terça-feira, 19 de junho de 2007

primeiras impressões de 'Saneamento Básico, o Filme'

foto: Leopoldo Plentz, divulgação



Pra quem tá bem lôco querendo saber como é o novo filme do Jorge Furtado ("Saneamento Básico, o Filme"), eis abaixo trechos do texto postado no blog do Estadão, pelo crítico Luiz Carlos Merten.

"Reconheço que talvez vá cobrar de Jorge Furtado uma coisa que ele não quer. Jorge fez um dos grandes filmes do cinema brasileiro, não importa que seja um curta - "Ilha das Flores". A expectativa que ele gerou, a partir daí, pelo menos para mim, ainda não foi satisfeita. Jorge tem feito filmes que me parecem de turma, na Casa de Cinema. "O Homem Que Copiava" era uma coisa mítica. Há anos se falava que ele queria fazer o filme. No intervalo, Jorge fez rapidinho "Houve Uma Vez Dois Verões". É outro filme de turma, com o filho, os amigos, e para mim é melhor! É o meu longa preferido dele. Jorge é um cara inteligente, não raro brilhante. Integrei a comissão da Petrobrás que avaliou o roteiro de "Saneamento Básico" e votei para que fosse selecionado.
(...)
Jorge é inteligente, mas esses filminhos de mercado que a gente mal vê e já esquece me cansam, confesso. Comparem com "Lisbela e o Prisioneiro", que eu sei que muita gente não gosta. Existe ali um desenho de personagem que me atrai. Eu fico com Lisbela e Leléu no fim da projeção. Carrego Débora Falabella e Selton Melo comigo. Posso achar a Camila nota 10, a Fernanda Torres idem, mas "Saneamento Básico" é 5. Não é para ser do contra. Espero que faça sucesso. Só me deixem fora dessa. Não vou dizer que é maravilhoso, porque não me parece".

Globo Filmes, divulgação

À propósito: A cena final de "Lisbela e Prisioneiro" carrego no colo como imagiário do cinema. Por todo o sempre. E, amém.

domingo, 17 de junho de 2007

ousadia tem cheiro de estranheza


Bem-vinda estranheza, sobretudo se vier da televisão. Dizer que A Pedra do Reino, microsérie exibida entre terça e sábado da semana passada, na Rede Globo, subverte a linguagem da televisão é chover no molhado. A importância desse novo projeto do diretor (e visionário) Luiz Fernando Carvalho só será medida quando propostas como A Pedra do Reino desaguarem por todas as emissoras de televisão do Brasil.

Porque televisão não pode ser só um aparelho que mastiga fórmulas ultrapassadas e segue idiotizando as pessoas para todo o sempre e amém. A televisão precisa ser uma janela para a fantasia, para o absurdo, para o sublime. Não cabe mais nessa telinha o beijo do mesmo gosto. É preciso dar vazão a virulência de gente como Carvalho, que traz as infinitas cores do cinema para dentro da televisão.

Porque a saída do cinema no Brasil é invadir a televisão. Já que os filmes da novíssima leva de cineastas não chegam ao público, por mil e um motivos que não cabem em 25 linhas de texto, a saída é invadir a televisão. Carvalho fez isso. Depois da luta descabida por levar aos cinemas do Brasil o filme Lavoura Arcaica, que tinha apenas cinco cópias, Carvalho encontrou na televisão a nova morada da sua fértil imaginação.

Depois de A Pedra do Reino virão ainda outras três microséries: Dois Irmãos, Capitu e Dançar Tango em Porto Alegre. Espero que sejam obras tão abertas como A Pedra do Reino. Obras que permitam a fruição de cada espectador, com suas angústias e limitações. Que tenham o mesmo gosto da estranheza dos filmes de Glauber Rocha, Dziga Vertov e Andrei Tarkovski, inspiradores das narrativas de Carvalho.

sábado, 16 de junho de 2007

pior do que chocolate quente com leite em pó

Não há um argumento sem discordância. Tudo o que se diz sobre Gramado e sobre o interesse das pessoas por Gramado é bobagem, é pior do que boato, é inútil. Tudo se dissipa no tapinha nas costas. Tudo se dissipa na exorbitância dos preços sem noção. Tudo deságua no atendimento pífico, na comida sem gosto, nas malhas sintéticas e no chocolate quente de leite em pó.

Tá aí: Gramado anda pior do que chocolate quente com leite em pó.

fui pra Canela.

terça-feira, 5 de junho de 2007

resenha

UM DIA NA VIDA, de Jorge de Jesus

O segundo filme é sempre mais fundamental do que a estréia. Assusta menos ao realizador e suscita mais a curiosidade do público. Em alguns casos é definitivo. Se o diretor não apresenta um bom trabalho, no mínimo uma evolução da obra anterior, pode ser que o limbo do esquecimento seja o único paradeiro.
O videasta caxiense Jorge de Jesus tá nessa. Recém lançou Um Dia na Vida, seu segundo curta-metragem, e espera agora colher mais frutos do que com Sapateiro (2004). Os dois foram produzidos com recursos do Fundoprocultura. Os dois tem como fio condutor, a crítica social.
Em Sapateiro, Jorge pega pesado e mete o dedo na ferida escancarando a venda de cola de sapateiro. Em Um Dia na Vida, há mais poesia quando o diretor relaciona o abandono de um mendigo (Marcelo Casagrande) jogado nas sarjetas de Caxias ao dilema de uma menina mimada (Fernanda Rodrigues) que não consegue resolver seus problemas.
Um Dia na Vida é melhor do que Sapateiro. Tem um roteiro mais apurado e estabelece uma maior empatia com o espectador. O que aproxima o público é a inesperada atuação da atriz Fernanda Rodrigues. Geralmente sem sal nem açúcar, ela parece avançar sobre o espectador. Quanto maior a angústia da sua personagem, maior a entrega de Fernanda.
Outro destaque é o ator Marcelo Casagrande. Mesmo sem pronunciar uma palavra sequer seu personagem rouba a cena. Essa boa repercussão do filme não deixa de ser um pedido de desculpas pelo atraso no lançamento. Gravado em 2004 só estreou dia 11. Na saída da sessão, uma funcionária da Secretaria da Cultura disse:
– O filme tá muito bom, diz pro Jorge que ele tá desculpado pela demora.

Curta-metragem, drama, 2007. À venda pelo site www.doarcodavelha.com.br

sábado, 26 de maio de 2007

sobre Caravaggio, o filme, não a Santa

É fácil falar mal do filme Nossa Senhora de Caravaggio. Há problemas graves de produção, figurino, direção de arte e interpretação dos atores. O roteiro narra três momentos históricos distintos, 1432, 1875 e 2004. No entanto, fora o enredo, não há um conceito estético que os una. Mas nada disso importa. Fábio Barreto não é dado a essas "frivolidades" do cinema. Ele prefere o formato televisivo, do dramalhão, ou como se diz nas universidades, do melodrama.
Antes mesmo da estréia, o produtor executivo Hilton Kauffmann avisava:
– Nossa Senhora de Caravaggio não é um filme para intelectual. Ele tem o tom de uma novela das sete.
E talvez seja por isso que, mesmo sendo uma produção a partir de uma Santa da região da Serra, bem menos popular do que o Padre Cícero, por exemplo, possa alcançar o sonhado número de 70 mil espectadores no Brasil. Nossa Senhora de Caravaggio só quer contar a história de pessoas devotas à Santa. Narra o cotidiano de mulheres sofridas que, não apenas rezaram por dias melhores, mas decidiram elas mesmas mudarem o rumo de suas vidas.
O destaque é o padre Gusmão (Sidnei Gomes Borba). Ele não é só uma figura carismátrica. Não apenas conduz os personagens pela trilha da fé. É o padre quem atrai os espectadores e os coloca no mesmo plano dos conflitos de Joaneta, Gomes, Angélica e tantos outros.

piada de agouro

voltei.

hahahaha.

domingo, 25 de março de 2007

esse é o que tava no site da piauí

Navalha na carne

Delta do Nilo. Sol à pino. Pés descalços fervendo sobre a areia. O perdão não custa quase nada, mas o velho não se rende. Crava a bengala na areia fofa e arrasta o corpo. Lábios secos, olhos cravejados de raiva. O velho nunca quis nada além do afago, do sorriso, do beijo eternamente apaixonado. Sentado na varanda o velho ainda moço fitava o horizonte, vislumbrava as tardes de não fazer nada ao lado da mulher amada. Imaginava-se comendo pêras, nunca engolindo farpas.

Conheceram-se numa tarde de chuva. Vento forte de destelhar casas. Alice, menina de cabelos loiros e longos, pele branca e olhos verdes, translúcidos, corria pra lugar nenhum tentando se proteger da calamidade. Khalid, alto, forte, deparou-se com Alice numa das esquinas movimentadas do centro de Cairo. Olho no olho, Khalid e Alice, encharcados de chuva, sorriram. Nenhum beijo, nada. Só o silêncio da ternura. A quietude durou quase nada porque um carro buzinava enlouquecidamente.

Alice nem disse adeus, só entreolhou através dos cabelos molhados, sorriu e correu para o carro. Khalid reconheceu o amor em breves segundos de caos. Nos dias seguintes, enquanto os moradores e comerciantes recolocavam as coisas em ordem, Khalid passava as tardes à espera de Alice. Na mesma esquina. Alimentando o desejo de voltar a vê-la, com o mesmo sorriso e ternura, com a mesma graça. Um mês depois, Alice sai do mesmo carro daquela tarde chuvosa, estacionado no mesmo lugar.

Se fosse um filme a cena seria em câmera lenta com uma música de Tom Waits antecipando o encontro. Alice de óculos escuros, salto agulha, vestido esvoaçante, não parecia nada vulnerável. Khalid se aproxima. Alice baixa o óculos e por cima observa Khalid. Tira da bolsa uns trocados e entrega a Khalid.

– Por que essa merda de dinheiro? Eu te amo, não quero nada além de um beijo lascivo e interminável.

– Cala a boca, seu podre, mentiroso e moribundo – retruca Alice.

– Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!

Depois da queda, a foice. Num só golpe.

minha culpa

- O que o Dunga viu nesse goleiro que é reserva do reserva no Grêmio? Pra que convocar ele? - diz a mãe do Maneka.
- Mãe, essa reportagem quem fez foi o meu amigo, o Mugnol, aquele que a senhora diz que é meio louco e escreve umas coisas estranhas sobre cinema... - explica Maneka.
- Ah, então tá explicado. Só podia ser coisa desse maluco... - desafaba a mãe do Maneka.

sábado, 3 de março de 2007

trailer

Tá disponível no YouTube o trailer do filme "Cão se Dono", do Beto Brant.
É uma adaptação ao livro de Daniel Galera.

http://youtube.com/watch?v=uMKTr3z07q4

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

vai lá

conto meu no site da revista Piauí.

vai lá.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

o sonho da quase rainha

Em algum lugar do litoral norte, numa dessas praias de mar revolto, areia suja de cacarecos e vento nordestão, uma família feliz decide o futuro da filha.
– Mãe, tô estressada. Preciso descansar, de preferência bem longe daqui.
– Olha minha filha, eu também acho. Depois de cinco anos de faculdade você merece!
– Quer passar o Carnaval em Bombinhas? Papai aluga uma casa com piscina.
– Ai pai, Bombinhas?
– O que é que tem minha filha?
– Bombinhas tem tanto caxiense quanto aqui. Lembra que a gente foi no verão passado e a mamãe reencontrou as colegas do ginásio?!?
– Ah, sim a Lorena, a Evilásia, nossa quanto tempo eu não as via.
– Mãe, cala a boca...
– Respeito com sua mãe.
– Tá desculpa, mas é que vocês me deixam p* da cara. Eu preciso viajar, correr o mundo...
– Papai tem amigos em Pádova, na Itália...
– Pai, eu odeio a Itália. Não suporto gringo!
– Não suporta essa gringada, mas implorou pra concorrer à rainha da Festa da Uva, né?
– Sabe por que eu queria ganhar? Pra mostrar como deve se portar uma verdadeira rainha.
– Parem vocês dois. Que coisa feia, as pessoas estão olhando.
– Esse bando de véio tarado vem a praia só pra ficar babando mesmo...
– Chega minha filha. Afinal de contas, qual lugar você sonha conhecer?
– Londres...
– Londres? Nem morta.
– Por quê, pai?
– Filha minha não vai pra Londres trabalhar em bordel nenhum!
– Tá me chamando de p*, seu velho safado? Quer dizer que o senhor, um profundo conhecedor desse universo, reconhece no meu olhar um certo talento para a safadeza?
Depois de um tabefe na orelha, Laurinha recebeu o afago da mãe. A dois dias, Evaldo, amigo do pai, ligou avisando que vai tudo bem com a menina.
– Ela é uma menina especial. Esse duplo carpado inclinado tá fazendo o maior sucesso por aqui – revela.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

boa viagem

No pátio tem musgo, aquele velho balanço brinca ao vento e duas meninas jogam dardos nas costas do tempo. O vento derruba as folhas secas daquela árvores esguia. É quase noite. Um extraterreste vestindo uma camiseta com a estampa da Virgem Maria tira uns sons estranhos de uma escada de ferro. É ruído, pré-música, substrato para a vaguidão. Entre uma batida e outra nos degraus da escada de ferro, outro lunático dá porrada numa calha roubada. O som é assustador.

O extraterreste gosta de filmar o desespero numa câmera bem pequena, quase de bolso. O lunático prefere o tique-taque do relógio. Em comum, eles só têm o mesmo deus, Pasolini. Sem ele, o mundo seria um tédio, acreditam. Conheceram o cineasta italiano numa festa regada a Daime. Pouco vinho e muito Daime, aliás. Pasolini entregou a eles, um frame do primeiro curta-metragem jamais exibido. Agradeceram beijando seus pés.

O lunático chama-se Moisés. Ele não é da tribo dos Levi, como o famoso Moisés, aquele da Bíblia. Moisés é da tribo dos Moimats. Colhe uva no verão e instala parabólicas no inverno. Depois do primeiro choque, trocou o nome para Moishe. Acredita na reencarnação como pressuposto para a virilidade. Durante o período em que morou nas cavernas do Sudão apaixonou-se pela poesia de Vladímir Maiakóvski.

O extraterrestre se chama Robinson. Não, ele não é o primo do ET. As aparências enganam. Robinson cultiva lesmas para costurá-las na boca de meninos arruacieros. Robinson virou mussulmano na adolescência, depois de ser passado para trás no jogo War. Desde então, prefere ser chamado de Lappat. Não gosta de gente que fede. Coleciona filmes em VHS porque acredita na cura depois da morte.

É uma pena, mas Lappat e Moishe vão embora. Foram chamados pelo Pasolini. Parece que é uma nova missão espacial. Algo a ver com o gergelin do Big Mac.

Até a volta.

Crônica de hoje publicada no Pioneiro.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

O mesmo brilho, nem um pouco falso


Faz 25 anos que Elis Regina morreu,
e mesmo com o relançamento de CDs e DVDs,
amigas como Catarina ainda sentem a sua falta


19 de janeiro de 1982. Quem sabe o dia mais silencioso da recente história da música popular brasileira. Depois de passar a noite em claro e sozinha no seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, Elis Regina Carvalho Costa foi encontrada morta. Encerrava ali a prematura carreira, aos 36 anos. O mito segue intenso até hoje, com o mesmo brilho, nem um pouco falso. A indústria fonográfica aproveita os 25 anos de morte e lança uma série de CDs e DVDs (confira abaixo). Para os fãs, isso pode amenizar a dor, mas para os amigos talvez não.

– Eu soube da morte dela pela televisão. Foi horrível. Eu não acreditava – recorda Catarina Pellegrini, 60 anos, professora aposentada.

Catarina foi colega de Elis dos 11 aos 16 anos, no Instituto de Educação General Flores da Cunha e no Colégio Júlio de Castilhos, ambos em Porto Alegre. Dividiram mais do que a mesma classe, dividiram intimidades, confissões e sonhos.

– A Elis tinha certeza que seria a melhor cantora do Brasil, sempre me dizia isso – lembra Catarina.

Naquela época, Elis se descobria artista. Gravava jingles publicitários e, assim, não apenas alimentava o sonho de ser a melhor cantora do Brasil, mas também contribuía para aumentar o orçamento da família.

– Ela sempre foi muito batalhadora – reconhece Catarina.

Numa das últimas vezes que esteve em Porto Alegre, Elis foi rever a amiga Catarina. Na época, Elis namorava o advogado Samuel Mac Dowell de Figueiredo. Catarina não recorda a data, mas sabe-se que Figueiredo manteve um relacionamento com a maior cantora do Brasil por seis meses, até a morte dela.

– Fomos jantar num restaurante e ela me pediu para ir ao banheiro com ela. Aí, ela me disse: "minha vida tá uma merda!". Bem assim, com essas palavras. E respondi pra ela que é nesses momentos que se pode contar com os amigos, mas ela respondeu que a vida dela andava muito complicada e não queria envolver os amigos – revela Catarina.

Catarina ainda sente falta da amiga. Infelizmente, as poucas cartas e muitas fotos, com Elis foram extraviadas. No fundo, não importa, porque Catarina guarda no coração as memórias dessa convivência.

– Elis era uma pessoa muito doce e afetuosa, mas carente. Ela vivia sob pressão, e por isso acabou fazendo uma loucura. Sinto não ter ficado ao seu lado quando ela mais precisou – emociona-se Catarina.

Numa entrevista reproduzida pela revista Veja na época da morte da cantora, ela resumiu numa frase o quanto a vida lhe parecia confusa.– Eu conheci o sucesso sem estar preparada para enfrentar a vida – desabafou Elis.



Relançamentos e novidades chegam
às lojas em função dos 25 anos da morte
da cantora gaúcha Elis Regina

Na Batucada da Vida, Doce Pimenta e Falso Brilhante, caixa com três DVDs da Elis Regina. Sob direção de Roberto de Oliveira, mostra vida e obra, da infância aos anos 80. Lançamento da EMI.

Os Primeiros Anos, CDs do início da carreira. Contém Viva a Brotolândia (1961) e Poema de Amor (1962). Lançamento da Globo Warner.

No fim do ano passado, a Trama lançou o álbum Elis (o último, de 1980). O CD vem encartado a um DVD contendo a célebre entrevista ao programa Jogo da Verdade, que a TV Cultura gravou dia 4 de janeiro de 1982, 15 dias antes de sua morte.

Há ainda no mercado dois DVDs: Grandes Nomes, da Rede Globo (1980) e, Ensaio, de 1973, da TV Cultura.

Reportagem publicada no Jornal Pioneiro.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Babel em cartaz...

...em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro...

Amigo Pavão Misterioso, Babel entra em cartaz amanhã (sexta) no Brasil - menos, é claro, aqui na nossa Itália.

Sugiro ligar pro GNC, pro Ordovás e pra UCS pedindo quando Babel vem pra Caxias.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

A Babel do Globo de Ouro

Filme do mexicano Alejandro González Iñárritu
é eleito o melhor da premiação, considerada
uma prévia do Oscar


O mito da Torre de Babel, citado na Bíblia, não apenas inspirou Babel, filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, mas também os críticos da Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood. Basta ver a lista dos vencedores do Globo de Ouro, revelados na noite de segunda-feira, e comprovar como o troféu foi bem dividido entre os realizadores, artistas e produtores de diferentes países.

O diretor mexicano Iñárritu levou o prêmio de melhor filme de drama. Sua história tem cenas no Marrocos, Estados Unidos, Japão e México. Deixou na poeira Os Infiltrados, de Martin Scorsese, que por sua vez levou a estatueta de melhor diretor. O filme de Scorsese trata do duelo entre a polícia de Boston e a máfia irlandesa.

Seguindo pela Torre de Babel, o norte-americano Clint Eastwood leva o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (pasme!) por Cartas de Iwo Jima. A justificativa é que a produção teve investimento japonês e a trama falada em japonês. Absurdos à parte, o espanhol Pedro Almodóvar foi esnobado pelo Globo de Ouro.

Mas Meryl Streep não deixou por menos. Agradeceu ao prêmio de melhor atriz em comédia ou musical, por O Diabo Veste Prada, pedindo mais espaço para bons filmes, sobretudo os estrangeiros, nas salas de cinema dos Estados Unidos. E nominou, dentre as ausências da tela, Volver, de Almodóvar e, O Labirinto de Fauno, do mexicano Guillermo del Toro. A atriz espanhola Penélope Cruz, aplaudiu.

O império inglês também foi reverenciado pela "quase rainha" Helen Mirren. Ela levou dois prêmios de melhor atriz, um pela minissérie Elizabeth I, outra de melhor atriz em drama por A Rainha, no qual faz o papel de Elizabeth II. Seu compatriota, Sacha Baron Cohen, recebeu o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical por Borat, interpretando um suposto jornalista do Cazaquistão.

Agora, o que parecia piada aconteceu. A versão americana do pastelão colombiano Betty, a Feia, ganhou o Globo de Ouro na categoria melhor comédia da TV. Como se não bastasse, a atriz hondurenha America Ferrera levou a estatueta de melhor atriz de comédia pelo mesmo seriado. Essa Babel do Globo de Ouro, considerada uma prévia do Oscar, vai aquecer as apostas pela premiação mais glamourosa do cinema, que ocorre dia 15 de fevereiro.

Em 2006, Crash levou o Oscar de melhor filme. Babel, o vencedor do Globo de Ouro, tem o mesmo perfil de Crash. É contestador e político. Tratam da arrogância e discriminação de um mundo cada dia mais injusto. Resta saber se a Academia de Hollywood vai se repetir e voltar a premiar um filme crítico em detrimento de outros – como o grande vencedor do Globo de Ouro, com três estatuetas, o musical Dreamgirls – Em Busca da Fama, espécie de Antonia dos americanos. Façam suas apostas.


Os vencedores

Prêmios de cinema
Melhor filme (drama): Babel
Melhor atriz (drama): Helen Mirren (A Rainha)
Melhor ator (drama): Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Melhor filme (comédia ou musical): Dreamgirls – Em Busca da Fama
Melhor atriz (comédia ou musical): Meryl Streep (O Diabo Veste Prada)
Melhor ator (comédia ou musical): Sacha Baron Cohen (Borat)
Melhor filme de animação: Carros
Melhor filme em língua estrangeira: Cartas de Iwo Jima
Melhor atriz coadjuvante em longa-metragem: Jennifer Hudson (Dreamgirls – Em Busca da Fama)
Melhor ator coadjuvante em longa-metragem: Eddie Murphy (Dreamgirls – Em Busca da Fama)
Melhor diretor: Martin Scorsese (Os Infiltrados)
Melhor roteiro: Peter Morgan (A Rainha)
Melhor trilha sonora original: Alexandre Desplat (The Painted Veil)
Melhor canção original: The Song of the Heart, música e letra de Prince (Happy Feet)

Prêmios de televisão
Melhor série dramática: Grey's Anatomy
Melhor atriz de série dramática: Kyra Sedwick (The Closer)
Melhor ator de série dramática: Hugh Laurie (House)
Melhor série (comédia ou musical): Betty, a Feia
Melhor atriz de série cômica ou musical: América Ferrera (Betty, a Feia)
Melhor ator de série cômica ou musical: Alec Baldwin (30 Rock)
Melhor minissérie ou telefilme: Elizabeth I
Melhor atriz em minissérie ou telefilme: Helen Mirren (Elizabeth I)
Melhor ator em minissérie ou telefilme: Bill Nighy (Gideon's Daughter)
Melhor atriz coadjuvante em minissérie ou telefilme: Emily Blunt (Gideon's Daughter)
Melhor ator coadjuvante em minissérie ou telefilme: Jeremy Irons (Elizabeth I)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

rátátátá

"Mãos para o alto". E não é rap dos Racionais. O Lula diz que é terrorismo. O novo governador do Rio, o Cabralzinho, acha que é o Lula que tá fazendo terrorismo. Pobre Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, sede dos jogos Pan Americanos de 2007, ser tachada de cidade baderneira, cidade que desencadeia ondas de arrastão e esse negócio de queimar ônibus.

Mas sabe que esse negócio de queimar ônibus, dizem os paulistas, é coisa de carioca enrustido. Que mania tem, dizem os paulistas, de copiar tudo que São Paulo faz. Até as cagadas e a incompetência da polícia, carioca copia de paulistas. Mas isso é paulista que diz. Porque os cariocas dizem que faziam isso a muito tempo. Tempo em que o 38tão era arma impôr medo e conseguir umas gatinhas na favela.

Falando em favela. O Andriano Duarte, repórter de segurança do jornal Pioneiro, publico matéria hoje, no Pioneiro, traçando um mapa do tráfico de drogas em Caxias. O sociólogo responsável pela pesquisa que embasou a reportagem acredita que, se a prefeitura de Caxias não tomar providência, logo logo a cidade terá os visatão pegando fogo por aí.

Na Globonews não se fala de outro assunto. Não o tráfico em Caxias, mas do caos no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, mais um ônibus é incendiado. O governador, o Cabralzinho, pede que as Forças Armadas dêem um jeito nisso...

A guerra civil brazuca segue fazendo estrago e levando gente como Lula e Cabralzinho adiante.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

o natal da dona adelaide

Dona Adelaide sorri. Aquele riso descomedido, como se voltasse àquelas sessões de matinê. Naquele tempo Porto Alegre tinha menos carros e ônibus e o vai-e-vêm das pessoas acompanhava a cadência do lamento de Lupicínio, quanto muito o choro de Pixinguinha. Nada dessa zoeira, zumbido e ziguezague desenfreado rumo a todo lugar e ao mesmo tempo lugar nenhum. Apoiada na soleira da janela da casa erguida na Chácara das Pedras, Dona Adelaide sorri.

As pernas não têm a mesma força de antes, quando passeava pela cidade de braços entrelaçados com as amigas Julieta e Ester. O tempo lhe tirou um amor aqui, outro ali, mas nunca o encanto pela vida. Nunca o gesto afável, o olhar doce, o sorriso de menina. Dona Adelaide tem 85 anos. E, se Deus quiser, vai passar o Natal em Caxias do Sul. Não promete um brinde caloroso, porque a bebida pega fácil.

– Só um golinho de champanhe porque fico tontinha. Eu gosto mais de cerveja preta, aquela bem docinha – revela, de cantinho.

O Natal da Dona Adelaide começou a duas semanas quando aceitou o convite da neta Patrícia para vir a Caxias. A ansiedade é só mais um dos muitos motivos que Adelaide tem para sorrir. Nem sabe o que a espera. Não sabe sequer onde vai dormir. Não sabe em que lugar da mesa farta vai sentar. Não sabe se terá champanhe ou cerveja preta. O futuro não a preocupa. Dona Adelaide tem fé.

– Se Deus quiser, se Deus quiser vou a Caxias.

O melhor presente para Dona Adelaide seria um maiô rosa. É sério, não é piada. O maiô rosa lhe transportaria para o dia do casamento. Dona Adelaide ganhou um maiô rosa, mas nunca pode usá-lo. Por implicância de uma tia pudica (e insensível), trocou o lindo maiô rosa por um vestido que cobrisse os joelhos. Esse novo maiô rosa ela também não precisa usar. Poderá contar aos bisnetos e trinetos que o triste fim do maiô rosa ganhou um novo capítulo no Natal de 2006.

– Vivi coisas tão bonitas, né?

Viverá outras mais, querida Adelaide. Começando por esse Natal.

o último beijo

Pior do que fim de ano é desgosto, tapa na cara, camisa rasgada e encharcada de champagne. Valéria, loira, 23 anos. Vilmar, cabelos castanho claros, 29. Valéria é sonhadora, ou como dizem as amigas invejosas, quer marido rico e uma coroa de rainha. Vilmar é rico, mas trabalha.

Valéria faz aulas de desenho e pintura no intervalo de um desfile e outro para uma grife local. Na verdade, ela desfila uma vez por ano. Faz por caridade. As amigas invejosas dizem que nada é por caridade, só mídia mesmo. Vilmar passa seis meses viajando pelos países sofridos da África. Leva a utopia da cura e um punhado de carinho.

Valéria tinha de casar antes de ficar velha. Antes do fim da mesada, antes de precisar trabalhar. Graças a Deus Vilmar lhe caiu do céu. Vilmar é romântico, compra flores sempre na mesma floricultura, brinda o amor com o mesmo encanto da primeira noite. Valéria não faz teatro, mas é boa atriz. Ama ser paparicada, ama os presentes, das pequenas jóias, àquele carrão novinho em folha.

Vilmar jamais era citado em coluna social, mas bastou anunciar o casamento com Valéria para virar figurinha fácil. Vilmar nasceu em berço de ouro, mas dispensa os holofotes porque, como diz sua mãe, gente chique não se expõe. Vilmar ama Valéria. Valéria ama a mídia. Valéria troca o carinho de Vilmar por presentinhos e bem-estar. Prazer, dizem as amigas invejosas, ela busca em quartinhos escuros, portinhas escusas de danceterias e por aí mesmo.

Mas um dia o amor acabou. Aliás, o casamento acabou. Pobre daquela gente que virou padrinho e testemunha de um dos enlaces mais badalados da cidade. Que mico, hein?. Tava demorando, grita o coro de amigas invejosas. Amor, se teve, era unilateral. Mas não tem problema, traição não dá cadeia. Era um garotinho tão gostosinho, conta uma das amigas invejosas.

Nesse Reveillon Vilmar vai brindar o amor com champagne e caviar. Vilmar é romântico e nunca perde o encanto pela vida. Valéria continua loira, quer marido rico e coroa de rainha. Vai brindar daquele jeito-jeca: "Uhu, gurias".

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

esfarelando as folhas secas

O relógio na cabeceira; na varanda, o velho trôpego despenca da escada; no varal, a roupa manchada de sangue e bílis; no quarto, a mãe dá a última ordem da noite; na cozinha, o pão de milho vira farelo; no pátio, nada, ninguém, só o ruído do balanço enferrujado, sozinho ao vento.

- Depois de um certo tempo nada mais faz sentido.

A mãe sumiu; o ambulante serra a mesma mesa de vime; o verme almoça em silêncio; a menina de olhos alvos lava a tristeza do rosto; o pastor recolhe as pedras do caminho; o bêbado deposita o medo no altar da solidão; três dias mais sem leite e o gato definha.

- Uma noite sem vertigem suplantaria a dor.

Saudade das folhas secas, de colher as folhas secas e passar as tardes esfarelando-as; pena do vô, descascando a própria pele, tirando a mesma casca da velha ferida; vontade de sair correndo pelo campo, aquele gramado verdinho; vontade de esfolar os joelhos no gramado molhado.

- Essa noite não. Não assim, por favor.

Alguma coisa rompeu a vidraça; na madrugada ensandecida, a ordenha da vaca terminou antes do tempo; nenhum sinal de pedra, bola de futebol da molecada, muito menos as bolinhas de gude do filho da empregada; essa coisa atravessou a sala, a cozinha, e foi se alojar na subida da escada; um tiro, certeiro, no olho do vô; no olho do porta-retrato do vô.

- Só não esquece do amor, ali parado na esquina.

No baú resta apenas aquele velho osso esfarelento; escapa da memória o sonho; ninguém tem coragem de devolver a ilusão da casa; as paredes revelam o mofo, o cheiro do tempo em decomposição; o sermão do pai desmorona antes da madeira; o cupim só não devorou o velho baú.

Perdi o vô na estação; corre pra casa antes que a tarde caia; morde a língua se o desejo não arde em brasa; a raiva ainda há de corroer o amor; alguém tira essa lesma da mesa de jantar, porque o velho vai sentar; tira o verme de perto do velho antes que ele o devore; antes que o velho volte a ser o verme em putrefação, coloquem o osso do velho de volta ao baú.

- Só mais uma gota de endorfina, por favor.

Conto-paranóia de hoje publicado no Pioneiro.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

ó, zoreia

Vai lo Yahoo e lê a matéria completinha. Lá tem uma lista dos dez vídeos mais assistidos pela Internet.

Clica.