sábado, 10 de junho de 2006

Mugnolini contra o velho da Kombi

Para ler ouvindo Cowboys, do Portishead

O tiro rompeu o baço. Não sangrou. Não doeu.

Seguiu caminhando. Atropelando a ansiedade, tropeçando na inquietude. Sem cigarros entrou na primeira espelunca. Acomodou-se no balcão. Pediu a especialidade da casa. No balcão um velho amigo que servindo algo que jamais tinha bebido. Desconfiado, olhou em direção da porta antes de tomar num gole só aquele copo borbulhante, de líquido amarelado e cheiro defectível.

Bateu forte com o copo na mesa. Limpou a boca com a manga da camisa branca, deixando um rastro amarelado. Tudo então ficou lindo e colorido. O mundo em câmera lenta, vozes arrastadas, olhos esbugalhados. Virou-se para trás e viu uma mulher loira descabelada cantando sobre uma mesa. Sacudiu a cabeça. Levantou do banco e tomado de uma raiva contida, vociferando como um mamute rouco da amidalite chutava cadeiras e derrubava copos e garrafas das mesas.

Não sentiu nada antes do soco. Um cruzado de esquerda. Caiu sobre uma pilha de garrafas vazias e adormeceu. Dois outros cavalheiros encarregaram-se de arrastá-lo para fora do bolicho. O bar ficava numa elevada. Nosso amigo então foi rolando morro abaixo. Acordou. Sacudiu a poeira e levantou. Atravessou a rua e tomou o primeiro ônibus que apareceu. Linha 40? Não, linha 20, respondeu o cobrador. Tudo bem, pego dois de 20, então. E sentou-se ao lado do motorista. Desceu na parada seguinte. Tomou outro Linha 20 e desceu na última estação.

Olhou para os lados. Alto da madrugada. Acendeu o último cigarro da carteira e seguiu pela rua, chutando uma lata de sardinha perdida na sarjeta. Três quarteirões depois, um bando de chinelos jogava conversa fora. Assim que avistaram nosso caríssimo amigo, foram pra cima dele. Sem titubear, nosso compadre puxou da cintura um revólver e disparou seis balas. Seis moleques caíram como saco de lixo lançado no banhado. Sorriu, guardou o revólver. Seguiu pela mesma rua. Tirou uma anotação do bolso: “Terceira casa à esquerda depois dos disparos”.

Entrou na casa, puxou pelos cabelos uma menina. Amarrou-a, vendou os olhos e deixou-a na calçada. Voltou e tirou da casa outra mulher, mais velha. Mesma coisa. Leia o que ele fez com a menina fez o mesmo com essa mulher mais velha. Voltou e arrancou a tapas um senhor careca e bigode preto. Tirou as calças do velho e bateu com um sarrafo de taquara. O velho caiu de joelhos e espatifou os dentes no jardim da casa. Amarrou uma corda nas pernas do velhote e na outra ponta prendeu a Kombi estacionada em frente da casa.

Desvendou a menina e a mulher e disse: “Divirtam-se”. As duas entraram na Kombi e saíram pelo bairro arrastando o velho pelas bibocas, passando em todas as ruelas por onde o velhote saia a caçar suas menininhas.

E assim termina mais uma história do nosso herói do desenho inanimado que você pode ler todos os sábados aqui na sua telinha. Um dia desses teremos dinheiro para rabiscar essas cenas papeleiras.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

não

A casa não fechou. Só tô ocupado limpando e pintando o teto. Não ficará como o teto das capelas das igrejas pintadas por ateus. Ficará melhor.

Se tiverem paciência...Buda ensinará o caminho. Se tiverem pressa e muito dinheiro, rapidinho dou um jeito nisso.

Fui.
Até ontem.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

andróides e ligantes e guitarras elétricas

Imagine um som tosco e rasgado de guitarras soando um timbre de raiva e mandando se foder. Em segundo plano um ruído andróide perfurando os tímpanos. Já na primeira audição dos primeiros acordes é impossível não gritar: "Andróides sonham com guitarras elétricas".

O novo CD da Ligante Anfetamínico será enviado sexta-feira pra prensa. Que venha logo.

sábado, 20 de maio de 2006

Um dia desses, na beira de um rio fumegante de frio, ouvi Oblivion. Caminhei rio adentro, pés gelados e o sangue bombando desenfreadamente. A melodia fisgava meu corpo como se fosse uma bando de piranhas rasgando a pele. Fechei os olhos e segui caminhando. Atravessei o rio, atrás um rastro de sangue. Do outro lado do nevoeiro, Piazzolla seguia tocando Oblivion.
- Eu tiro o que é da vida e entrego à morte. E quero que você continue devolvendo à vida cada morte sua.

foto: mugnolini

sexta-feira, 12 de maio de 2006

domingo

MONOsoudz no zarabatana domingo.....

pra não dizer que hoje também não tem nada

A brisa lá fora espanta o sossego.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

mil dias depois

antes da morte consumada
o coice
depois da ira
o verbo
um dia desses
a vertigem
de uma noite maldormida
enfim.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

dia 15, nas lojas




Dia 15 a Trama lança o CD do Arctic Monkeys.
Whatever People Say I Am, That´s What I Am Not vendeu cerca de 400 mil cópias na semana de lançamento na Inglaterra.

sábado, 1 de abril de 2006

domingo

Moishesouds domingo no Zarabatana.
É de graça.

sexta-feira, 31 de março de 2006

sim

Sim, o Radiohead vem pro Brasil, escreveu hoje o colunista Lúcio Ribeiro, da Folha de São Paulo. Os caras virão pra tocar no Tim Festival 2006, que ocorrerá em São Paulo entre outubro e novembro, data que pode ser marcada atendendo as necessidades de agenda do grupo de Thom Yorke.

Era isso....
não desgrude da vela.

terça-feira, 28 de março de 2006

ponto final





Tá achando que tem muitas fotod da Scarlett Johansson? É que ela é protagonista do filme Ponto Final, do Woddy Allen. A ordem das fotos, tudo mais, é só uma questão de...de...acaso. Até porque sem o carinha da última foto não sairia o filme.

Mas tudo isso é só um pretexto pra dizer pra vocês que , filme mais recente de Woody Allen, estréia (ATÉ QUE ENFIM) nesta sexta-feira, dia 31, em Caxias.

Horários e etc. e tal, leiam no Pioneiro, nesta sexta.

nova e velha geração róquenrol!

É coisa de Contigo!, mas esse flagra é do Revival Rock Gol, que ocorreu sábado, dia 25. Na foto-social Esqueleto aparece ao lado de um fã que sequer conhece a Mulher Ocupada da Ligante Anfetamínico. O clique (como escrevem nas revistas do gênero) é da fotógrafa, bailarina e atriz Carolina Campos. Se quiser vê-la em cena assista ao filme Uma Certa Noite Vazia.

quinta-feira, 23 de março de 2006

salve jorge

Pelas graças de São Jorge, como diz o jornalista Carlinhos Santos na coluna 3por4 do Pioneiro de hoje, oremos para que o Radiohead venha tocar no TimFestival.
O Tim Festival negocia há cinco anos a vinda da banda, e espera confirmá-la esse ano, provavelmente em outubro.

Shows já confirmados:
Copenhagen KB Hall (6 e 7 de maio)
Amsterdam Heineken Hall (9 e 10 de maio)
Blackpool Empress Ballroom (12 e 13 de maio)
Wolverhampton Civic (15 e 16 de maio)
London Hammersmith Apollo (18 e 19 de maio)
V Festival (19 e 20 de agosto)
Edinburgh Meadowbank Stadium (22 de agosto)
Dublin Marlay Park (24 de agosto)

Oremos, pois.
Segue um mantra que pode ser entoado infitas vezes mesmo depois do fim do show.

If you think that you're strong enough
If you think you belong enough
If you think that you're strong enough
If you think you belong enough

[Just as well Just as well Just as well]

Nice dream, nice dream
Nice dream, nice dream

quarta-feira, 22 de março de 2006

protesto de olhos bem abertos

foto reuters

Estudantes na China protestam contra a modificação
no atual sistema de cotas para exibição de filmes
nas salas de cinema da Coréia do Sul.

sábado, 18 de março de 2006

vaia de bêbado não vale

Ó, nem vem. Se já bebeu uma vezinha na vida, não vale tocar pedra. Tá vendo a fotinho aí acima? É de um encontro na Espanha que mobilizou 20 cidades e acabou em pancadaria. Até aí, tudo bem, novidade nenhuma. O causo é que a baderna foi provocada por uma galera que queria quebrar recordes. Explico.

Um bando de jovens se reuniu em cidades espanholas na sexta-feira à noite para tentar promover um recorde de bebedeira na rua, conhecida como "botellon" (garrafão). "Botellon" é tão somente ficar na rua e beber. O saldo disso? Confrontos entre jovens espanhóis e policiais deixaram 80 feridos e 70 presos em Barcelona e Salamanca.

Olha o tamanho da muvuca: Granada (25 mil participantes), Salamanca (2 mil) e Barcelona (30 mil). E, Barça, reinado de Ronaldinho Gaúcho, 68 pessoas, incluindo 37 policiais, ficaram feridas e 54 foram presas.

Ainda em Barcelona, onde ocorreram confrontos pesados, os bombeiros foram chamados para acabar com 50 focos de incêndio. Vitrines de lojas foram quebradas e muitos estabelecimentos saqueados.

sexta-feira, 17 de março de 2006

coletivo shanghai - entrevista

da esquerda pra direita lefonque,
salvatore, zuwaraj e zuzuwah


Da China e sempre de volta à China
Assim como a parábola do filho pródigo, o filho retorna a casa. Entrando e saindo de coletivos, encarando desilusão atrás de desilusão, na rabeira do provável reencontro, 4 rapazes de olhos puxados correram o mundo em busca de Wang Zu.

Ao retornarem para a pequena aldeia cravada entre as montanhas, entregaram às pessoas o legado se sua memória. Nessa dura caminhada, não só encontraram a essência de Wang Zu, como deram início a uma nova Era.

Leia a seguir uma entrevista EXCLUSIVA com Lefonque (baixo), Zuzuwah (guitarra), Zuwaraj (programações) e Salvatore (saxofone). Nela, os caras falam sobre a transitoriedade e o caos. Revelam ainda, onde andará Wang Zu.

[mugnolini] Durante esses dois anos em que vocês ficaram fora da cidade natal, correndo o mundo afora procurando por Wang Zu, que tipos de sons vocês mais se identificaram? De que região do mundo?
[lefonque] Olha, eu gostei bastante da música negra americana, aquelas linhas de baixo groovadas me seduziram.
[zuzuwah] Bom, eu gostei bastante da galera das bandas de Los Angeles do fim dos 90s, principalmente Jane´s Addiction, Porno for Pyros e Red Hot Chili Peppers. Bem violent and funky.
[zuwaraj] Curto as broken beats da Alemanha e o uk garage londrino. Fora o drum and bass, que é o retrato da periferia inglesa.
[salvatore] Pra mim, a parte da viajem mais proveitosa foi a passagem pelos clubs de jazz parisienses, que já abrigaram todas as figuras ilustres do jazz americano e mundial.

[mugnolini] Vocês acham que é importante, ou mais, imprescindível até, viver afastado dos grandes centros urbanos para compor? Vocês se sentem vivendo numa ilha? Se sentem bem de volta ao interior da China?
[zuwaraj] Hoje em dia, com o advento da banda larga, eu consigo me manter conectado com a música mundial através do meu notebook com wireless.
[lefonque] Gosto muito do barulho do vento, da natureza, da neve pesando sobre os galhos das árvores castigadas pelo inverno rigoroso chinês.
[zuzuwah] O Lefonque falou tudo, o silêncio tem um enigma, uma paz, que é imprescindível para minha criação.
[salvatore] Não concordo, pra mim quanto mais barulho, poluição e asfalto, melhor. Quero o caos sonoro!!!

[mugnolini] Essa travessia mundo afora fez de vocês ocidentais? Qual é o legado mais importante da cultura chinesa que vocês perpetuam?
[salvatore] Para onde quer que eu vá, sempre levo a China comigo. Pois é daqui que eu vim, e somos a nação do séc XXI.
[zuzuwah] Que papo mais capitalista, Sal. A China hoje anda meio ocidental, admito. Mas não dá pra esquecer que nossa cultura é milenar, somos os pais da Ásia!
[lefonque] Vocês são uns doidos, isso sim (risos).
[zuwaraj] Eu carrego comigo a leitura de 5.300 caracteres chineses. Isso ninguém me tira!

[mugnolini] E afinal de contas, o que aconteceu com Wang Zu, onde andará?
[zuwaraj] Ele se transformou em música!!!
[salvatore] É isso aí!
[zuzuwah] Um acorde dissonante menor, com 7°.
[lefonque] Eu ainda acho que ele foi pro Brasil e virou o Djavan!!!!!!

hoje, no zarabatana

Vai ouvir alguma coisa que preste...vai pro Zarabatana ouvir Grelhados.

Gabriel - Guitarra
Zuzuwah - Saxofone
Nick - Percussão
Lalo - Bateria
Rael - Baixo

quinta-feira, 16 de março de 2006

por amor, ana ceifou a dor

De tanto eu te falar você subverteu
o que era um sentimento e assim
Fez dele razão... Pra se perder no
abismo que é pensar e sentir.
(Rodrigo Amarante, em Sentimental)

Deitado no pátio. Não um pátio qualquer, mas o meu pátio, onde guardo as minhas lembranças. As memórias se esvaem como a chuva que penetra terra a dentro e some na vaguidão. Mas se recordar é viver, insisto. Silencioso, ora afoito, ora lânguido, mas persisto. Há cinco dias, às 5 horas da tarde, encaro um ritual nada convencional. Não alivia a dor, não devolve a calma, não traz ao peito a mão que ardia em desejo. Mas insisto.

Deito à sombra de uma árvore. Espero paciente o vento derrubar as folhas secas. Dançam no ar e caem sobre o meu corpo. No último resquício do dia, antes da lua invadir o céu, meu corpo todo é coberto. Folha sobre folha, embaralhadas pelo tempo. Entra a noite. Eu ali, corpo entregue à decomposição. O silêncio é quebrado pelo som das formigas transitando entre meu corpo e as folhas secas.

Não interrompo o ofício das formigas, porque elas ajudam a acelerar meu percurso. Rasgam as folhas antes do tempo real de decomposição. Cada picote, mesmo que minúsculo, abranda minha raiva, minha angústia, minha incapacidade de domar o tempo. Porque o único remédio para o desencanto é rasgar o ventre e silenciar o coração. Mesmo quando acaba, mesmo que há cinco dias isso venha se repetindo e parece nunca se aproximar do fim, ainda sinto as formigas trabalhando. Sorve um punhado delas pelas narinas.

Amanhece e o ritual precisa ser estancado, porque mesmo ávido pela decomposição do tempo, é preciso respeitar o limite do esmorecimento. A purificação do corpo em putrefação precisa de perdão. Se até a alma mais carola, se entrega à remissão dos pecados, porque um corpo como o meu, que jamais esquivou-se dos encantos do amor, mesmo àquele malfeito, sob a luz vermelha, não precisaria de um ritual de perdão?

Sexto dia. Olhos cinzas, embotados de lágrima, fitando o nada através da janela. Nada além de um punhado de folhas secas dançando num canto do pátio. Silêncio. Por amor, Ana ceifou a dor.

Conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.

quinta-feira, 9 de março de 2006

quando os lírios se fecharam

pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei
(Minha Casa, de Zeca Baleiro)

Morde os meus desejos. Porque os teus o tempo desperdiçou. Lançou pia adentro. Estão agora lavando o musgo enraizado nas pedras de um riacho amaldiçoado. Desisti quando as flores de lírios se fecharam. Quando abertas, alvas e perfumadas, tragavam os dias aflitos e as noites maldormidas. As flores conduziam a paixão pelos corredores da casa.

Nem o piano resistiu. E não por desamor, mas desencanto. Porque o tempo de decomposição transformou o lirismo em brisa soturna. A vivacidade perdeu o ritmo, a cadência. Porque se antes o samba preenchia a casa com as armas de Jorge, mais tarde, as mesmas notas, dessa vez embaralhadas, trôpegas e amarguradas, espalharam vertigem.

Trouxe todos os animais do pátio para dentro de casa. Preciso espantar o orvalho avermelhado que mancha as paredes e o assoalho. O carinho vem do cisne, roçando seu bico na minha canela; o medo, da ovelha, girando ao redor de si mesma, como cão querendo morder o próprio rabo; a raiva do zebu, chifrando as portas e janelas trancafiadas; o definhamento, da cobra, paralisada, deixando o tempo esfarelar sua pele.

Não haverá, porém, tempo de renovação. Não há religião que explique nada e me traga algum sentido nessa hora. É o fim. Abrupto. Não espero nada diferente. E nenhuma dor superará o que meus olhos já apreenderam durante essa jornada. Nessa dura caminhada, sozinho, enfrentando desarmado aos espectros de todo o sempre, não sei quanto tempo ainda resisto.

O carinho morreu e adormece no bucho da raiva. O medo avançou sobre o tempo de definhar e foi picado. Arde em febre. Não há mais janelas nem portas e as paredes caíram sobre as últimas lembranças. Se ainda havia algum sonho o teto desabado encerrou esse ciclo. A raiva suplica, cai de joelhos e tomba ao meu lado.

Se o sorriso é a última faceta antes da derrocada, não sei. Mas é deliciosamente narcotizante.

Conto publicado hoje no Pioneiro.

terça-feira, 7 de março de 2006

como matar o tempo

o tempo de decompo tempo de decomposição
(Arnaldo Antunes)