A morte de Michelangelo Antonioni é mais do que o fim de uma carreira. Antonioni era o último de um clã que surgiu para o mundo com suas investigações pelo neo-realismo italiano. Movimento estético surgido após o fim da Segunda Guerra Mundial por cineastas como Vittorio De Sica, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini.
O mais notável desse período é que todos eles surgiram a partir do neo-realismo, mas cada um perseguiu seu estilo. Se Fellini transformava sonhos em filmes, Antonioni nos devolvia às angústias, medos e conflitos de encarar um mundo em veloz transformação. E sempre experimentando conceitos estéticos diferentes.
Não por acaso foi muito bem premiado Europa afora: A Noite (1961), recebeu o Urso de Ouro do Festival de Berlim (Alemanha); O Eclipse (1962), o Prêmio Especial do júri de Cannes (França); e O Dilema de uma Vida (1964), Leão de Ouro de Veneza (Itália) e Blow Up _ Depois Daquele Beijo (1966), Palma de Ouro em Cannes.
Com Antonioni se aprende que o amor dura mais do que a frivolidade de um beijo roubado; que à noite afloram sentimentos sinceros, nem sempre bem recebidos; que a memória é mais vigorosa do que a lucidez; e que a única certeza é divagar além das nuvens. E que assim seja.
terça-feira, 31 de julho de 2007
Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Ingmar Bergman (1918 - 2007)

Ninguém que se arrisca a fazer filmes deveria comerçar sem antes devorar a obra de Ingmar Bergman. Sobretudo quem vê no cinema o trabalho de um autor, a reflexão humanista e a extensão da vida. E por ironia do destino é justamente por estes motivos que tanta gente se esquiva dos filmes de Bergman. Porque sem dó nem piedade ele expõe relações ora conflituosas, ora obsessivas e a incapacidade de lidarmos com a morte.
Querer escapar da identificação com suas histórias é driblar a inevitabilidade da finitude. Não é possível enganar a morte, nem mesmo depois de vencê-la em um jogo de xadrez. Bergman, entre tantas coisas, quer nos mostrar como a travessia por esssa vida depende da fragilidade das nossas escolhas. Lançados a toda sorte precisamos mover as peças com precisão antes que as más escolhas transformem-se em traumas irreparáveis.
Seja na vertigem de um grito ou na sutileza de um sussurro, Bergman coloca amados e traídos diantes do mesmo espelho. Não para desnudarmos as tragédias de cada um, mas para reconhecermos no outro o que negamos ser. Ou ainda como melhor explicou o cieasta francês Jean-Luc Godard: "Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas".
sexta-feira, 6 de julho de 2007
foto EFEWoody Allen passa o tempo tocando jazz enquanto não volta a filmar com a a loirinha Scarlett Johansson. O novo endereço de Allen é no Café Vienês, do Hotel Casa Fuster, em Barcelona. Na próxima segunda, as filmagens do seu próximo longa iniciam, e quem sabe ele venha passar mais tempo com Scarlett do que com sua bandinha, a Eddy Davis New Orleans Jazz Band.
Sobre o filme: a produção será uma "una carta de amor a Barcelona", e vai girar em torno das férias de uma turista norte-americana (Scarlett Johansson) nesta cidade catalã e as relações que estabelece com alguns de seus habitantes, especialmente com um homem cujo papel será de Javier Bardem. O filme terá ainda Penelope Cruz no elenco.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
ainda cineesquemanovo
Filme de boteco
Grande parte da graça em assistir a um filme estranho com gente esquisita são os comentários na saída da sala de cinema. Depois da exibição de Conceição, autor bom é autor morto, último concorrente da competição de longas-metragens do CineEsquemaNovo, o mais comum era ouvir: "ah, um filme assim eu também faria". Ou ainda, "nossa, véio...nonsense demais". E pra mim o melhor comentário: "tá aí um novo gênero: filme de boteco".
Gostei: "filme de boteco". Porque na verdade, a enxurrada de tramas paralelas decorre de uma conversa banal de um grupo de amigos reunidos em um bar e bebendo a cerveja Conceição. Papo vem, papo vai e cada um à mesa cita como deveria ser o seu filme. Só o simples fato de serem lançadas idéias sem o mínimo pudor nos remete a velha frase do Glauber Rocha: "Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Mas não é tão simplista assim. Nem era só isso o cinema do Glauber, nem só isso o filme de uma verdadeira ação entre amigos, que reúne os diretores Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro e Cyntia Sims, na concepção de Conceição, autor bom é autor morto.
Também não é só um filme dentro de um outro filme. Aliás, são vários trechos do que viriam a ser filmes inteiros, se realizados em separado. Mas toda essa desconstrução narrativa, essa não-linearidade, essa quase esquizofrênica verborragia dos autores sentados à mesa e bebendo cerveja poderia ser só um emaranhado de situações desconexas. Mas não é. Tem ali o esmero de um roteiro que tece amarras consistentes entre tantas situações diferentes e personagens que a princípio pouco ou nada têm a ver um com o outro. Mas há uma pergunta corrente ao longo de todo o filme que une essas idéias, a princípio descabidas, e as dá sentido: "Se você fizesse um filme, como ele seria?".
É a responsabilidade pela obra dividida não só entre os amigos do boteco, mas, sobretudo, com o espectador. E já que o negócio era mesmo romper com a lógica de homogeneidade na narrativa, foram inseridas personagens da vida real, pessoas comuns que deram vazão à sua criatividade e disseram como seriam seus filmes. Essas cenas foram filmadas em preto e branco para contrastar de cara com a estética da parte ficcional de Conceição. Menos uma delas, a de uma banda de chorinho e samba que acaba sendo incorporada à trama.
Outro momento de subversão ocorre quando uma das autoras-atriz desliga a luz. Cinema sem luz é a morte do cinema. Não é. E de certa forma, logo de cara esse breu lembra o apagão de Velinhas, curta-metragem de Gustavo Spolidoro. Mas diferentemente de Velinhas, em que após o apagão os personagens acendem velas para iluminar o ambiente, em Conceição, a luminosidade vem de um cigarro de maconha. A cada nova tragada se acende uma luz em tom vermelho-alaranjado, que dá conta de não apenas sugerir o calor do cigarrinho em brasa, mas acaba iluminando o rosto dos personagens-autores.
O contraponto dessa discussão em torno da importância da imagem decorre em cenas plasticamente bem construídas, como nos tantos planos no cemitério, não só da perseguição ao fugitivo, mas também da personagem sem nome e reconhecível como mulher nua que é vista com um longo véu preto participando de um funeral. O fugitivo é um dos personagens centrais. Primeiro, porque é quem une, mesmo que de formas não-convencionais, as demais tramas. E segundo, porque ele se revolta contra o autor, que lhe atribui tão somente a sina de fugir. E não faz nada mesmo além de fugir. Porque na hora de dar cabo aos autores, entra em cena o homem da capa preta, interpretado pelo músico marginal Jards Macalé.
A essa diversidade poderia se classificar como a falta de estilo. Ou ainda, como o filme nos permite interpretar a partir do título: a morte do autor. Pode "morrer" a figura que assume a autoria de uma obra (e não é o caso de Conceição), mas sempre haverá um autor. Mesmo que essa atribuição seja dividida entre uma ação entre amigos como essa, ou ainda seja feita a partir de pesquisa pelo Ibope. São autores os responsáveis por dar sentido a um punhado de idéias. Em Conceição o sentido é deturpar a regra, mas sem com isso, perder-se na confusão dos desejos dos personagens (da vida real ou fictícia).
Filme da mostra de longas-metragens do CineEsquemaNovo. Escolhido como melhor filme pelo júri popular.
Grande parte da graça em assistir a um filme estranho com gente esquisita são os comentários na saída da sala de cinema. Depois da exibição de Conceição, autor bom é autor morto, último concorrente da competição de longas-metragens do CineEsquemaNovo, o mais comum era ouvir: "ah, um filme assim eu também faria". Ou ainda, "nossa, véio...nonsense demais". E pra mim o melhor comentário: "tá aí um novo gênero: filme de boteco".
Gostei: "filme de boteco". Porque na verdade, a enxurrada de tramas paralelas decorre de uma conversa banal de um grupo de amigos reunidos em um bar e bebendo a cerveja Conceição. Papo vem, papo vai e cada um à mesa cita como deveria ser o seu filme. Só o simples fato de serem lançadas idéias sem o mínimo pudor nos remete a velha frase do Glauber Rocha: "Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Mas não é tão simplista assim. Nem era só isso o cinema do Glauber, nem só isso o filme de uma verdadeira ação entre amigos, que reúne os diretores Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro e Cyntia Sims, na concepção de Conceição, autor bom é autor morto.
Também não é só um filme dentro de um outro filme. Aliás, são vários trechos do que viriam a ser filmes inteiros, se realizados em separado. Mas toda essa desconstrução narrativa, essa não-linearidade, essa quase esquizofrênica verborragia dos autores sentados à mesa e bebendo cerveja poderia ser só um emaranhado de situações desconexas. Mas não é. Tem ali o esmero de um roteiro que tece amarras consistentes entre tantas situações diferentes e personagens que a princípio pouco ou nada têm a ver um com o outro. Mas há uma pergunta corrente ao longo de todo o filme que une essas idéias, a princípio descabidas, e as dá sentido: "Se você fizesse um filme, como ele seria?".
É a responsabilidade pela obra dividida não só entre os amigos do boteco, mas, sobretudo, com o espectador. E já que o negócio era mesmo romper com a lógica de homogeneidade na narrativa, foram inseridas personagens da vida real, pessoas comuns que deram vazão à sua criatividade e disseram como seriam seus filmes. Essas cenas foram filmadas em preto e branco para contrastar de cara com a estética da parte ficcional de Conceição. Menos uma delas, a de uma banda de chorinho e samba que acaba sendo incorporada à trama.
Outro momento de subversão ocorre quando uma das autoras-atriz desliga a luz. Cinema sem luz é a morte do cinema. Não é. E de certa forma, logo de cara esse breu lembra o apagão de Velinhas, curta-metragem de Gustavo Spolidoro. Mas diferentemente de Velinhas, em que após o apagão os personagens acendem velas para iluminar o ambiente, em Conceição, a luminosidade vem de um cigarro de maconha. A cada nova tragada se acende uma luz em tom vermelho-alaranjado, que dá conta de não apenas sugerir o calor do cigarrinho em brasa, mas acaba iluminando o rosto dos personagens-autores.
O contraponto dessa discussão em torno da importância da imagem decorre em cenas plasticamente bem construídas, como nos tantos planos no cemitério, não só da perseguição ao fugitivo, mas também da personagem sem nome e reconhecível como mulher nua que é vista com um longo véu preto participando de um funeral. O fugitivo é um dos personagens centrais. Primeiro, porque é quem une, mesmo que de formas não-convencionais, as demais tramas. E segundo, porque ele se revolta contra o autor, que lhe atribui tão somente a sina de fugir. E não faz nada mesmo além de fugir. Porque na hora de dar cabo aos autores, entra em cena o homem da capa preta, interpretado pelo músico marginal Jards Macalé.
A essa diversidade poderia se classificar como a falta de estilo. Ou ainda, como o filme nos permite interpretar a partir do título: a morte do autor. Pode "morrer" a figura que assume a autoria de uma obra (e não é o caso de Conceição), mas sempre haverá um autor. Mesmo que essa atribuição seja dividida entre uma ação entre amigos como essa, ou ainda seja feita a partir de pesquisa pelo Ibope. São autores os responsáveis por dar sentido a um punhado de idéias. Em Conceição o sentido é deturpar a regra, mas sem com isso, perder-se na confusão dos desejos dos personagens (da vida real ou fictícia).
Filme da mostra de longas-metragens do CineEsquemaNovo. Escolhido como melhor filme pelo júri popular.

A falta que ama
O amor no filme O Nascimento do Amor, de Philippe Garrel, é a expressão da dor. Em nada lembra o cheiro da felicidade. Porque Garrel não fez um filme sobre o amor. Fez um filme sobre a falta que ama. Sobre o vazio. Sobre a solidão. Os personagens não só fingem que amam, mas também confundem o amor com a necessidade de amar.
O olhar da câmera conduz o espectador pela vida dos amigos Marcus (Jean-Pierre Léaud) e Paul (Lou Castel). Marcus é casado com Hélène (Dominique Reymond) e Fauchon (Marie-Paule Laval) com Paul. Há uma cena logo no início do filme que revela o tom da história. Marcus pergunta a esposa se ela o ama. Ela diz que sim, mas a expressão de Hélène não condiz com sua resposta. A revelação da mentira vem logo a seguir, quando ela se aproxima dele, e o beija na testa. Paul recebe tão somente um beijo fraterno, quando na verdade, queria um beijo que lhe queimasse os lábios.
Aparentemente, o filme não tem uma história, não cria uma rede de intrigas, não há suspeitos de um crime perfeito. Aparentemente parece ser mais um filme banal, sobre a busca banal por amor. Mas é justamente nessa aparente banalidade que Philippe Garrel nos toma pela mão e conduz filme adentro. Ao assistir o filme temos a sensação de estarmos conduzindo a câmera. Por isso os movimentos mais lentos, a hora e a vez de cada um dos personagens ter o seu close para dizer o que tem de ser dito, nem que seja em silêncio.
Porque o silêncio é tão importante nessa trama quanto os diálogos. Aliás, tão ou mais importante que a verborragia. Porque na grande parte do filme os personagens confundem-se nos próprios desejos. Por isso o tempo de cada plano não se encerra quando termina o que dizer. Porque sempre há mais a dizer, mesmo em silêncio. Mesmo quando o personagem sai da cena. E é nesses pontos que reforço, a câmera parece ser conduzida pelo espectador, porque queremos ver nascer esse amor, nem que seja por meio de um desencontro.
A trama centraliza-se em grande parte na solitude de Paul. Ele tem esposa, um filho e uma filha recém nascida. Mas Paul não se reconhece como um pai de família. Pior, não se reconhece no amor pela mulher, nem pelo filho. Segura no colo a menina recém nascida, mas nem isso lhe conforta. Os gritos de histeria não são porque a pobre menina demora três horas para cair no sono. Paul grita pela falta que ama. Grita pelo vazio. Grita porque a solidão dói.
Paul não ama a mulher, mas diz amar Ulrika (Johanna ter Steege), a amante. Só que esse sentimento voraz por Ulrika é só um despiste. Na verdade ele se entrega a esse amor bandido porque sabe que vai terminar logo. E termina, porque Ulrika não o ama. Num jantar na casa de amigos isso fica bem claro. Paul pega na mão de Ulrika por debaixo da mesa. Ela se entrega a esse toque sedicioso. No dia seguinte, ambos no carro, Paul repete o gesto. Mas Ulrika não quer esse carinho. Nos dois momentos são planos detalhes sutis que revelam que relação é essa entre Paul e Ulrika.
A sutileza é o grande encanto de O Nascimento do Amor. E é um filme tão bem costurado porque não são apenas os movimentos de câmera ou os planos demorados e fechados, como se quisessem entrar na mente dos personagens, que esmiúçam a trama. A música tem um papel fundamental. Esse piano ora doce, ora amargo, reflete esse desejo desesperado e inquieto pelo nascimento do amor. O piano revela a pulsação do coração. Notas duras e com muitas pausas, revelam a dor. Já as notas doces, a melodia envolvente, em um andamento mais acelerado, revelam a excitação.
Essa excitação Paul experimenta pela última vez na trama quando conhece uma jovem que diz ser sua fã. Logo se percebe que Paul vai aproveitar desse acaso para experimentar mais uma vez da porção do amor. Mas no caso de Paul, não é amor. E talvez nunca será. Porque Paul quer essa jovem na cama. Quer sexo. Sem compromisso, é claro. Porque Paul é sacana. Prefere seguir com seu jogo de sedução, ao invés de resolver a sua vida. Prefere as coxas quentes da menina, ao invés de enfrentar a responsabilidade de pai.
Paul tenta justificar essa irresponsabilidade contando a Marcus que o seu pai também saiu de casa quando ele ainda era pequeno. E esse é só mais um dos vazios. É só mais uma falta que ama. Porque a vida segue. E todas as irresoluções na vida de Paul e Marcus precisarão um dia ser resolvidas. Porque em algum momento, quando menos se esperar, alguém vai fitar teu olhar e perguntar: "Você me ama?". Pode ser assim, de um jeito aparentemente banal que o amor venha enfim a nascer. E talvez Paul não esteja preparado.
O Nascimento do Amor foi exibido na oficina de crítica cinematográfica, no CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre.
terça-feira, 19 de junho de 2007
primeiras impressões de 'Saneamento Básico, o Filme'
foto: Leopoldo Plentz, divulgaçãoPra quem tá bem lôco querendo saber como é o novo filme do Jorge Furtado ("Saneamento Básico, o Filme"), eis abaixo trechos do texto postado no blog do Estadão, pelo crítico Luiz Carlos Merten.
"Reconheço que talvez vá cobrar de Jorge Furtado uma coisa que ele não quer. Jorge fez um dos grandes filmes do cinema brasileiro, não importa que seja um curta - "Ilha das Flores". A expectativa que ele gerou, a partir daí, pelo menos para mim, ainda não foi satisfeita. Jorge tem feito filmes que me parecem de turma, na Casa de Cinema. "O Homem Que Copiava" era uma coisa mítica. Há anos se falava que ele queria fazer o filme. No intervalo, Jorge fez rapidinho "Houve Uma Vez Dois Verões". É outro filme de turma, com o filho, os amigos, e para mim é melhor! É o meu longa preferido dele. Jorge é um cara inteligente, não raro brilhante. Integrei a comissão da Petrobrás que avaliou o roteiro de "Saneamento Básico" e votei para que fosse selecionado.
(...)
Jorge é inteligente, mas esses filminhos de mercado que a gente mal vê e já esquece me cansam, confesso. Comparem com "Lisbela e o Prisioneiro", que eu sei que muita gente não gosta. Existe ali um desenho de personagem que me atrai. Eu fico com Lisbela e Leléu no fim da projeção. Carrego Débora Falabella e Selton Melo comigo. Posso achar a Camila nota 10, a Fernanda Torres idem, mas "Saneamento Básico" é 5. Não é para ser do contra. Espero que faça sucesso. Só me deixem fora dessa. Não vou dizer que é maravilhoso, porque não me parece".
Globo Filmes, divulgaçãoÀ propósito: A cena final de "Lisbela e Prisioneiro" carrego no colo como imagiário do cinema. Por todo o sempre. E, amém.
domingo, 17 de junho de 2007
ousadia tem cheiro de estranheza

Bem-vinda estranheza, sobretudo se vier da televisão. Dizer que A Pedra do Reino, microsérie exibida entre terça e sábado da semana passada, na Rede Globo, subverte a linguagem da televisão é chover no molhado. A importância desse novo projeto do diretor (e visionário) Luiz Fernando Carvalho só será medida quando propostas como A Pedra do Reino desaguarem por todas as emissoras de televisão do Brasil.
Porque televisão não pode ser só um aparelho que mastiga fórmulas ultrapassadas e segue idiotizando as pessoas para todo o sempre e amém. A televisão precisa ser uma janela para a fantasia, para o absurdo, para o sublime. Não cabe mais nessa telinha o beijo do mesmo gosto. É preciso dar vazão a virulência de gente como Carvalho, que traz as infinitas cores do cinema para dentro da televisão.
Porque a saída do cinema no Brasil é invadir a televisão. Já que os filmes da novíssima leva de cineastas não chegam ao público, por mil e um motivos que não cabem em 25 linhas de texto, a saída é invadir a televisão. Carvalho fez isso. Depois da luta descabida por levar aos cinemas do Brasil o filme Lavoura Arcaica, que tinha apenas cinco cópias, Carvalho encontrou na televisão a nova morada da sua fértil imaginação.
Depois de A Pedra do Reino virão ainda outras três microséries: Dois Irmãos, Capitu e Dançar Tango em Porto Alegre. Espero que sejam obras tão abertas como A Pedra do Reino. Obras que permitam a fruição de cada espectador, com suas angústias e limitações. Que tenham o mesmo gosto da estranheza dos filmes de Glauber Rocha, Dziga Vertov e Andrei Tarkovski, inspiradores das narrativas de Carvalho.
sábado, 16 de junho de 2007
pior do que chocolate quente com leite em pó
Não há um argumento sem discordância. Tudo o que se diz sobre Gramado e sobre o interesse das pessoas por Gramado é bobagem, é pior do que boato, é inútil. Tudo se dissipa no tapinha nas costas. Tudo se dissipa na exorbitância dos preços sem noção. Tudo deságua no atendimento pífico, na comida sem gosto, nas malhas sintéticas e no chocolate quente de leite em pó.
Tá aí: Gramado anda pior do que chocolate quente com leite em pó.
fui pra Canela.
Tá aí: Gramado anda pior do que chocolate quente com leite em pó.
fui pra Canela.
terça-feira, 5 de junho de 2007
resenha
UM DIA NA VIDA, de Jorge de Jesus
O segundo filme é sempre mais fundamental do que a estréia. Assusta menos ao realizador e suscita mais a curiosidade do público. Em alguns casos é definitivo. Se o diretor não apresenta um bom trabalho, no mínimo uma evolução da obra anterior, pode ser que o limbo do esquecimento seja o único paradeiro.
O videasta caxiense Jorge de Jesus tá nessa. Recém lançou Um Dia na Vida, seu segundo curta-metragem, e espera agora colher mais frutos do que com Sapateiro (2004). Os dois foram produzidos com recursos do Fundoprocultura. Os dois tem como fio condutor, a crítica social.
Em Sapateiro, Jorge pega pesado e mete o dedo na ferida escancarando a venda de cola de sapateiro. Em Um Dia na Vida, há mais poesia quando o diretor relaciona o abandono de um mendigo (Marcelo Casagrande) jogado nas sarjetas de Caxias ao dilema de uma menina mimada (Fernanda Rodrigues) que não consegue resolver seus problemas.
Um Dia na Vida é melhor do que Sapateiro. Tem um roteiro mais apurado e estabelece uma maior empatia com o espectador. O que aproxima o público é a inesperada atuação da atriz Fernanda Rodrigues. Geralmente sem sal nem açúcar, ela parece avançar sobre o espectador. Quanto maior a angústia da sua personagem, maior a entrega de Fernanda.
Outro destaque é o ator Marcelo Casagrande. Mesmo sem pronunciar uma palavra sequer seu personagem rouba a cena. Essa boa repercussão do filme não deixa de ser um pedido de desculpas pelo atraso no lançamento. Gravado em 2004 só estreou dia 11. Na saída da sessão, uma funcionária da Secretaria da Cultura disse:
– O filme tá muito bom, diz pro Jorge que ele tá desculpado pela demora.
Curta-metragem, drama, 2007. À venda pelo site www.doarcodavelha.com.br
O segundo filme é sempre mais fundamental do que a estréia. Assusta menos ao realizador e suscita mais a curiosidade do público. Em alguns casos é definitivo. Se o diretor não apresenta um bom trabalho, no mínimo uma evolução da obra anterior, pode ser que o limbo do esquecimento seja o único paradeiro.
O videasta caxiense Jorge de Jesus tá nessa. Recém lançou Um Dia na Vida, seu segundo curta-metragem, e espera agora colher mais frutos do que com Sapateiro (2004). Os dois foram produzidos com recursos do Fundoprocultura. Os dois tem como fio condutor, a crítica social.
Em Sapateiro, Jorge pega pesado e mete o dedo na ferida escancarando a venda de cola de sapateiro. Em Um Dia na Vida, há mais poesia quando o diretor relaciona o abandono de um mendigo (Marcelo Casagrande) jogado nas sarjetas de Caxias ao dilema de uma menina mimada (Fernanda Rodrigues) que não consegue resolver seus problemas.
Um Dia na Vida é melhor do que Sapateiro. Tem um roteiro mais apurado e estabelece uma maior empatia com o espectador. O que aproxima o público é a inesperada atuação da atriz Fernanda Rodrigues. Geralmente sem sal nem açúcar, ela parece avançar sobre o espectador. Quanto maior a angústia da sua personagem, maior a entrega de Fernanda.
Outro destaque é o ator Marcelo Casagrande. Mesmo sem pronunciar uma palavra sequer seu personagem rouba a cena. Essa boa repercussão do filme não deixa de ser um pedido de desculpas pelo atraso no lançamento. Gravado em 2004 só estreou dia 11. Na saída da sessão, uma funcionária da Secretaria da Cultura disse:
– O filme tá muito bom, diz pro Jorge que ele tá desculpado pela demora.
Curta-metragem, drama, 2007. À venda pelo site www.doarcodavelha.com.br
sábado, 26 de maio de 2007
sobre Caravaggio, o filme, não a Santa
É fácil falar mal do filme Nossa Senhora de Caravaggio. Há problemas graves de produção, figurino, direção de arte e interpretação dos atores. O roteiro narra três momentos históricos distintos, 1432, 1875 e 2004. No entanto, fora o enredo, não há um conceito estético que os una. Mas nada disso importa. Fábio Barreto não é dado a essas "frivolidades" do cinema. Ele prefere o formato televisivo, do dramalhão, ou como se diz nas universidades, do melodrama.
Antes mesmo da estréia, o produtor executivo Hilton Kauffmann avisava:
– Nossa Senhora de Caravaggio não é um filme para intelectual. Ele tem o tom de uma novela das sete.
E talvez seja por isso que, mesmo sendo uma produção a partir de uma Santa da região da Serra, bem menos popular do que o Padre Cícero, por exemplo, possa alcançar o sonhado número de 70 mil espectadores no Brasil. Nossa Senhora de Caravaggio só quer contar a história de pessoas devotas à Santa. Narra o cotidiano de mulheres sofridas que, não apenas rezaram por dias melhores, mas decidiram elas mesmas mudarem o rumo de suas vidas.
O destaque é o padre Gusmão (Sidnei Gomes Borba). Ele não é só uma figura carismátrica. Não apenas conduz os personagens pela trilha da fé. É o padre quem atrai os espectadores e os coloca no mesmo plano dos conflitos de Joaneta, Gomes, Angélica e tantos outros.
Antes mesmo da estréia, o produtor executivo Hilton Kauffmann avisava:
– Nossa Senhora de Caravaggio não é um filme para intelectual. Ele tem o tom de uma novela das sete.
E talvez seja por isso que, mesmo sendo uma produção a partir de uma Santa da região da Serra, bem menos popular do que o Padre Cícero, por exemplo, possa alcançar o sonhado número de 70 mil espectadores no Brasil. Nossa Senhora de Caravaggio só quer contar a história de pessoas devotas à Santa. Narra o cotidiano de mulheres sofridas que, não apenas rezaram por dias melhores, mas decidiram elas mesmas mudarem o rumo de suas vidas.
O destaque é o padre Gusmão (Sidnei Gomes Borba). Ele não é só uma figura carismátrica. Não apenas conduz os personagens pela trilha da fé. É o padre quem atrai os espectadores e os coloca no mesmo plano dos conflitos de Joaneta, Gomes, Angélica e tantos outros.
domingo, 25 de março de 2007
esse é o que tava no site da piauí
Navalha na carne
Delta do Nilo. Sol à pino. Pés descalços fervendo sobre a areia. O perdão não custa quase nada, mas o velho não se rende. Crava a bengala na areia fofa e arrasta o corpo. Lábios secos, olhos cravejados de raiva. O velho nunca quis nada além do afago, do sorriso, do beijo eternamente apaixonado. Sentado na varanda o velho ainda moço fitava o horizonte, vislumbrava as tardes de não fazer nada ao lado da mulher amada. Imaginava-se comendo pêras, nunca engolindo farpas.
Conheceram-se numa tarde de chuva. Vento forte de destelhar casas. Alice, menina de cabelos loiros e longos, pele branca e olhos verdes, translúcidos, corria pra lugar nenhum tentando se proteger da calamidade. Khalid, alto, forte, deparou-se com Alice numa das esquinas movimentadas do centro de Cairo. Olho no olho, Khalid e Alice, encharcados de chuva, sorriram. Nenhum beijo, nada. Só o silêncio da ternura. A quietude durou quase nada porque um carro buzinava enlouquecidamente.
Alice nem disse adeus, só entreolhou através dos cabelos molhados, sorriu e correu para o carro. Khalid reconheceu o amor em breves segundos de caos. Nos dias seguintes, enquanto os moradores e comerciantes recolocavam as coisas em ordem, Khalid passava as tardes à espera de Alice. Na mesma esquina. Alimentando o desejo de voltar a vê-la, com o mesmo sorriso e ternura, com a mesma graça. Um mês depois, Alice sai do mesmo carro daquela tarde chuvosa, estacionado no mesmo lugar.
Se fosse um filme a cena seria em câmera lenta com uma música de Tom Waits antecipando o encontro. Alice de óculos escuros, salto agulha, vestido esvoaçante, não parecia nada vulnerável. Khalid se aproxima. Alice baixa o óculos e por cima observa Khalid. Tira da bolsa uns trocados e entrega a Khalid.
– Por que essa merda de dinheiro? Eu te amo, não quero nada além de um beijo lascivo e interminável.
– Cala a boca, seu podre, mentiroso e moribundo – retruca Alice.
– Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!
Depois da queda, a foice. Num só golpe.
minha culpa
- O que o Dunga viu nesse goleiro que é reserva do reserva no Grêmio? Pra que convocar ele? - diz a mãe do Maneka.
- Mãe, essa reportagem quem fez foi o meu amigo, o Mugnol, aquele que a senhora diz que é meio louco e escreve umas coisas estranhas sobre cinema... - explica Maneka.
- Ah, então tá explicado. Só podia ser coisa desse maluco... - desafaba a mãe do Maneka.
- Mãe, essa reportagem quem fez foi o meu amigo, o Mugnol, aquele que a senhora diz que é meio louco e escreve umas coisas estranhas sobre cinema... - explica Maneka.
- Ah, então tá explicado. Só podia ser coisa desse maluco... - desafaba a mãe do Maneka.
sábado, 3 de março de 2007
trailer
Tá disponível no YouTube o trailer do filme "Cão se Dono", do Beto Brant.
É uma adaptação ao livro de Daniel Galera.
http://youtube.com/watch?v=uMKTr3z07q4
É uma adaptação ao livro de Daniel Galera.
http://youtube.com/watch?v=uMKTr3z07q4
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
o sonho da quase rainha
Em algum lugar do litoral norte, numa dessas praias de mar revolto, areia suja de cacarecos e vento nordestão, uma família feliz decide o futuro da filha.
– Mãe, tô estressada. Preciso descansar, de preferência bem longe daqui.
– Olha minha filha, eu também acho. Depois de cinco anos de faculdade você merece!
– Quer passar o Carnaval em Bombinhas? Papai aluga uma casa com piscina.
– Ai pai, Bombinhas?
– O que é que tem minha filha?
– Bombinhas tem tanto caxiense quanto aqui. Lembra que a gente foi no verão passado e a mamãe reencontrou as colegas do ginásio?!?
– Ah, sim a Lorena, a Evilásia, nossa quanto tempo eu não as via.
– Mãe, cala a boca...
– Respeito com sua mãe.
– Tá desculpa, mas é que vocês me deixam p* da cara. Eu preciso viajar, correr o mundo...
– Papai tem amigos em Pádova, na Itália...
– Pai, eu odeio a Itália. Não suporto gringo!
– Não suporta essa gringada, mas implorou pra concorrer à rainha da Festa da Uva, né?
– Sabe por que eu queria ganhar? Pra mostrar como deve se portar uma verdadeira rainha.
– Parem vocês dois. Que coisa feia, as pessoas estão olhando.
– Esse bando de véio tarado vem a praia só pra ficar babando mesmo...
– Chega minha filha. Afinal de contas, qual lugar você sonha conhecer?
– Londres...
– Londres? Nem morta.
– Por quê, pai?
– Filha minha não vai pra Londres trabalhar em bordel nenhum!
– Tá me chamando de p*, seu velho safado? Quer dizer que o senhor, um profundo conhecedor desse universo, reconhece no meu olhar um certo talento para a safadeza?
Depois de um tabefe na orelha, Laurinha recebeu o afago da mãe. A dois dias, Evaldo, amigo do pai, ligou avisando que vai tudo bem com a menina.
– Ela é uma menina especial. Esse duplo carpado inclinado tá fazendo o maior sucesso por aqui – revela.
– Mãe, tô estressada. Preciso descansar, de preferência bem longe daqui.
– Olha minha filha, eu também acho. Depois de cinco anos de faculdade você merece!
– Quer passar o Carnaval em Bombinhas? Papai aluga uma casa com piscina.
– Ai pai, Bombinhas?
– O que é que tem minha filha?
– Bombinhas tem tanto caxiense quanto aqui. Lembra que a gente foi no verão passado e a mamãe reencontrou as colegas do ginásio?!?
– Ah, sim a Lorena, a Evilásia, nossa quanto tempo eu não as via.
– Mãe, cala a boca...
– Respeito com sua mãe.
– Tá desculpa, mas é que vocês me deixam p* da cara. Eu preciso viajar, correr o mundo...
– Papai tem amigos em Pádova, na Itália...
– Pai, eu odeio a Itália. Não suporto gringo!
– Não suporta essa gringada, mas implorou pra concorrer à rainha da Festa da Uva, né?
– Sabe por que eu queria ganhar? Pra mostrar como deve se portar uma verdadeira rainha.
– Parem vocês dois. Que coisa feia, as pessoas estão olhando.
– Esse bando de véio tarado vem a praia só pra ficar babando mesmo...
– Chega minha filha. Afinal de contas, qual lugar você sonha conhecer?
– Londres...
– Londres? Nem morta.
– Por quê, pai?
– Filha minha não vai pra Londres trabalhar em bordel nenhum!
– Tá me chamando de p*, seu velho safado? Quer dizer que o senhor, um profundo conhecedor desse universo, reconhece no meu olhar um certo talento para a safadeza?
Depois de um tabefe na orelha, Laurinha recebeu o afago da mãe. A dois dias, Evaldo, amigo do pai, ligou avisando que vai tudo bem com a menina.
– Ela é uma menina especial. Esse duplo carpado inclinado tá fazendo o maior sucesso por aqui – revela.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
boa viagem
No pátio tem musgo, aquele velho balanço brinca ao vento e duas meninas jogam dardos nas costas do tempo. O vento derruba as folhas secas daquela árvores esguia. É quase noite. Um extraterreste vestindo uma camiseta com a estampa da Virgem Maria tira uns sons estranhos de uma escada de ferro. É ruído, pré-música, substrato para a vaguidão. Entre uma batida e outra nos degraus da escada de ferro, outro lunático dá porrada numa calha roubada. O som é assustador.
O extraterreste gosta de filmar o desespero numa câmera bem pequena, quase de bolso. O lunático prefere o tique-taque do relógio. Em comum, eles só têm o mesmo deus, Pasolini. Sem ele, o mundo seria um tédio, acreditam. Conheceram o cineasta italiano numa festa regada a Daime. Pouco vinho e muito Daime, aliás. Pasolini entregou a eles, um frame do primeiro curta-metragem jamais exibido. Agradeceram beijando seus pés.
O lunático chama-se Moisés. Ele não é da tribo dos Levi, como o famoso Moisés, aquele da Bíblia. Moisés é da tribo dos Moimats. Colhe uva no verão e instala parabólicas no inverno. Depois do primeiro choque, trocou o nome para Moishe. Acredita na reencarnação como pressuposto para a virilidade. Durante o período em que morou nas cavernas do Sudão apaixonou-se pela poesia de Vladímir Maiakóvski.
O extraterrestre se chama Robinson. Não, ele não é o primo do ET. As aparências enganam. Robinson cultiva lesmas para costurá-las na boca de meninos arruacieros. Robinson virou mussulmano na adolescência, depois de ser passado para trás no jogo War. Desde então, prefere ser chamado de Lappat. Não gosta de gente que fede. Coleciona filmes em VHS porque acredita na cura depois da morte.
É uma pena, mas Lappat e Moishe vão embora. Foram chamados pelo Pasolini. Parece que é uma nova missão espacial. Algo a ver com o gergelin do Big Mac.
Até a volta.
O extraterreste gosta de filmar o desespero numa câmera bem pequena, quase de bolso. O lunático prefere o tique-taque do relógio. Em comum, eles só têm o mesmo deus, Pasolini. Sem ele, o mundo seria um tédio, acreditam. Conheceram o cineasta italiano numa festa regada a Daime. Pouco vinho e muito Daime, aliás. Pasolini entregou a eles, um frame do primeiro curta-metragem jamais exibido. Agradeceram beijando seus pés.
O lunático chama-se Moisés. Ele não é da tribo dos Levi, como o famoso Moisés, aquele da Bíblia. Moisés é da tribo dos Moimats. Colhe uva no verão e instala parabólicas no inverno. Depois do primeiro choque, trocou o nome para Moishe. Acredita na reencarnação como pressuposto para a virilidade. Durante o período em que morou nas cavernas do Sudão apaixonou-se pela poesia de Vladímir Maiakóvski.
O extraterrestre se chama Robinson. Não, ele não é o primo do ET. As aparências enganam. Robinson cultiva lesmas para costurá-las na boca de meninos arruacieros. Robinson virou mussulmano na adolescência, depois de ser passado para trás no jogo War. Desde então, prefere ser chamado de Lappat. Não gosta de gente que fede. Coleciona filmes em VHS porque acredita na cura depois da morte.
É uma pena, mas Lappat e Moishe vão embora. Foram chamados pelo Pasolini. Parece que é uma nova missão espacial. Algo a ver com o gergelin do Big Mac.
Até a volta.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
O mesmo brilho, nem um pouco falso
Faz 25 anos que Elis Regina morreu,
e mesmo com o relançamento de CDs e DVDs,
amigas como Catarina ainda sentem a sua falta
19 de janeiro de 1982. Quem sabe o dia mais silencioso da recente história da música popular brasileira. Depois de passar a noite em claro e sozinha no seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, Elis Regina Carvalho Costa foi encontrada morta. Encerrava ali a prematura carreira, aos 36 anos. O mito segue intenso até hoje, com o mesmo brilho, nem um pouco falso. A indústria fonográfica aproveita os 25 anos de morte e lança uma série de CDs e DVDs (confira abaixo). Para os fãs, isso pode amenizar a dor, mas para os amigos talvez não.
– Eu soube da morte dela pela televisão. Foi horrível. Eu não acreditava – recorda Catarina Pellegrini, 60 anos, professora aposentada.
Catarina foi colega de Elis dos 11 aos 16 anos, no Instituto de Educação General Flores da Cunha e no Colégio Júlio de Castilhos, ambos em Porto Alegre. Dividiram mais do que a mesma classe, dividiram intimidades, confissões e sonhos.
– A Elis tinha certeza que seria a melhor cantora do Brasil, sempre me dizia isso – lembra Catarina.
Naquela época, Elis se descobria artista. Gravava jingles publicitários e, assim, não apenas alimentava o sonho de ser a melhor cantora do Brasil, mas também contribuía para aumentar o orçamento da família.
– Ela sempre foi muito batalhadora – reconhece Catarina.
Numa das últimas vezes que esteve em Porto Alegre, Elis foi rever a amiga Catarina. Na época, Elis namorava o advogado Samuel Mac Dowell de Figueiredo. Catarina não recorda a data, mas sabe-se que Figueiredo manteve um relacionamento com a maior cantora do Brasil por seis meses, até a morte dela.
– Fomos jantar num restaurante e ela me pediu para ir ao banheiro com ela. Aí, ela me disse: "minha vida tá uma merda!". Bem assim, com essas palavras. E respondi pra ela que é nesses momentos que se pode contar com os amigos, mas ela respondeu que a vida dela andava muito complicada e não queria envolver os amigos – revela Catarina.
Catarina ainda sente falta da amiga. Infelizmente, as poucas cartas e muitas fotos, com Elis foram extraviadas. No fundo, não importa, porque Catarina guarda no coração as memórias dessa convivência.
– Elis era uma pessoa muito doce e afetuosa, mas carente. Ela vivia sob pressão, e por isso acabou fazendo uma loucura. Sinto não ter ficado ao seu lado quando ela mais precisou – emociona-se Catarina.
Numa entrevista reproduzida pela revista Veja na época da morte da cantora, ela resumiu numa frase o quanto a vida lhe parecia confusa.– Eu conheci o sucesso sem estar preparada para enfrentar a vida – desabafou Elis.
Relançamentos e novidades chegam
às lojas em função dos 25 anos da morte
da cantora gaúcha Elis Regina
Na Batucada da Vida, Doce Pimenta e Falso Brilhante, caixa com três DVDs da Elis Regina. Sob direção de Roberto de Oliveira, mostra vida e obra, da infância aos anos 80. Lançamento da EMI.
Os Primeiros Anos, CDs do início da carreira. Contém Viva a Brotolândia (1961) e Poema de Amor (1962). Lançamento da Globo Warner.
No fim do ano passado, a Trama lançou o álbum Elis (o último, de 1980). O CD vem encartado a um DVD contendo a célebre entrevista ao programa Jogo da Verdade, que a TV Cultura gravou dia 4 de janeiro de 1982, 15 dias antes de sua morte.
Há ainda no mercado dois DVDs: Grandes Nomes, da Rede Globo (1980) e, Ensaio, de 1973, da TV Cultura.
Reportagem publicada no Jornal Pioneiro.
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