sexta-feira, 23 de novembro de 2007

BRAZUCAS EM HAVANA

Saiu a lista dos filmes selecionados para o 29º Festival del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, que ocorre entre os dias 4 e 12 de dezembro, em Cuba. E tem gaúcho na lista. Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll, de Otto Guerra, concorre no concurso de animação.

Se vai ter ou não fumaceira ainda não sei, só sei que o Otto vai revirar todos os butecos de Havana em busca da Polar.

Na principal categoria, longas de fição, o Brasil entra com seis filmes. Até o Cobrador: In God We Trust, de Paul Leduc, co-prudção entre Espanha, Argentina, Grã Bretanha e Brasil, entrou na vaguinha brazuca.

CONCURSO DE FICÇÃO:
* A Via Láctea (Lina Chamie)
* Baixio das bestas (Claudio Assis)
* Cobrador: In God we trust (Paul Leduc) Espanha, Argentina, Grã Bretanha, Brasil
* Deserto feliz (Paulo Caldas)
* O ano em que meus pais sairam de ferias (Cao Hamburger)
* O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)


CONCURSO DE PRIMEIRO E SEGUNDO FILMES (OPERAS PRIMAS):
* A casa de Alice (Chico Teixeira)
* A ilha da morte (Wolney Oliveira)
* Mutum (Sandra Kogut)
* O grão (Petrus Cariry)
* Querô (Carlos Cortez)


CONCURSO DE DOCUMENTÁRIOS:
* Acidente (Cao Guimaraes, Pablo Lobato)
* Câmara viajante (Joe Pimentel)
* Descaminhos (Marilia Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, Joao Flavio Flores, Maria de Fatima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)
* Filipe (Margarita Hernandez)
* Jardim Ângela (Evaldo Mocarzel)
* Saba (Thereza Menezes, Gregorio Graziosi)
* Santiago (Joao Moreira Salles)
* Stela do Patrocínio - A mulher que falava coisas (Marcio De Andrade)


CONCURSO DE ANIMAÇÃO:
* Calango! (Alexandre Camargo)
* Crisálidas (Fernando Mendes)
* Dominós (Daniel Schorr)
* Engoleduaservilhas (Marcelo Marao)
* Garoto cósmico (Ale Abreu)
* Mercúrio (Savio Leite)
* Na corda bamba (Marcos Buccini)
* Vida Maria (Marcio Ramos)
* Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll (Otto Guerra)


CONCURSO DE FICÇÃO (CURTA E MEDIO-METRAGEM):
* Alguma coisa assim (Esmir Filho)
* O.D. - Overdose digital (Marcos DeBrito)
* Outono (Pablo Lobato)
* Quando o tempo cair (Selton Mello)
* Terra Prometida (Guilherme Castro)
* Trecho (Clarissa Campolina, Helvecio Marins Jr.)
* Um ramo (Juliana Rojas, Marco Dutra)


CONCURSO DE ROTEIROS INÉDITOS:
* Amor, Água Y Az Car, Gabriella Mancini
* Cupuaçu, Iana Cossoy Paro
* O filho da puta, Carla Guimaraes de Andrade


PANORAMA LATINO-AMERICANO (FORA DE CONCURSO):
* Achados e perdidos (José Joffily)
* Batismo de sangue (Helvécio Ratton)


SECÇÃO INFORMATIVA (DOCUMENTÁRIOS FORA DE CONCURSO):
* À margen do concreto (Evaldo Mocarzel)
* Cartola (Lírio Ferreira, Hilton Lacerda)
* Construção (Cristiano Burlan)
* Elevado 3.5 (Paulo Pastorelo, Maira Santi Buhler, João Sodre)
* Fabricando Tom Zé (Decio Matos, Jr.)
* O desafio de Zezão (Patricia Cornils)
* O engenho de Zé Lins (Vladimir Carvalho)
* O homem da árvore (Paula Mercedes)
* O homem-livro (Anna Azevedo)
* Oficina Perdiz (Marcelo Diaz)
* Tres irmãos de sangue (Ângela Patricia Reiniger)
* Um dia, um circo (Marcelo Laffitte)
* América minada (Vinicius Souza, Maria Eugenia Sa)


FORA DE CONCURSO:
* Tabaco (Renata Silva Meirelles Teixeira)

Confira a seleção completa aqui.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

CLIPE NA IMPRENSA 2

Olha aí, agora saiu materião no site do Kzuka falando sobre o clipe, contando alguns detalhes de produção, cenas de bastidores. Quem assina a matéria é o estagiário de produção e espião (sic) Marcelo Andrighetti.

Leia aqui.

CLIPE NA IMPRENSA

Ó, na coluna 3por4 de hoje o jornalista Carlinhos Santos publicou uma nota falando do clipe.

Leia aqui.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

THE END

Ok, that's all folk's.





Vou-me embora pra Passárgada, dormir um pouco e voltar a sonhar com manequins invadindo o mundo.

BASTIDORES DO CLIPE 9

O dia em que o macaco saiu pilotando a Mercedez. Pô, Paulinho, obrigado pela brava participação no clipe. Abrazzo

BASTIDORES DO CLIPE 8

E a tal Kombi? Esse é o carro que levou a banda aos lugares mais lindos da cidade. Nada de imagem turística. Só a podreira mesmo.

BASTIDORES DO CLIPE 7

Enfim o derradeiro dia. Por um lado é bom, mas que merda, acabou. Dá aquela ressaca e tal, mas fazer o que. É esse o ciclo. E que venham outros. Desde sábado, dia 17, estivemos mergulhados como velhos loucos e famintos nessa deliciosa e delirante produção.

Teve um monte de planejamento e outro tanto de improviso, ainda bem. E o mais interessante foi perceber que todos os envolvidos estavam realmente interessados no processo. Porque não é só um clipe, é um clipe que um bando de gente acredita ser a melhor expressão da banda neste momento. E para a música escolhida, lógico.

Desde os figurantes, da Fefa ao Mércio, passano por todas as gamas de beleza, disrepância, bizarrice, e o escambau, mas tudo com honestidade; do Pepe Pessoa e a Dai, que criaram a arte, baseado em muita conversa, tira daqui e põe dali, arranjaram objetos, transformaram um quarto de hotel numa locação perfeita pra cena do menino, e por aí vai; e teve ainda a Janete, na direção de fotografia, sempre pontual, sempre com boas saídas, trabalho simples, sem muito lerolero, e que dá um resultado muito bom; e a produção com Maneka, Letícia e Marcelo, que bela trinca, e isso que a gente quase perdeu a Letícia, porque ela anda na pré-produção de um longa-metragem, em POA, mas aí o Maneka entrou e deu conta do recado.

Agradeço a todas as pessoas que emprestaram manequins, roupas, objetos, suas casas, carros...agradeço a dedicação de toda a equipe, cada um teve um papel super importante. Muito boa tb a supresa de contar com o Leandro Badalotti, um cara que felizmente tá terminando seu documentário, e um cara que é sempre bom conversar sobre cinema.

Agora virá a edição, com o Lissadro Stallivieri, um cara que admiro, sempre quis trabalhar junto, e que mais uma vez vai dar conta de reorganizar toda essa demência que fervilhava pela minha cabeça e foi filmada para o clipe.

abrazzzos
muito obrigado a todos
e até a próxima

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 7

Tava devendo a inormação. O nome do ator que faz o papel de um jovem que adora os Ligantes e odeia os pais que ele tem, se chama Franco Sartori.

Eis o cara, mais uma vez. E olha, nunca tinha trabalhado com ele, mas o guri me surpreendeu.

Obrigado, Franco. Até o próximo trabalho.

BASTIDORES DO CLIPE 7

Esse é mesmo um mundo estranho. Isso não é uma cena do clipe, é a vida real, sem filtros e nada na lente.

Da esquerda para a direita: Luciano Paim (baterista), Esqueleto (vocalista), Sandrinha (atriz), e atrás, Mércio (o astro).

BASTIDORES DO CLIPE 6

Só pro Esqueleto não ficar com ciúmes, eis a foto dele, grandão, posando de verdadeiro magnata.

BASTIDORES DO CLIPE 5

A vida é dura, mas vale a pena. Que o diga o Mércio. O cara trabalha o dia toda, a semana toda, no bar do Cursão. No final de semana vai jogar um sinuquinha com os amigos, anda pelas ruas chutando latinhas de ceva, e vai nos melhores shows de rock da cidade. É o roadie oficial dos Ligantes. E fazendo jus ao seu dedicado trabalho à banda, resolvemos que ele seria o astro principal da festa. No clipe, ele tentava traçar todas as meninas, mas só levou fora. Nem por isso, deixou de curtir o show. Um brinde, saudoso Mércio.

- Ô, Mugnol tira uma foto comigo do lado da mina mais gata da festa. Essa eu preciso registrar no álbum da minha vida.

- Ô, ô...agora tira uma foto minha beijando essa mina aqui...


BASTIDORES DO CLIPE 4

Domingo é dia de ficar com a família. E isso também vale para as casas noturnas especializadas em diversão para pais estressados e noivos entediados. Sendo mais direto, isso também vale para a putaria. Dizendo com palavras mais bonitas e relembrando uma gloriosa fase da música brasileira, "saudosa maloca, maloca querida". E o que seria da humanidade sem sexo, sem aquele proibido, e fora do casamento. Quantas famílias são alimentadas porque uns e outros saem por aí redistribuindo a renda?

Pois bem, como uma homenagem a esse mundo fabuloso da redistribuição de renda, da vida em família, da putaria desenfreada e do sexo selvagem com meninas bem prestativas, a produção do videoclipe invadiu o Cassino, no domingo a tarde. Para trabalho. Apenas trabalho. Não havia expediente interno. Pois bem, e prosseguindo, entramos lá para gravar mais uma cena do videoclipe. Ceninha um tanto bizarra, mas interessante. Pra não entregar muito o jogo só vou colocar uma foto, que não diz quase nada.

domingo, 18 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 3

O Esqueleto deu um certo trabalho, mas depois que cravou os dentes num xisão ele ficou bem quietinho.

- Bah, fazia uns dois dias que eu não comia direito...


BASTIDORES DO CLIPE 2

Segundo dia. Aliás, primeiro, porque o primeiro "de verdade" falhou.
Cena no quarto do menino, cena do banheiro e cena da sala de jantar. Atores, um guri tri bom, que infelizmente esqueci o nome, mas depois prometo verificar a informação, um casal de manequins (esses de vitrine) com dois filhos pequenos (tb manequins) e o Paulinho, vestido com a máscara do macaco.
Ah, e claro, a banda. Primeira cena com a banda. Na hora marcada, aliás, meia-hora depois da marcada, chegam Pubby, Luciano e Esqueleto, ah, e o Mércio, que não é da banda, mas é da família. E uma hora depois do trio chega o empresário e baixista Parisoto. Figurino no corpo, ensaio e tal, hora de gravar.
Primeiro o piá, vendo tv no quarto.


Depois, a banda invade o quarto do piá.

então vem o macaco no banheiro

e enfim, fomos pra outra locação pra gravar a cena do jantar da família



BASTIDORES DO CLIPE 1

Ou ainda: a cena que não foi. Ainda não foi.

Tudo marcado para começarem as gravações na sexta-feira. Porém, e como dizia Plínio Marcos, sempre haverá um porém, o que era pra ser não foi. Depois de uma pré-produção de quase duas semanas, efim iríamos gravar na sexta, dia 16, mas aí furou. Furou o empéstimo do principal carro que utilizaríamos. Em uma das cenas a banda, assim como no filme do Tonacci, os quatro rapazes ligados iriam trafegar pelas ruas da cidade, por lugares decadentes, por lugares depredados dessa linda cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, mas não conseguimos o carro que seri ausado pra banda.

O Maneka, que tá produzindo o clipe, que na real é um curta, tinha agendado tudo certinho, mas aí, o tal cara do carro, que ainda bem não sei o nome senão citaria aqui com alguns palavrões, resolveu sumir da cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, e desligar o celular. Tudo bem, desfeitos do susto e do balde água fria, resolvemos esquentar a cabeça bebendo cerveja.

E como tudo na vida se resolve de cabeça quente encontramos o macaco no São Patrício. Explico, é que no clipe que é um curta, assim como no filme do Tonacci, tem um cara que veste uma máscara de macado. No filme é o Peréio, e teríamos de encontrar alguém a altura, alguém que medisse mais de 1m78. E encontramos na nossa mesa, nosso amigo de brindes, nosso amigo de festinhas proibidas na escola da vida. Paulinho, um cara bem apresentado, cabelo bem cortado e moreno, porte de modelo.

-Vai fazer o que amanhã, Paulinho?
- Nada, por que?
- Tu vai ser o nosso macaco?
- Que??????
- É pro clipe da Ligante. Tu só terá de ir no banheiro com uma máscara de macaco, fazer a barba no espelho e cantarolar uma música do Ray Connif.
- Tá, beleza. Que horas amanhã?
- Ah, o Maneka te explica depois.

BASTIDORES DO CLIPE

Esse negócio fazer videolcipe é uma cachaça que não se vende a qualquer preço. Não tem em qualquer esquina, nem é fácil encontrar um bom contrabandista. E só uma bicadinha basta pra ficar ligadão, e querer mais, sempre mais. E antes que eu começasse a ver bebezinhos engatinhando pelo teto, quase delirando da secura da cana, eis que a Ligante Anfetamínico me convida pra dirigir mais um videoclipe.

Conversa vai, conversa vem, e eu bem louco com a idéia passei a delirar antes do delírio da secura da cana. Dito e feito. Já que a Ligante é punk, nada mais sincero e de acordo do que produzir um clipe sob a aura do cinema marginal. Porque o cinema marginal nada mais é do que a atitude punk, na tela. E só pra avacalhar mais, o clipe seria um curta-metragem em homenagem ao filme "Bang-Bang", do Andrea Tonacci.

Ah, a música, claro. A música escolhida foi "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", composição do Pubby, guitarrista da Ligante, cujo título é outra homenagem. "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas" é o nome de um disco dos Replicantes, lnaçado no comecinho dos anos 90 e que contava pela primeira vez com os vocais de Carlos Gerbase, que assumiu o posto de front man com a saída de Wander Wildner.

Homenagem é como brinde, não pode ser banalizado. Por isso, um brinde a Ligante, ao Repli, e a Tonacci.

Até daqui a pouco.

sábado, 3 de novembro de 2007

estrangeiro

O Zuzuwah é estrangeiro, mas tão estrangeiro, que suas músicas fazem cada vez mais sentido em Caxias. Não que elas não possam ser escutadas longe daqui. De fato, quem mais cola o ouvido na sua batida estranha, entrecortada com guitarras viajantes, e melodias de sopro assobiáveis, são os estrangeiros.

Gente que mesmo vivendo sob a neblina serrana está plugada numa sonoridade globalizada. Da fusão de estilos e gêneros, aparentemente dissonantes, mas que, reorganizadas, e bem trabalhadas, parecem ter surgido da mesma raiz. Como o jazz e o drum'n'bass, por exemplo. Originariamente distantes, mas primos bem próximos dessa pós-modernidade infernal. No bom sentido.

Zuzuwah, guitarrista da Cabaret Hitec (hibernando) e saxofonista da Grelhados Passam Voado e Bacon 27, ataca novamente com o projeto solo, sempre em versão demo, batizado de Complexo Shanghai. Depois das bolachinhas The Mandarin Sessions (2005) e Busking (2006), é a vez de The Revolution Sessions (2007).

_ O disco tem influência da relação de amor e ódio entre Estados Unidos e a América Latina, passando pelo populismo e demagogia de suas lideranças até chegar na ensolarada Califórnia _ divaga Zuzuwah.

Algumas canções do novo álbum estão no site www.myspace.com/coletivoshanghai. Quem quiser comprar a bolachina pode procurar na banca 29, do Camelódromo. Custa R$ 10.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

set

Depois do bem sucedido curta-metragem Ana Cristina Perdeu a Memória, que tratava da infância, Ana Luiza Azevedo, entra no set para as filmagens do seu primeiro longa, Antes Que o Mundo Acabe. Pedro Tergolina, protagonista do curta, volta, dessa vez para encarar o personagem Daniel.

O filme, que tem roteiro da Aninha, em colaboração com Paulo Halm, Giba Assis Brasil e Jorge Furtado, é baseado em romance homônimo, de Marcelo Carneiro da Cunha. Conta a história de Daniel, um garoto de 15 anos, que convive com a mãe e o padrasto, um amigo acusado de um crime e uma namorada que não quer saber de namoro.

A produção segue até 2 de dezembro em Taquara, Rolante, Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre.

o sentido do amor

O senhor que é homofóbico e não consegue imaginar o amor entre dois homens, não assista ao filme Felizes Juntos. Porque se depois dos primeiros minutos o senhor suspeitar que esse universo lhe é mais próximo do que pensava, vai sair por aí culpando o cineasta chinês Wong Kar-Wai. E o pobre diretor não tem culpa de nada. Ele vive do ofício de contar histórias de amor. Sem pudor, porque assim são as verdadeiras histórias de amor.

Felizes Juntos faz parte da Coleção Lume, organizada pela empresa maranhense Lume Filmes, que pretende lançar dois DVDs por mês de filmes contemporâneos, sucessos de crítica nos cinemas do Brasil, mas ainda inéditos em DVD. O filme chinês é o terceiro da coleção, que tem ainda Felicidade (1998), de Todd Solondz, Na Companhia de Homens (1997), de Neil LaBute, e Reconstrução de um Amor (2003), de Christoffer Boe.

A trama de Felizes Juntos é simples e nada original. É centrada em dois homossexuais, Yui-Fai (Tony Leung Chiu-Wai) e Po-Wing (Leslie Cheung), que viajam de Hong Kong a Buenos Aires à procura das Cataratas do Iguaçu, uma espécie de quimera para uma nova vida. Até aí, nada de incomum, porque tem uma penca de filmes parecidos. O grande lance do filme é a maneira como Kar-Wai desenvolve a história. O nome do filme, Felizes Juntos, é, na verdade, uma armadilha para o espectador, que pode ficar ansioso em ver Fai e Po felizes e juntos.

E é justamente a inconstância, a incomunicabilidade e os encontros arredios que jogam com o sentimento do espectador. Mais ainda porque os movimentos de câmera, os cortes das cenas, a alternância fugaz de música (ora Piazzolla, ora Zappa) e silêncio reforçam essa relação fragmentada e incompleta de Fai e Po. Porque no final de tudo, mais do que um filme de amor, Felizes Juntos trata do sentido do amor na vida de cada um dos personagens.

Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai
Coleção Lume, drama, 93min, 1997.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Com o dedo no gatilho*

"Tropa de Elite" virou uma febre, primeiro por ter vazado para a Internet e ser facilmente encontrado em qualquer camelô do Brasil. E segundo, porque trata da criminalidade e do tráfico de drogas a partir da visão do temido Batalhão de Operações Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro.

Quando os camelôs do Rio de Janeiro começaram a vender o DVD de "Tropa de Elite" quase ninguém entendeu nada. Era só mais um filme de ação à disposição, por um precinho bem camarada. Mas aí um cara comprou, recomendou para o amigo que comparou com Cidade de Deus, e então veio outro dizendo que "Tropa de Elite" era ainda melhor. Esse boca-a-boca aumentou ainda mais o interesse pela cópia pirata, até porque o filme só seria lançado em novembro. Para driblar esse inconveniente, o diretor José Padilha resolveu antecipar às pressas o lançamento nos cinemas.

No primeiro final de semana de exibição nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro, o filme levou cerca de 180 mil espectadores. Segundo pesquisa realizada pelo Ibope (não confundir com BOPE) estima-se que entre 12 e 15 milhões de pessoas já viram "Tropa de Elite", seja em cópia pirata ou na telona. Para entender como é importante essa marca, o filme de maior público do cinema brasileiro na sua estréia é "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, lançado em 1976, com 12 milhões de espectadores.

Mas afinal de contas, por que "Tropa de Elite" vem causando todo esse alvoroço? O filme é muito bom. É inegável. Esfrega na cara do espectador uma dura realidade que não pode mais ser ignorada. Até aí, novidade nenhuma, porque tem uma penca de filmes importantes que ajudam a entender os problemas sociais do Brasil, não só pelo viés da criminalidade (leia box abaixo). A originalidade do filme, no entanto, reside no foco delimitado pelo diretor. O espectador é conduzido pelo ponto de vista do capitão Nascimento (Wagner Moura), do BOPE.

Contra a sua vontade, Nascimento é destacado para "apaziguar" o Morro do Turano. É que no filme o Papa João Paulo II visitaria o Rio de Janeiro e ficaria hospedado pertinho dali. E nada poderia acontecer a Sua Santidade, lógico. Ao mesmo tempo, Nascimento corre contra o tempo para encontrar um substituto. O capitão quer sair do BOPE porque anda estressado, sua mulher está grávida, e a relação entre eles esmorece a cada dia.

Voz do tédio
Nascimento é o narrador e protagonista. É sua a voz da indignação, do tédio de repetir todo os dias as mesmas tarefas e nada, absolutamente nada, ao seu redor modificar-se. O espectador fica sabendo por ele que a inoperância da Brigada Militar é o motor do BOPE. Porque quando nada mais adianta, quando a BM perde o controle, o BOPE é chamado para resolver tudo. Mas o BOPE nunca resolve tudo como se esperaria. Porque não adianta matar traficante e recuperar armas de grosso calibre. No dia seguinte, novos traficantes estarão no lugar dos mortos armados até os dentes.

A resposta desse descontrole, no entanto, não está em "Tropa de Elite", e sim nos documentários "Notícias de Uma Guerra Particular" (João Moreira Salles e Kátia Lund) e "Falcão, Meninos do Tráfico" (MV Bill e Celso Athayde). Nessas duas produções entende-se que há uma lista imensa de meninos ávidos por pegar em armas e lutar pelo "movimento", ou seja, meninos loucos para ser traficantes. Outro filme referencial e, de certa forma complementar para entender "Tropa de Elite", é "Cidade de Deus". Se o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, revelava a gênese do narcotráfico nas favelas, "Tropa de Elite", na visão do capitão Nascimento, disputa um jogo de duas caras com as classes média e alta.

Cinema não salva ninguém
Se de um lado, é bom para a elite econômica que o BOPE suba no morro para exterminar quem encontrar pela frente, contanto que esse sangue todo não espirre no asfalto, de outro, Nascimento tenta provar que o tráfico só existe porque os filhos dessa mesma elite continuam comprando maconha, cocaína e o escambau. Nascimento é enfático: "Quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para que um playboy possa enrolar um baseado?".

Não espere uma luz no fim do túnel. "Tropa de Elite" é um minucioso tratado sobre a realidade, mas é só um filme. E cinema não salva ninguém. O que salva é investimento em segurança, educação, saneamento básico, saúde. Nascimento e sua tropa estão tão exaustos e desnorteados quanto a molecada que empunha fuzis nas favelas Brasil afora. Mas como diz o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel, no documentário "Notícias de Uma Guerra Particular": "A única instituição do governo que sobe a favela é a polícia. Mas a polícia não pode fazer nada sozinha".



O LIVRO
"Elite da Tropa", foi escrito em 2005, por Luiz Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel, com o roteiro do filme já em andamento. "Tropa de Elite" centraliza a trama no capitão Nascimento (Wagner Moura), mas o livro retrata diversas histórias de outros policiais do BOPE, preservando ainda suas identidades.
Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 39,90 (sem o desconto de 20% da Feira do Livro).

PARA ENTENDER A CRIMINALIDADE NO BRASIL
Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco
Notícias de Uma Guerra Particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund
O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), de Paulo Caldas e Marcelo Luna
Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Ônibus 174 (2002), de José Padilha e Felipe Lacerda
Carandiru (2003), de Hector Babenco
O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), de Paulo Sacramento
Falcão, Meninos do Tráfico (2006), de MV Bill e Celso Athayde

* reportagem publicada no jornal Pioneiro.