terça-feira, 22 de julho de 2008
tonus, o salvador
Enfim, quando conheci o João Tonus, ele já era um dos caras mais importantes do Míseri Coloni, um dos grupos mais respeitados do estado, estava implantando a estrutura e a programação do Teatro São Carlos e era o coordenador do brilhante projeto GentEncena, que ainda existe e espero que volte a ser pelo menos a metado do que já foi no tempo do Tonus.
Desde segunda-feira, ontem no caso, o Tonus virou o novo secretário de Cultura de Caxias do Sul. Tonus ganhou esse cargo porque Antonio Feldmann (PMDB), que ocupava a vaga desde 2005, quando José Clemente Pozenato (PSDB) pediu para sair, também pediu para sair para incorporar o grupo de políticos da situação que estão na coordenação da campanha pela reeleição de Sartori.
Justo. Cada um faz o que bem entende da sua vida. E o que precisa, como no caso do Feldmann. Porque senti um certo desgosto e desconforto dele ao me relevar a saída. Lógico que ele não deve ter saído de forma tranqüila, porque não cumpriu com sua promessa. JUROU que o AMARP e a Cia de Dança seriam suas prioridades.
As 600 obras do AMARP continuam trancafiadas em um camarim no segundo andar do Centro de Cultura Ordovás. E a Cia de Dança, segue com seus passos trôpegos, mesmo com a boa vontade de muita gente que está lá, parece que a música nunca pontua os passos e vice-versa. Mas João Tonus herdou de Feldmann o título de Capital da Cultura. E seria injusto cobrar de Tonus a resolução de todos os problemas que a Capital suscitou.
Se bem que o Tonus já salvou um projeto que estava praticamente falido, o Urb-Al/Victur. Caxias quase perdeu esse convênio entre a Comunidade Européia e outros municípios da região, como Bento Gonçalves e Flores da Cunha, por incompetência. Mas aí apareceu Tonus, o Salvador, e reorganizou o projeto, reapresentou-o e conseguiu de volta a verba que quase não veio.
E já que a febre do Batman voltou com tudo: "Conseguiria João Tonus salvar Caxias desse aterrorizante momento obscuro da cultura em Caxias?"
João vai tentar, mas acho que ao final de tudo, ou melhor, ao final da eleição, quem sabe até já a partir do dia 6 de outubro, Feldmann voltará ao seu posto para tentar salvar o que puder da colheita. Porque Tonus, repito: "não poderá ser cobrado por projetos dos outros". Porque é simples colocar o Tonus nesse redemoínho. Não é tarefa simples e não sei ainda como Tonus aceitou o desafio. Não falei com Tomus ainda, mas assim que falar com ele digo a vocês.
Tonus merece ser o Secretário da Cultura, mas não em uma condição dessas. Porque se ele fosse de fato uma unanimidade dentro da mega-hiper-e-tresloucada coligação da situação, Tonus já teria assumido como Secretário muito antes. Assume agura, num momento hiper delicado em que é mais fácil ser fritado do que valorizado.
Por outro lado, Tonus não terá muita autonomia, porque depende da programação de "eventos" da cidade, incluindo aí as coisas de sempre que voltam repaginadas pela Capital Intergaláctica da Cultura, e coisas de sempre, como Feira do Livro, Semanba Farroupilha (lá no campo devastado da Festuva) e por aí vai.
Já nem se fala mais em Salão do Livro Infantil... porque infelizmente há pouco tempo para correr atrás dos R$ 600 mil necessários para que o encontro aconteça. Enquanto isso, o que se vê pela previsão cultural é tempo fechado, sujeito a muita chuva, trovoadas, dias cinza, e um ou outro momento de calmaria. Infelizmente.
Mas eu confio no João Tonus e sei que, mesmo com essa instabilidade, em nada sua história vencedora e brilhante como um dos agentes culturtais mais relevantes e importantes dessa cidade, não será manchada. Nem mesmo tendo de encarar essa Secretaria da Cultura nessas condições.
Avante, João.
om
segunda-feira, 21 de julho de 2008
punk até os ossos
Que pastelão hein? Prefeitura de Caxias manda remover os ossos dos defuntos em Cemitério Comunbitário e nem avisa aos familiares. Só em Caxias, Pérola das Colônias e Capital INTERGALÁCTICA da Cultura.
Enquanto os funcionários da prefeitura reviraram os túmulos, Sartori segui com sua ENEBRIANTE campanha para ficar mais quatro anos revirando os ossos da cidadania.
Parece que a dobradinha PMDB e PDT vai começar a bradar um novo slogan: "Não importa se é árvores ou túmulos, o negócio é DIRRUBÁ". Ou ainda, "Tudo em nome do ASFALTO".
E o PV? Ainda seguirá como aliado da dobradinha Sartori/Alceu? Ou o Partido Verde não se importa mais com a função ECOLÓGICA das ÁRVORES?
E os túmulos revirados? Se o Sartori não acredita em fantasmas é melhor passar a acreditar, porque atrapalhar o sono profundo dos mortos não é a coisa mais indicada a se fazer.
well, agora fui
beijos nas crianças
sweet home
Bom dia meu amor.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
bastidores da disputa
Well, essa semana Eduardo Dall'Alba, poeta bem quisto por uns e não tão bem quisto por outros, foi citado em uma reunião de livreiros e coordenadores da Feira do Livro de Caxias. Por que citado? Boa parte das pessoas que estava na reunião escolheu Dall'Alba para ser patrono. Baseados em que? Carreira literária, of course.
MÃNS...e aí vem a QUESTÃ que eu tinha dito dias atrás...parte desse grupo não queria aceitar Dall'Alba. E sabe por que? Porque ele não é um cara legal, porque ele é sempre muito crítico com respeito à literatura na cidade, porque enquanto esteve na comissão de avaliação e seleção dos projetos Fundoprocultura ele sempre foi bastante rígido, não aceitando qualquer trabalho...e por aí vai.
Teve gente até que cogitou o fato de o irmão do Dall'Alba ser filiado e membro ativo do PT (partido de oposição ao atual governo em Caxias)...
Por isso, a efetivação de Dall'Alba como patrono ficou em banho maria. E por isso aquele meu post um pouco evasivo. Porque ainda era cedo e eu temia que um aprofundamento das reais questões atrapalhasse a candidatura dele. Agora que o título é dele, ninguém mais tasca. Espero.
Mas aquela paranóia de perder o palito de picolé premiado quase se consumou. Quase. Não fosse a certa boa pressão do Carlinhos Santos na coluna 3por4 e um ou dois telefonemas de um e outro aí...quem sabe Dall'Alba teria ao invés de uma boa surpresa uma péssima notícia...porque teríamos de contar a ele o quase-título-que-quase-ganhou.
Felizmente a história teve um desfecho diferente. Chato vai ser administrar esse fato diante de todos. Principalmente quando todos os participantes daquela reunião apertarem a mão de Dall'Alba. A consciência vai pesar. E alguns poderão até ficar rubros tamanha raiva-e-ou-vergonha.
Mas aí, é como dizia meu avô: "cada um com seus problemas".
Dall'Alba patrono da Feira do Livro 2008, parabéns.
Só pra não dizer que não falei em poesia:
“Os olhos verdes práticos falando a ouvidos moucos.
As vozes tortas, sádicas, enquanto amigos, cínicos
a olhar a foz do córrego. Esparramando-se no tálamo
dentro da casa, frívola”.
a chicreta da babalu
quarta-feira, 16 de julho de 2008
picolé premiado com poesia
metal caxiense nas américas
Até parece disco riscado, mas, pô, tem horas que dá até raiva. Por que santo de casa nunca faz milagres? A banda Predator é mais um bom exemplo. Bom? Não. Excelente exemplo. Os caras são adorados mundo afora enquanto que em Caxias ninguém dá bola, ninguém sequer cumprimenta os caras por eles levarem o nome da cidade para outros países.Tá marcado para começar neste final de semana uma tour pelo América do Sul. Inclui shows pelo Uruguai, Argentina, Brasil e Paraguai. Caxias não tem dado valor nem mesmo à música folclórica italiana (vide toda a polêmica na Festuva) o que dirá dar atenção pra banda de metal.
É pouca vergonha? Não...issso é Capital da Cultura.
O importante é que os artistas de Caxias continuam a fazer a sua vida, a trilhar a sua carreira, independentemente do tapinha nas costas.
Parabéns, Predator! Hate around the world tour!
Inté a volta
terça-feira, 15 de julho de 2008
punk alimenta a capital
caxias capital da cultura 2009?
Well, Caxias é a Capital Brasileira (alguns dizem INTERGALÁCTICA) da Cultura, em 2008. Mas a cidade ainda espera realizações que justifiquem o prêmio. Enquanto isso, a ONG CBC (Capital Brasileira da Cultura), com sede e foro, em São Paulo, cujo secretário que atende ao telefone fala 'portunhol', já revela os concorrentes para ser Capital da Cultura em 2009.
Disseram que Caxias tentou a dobradinha, mas o chefe da ONG mostrou o regulamento e não dava. É que...quem sabe...com mais um ano de Capital, Caxias quem sabe...assim, quem sabe mesmo...não conseguisse enfim pôr em prática os planos que tanto e tanto e tanto idealizou. Ufa, até dá um cansaço escrever isso.
Well, seguindo, então a ONG CBC revela os concorrentes para virar Capital 2009. Ei-los aqui:
Areia (PB)
Mariana (MG)
Montenegro (RS)
São Luís (MA)
Senador Pompeu (CE)
Sendo gaúchos aguerridos e fortes, deveríamos todos nós caxienses torcermos para Montenegro, aquela cidade onde tem um pedágio comunitário, sabe? na ida pra Porto Alegre, a capital política do estado...sabe, né? MÃNS...TODAVIA...PORÉM...eu prefiro apostar em AREIA. Uma bela cidade esquecida no interior da Paraíba. A cidade tem 26 mil habitantes e no passado já se chamou Sertão de Bruxaxá. "Êta porra", como diria o escritor Marcelino Freire.
Então cantemos juntos:
"Eia, eia eia...Areia já ganhou" (no ritmo que mais lhe convir).
Requisitos culturais de AREIA:
"Areia foi a primeira cidade na Paraíba a ter a sua área totalmente protegida e preservada, obtendo do IPHAN o título de Patrimônio da Cultura Nacional, onde se destacam o Teatro Minerva (o primeiro construído na Paraíba); Casa Museu Pedro Américo, com inúmeras réplicas dos quadros deste que foi o mais célebre cidadão areiense, entre elas a famosa obra "O Grito do Ipiranga", encomendada a ele por Dom Pedro II, cujo original encontra-se no Museu do Ipiranga em São Paulo; a Igreja Rosário dos Negros e Museu da Rapadura, que apresenta as várias etapas da fabricação dessa iguaria e dos outros derivados da cana-de-açúcar. Tem também como atrativos muitas riquezas naturais no Parque Estadual Mata do Pau Ferro, com diversas fontes e balneários aquáticos. No seu calendário de eventos culturais se destacam: Festival da Cachaça e Rapadura, Festival de Música e Festival de Artes."
(BY RELEASE OFICIAL DA ONG)
Perceberam a semelhança com Caxias, Capital 2008? Os AREIANOS também têm a sua Festa da Uva. Mas lá, eles chamam o encontro enogastronômico de Festival da Cachaça e da Rapadura. Só não vendem EDREDÃO...nem CASACO de COURO porque lá não faz tanto frio como aqui. Mas ralador de batata e pastel na banha tem sim.
Well, quem quiser visitar AREIA, sem pagar muito caro, que vá logo. Porque em 2009, quando AREIA virar CAPITAL INTERGALÁCTICA DA CULTURA os preços vão subir cerca de 800%. Vide Caxias. Não conseguimos mais transitar pelas ruas da cidade sem encontrarmos centenas e centenas de turistas de todas as partes do mundo.
Tem até cineasta colombiano que veio pra cidade SÓ PORQUE AQUI É A CAPITAL BRASILEIRA DA CULTURA. Pena que ele encontrou mais gente por aqui que ODEIA e tem NOJINHO de estrangeiro, do que gente que lhe abre as portas de casa. Well, QUESTÃNS culturais.
Mas vamo que vamo.
Fui, até amanhã. Porque hoje fui pra AREIAS. Areias Brancas.
P.S.: A cidade ganhadora será divulgada pela ONG CBC no dia 31 de julho próximo. A Comissão Julgadora que analisará as candidaturas apresentadas estará formada por representantes do Ministério da Cultura, Ministério do Turismo, IPHAN, Prefeituras de Olinda, São João del Rei e Caxias do Sul, e ONG CBC.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
santa maria capital do cinema
Santa Maria é um oásis no interior do estado quando o assunto é cultura. Não só cultura de bar. É só perguntar pra quem mora lá, ou já morou ou mesmo quem só passou uma noite por lá. As pessoas respiram cultura, se interessam pelas atividades culturais... Só pra ter um exemplo, e provar quanto é diferente de Caxias: se aqui tivessem criado um festival de cinema há 7 anos, ele já teria virado peça de extinção. sábado, 5 de julho de 2008
malandragem...dá um tempo!
depois da barba branca, só o jazz
enquanto isso... em fortaleza
segunda-feira, 23 de junho de 2008
gramado
Explico.
É que como tudo na vida pública, seja a lixeira que você chuta ou a lâmpada de mercúrio lá do alto do poste que você quebra com um tijolo, tudo tudo é controlado pelo governo. E se a lâmpada continua quebrada, só em parte a culpa é do prefeito, a outra parte da culpa é de quem quebrou. Agora se a lâmpada simplesmente queimou a culpa é do funcionário público que não trocou e também do prefeito.
Ossos do ofício. Afinal de contas, ninguém pediu pra ser prefeito.
Voltando à Gramado. E como tem lâmpada queimada e quebrada por lá...ou vai dizer que você também acredita que Gramado sejam só aquelas duas ou três ruas mais centrais? Em Gramado também tem favela, mas lá elas ficam escondidas, embaixo do tapete vermelho.
Well, ao Festival.
O Festival de Cinema de Gramado é coordenado pelo Secretário de Turismo (sic). Seja lá quem ele for. Não importa se é como em Caxias, que gente que nunca leu um livro na vida vira coordenador de espaço público, ou se o cara é letrado na França. Aliás, a tendência é que intelectuais só sirvam pra ser intelectuais e não pôr a mão na massa.
Então, em Gramado, terra onde Michael Jackson deveria morar, visto que a fantasia importa mais do que a realidade, o secretário de Turismo...sic...é o papa do festival. Invariavelmente é um cara que vibra com o Arnold Shwarzenegger e chora com Tom Hanks, e pensa que o Ruy Guerra é panamenho e cantor de bolero.
No entanto, pra salvar o festival do derradeiro fim e do completo desterro artístico, há 3 anos resolveram chamar o crítico Carlos Avellar e o cineasta Sérgio Sanz pra dar mais credibilidade ao certame. É como se pra moralizar o futebol brasileiro, ao invés de matar o Dunga, a gente comesse (no sentido canibalesco) o Ricardo Teixeira. Well, com a vida desses dois bons velhotes, que ainda não têm idade pra ser papai noel, Gramado voltou a respirar.
Mas.....porém....contudo....todovia....Gramado ainda não saiu do coma. Ainda é um moribundo festival. Pra piorar as coisas, não é certo que Gramado manterá Avellar e Sanz como curadores, porque tudo vai depender das alianças políticas. Parece piada, mas é sério. Se a oposição levar...muda o cenário. Ou não?
Parece papo de bêbado esse assunto, mas eu juro que estou sóbrio.
Então, neste ano, enquanto estiver caminhando por aquele longuíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisimo tapete vermelho, cheio de purpurina, pense que o festival pode ter seu fim logo a seguir, dias depois da sua caminhada. Avellar e Sanz estão salvando o festival, mas político - invariavelmente - não se importa com gente como Sanz e Avellar, então é bem capaz que mesmo com a vitória da situação, a dupla vá bailar.
Ou não.
Vai saber.
Em Gramado tudo pode.
Quer prova? Liga lá no Ministério da Cultura e no Ministério Público e pede como andam as contas do Festival de Gramado. Pede se eles conseguiram provar os gastos das últimas edições...
Mesmo assim, é ferro na boneca e dê-lhe investimento da Petrobras, Nescafé...e por aí vai.
Isso ainda vai dar filme. Mas só poderá ser dirigido à moda Hunter.
Fui.
curtas em bh
AQUI Ó.
Entre os destaques, o curta paranaense "Satori Urso", de Rodrigo Grota, que levou o prêmio da crítica no Festival de Cinema de Gramado, em 2007.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
floripa, sem escalas
pelas ruas de paris
Já escrevi mil vezes sobre o Márcio Schenatto, mas escreverei outras mil em breve. É que o Márcio é daqueles exemplos fétidos de que santo de casa não faz milagre. Talvez ele seja o diretor de cinema de Caxias que menos exibiu seus filmes aqui na terrinha. Já venmceu festival em tudo que foi lugar, mas por aqui é menos conhecido do que o personagem que o consagrou.sexta-feira, 6 de junho de 2008
a morte da apatia
quarta-feira, 14 de maio de 2008
saneamento em paris
E não é que Jorge Furtado acabou levando um prêmio em Paris? Já expliquei. Não tem nada a ver com Cannes. Mas valeu a viagem, pelo menos.rumo a paulicéia desvairada
Participam ainda da mostra os filmes Recuerdos da República (2002); Gringo não Perdoa, Mata (1995); Rambú 3, O Rapto do Jaraqui Dourado; A Bruxa do Cemitério (2004); O Homem Sem Lei (2006); Zombio (1999); Minha Esposa é um Zumbi (2006); e O Suicídio (2007).
quinta-feira, 8 de maio de 2008
cinema brasileiro em paris
E aqui o Philippe Barcinski emparedado
É que tá rolando por lá a 10ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, com exibições programadas para o Cinema L'Arlequin. A programação iniciou ontem, com a projeção de "Não por Acaso", de Philippe Barcinski, e segue até o dia 27 desse mês. E não é só de filmes que é feito o Festival de Paris, além dos 44 longas-metragens, haverá exposição de fotos, pockets shows e debates com os diretores.
O festival abriga diversas mostras especiais, além da competitiva. Confere aí:
Mostra Competitiva:
Não por Acaso, de Philippe Barcinski
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Incuráveis, de Gustavo Acioli
Maré, nossa história de amor, de Lúcia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado
Sem Controle, de Cris d'Amato
A Via Láctea, de Lina Chamie
Alucinados, de Roberto Santucci
Fora de Competição:
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Bellini e o Demônio, de Marcelo Silva Galvão
Cidade dos Homens, de Paulo Morelli
Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho
Olho de Boi, de Hermano Penna
Noutro local, na Action Christine, ocorrem as mostras:
Grandes clássicos: Maio de 1968
Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade
Terra em Transe, de Glauber Rocha
Histórias Cruzadas, de Alice de Andrade
Homenagem a Roberto Farias : os clássicos
Assalto ao trem pagador, de Roberto Farias
Barra pesada, de Reginaldo Faria
Com licença, eu vou à luta, de Lui Farias
Pra frente, Brasil, de Roberto Farias
A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura
Roberto Carlos em ritmo de aventura, de Roberto Farias
Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor
Homenagem a Sílvio Tendler: Personagens que fizeram o Brasil
Jango
Os Anos JK - uma trajetória política
Glauber o filme - Labirinto do Brasil
Marighella, retrato falado do guerillero
E por fim, em Le Latina ocorre a mostra de documentários
Documentários do cinema brasileiro
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Ninguém Sabe O Duro Que Dei - Wilson Simonal, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
Encontro com Milton Santos, de Sílvio Tendler
O Coco, a roda, o pneu e o farol, de Mariana Fortes
Condor, de Roberto Mader
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Ginga, de Tocha Alves, Hank Levine e Marcelo Machado
Hercules 56, de Silvio Da-Rin
Mestre Bimba, a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart
Onde a coruja dorme? Bezerra da Silva, de Márcia Derraik e Simplício Neto
A Pedra do Reino, de Luiz Fernando Carvalho
Pindorama - a verdadeira história dos sete anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare
Velhas Guardas, os encontros, de Joatan Berbel
Transocéan, de Adriana Komives
terça-feira, 6 de maio de 2008
o grande chefe
Dez anos depois, chega às locadoras brasileiras O Grande Chefe, produzido por Trier em 2006. Enquanto em Os Idiotas, a câmera disseca um bando de jovens abusando do humor negro em situações envolvendo portadores de Síndrome de Down, em O Grande Chefe, a foco da narrativa é idiotização do manda-chuva de uma pequena empresa afogada em incompetência e mágoas.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
na hora em que eu te quis
Na real eu nunca tive mesmo tanta vontade assim de tornar públicas minhas incertezas. Porque não é como ouvir Adriana Calcanhotto ou Vitor Ramil. Muito menos como carnear uma ovelha. Demora. A Adriana diz: "é o que o tempo leva". E como decidi não mais deixar as coisas espalhadas pela casa, senão não conseguiria mais chamar de casa esse espaço onde acomodo as coisas da minha vida, inclusive meu amor e meu filho, o sentido está em trancafiar. Tudo. Ou quase, porque o Vitor sempre repete: "O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é onde quero estar".
Mas nem sempre é tão bom dar-se conta do inextinguível. É como se eu já soubesse o que insisto em esconder. Ou pior, não ver. Porque meu avô já dizia, antes de esquecer onde colocava o molho de chaves, "que o pior cego é o que não quer ver". E mesmo assim, sem saber onde colocava as chaves da casa o meu vô via sentido no mundo. Nesse mundo. No dele, pelo menos. E nem precisava se preocupar com a horta, nem se o mel escorria pela pia e dava de comer aos gatos quase caolhos de tão magros.
Então o que importa se os melhores filmes vão morrer trancafiados no velho baú? Porque na verdade os seis ou sete são o mesmo. Afinal, só existe um tipo de desejo. É que dentro dele a gente cria tantos outros confusos e difusos, que tudo parece ainda mais complexo do que é. Se pudesse comeria um roteiro por dia. Aos sábados sempre seria do Fellini, porque aproveitaria a narrativa pra sesta. Dormiria sonhando ser o piloto da motocicleta do Amarcord. Enquanto não chega o tempo de comer roteiro sigo aqui a zero por horta lambendo as tigelas de sopa de beterraba. E tem mais uma coisa, não é porque virei vegetariano que vou topar a mesma comida da Adriana. Comer Caetano, não.
Se for pra apelar prefiro carnear umas ovelhas que meu pai cria lá em Criúva. Mas só depois de estender os livros no varal e esperar pela chuva. Meu filho adora jogar futebol na chuva. Na semana passada, antes de trancafiar as coisas da casa no baú, assisti ele deslizar pela grama molhada e vibrar sozinho os gols feitos e perdidos. Porque a cada gol perdido, me dizia ele, o outro eu dele tinha uma nova chance de vencer a partida. Vi ele entrar pela porta da sala, encharcado de chuva e lama. Aí, a Adriana distante de todas as minhas incertezas, pegou o guri pela mão e me olhando disse: "vem vambora, que o que você demora é o que o tempo leva".
Eu demoro. Porque sempre confundo dias e noites. Enquanto escrevo me despeço de quem nem mesmo conheci; amo quem já desamou; esqueço de velhos amigos; e sepulto quem sequer nasceu. "E tudo isso / foi no mês que vem / foi quando eu chegar / foi na hora em que eu te vi". E mesmo sem te ver desisti de trancafiar as coisas da casa no baú. Porque ainda espero rever teu verso rasgando meu peito. Prometo até juntar os pedaços de tudo o que juntos quebramos e reconstruir. Ainda melhor. Mesmo sem manual. Só não esquece o guri no colégio. E vem jantar que hoje a noite tem música ao sabor de um tango muito antigo.
Vambora, amor?
sábado, 22 de março de 2008
Paul e os irmãos Coen na terra do sol
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
ACCIRS
A recém-criada Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) elegeu 'Tropa de Elite', de José Padilha, como o Melhor Filme Nacional de 2007. A associação escolheu ainda 'Império dos Sonhos', de David Lynch (EUA), como Melhor Filme Estrangeiro, e 'Saneamento Básico, o Filme', de Jorge Furtado, como Destaque Gaúcho - Prêmio Luiz César Cozzatti.
A entidade instituiu um prêmio para Destaque Gaúcho com o objetivo de valorizar a produção local e, ao mesmo tempo, reconhecer um título que de alguma forma tenha contribuído para o cinema, seja quanto à linguagem, temática ou forma de produção e distribuição. O nome do prêmio é uma homenagem ao crítico gaúcho Luiz César Cozzatti, falecido em fevereiro de 2006.
A ACCIRS é composta por críticos e jornalistas que atuam nos mais diferentes espaços dedicados ao cinema - revistas, jornais, programas de TV e rádio, sites e blogs.
É a primeira vez na história que o Rio Grande do Sul, terceiro pólo produtor cinematográfico do país e que já conta com três cursos de graduação em cinema, ganha uma associação de críticos.
Votantes
Adriano de Oliveira Pinto
Marcelo Oliveira
Ivonete Pinto
Mônica Kanitz
Jacqueline Chala
Ticiano Osório (abstenção em Gaúcho)
Daniel Feix
Goida
Adriana Androvandi
Marcus Santuário
Paulo Casa Nova
Chico Izidro
Roberta Pinto
Marcelo Perrone
Enéas de Souza
Fatirmarlei Lunardelli
Marcus Mello
Roger Lerina
Robledo Milani
Marcelo Mugnol
* Release oficial de Ivonete Pinto
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Sermão do pai
Mas o pior mesmo é o que aparece travestido. É o que parece, mas não é beeeem assim. Por exemplo, tem gente (diretor de cinema, padeiro, encanador, advogado ou jornalista) que adora enfatizar a lágrima, só ela. Como se nem a pessoa mais existisse ali. Só a lágrima que escorre de um rosto qualquer. Se a lágrima veio de forma natural, se trouxe até alívio, que mal tem?
Só que esse tipo de gente que precisa explorar a lágrima de um sofrido qualquer deveria ser punido com o silêncio. A dor não existe para ser usurpada e controlada com maniqueísmo. A imagem da morte, e que deve perdurar, não é a do caixão aberto, dos olhos estalados, da face branca, e tudo emoldurado pelo sensacionalismo. A imagem da morte é o abraço apertado de quem fica. Isso sem falar do arranjo de lírio, flor do amor puro, que por si só diz tudo sem exagero, sem maneirismo.
É mais do que um ponto de vista, é questão de princípio. Tem a ver com o sermão do pai. Até porque ética e moral se aprende em casa. E não vem com a desculpa de que em casa humilde não tem lei. Respeito independe de condição social, é só procurar. Acha que não? Então me explica por que tem gente estudada, que fez faculdade, e vive de explorar a tristeza alheia?
Se essas pessoas que amam recontar histórias sob o prisma sensacionalista, passassem o mesmo tempo a procura da poesia ideal, que transcende a banalidade, talvez, talvez elas compreendessem a dor. Ou no mínimo, respeitariam aquele olhar desvairado, às vezes com ira, às vezes dopado de tristeza. E soubessem tirar daquela angústia um sopro de lucidez. Porque nessas horas o que menos interessa é qual orelha foi decepada.
Importa o que está por vir. Olhos no futuro, sempre. Não importa como, se agarrado a mão de Deus ou simplesmente dizendo "eu te amo" a quem realmente merece. Mas que coisa mais boboca dizer uma coisa dessas no jornal, TV, internet ou escambau. Onde já se viu fazer um documentário com gente comum que passa a vida fazendo poesia, mesmo sem escrever um verso sequer? Ainda mais numa época dessas que tem gente matando por um real. Questão de princípio, né, pai?
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Nasce morre
Um andarilho desafia a sede. A terra seca racha a sola dos pés. O sol a pino corta os lábios cerrados. Nenhuma nuvem no céu. Quase tudo a perder de vista. Coberto de poeira, José avança. Deixa para trás a tristeza revestida de apatia. E mesmo com as pernas trêmulas dribla a incerteza da próxima curva. Não desiste. Crava as unhas no véu da esperança e arrasta o corpo convalescente.Desafia o improvável e sorri. Não é sarcasmo, muito menos ironia. Não blasfema. Jamais. Sua travessia é assistida pelo divino. Vem lá do céu a proteção. Depois de encontrar a fé perdida no descampado da vida, desistiu até de usar facão. Não precisa do aço afiado. Agora não cabe mais na boca o ódio, só o perdão.
José não virou santo. Não mudou da noite para o dia. Resolveu só experimentar o caminho inverso. Ao invés de descer a lomba, aproveitando o declive para voltar atrás, despiu-se da insegurança e subiu. E nunca mais parou de caminhar. Tem dias que a sola dos pés quase não toca a terra seca. José parece flutuar rumo ao horizonte. Adentro da estrada sem fim.
Não come, não bebe, não pára. Sonha de olhos vidrados, encarando o futuro como quem seduz a mulher mais linda. E mesmo sem dizer uma só palavra José emociona. Nunca teve sua história contada. Ninguém sabe onde nasceu, nem onde morava antes de começar a andar por aí. Não usa lenço, nem documento.
Quando cansa, respira, encara o sol alaranjado, inspira, olha de soslaio para trás, balança a cabeça, como quem diz "nunca mais", pisa forte a terra seca, e caminha. Avante. Contra o sol, a chuva, as rajadas de vento. Contra todos que deixa para trás comendo poeira. José deixa sua marca no rastro do tempo. Mas ele sabe que nem todos enxergam as pegadas.
Preferem seu pesar que anoitece no passado. Porque é mais fácil perseguir a lágrima que desaparece na terra seca, do que o sorriso amoroso de despir o espinho das rosas. Enquanto isso, José nasce e morre todos os dias na lembrança de alguém.
conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Maldita sina do "eu faço"
Voltando. Tem uma leva de gente desinteressante - inclusive em Caxias, lógico, cidade onde tudo nasce -, que insiste vender seu passe pra qualquer posição. É como se o talento pra fazer origami fosse similar ao de rachar lenha. Parece invenção, mas não é. Sério. Pode sair por aí e comprovar. Qualquer lugar serve. Até no Parque dos Macaquinhos onde sazonalmente ocorrem shows, numa rara demonstração de risos e aplausos. E olha que na hora da comédia, no último domingo, o parque tava vazio.
Esse desejo descabido de fazer tudo a qualquer preço é pior do que anúncio de classificados. Nunca se sabe se aquele tão desejado carro, com todos os itens de série, único dono, teto solar e o escambau, não tava submerso no Rio das Antas. E pior, se foi reconstruído com peças encontradas no ferro velho, e não, originais de fábrica. É como diz minha vó: "vendem gato por lebre". O problema, vó, não é o coitado do gato ridicularizado, mas o safado do cara que fantasiou o felino como uma lebre, enfiando chumaço de algodão nas orelhas e...deixa pra lá.
É como aquela padeira, que sabe como poucos vender o melhor pãozinho, quentinho, saboroso, que derrete a manteiga e faz qualquer um babar de gula. Pede pra ela reger um concerto de uma orquestra com mais de 100 músicos cujo repertório contempla toda a obra dodecafônica do austríaco Arnold Schoenberg. Não sabe o que é dodecafonia? Lembra das três notas do punk, que era só um subterfúgio pra virar o mundo de ponta-cabeça? Pois bem, a dodecafonia também queria subverter a ordem, mas ao invés de fixar-se em apenas três notas, Schoenberg desenvolveu séries preestabelecidas de 12 sons diferentes e independentes entre si.
Coisa de loco, né? Mas lá no fundo tem um sentido, mesmo que nas entrelinhas. Pronto, expliquei a piada. Não devia, mas contei. É que eu não descanso. Sei que nada adianta expor os velhos problemas que se arrastam desde quando o primeiro índio que morava por aqui viu sua arte boiando no mar de ignorância. Porque, já que o índio, do alto da sua sensibilidade não percebia que poderia ganhar uns trocados com os potes de barro que produzia, apareceu o astuto colonizador e disse: "eu faço". E desde então, os vasos, roubados, são vendidos como obras preciosas, cujo valor transcende o limite do cartão de crédito.
crônica desta quarta-feira no Pioneiro.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Joãozinho e o mordomo
Tem gente que sente calafrios só de imaginar-se assistindo a um "filme cabeça". O que dizer então de Santiago, que não é só um filme, mas a reflexão de um diretor sobre sua obra? E não uma obra qualquer, mas inacabada. Um projeto iniciado em 1992, mas só retomado em 2005, por não saber muito bem o que fazer com tantas horas de entrevistas, tantos olhares difusos, tamanha insensibilidade de não perceber nos pequenos gestos de Santiago, o filme ali, construindo-se diante do diretor.João Moreila Salles, diretor de Santiago, não é só irmão de Walter Salles, o mais famoso cineasta da família. João é um dos melhores documentaristas brasileiros. Autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos. Faz boa dupla de ataque, marcando gols de placa, ao lado de Eduardo Coutinho (Edifício Master e Jogo de Cena). Santiago era o mordomo da Casa da Gávea, mansão do pai de João. A princípio é um filme sobre um único personagem. João vai então ao apartamento de Santiago, e revela, em preto e branco, um pouco da sua intimidade.
Mas sutilmente João acaba por trazer à tona mais um personagem, silencioso, nem por isso menos atormentado, a Casa da Gávea. Também em preto e branco mostra a casa vazia, os móveis empoerados. E nessa inconstância, João nos entrega o jogo. A narração, em primeira pessoa, acaba por revelar as dúvidas, as contradições e as impossibilidades de montar o filme, reorganizar as tantas cenas filmadas e quase esquecidas pelo tempo. João diz que Santiago o fez voltar à casa da família e reencontrar as imagens daqueles tempos de menino, nadando na piscina.
Todos os planos do filme mostram Santiago mais distante, nunca em close. Lá no fim vamos entender que os planos são todos referenciais à obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu. E João diz que só em 2005, quando voltou a montar o filme percebeu que ele, João, nunca deixou de ser o filho do dono da casa, e Santiago, nunca deixou de ser o Mordomo da Casa da Gávea. E foi por puro maniqueísmo de João que Santiago distanciou-se. Puro preciosismo, incapacidade de entrar na trilha aberta por Santiago. Como no momento em que Santiago quer dizer algo importante a ele, e Jão não quer escutar.
_ Joãozinho, Joãozinho...eu queria dizer que faço parte de um grupo de seres malditos.
_ Não, isso não Santiago...
Nem a câmera registrou o ato falho. Só ficou o áudio e a tela tingida de preto. João reconhece, agora, com o filme pronto, que errou. Não quis romper a barreira entre o filho do dono e o mordomo da casa. Pena. Santiago morreu em 1994. Fica agora só o filme em retalhos, tentativa de reatar cenas dispersas, e as costurar com um presente mais esclarecido, menos compexo do que em 1992. O João de hoje, quem sabe, teria feito outro filme, a partir de outras imagens. Quem sabe. Ele mesmo diz isso durante o filme.
Mas não seria esse Santiago. Seria outro. E esse é genial justamente pelo processo ao avesso. Do diretor revendo seus erros, expondo os problemas diante da platéia. É risível ver João forçando a barra, regravando takes de um mesmo plano. Um documentarista tentando extrair a realidade através das técnicas de ficção. Porque quer ver seu personagem atuando melhor. Nem que para isso tenha de perder a naturalidade. Talvez por isso, pela vergonha de rever-se, João disse quando do lançamento de Santiago que jamais voltaria a filmar.
Jamais voltará a filmar, espera-se, como durante a produção de Santiago. Inseguro, equivocado e insensível. Mas espera-se que volte a filmar com a mesma coragem, ousadia e capacidade reflexiva desse Santiago, finalizado e despido de todo pudor. Esse João de Santiago, montado sob a linha tênue da técnica apurada, despido da vaidade, e querendo dissecar a filosofia desse cotidiano que insiste em revelar-se em um filme melhor e diferente com o tempo. Até a morte da imagem, nem por isso, fim da fruição. Os silêncios do filme, na tela preta, que o digam.
MALDITA UTOPIA
Lógico que esse é um papo filosófico. E se tiveres receio de continuar por medo de sentir-se seduzido pelos argumentos que seguem, podes descer e procurar o trem que vai de volta à Terra do Nunca. Podes voltar pra caverna e ler aquele pocket sobre o Platão. Isso não vai doer nada. Aliás, todo regresso é tranqüilo, nada traumático, e podes ter certeza de que aquele velho ancião que senta na história da cidade não vai escrever que foi por medo de avião que decidiste voltar de trem.
Maldita utopia. E bendita cidade que tem tudo ainda por fazer. Pipocam por aqui microorganismos ávidos por almoçar, jantar e embebedar-se de arte. Sei de gente que engordou 100 quilos em um ano só consumindo arte. Gente que despreza todo o tipo de dieta e só não vai a museu na segunda-feira porque está fechado. Outro não pára de acumular versos dissimulados de poetas forasteiros que fizeram dessa cidade a sua morada. Pena que nem sempre a oferta de arte dê conta de alimentar a tantos famintos.
Agora veio um tal suprimento extra. É um fome zero enriquecido de cultura. Não li a composição das embalagens de comida, mas dizem que agora vai ser possível engordar a gregos e troianos. Não duvido. Hoje tem ração transgênica capaz de fazer boi virar zebu do dia pra noite. Só não vi fazer vaca virar girafa. É o tal dilema da tecnologia genética. É possível um quadrúpede ser mais forte, mas não vi ainda fazer ele enxergar além da cerca de arame farpado. É outro prisma e, aí, vem denovo a sina da maldita utopia.
Mas e o que fazer com quem não tem a mínima sede de arte? A quem interessa mais o produto interno bruto do que a fruição de uma obra, criação de alguma mente insana dessa cidade? O cara da economia, que injeta dinheiro na cidade, pode sentir-se participante desse processo com o que ele tem de melhor: o capital. Não precisa gostar, nem entender, basta patrocinar. Basta alimentar com dindin uma horda de dementes desconectados com a realidade produzindo filmes dia e noite, sem pausa para café ou banho.
Lógico que é uma maldita utopia. Porque os donos dos cascalhos da cidade, armados de pudor e hipocrisia, não cederão aos encantos da arte. Nunca. A cena é tão carregada de asco como transar com um alien. E descabida, como temperar a salada com talco para os pés. Enquanto isso, cresce o produto interno bruto com uma leva de sabonetes que saem das fábricas com carimbo e embalagem de arte. Maldita utopia a da lei CONTRA o incentivo fiscal de tanta porcaria.
crônica desta quarta-feira, no Pioneiro.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
O CARA DA MALA*
Rio de Janeiro, final de tarde. Chuva fina e persistente.Um cara de 30 anos entra no saguão do Aeroporto. Veste bermuda, camiseta e chinelo. Carrega uma mala daquelas que ninguém mais usa, modelo anos 70, bege. Parece atrasado. Gesticula muito, pede ajuda a quem encontra pela frente. Senta-se. Não permanece ali um minuto sequer. Levanta-se. Procura um daqueles televisores que informam os horários dos vôos. Esfrega os olhos no monitor, como se o piloto pudesse ouvi-lo. Sai falando sozinho, tropeçando e xingando a própria sombra. Some do saguão.
O mesmo saguão. Um homem de 40 e muitos anos puxa a fila. Cabelos compridos e encaracolados, camisa azul com flores pretas, calça de tergal de tom terra e óculos escuros, estilão Reginaldo Rossi. Atrás, vem seu filho. Mesmo cabelo, mesmo sorriso debochado, menos brega, mais hype, vestindo tênis Nike e mochila Adidas. Mais atrás ainda, vem uma mulher também de 40 e muitos anos, cara amarrada, cabelos longos e crespos, vestido abaixo dos joelhos, canelas finas e perebentas. Sentam-se. O filho abre a mochila e tira uma revista de mulher pelada. Antes de folhear a primeira página recebe um tabefe de mão fechada, da própria mãe.
Cena 3
Volta o cara de 30 anos. Ainda mais descabelado. Passou os últimos minutos varrendo o aeroporto rastreando o avião perdido. Ainda fala sozinho, cada vez mais alto, cada vez mais desesperado. Confere minuto a minuto o número do vôo, o destino, o portão e o horário (que foi pro espaço). Sacode a passagem como se fosse um lenço branco de súplica. Quase um último sinal de S.O.S daquele chato filme de náufrago. Seria engraçado, não fosse o manifesto sintoma de paranóia, quase esquizofrenia. Avoado, o cara sobe as escadas e desaparece.
A família Trapo, do guri tarado e do pai, sósia do Reginaldo Rossi, adormece no saguão. A mãe acorda e desajeitada levanta-se. Minutos depois, volta correndo, gritando como louca. A última chamada ressoa pelos corredores. É o avião quase partindo, e a mãe em desespero, sacolejando o filho e o marido. Ela corre, parecendo aqueles maratonistas de marcha atlética, tamanha desenvoltura. Assim que cruzam o portão 8, o quase-esquizofrênico reaparece, em segundo plano.
Cena 5
Paranóico, o cara quase-esquizofrênico, persegue uma aeromoça. Agarra-se às suas pernas, e de passagem em punho levanta uma das mãos ao céu. Deseja água como o herege que recebe a provação divina caminhando décadas pelo deserto escaldante. Cai e é atropelado pela mala de rodinhas da aeromoça. Sem largar da mala bege, estilo anos 70, levanta-se de sopetão e corre atrás de uma multidão que se dirige ao portão R6. Antes das crianças e dos anciãos, o quase-esquizofrênico tem preferência. É amarrado a uma cadeira de rodas, olhos e boca fechados, segue paciente pela esteira de carga.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
CASA VAZIA*
Sentei na ponta da mesa. À minha frente, além do javali de olhar cândido, quase de súplica, outros 11 pratos. Cada uma das cadeiras vazias representa uma pessoa em quem eu cravei um punhal. Nunca pelas costas, sempre de frente e com um desejo libidinoso de arrancar-lhe o coração. Aprendi com Maria Bonita, a rainha da caatinga e mulher de Virgolino Ferreira, o Lampião, a ficar à espreita, de tocaia. E com Antônio das Mortes, herói às avessas criado por Glauber Rocha, a não ter pena.
Sorve sempre o amor em tinta vermelha. Acomodo no meu peito o coração que bate em desatino. Aos poucos, passa da euforia à cadência melancólica de uma música iluminada por coros femininos dialogando com harpas e violinos. É como a aurora de um novo dia, sem o peso da dúvida. Por que afinal eu deveria protelar a imortalidade do amor com a incerteza do amanhã, se mais cedo ou mais tarde o sentimento será maculado pelo ciúme, traição e desamor? Melhor o amor eterno guardado no congelador.
Antes de cravar os dentes no javali, um brinde ao amor. Já aos desalmados, que arrastam os dias com sua incapacidade de amar, a quem congelou seus corações antes do suspiro de "eu te amo", a quem amarga as noites em rituais de auto-flagelação e aos pobres mortais devotos do ódio, um cuspe seco no chão. Resta a esse bando de inúteis afogarem-se nesse cotidiano cinza e tenebroso. Às minhas adoráveis mulheres, a dádiva da imortalidade, do amor cândido, insuspeito de ciúmes porque transmuta-se logo após o primeiro "eu te amo".
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
AMANTES CONSTANTES
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
PRÊMIO
O curta custou R$ 2 mil e levou como prêmio US$ 5 mil. Além disso, "Laços" será exibido em sessão especial no Sundance, festival de cinema independente norte-americano. O vídeo pode ser visto em diversos links pelo YouTube, mas estima-se que cerca de 200 mil pessoas já o tenham assistido.
A sinopse é a seguinte: menina conhece rapaz bizarro após a morte do pai.
Assista antes de julgar (sic): aqui.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
UM FILME PUNK
Há muito tempo um filme deixou de ser só um filme. Explico: parece que o interesse é menor pelo que se vê através da tela do cinema ou mesmo pela telinha do computador, e se torna mais relevante a muvuca em torno da obra. Ou vai dizer que "Je Vous Salue Marie" (1985), do francês Jean-Luc Godard, se tornou célebre pela narrativa cinematográfica e não pela polêmica de ter sido vetado pelo Vaticano? Ou ainda o marketing do Manifesto Dogma 95, dos jovens realizadores dinamarqueses que impunham uma série de mandamentos para suas produções.E quer saber, isso não é de todo ruim, o problema é esquecer que lá no fundo todo filme é uma pretensa obra de arte e assim sendo, precisa ser dissecado. "3 Efes", de Carlos Gerbase entra nessa corrente. É um dos primeiros filmes a ser lançado em diferentes mídias ao mesmo tempo: televisão, salas de cinema digital, DVD e internet. Felizmente, Gerbase, que é inegavelmente um dos realizadores mais importantes do estado, e ainda não tem boa repercussão no Brasil, seja do público ou crítica, meteu o dedo na ferida e diz que faz cinema, seja ele captado pela bitola que for, super-8, 16mm, 35mm, digital, ou o escambau.
"3 Efes" conta a história de uma série de personagens, interligados pela teoria do professor Valadares. Para ele, a humanidade depende de três apetites: fome, fasma e foda. Fome e foda não precisam de explicação. Mas fasma, pra quem não sabe, é o apetite de imitar a vida, assim como ocorre nos sonhos, pesadelos, fantasias, e claro, nos filmes. Revendo a filmografia de Gerbase, 3 Efes parece ter sido gestado como uma seqüência natural aos curtas-metragens "Deus ex-Machina" (1995) e "Sexo & Beethoven" (1997). No entanto, entre os curtas e "3 Efes" vieram os longas "Tolerância" e "Sal de Prata".
Nem "Tolerância" (2000), nem "Sal de Prata" (2005) tiveram a recepção idealizada. Não abarrotaram salas de cinema, não causaram frisson da crítica. Mas "3 Efes" é diferente, já nasce despido de toda pompa. Nasce mais como desejo de um cineasta que precisa fasmar como louco, sem se preocupar com o dia seguinte, com a bilheteria, com as péssimas críticas nos jornais. '3 Efes" não é uma obra-prima. Gerbase não ficará eternamente conhecido pela jogo de cena, nem pela estética, tão pouco pela harmonia do conjunto de atores.
Só que "3 Efes" é a justa medida do cineasta que revê sua obra e parece ter reencontrado o caminho que sempre perseguiu e lhe deu prazer. Não é só porque o filme fala e mostra sexo, a tal foda dos 3 efes, nem porque expõe os casais da história aos defeitos e contradições que em última instância refletem as vidas de todos nós, pobres mortais. "3 Efes" é coerente com Gerbase, porque revela a sua maneira de perseguir a vida dentro do cinema: arriscando, experimentando. Com simplicidade, sem perder de vista as viagens pretenso-filosóficas, e lirismo, temperado com boas doses de sarcasmo para não virar piegas.
Aqueles três acordes da vida como Replicante mostram-se imprescindíveis nessa retomada de Gerbase. Mesmo que pareça tão delirante quanto aquele refrão: "Os cegos também vão ao cinema", do LP "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", do tempo em que Gerbase virou vocalista dos Replicantes. Com 3 acordes ou 3 efes, Gerbase parece sedento por um mosh, louco para voar de braços abertos para a platéia. Estejam os espectadores abertos ou não ao seu irrequieto e incansável desejo de fasmar. Enfim, mais um filme punk do Gerbase.
Casa de Cinema, comédia dramática, 100min, 2007.




