinhos engatinhando pelo teto, quase delirando da secura da cana, eis que a Ligante Anfetamínico me convida pra dirigir mais um videoclipe.

Conversa vai, conversa vem, e eu bem louco com a idéia passei a delirar antes do delírio da secura da cana. Dito e feito. Já que a Ligante é punk, nada mais sincero e de acordo do que produzir um clipe sob a aura do cinema marginal. Porque o cinema marginal nada mais é do que a atitude punk, na tela. E só pra avacalhar mais, o clipe seria um curta-metragem em homenagem ao filme "Bang-Bang", do Andrea Tonacci.

Ah, a música, claro. A música escolhida foi "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", composição do Pubby, guitarrista da Ligante, cujo título é outra homenagem. "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas" é o nome de um disco dos Replicantes, lnaçado no comecinho dos anos 90 e que contava pela primeira vez com os vocais de Carlos Gerbase, que assumiu o posto de front man com a saída de Wander Wildner.

Homenagem é como brinde, não pode ser banalizado. Por isso, um brinde a Ligante, ao Repli, e a Tonacci.

Até daqui a pouco.

sábado, 3 de novembro de 2007

estrangeiro

O Zuzuwah é estrangeiro, mas tão estrangeiro, que suas músicas fazem cada vez mais sentido em Caxias. Não que elas não possam ser escutadas longe daqui. De fato, quem mais cola o ouvido na sua batida estranha, entrecortada com guitarras viajantes, e melodias de sopro assobiáveis, são os estrangeiros.

Gente que mesmo vivendo sob a neblina serrana está plugada numa sonoridade globalizada. Da fusão de estilos e gêneros, aparentemente dissonantes, mas que, reorganizadas, e bem trabalhadas, parecem ter surgido da mesma raiz. Como o jazz e o drum'n'bass, por exemplo. Originariamente distantes, mas primos bem próximos dessa pós-modernidade infernal. No bom sentido.

Zuzuwah, guitarrista da Cabaret Hitec (hibernando) e saxofonista da Grelhados Passam Voado e Bacon 27, ataca novamente com o projeto solo, sempre em versão demo, batizado de Complexo Shanghai. Depois das bolachinhas The Mandarin Sessions (2005) e Busking (2006), é a vez de The Revolution Sessions (2007).

_ O disco tem influência da relação de amor e ódio entre Estados Unidos e a América Latina, passando pelo populismo e demagogia de suas lideranças até chegar na ensolarada Califórnia _ divaga Zuzuwah.

Algumas canções do novo álbum estão no site www.myspace.com/coletivoshanghai. Quem quiser comprar a bolachina pode procurar na banca 29, do Camelódromo. Custa R$ 10.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

set

Depois do bem sucedido curta-metragem Ana Cristina Perdeu a Memória, que tratava da infância, Ana Luiza Azevedo, entra no set para as filmagens do seu primeiro longa, Antes Que o Mundo Acabe. Pedro Tergolina, protagonista do curta, volta, dessa vez para encarar o personagem Daniel.

O filme, que tem roteiro da Aninha, em colaboração com Paulo Halm, Giba Assis Brasil e Jorge Furtado, é baseado em romance homônimo, de Marcelo Carneiro da Cunha. Conta a história de Daniel, um garoto de 15 anos, que convive com a mãe e o padrasto, um amigo acusado de um crime e uma namorada que não quer saber de namoro.

A produção segue até 2 de dezembro em Taquara, Rolante, Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre.

o sentido do amor

O senhor que é homofóbico e não consegue imaginar o amor entre dois homens, não assista ao filme Felizes Juntos. Porque se depois dos primeiros minutos o senhor suspeitar que esse universo lhe é mais próximo do que pensava, vai sair por aí culpando o cineasta chinês Wong Kar-Wai. E o pobre diretor não tem culpa de nada. Ele vive do ofício de contar histórias de amor. Sem pudor, porque assim são as verdadeiras histórias de amor.

Felizes Juntos faz parte da Coleção Lume, organizada pela empresa maranhense Lume Filmes, que pretende lançar dois DVDs por mês de filmes contemporâneos, sucessos de crítica nos cinemas do Brasil, mas ainda inéditos em DVD. O filme chinês é o terceiro da coleção, que tem ainda Felicidade (1998), de Todd Solondz, Na Companhia de Homens (1997), de Neil LaBute, e Reconstrução de um Amor (2003), de Christoffer Boe.

A trama de Felizes Juntos é simples e nada original. É centrada em dois homossexuais, Yui-Fai (Tony Leung Chiu-Wai) e Po-Wing (Leslie Cheung), que viajam de Hong Kong a Buenos Aires à procura das Cataratas do Iguaçu, uma espécie de quimera para uma nova vida. Até aí, nada de incomum, porque tem uma penca de filmes parecidos. O grande lance do filme é a maneira como Kar-Wai desenvolve a história. O nome do filme, Felizes Juntos, é, na verdade, uma armadilha para o espectador, que pode ficar ansioso em ver Fai e Po felizes e juntos.

E é justamente a inconstância, a incomunicabilidade e os encontros arredios que jogam com o sentimento do espectador. Mais ainda porque os movimentos de câmera, os cortes das cenas, a alternância fugaz de música (ora Piazzolla, ora Zappa) e silêncio reforçam essa relação fragmentada e incompleta de Fai e Po. Porque no final de tudo, mais do que um filme de amor, Felizes Juntos trata do sentido do amor na vida de cada um dos personagens.

Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai
Coleção Lume, drama, 93min, 1997.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Com o dedo no gatilho*

"Tropa de Elite" virou uma febre, primeiro por ter vazado para a Internet e ser facilmente encontrado em qualquer camelô do Brasil. E segundo, porque trata da criminalidade e do tráfico de drogas a partir da visão do temido Batalhão de Operações Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro.

Quando os camelôs do Rio de Janeiro começaram a vender o DVD de "Tropa de Elite" quase ninguém entendeu nada. Era só mais um filme de ação à disposição, por um precinho bem camarada. Mas aí um cara comprou, recomendou para o amigo que comparou com Cidade de Deus, e então veio outro dizendo que "Tropa de Elite" era ainda melhor. Esse boca-a-boca aumentou ainda mais o interesse pela cópia pirata, até porque o filme só seria lançado em novembro. Para driblar esse inconveniente, o diretor José Padilha resolveu antecipar às pressas o lançamento nos cinemas.

No primeiro final de semana de exibição nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro, o filme levou cerca de 180 mil espectadores. Segundo pesquisa realizada pelo Ibope (não confundir com BOPE) estima-se que entre 12 e 15 milhões de pessoas já viram "Tropa de Elite", seja em cópia pirata ou na telona. Para entender como é importante essa marca, o filme de maior público do cinema brasileiro na sua estréia é "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, lançado em 1976, com 12 milhões de espectadores.

Mas afinal de contas, por que "Tropa de Elite" vem causando todo esse alvoroço? O filme é muito bom. É inegável. Esfrega na cara do espectador uma dura realidade que não pode mais ser ignorada. Até aí, novidade nenhuma, porque tem uma penca de filmes importantes que ajudam a entender os problemas sociais do Brasil, não só pelo viés da criminalidade (leia box abaixo). A originalidade do filme, no entanto, reside no foco delimitado pelo diretor. O espectador é conduzido pelo ponto de vista do capitão Nascimento (Wagner Moura), do BOPE.

Contra a sua vontade, Nascimento é destacado para "apaziguar" o Morro do Turano. É que no filme o Papa João Paulo II visitaria o Rio de Janeiro e ficaria hospedado pertinho dali. E nada poderia acontecer a Sua Santidade, lógico. Ao mesmo tempo, Nascimento corre contra o tempo para encontrar um substituto. O capitão quer sair do BOPE porque anda estressado, sua mulher está grávida, e a relação entre eles esmorece a cada dia.

Voz do tédio
Nascimento é o narrador e protagonista. É sua a voz da indignação, do tédio de repetir todo os dias as mesmas tarefas e nada, absolutamente nada, ao seu redor modificar-se. O espectador fica sabendo por ele que a inoperância da Brigada Militar é o motor do BOPE. Porque quando nada mais adianta, quando a BM perde o controle, o BOPE é chamado para resolver tudo. Mas o BOPE nunca resolve tudo como se esperaria. Porque não adianta matar traficante e recuperar armas de grosso calibre. No dia seguinte, novos traficantes estarão no lugar dos mortos armados até os dentes.

A resposta desse descontrole, no entanto, não está em "Tropa de Elite", e sim nos documentários "Notícias de Uma Guerra Particular" (João Moreira Salles e Kátia Lund) e "Falcão, Meninos do Tráfico" (MV Bill e Celso Athayde). Nessas duas produções entende-se que há uma lista imensa de meninos ávidos por pegar em armas e lutar pelo "movimento", ou seja, meninos loucos para ser traficantes. Outro filme referencial e, de certa forma complementar para entender "Tropa de Elite", é "Cidade de Deus". Se o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, revelava a gênese do narcotráfico nas favelas, "Tropa de Elite", na visão do capitão Nascimento, disputa um jogo de duas caras com as classes média e alta.

Cinema não salva ninguém
Se de um lado, é bom para a elite econômica que o BOPE suba no morro para exterminar quem encontrar pela frente, contanto que esse sangue todo não espirre no asfalto, de outro, Nascimento tenta provar que o tráfico só existe porque os filhos dessa mesma elite continuam comprando maconha, cocaína e o escambau. Nascimento é enfático: "Quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para que um playboy possa enrolar um baseado?".

Não espere uma luz no fim do túnel. "Tropa de Elite" é um minucioso tratado sobre a realidade, mas é só um filme. E cinema não salva ninguém. O que salva é investimento em segurança, educação, saneamento básico, saúde. Nascimento e sua tropa estão tão exaustos e desnorteados quanto a molecada que empunha fuzis nas favelas Brasil afora. Mas como diz o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel, no documentário "Notícias de Uma Guerra Particular": "A única instituição do governo que sobe a favela é a polícia. Mas a polícia não pode fazer nada sozinha".



O LIVRO
"Elite da Tropa", foi escrito em 2005, por Luiz Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel, com o roteiro do filme já em andamento. "Tropa de Elite" centraliza a trama no capitão Nascimento (Wagner Moura), mas o livro retrata diversas histórias de outros policiais do BOPE, preservando ainda suas identidades.
Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 39,90 (sem o desconto de 20% da Feira do Livro).

PARA ENTENDER A CRIMINALIDADE NO BRASIL
Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco
Notícias de Uma Guerra Particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund
O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), de Paulo Caldas e Marcelo Luna
Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Ônibus 174 (2002), de José Padilha e Felipe Lacerda
Carandiru (2003), de Hector Babenco
O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), de Paulo Sacramento
Falcão, Meninos do Tráfico (2006), de MV Bill e Celso Athayde

* reportagem publicada no jornal Pioneiro.