quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Nasce morre

Um andarilho desafia a sede. A terra seca racha a sola dos pés. O sol a pino corta os lábios cerrados. Nenhuma nuvem no céu. Quase tudo a perder de vista. Coberto de poeira, José avança. Deixa para trás a tristeza revestida de apatia. E mesmo com as pernas trêmulas dribla a incerteza da próxima curva. Não desiste. Crava as unhas no véu da esperança e arrasta o corpo convalescente.

Desafia o improvável e sorri. Não é sarcasmo, muito menos ironia. Não blasfema. Jamais. Sua travessia é assistida pelo divino. Vem lá do céu a proteção. Depois de encontrar a fé perdida no descampado da vida, desistiu até de usar facão. Não precisa do aço afiado. Agora não cabe mais na boca o ódio, só o perdão.

José não virou santo. Não mudou da noite para o dia. Resolveu só experimentar o caminho inverso. Ao invés de descer a lomba, aproveitando o declive para voltar atrás, despiu-se da insegurança e subiu. E nunca mais parou de caminhar. Tem dias que a sola dos pés quase não toca a terra seca. José parece flutuar rumo ao horizonte. Adentro da estrada sem fim.

Não come, não bebe, não pára. Sonha de olhos vidrados, encarando o futuro como quem seduz a mulher mais linda. E mesmo sem dizer uma só palavra José emociona. Nunca teve sua história contada. Ninguém sabe onde nasceu, nem onde morava antes de começar a andar por aí. Não usa lenço, nem documento.

Quando cansa, respira, encara o sol alaranjado, inspira, olha de soslaio para trás, balança a cabeça, como quem diz "nunca mais", pisa forte a terra seca, e caminha. Avante. Contra o sol, a chuva, as rajadas de vento. Contra todos que deixa para trás comendo poeira. José deixa sua marca no rastro do tempo. Mas ele sabe que nem todos enxergam as pegadas.

Preferem seu pesar que anoitece no passado. Porque é mais fácil perseguir a lágrima que desaparece na terra seca, do que o sorriso amoroso de despir o espinho das rosas. Enquanto isso, José nasce e morre todos os dias na lembrança de alguém.

conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Maldita sina do "eu faço"

Tem uma regrinha bem chinela que uns e outros teimam em consolidar como lei. É uma certa deturpação da fabulosa filosofia punk: "faça você mesmo". Não conhece punk rock? Sem problemas, explico. É uma guitarreira de três acordes. Tudo muito cru, nada lapidado, que se presta e muito bem para quem não sabe tocar nada. Não que o gênero só tenha revelado músicos desprovidos de talento, só pra ser eufemista. Nada disso. Sem essa de enfiar palavras na minha boca. O charme do punk é a atitude. Nenhum perfume e muito suor.

Voltando. Tem uma leva de gente desinteressante - inclusive em Caxias, lógico, cidade onde tudo nasce -, que insiste vender seu passe pra qualquer posição. É como se o talento pra fazer origami fosse similar ao de rachar lenha. Parece invenção, mas não é. Sério. Pode sair por aí e comprovar. Qualquer lugar serve. Até no Parque dos Macaquinhos onde sazonalmente ocorrem shows, numa rara demonstração de risos e aplausos. E olha que na hora da comédia, no último domingo, o parque tava vazio.

Esse desejo descabido de fazer tudo a qualquer preço é pior do que anúncio de classificados. Nunca se sabe se aquele tão desejado carro, com todos os itens de série, único dono, teto solar e o escambau, não tava submerso no Rio das Antas. E pior, se foi reconstruído com peças encontradas no ferro velho, e não, originais de fábrica. É como diz minha vó: "vendem gato por lebre". O problema, vó, não é o coitado do gato ridicularizado, mas o safado do cara que fantasiou o felino como uma lebre, enfiando chumaço de algodão nas orelhas e...deixa pra lá.

É como aquela padeira, que sabe como poucos vender o melhor pãozinho, quentinho, saboroso, que derrete a manteiga e faz qualquer um babar de gula. Pede pra ela reger um concerto de uma orquestra com mais de 100 músicos cujo repertório contempla toda a obra dodecafônica do austríaco Arnold Schoenberg. Não sabe o que é dodecafonia? Lembra das três notas do punk, que era só um subterfúgio pra virar o mundo de ponta-cabeça? Pois bem, a dodecafonia também queria subverter a ordem, mas ao invés de fixar-se em apenas três notas, Schoenberg desenvolveu séries preestabelecidas de 12 sons diferentes e independentes entre si.

Coisa de loco, né? Mas lá no fundo tem um sentido, mesmo que nas entrelinhas. Pronto, expliquei a piada. Não devia, mas contei. É que eu não descanso. Sei que nada adianta expor os velhos problemas que se arrastam desde quando o primeiro índio que morava por aqui viu sua arte boiando no mar de ignorância. Porque, já que o índio, do alto da sua sensibilidade não percebia que poderia ganhar uns trocados com os potes de barro que produzia, apareceu o astuto colonizador e disse: "eu faço". E desde então, os vasos, roubados, são vendidos como obras preciosas, cujo valor transcende o limite do cartão de crédito.

crônica desta quarta-feira no Pioneiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Joãozinho e o mordomo

Tem gente que sente calafrios só de imaginar-se assistindo a um "filme cabeça". O que dizer então de Santiago, que não é só um filme, mas a reflexão de um diretor sobre sua obra? E não uma obra qualquer, mas inacabada. Um projeto iniciado em 1992, mas só retomado em 2005, por não saber muito bem o que fazer com tantas horas de entrevistas, tantos olhares difusos, tamanha insensibilidade de não perceber nos pequenos gestos de Santiago, o filme ali, construindo-se diante do diretor.

João Moreila Salles, diretor de Santiago, não é só irmão de Walter Salles, o mais famoso cineasta da família. João é um dos melhores documentaristas brasileiros. Autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos. Faz boa dupla de ataque, marcando gols de placa, ao lado de Eduardo Coutinho (Edifício Master e Jogo de Cena). Santiago era o mordomo da Casa da Gávea, mansão do pai de João. A princípio é um filme sobre um único personagem. João vai então ao apartamento de Santiago, e revela, em preto e branco, um pouco da sua intimidade.

Mas sutilmente João acaba por trazer à tona mais um personagem, silencioso, nem por isso menos atormentado, a Casa da Gávea. Também em preto e branco mostra a casa vazia, os móveis empoerados. E nessa inconstância, João nos entrega o jogo. A narração, em primeira pessoa, acaba por revelar as dúvidas, as contradições e as impossibilidades de montar o filme, reorganizar as tantas cenas filmadas e quase esquecidas pelo tempo. João diz que Santiago o fez voltar à casa da família e reencontrar as imagens daqueles tempos de menino, nadando na piscina.

Todos os planos do filme mostram Santiago mais distante, nunca em close. Lá no fim vamos entender que os planos são todos referenciais à obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu. E João diz que só em 2005, quando voltou a montar o filme percebeu que ele, João, nunca deixou de ser o filho do dono da casa, e Santiago, nunca deixou de ser o Mordomo da Casa da Gávea. E foi por puro maniqueísmo de João que Santiago distanciou-se. Puro preciosismo, incapacidade de entrar na trilha aberta por Santiago. Como no momento em que Santiago quer dizer algo importante a ele, e Jão não quer escutar.

_ Joãozinho, Joãozinho...eu queria dizer que faço parte de um grupo de seres malditos.

_ Não, isso não Santiago...

Nem a câmera registrou o ato falho. Só ficou o áudio e a tela tingida de preto. João reconhece, agora, com o filme pronto, que errou. Não quis romper a barreira entre o filho do dono e o mordomo da casa. Pena. Santiago morreu em 1994. Fica agora só o filme em retalhos, tentativa de reatar cenas dispersas, e as costurar com um presente mais esclarecido, menos compexo do que em 1992. O João de hoje, quem sabe, teria feito outro filme, a partir de outras imagens. Quem sabe. Ele mesmo diz isso durante o filme.

Mas não seria esse Santiago. Seria outro. E esse é genial justamente pelo processo ao avesso. Do diretor revendo seus erros, expondo os problemas diante da platéia. É risível ver João forçando a barra, regravando takes de um mesmo plano. Um documentarista tentando extrair a realidade através das técnicas de ficção. Porque quer ver seu personagem atuando melhor. Nem que para isso tenha de perder a naturalidade. Talvez por isso, pela vergonha de rever-se, João disse quando do lançamento de Santiago que jamais voltaria a filmar.

Jamais voltará a filmar, espera-se, como durante a produção de Santiago. Inseguro, equivocado e insensível. Mas espera-se que volte a filmar com a mesma coragem, ousadia e capacidade reflexiva desse Santiago, finalizado e despido de todo pudor. Esse João de Santiago, montado sob a linha tênue da técnica apurada, despido da vaidade, e querendo dissecar a filosofia desse cotidiano que insiste em revelar-se em um filme melhor e diferente com o tempo. Até a morte da imagem, nem por isso, fim da fruição. Os silêncios do filme, na tela preta, que o digam.

MALDITA UTOPIA

Onde tiver arte haverá a maldita sombra da utopia. E se não for assim, não será arte. Será produto que se vende no supermercado, tipo sabonete, pra limpar o que quiser, menos ampliar os sentidos. E sem essa de elite e baixo clero. Arte é arte, independentemente da geografia, escolaridade e circunstância. Não é porque a obra foi uma encomenda que terá menor relevância. Ou ainda, ser desprezada porque não tem vínculo algum com as tradições do lugar onde foi concebida. Arte é quase sempre cisão e quase nunca reconstrução.

Lógico que esse é um papo filosófico. E se tiveres receio de continuar por medo de sentir-se seduzido pelos argumentos que seguem, podes descer e procurar o trem que vai de volta à Terra do Nunca. Podes voltar pra caverna e ler aquele pocket sobre o Platão. Isso não vai doer nada. Aliás, todo regresso é tranqüilo, nada traumático, e podes ter certeza de que aquele velho ancião que senta na história da cidade não vai escrever que foi por medo de avião que decidiste voltar de trem.

Maldita utopia. E bendita cidade que tem tudo ainda por fazer. Pipocam por aqui microorganismos ávidos por almoçar, jantar e embebedar-se de arte. Sei de gente que engordou 100 quilos em um ano só consumindo arte. Gente que despreza todo o tipo de dieta e só não vai a museu na segunda-feira porque está fechado. Outro não pára de acumular versos dissimulados de poetas forasteiros que fizeram dessa cidade a sua morada. Pena que nem sempre a oferta de arte dê conta de alimentar a tantos famintos.

Agora veio um tal suprimento extra. É um fome zero enriquecido de cultura. Não li a composição das embalagens de comida, mas dizem que agora vai ser possível engordar a gregos e troianos. Não duvido. Hoje tem ração transgênica capaz de fazer boi virar zebu do dia pra noite. Só não vi fazer vaca virar girafa. É o tal dilema da tecnologia genética. É possível um quadrúpede ser mais forte, mas não vi ainda fazer ele enxergar além da cerca de arame farpado. É outro prisma e, aí, vem denovo a sina da maldita utopia.

Mas e o que fazer com quem não tem a mínima sede de arte? A quem interessa mais o produto interno bruto do que a fruição de uma obra, criação de alguma mente insana dessa cidade? O cara da economia, que injeta dinheiro na cidade, pode sentir-se participante desse processo com o que ele tem de melhor: o capital. Não precisa gostar, nem entender, basta patrocinar. Basta alimentar com dindin uma horda de dementes desconectados com a realidade produzindo filmes dia e noite, sem pausa para café ou banho.

Lógico que é uma maldita utopia. Porque os donos dos cascalhos da cidade, armados de pudor e hipocrisia, não cederão aos encantos da arte. Nunca. A cena é tão carregada de asco como transar com um alien. E descabida, como temperar a salada com talco para os pés. Enquanto isso, cresce o produto interno bruto com uma leva de sabonetes que saem das fábricas com carimbo e embalagem de arte. Maldita utopia a da lei CONTRA o incentivo fiscal de tanta porcaria.

crônica desta quarta-feira, no Pioneiro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O CARA DA MALA*

Rio de Janeiro, final de tarde. Chuva fina e persistente.

Cena 1
Um cara de 30 anos entra no saguão do Aeroporto. Veste bermuda, camiseta e chinelo. Carrega uma mala daquelas que ninguém mais usa, modelo anos 70, bege. Parece atrasado. Gesticula muito, pede ajuda a quem encontra pela frente. Senta-se. Não permanece ali um minuto sequer. Levanta-se. Procura um daqueles televisores que informam os horários dos vôos. Esfrega os olhos no monitor, como se o piloto pudesse ouvi-lo. Sai falando sozinho, tropeçando e xingando a própria sombra. Some do saguão.

Cena 2
O mesmo saguão. Um homem de 40 e muitos anos puxa a fila. Cabelos compridos e encaracolados, camisa azul com flores pretas, calça de tergal de tom terra e óculos escuros, estilão Reginaldo Rossi. Atrás, vem seu filho. Mesmo cabelo, mesmo sorriso debochado, menos brega, mais hype, vestindo tênis Nike e mochila Adidas. Mais atrás ainda, vem uma mulher também de 40 e muitos anos, cara amarrada, cabelos longos e crespos, vestido abaixo dos joelhos, canelas finas e perebentas. Sentam-se. O filho abre a mochila e tira uma revista de mulher pelada. Antes de folhear a primeira página recebe um tabefe de mão fechada, da própria mãe.


Cena 3
Volta o cara de 30 anos. Ainda mais descabelado. Passou os últimos minutos varrendo o aeroporto rastreando o avião perdido. Ainda fala sozinho, cada vez mais alto, cada vez mais desesperado. Confere minuto a minuto o número do vôo, o destino, o portão e o horário (que foi pro espaço). Sacode a passagem como se fosse um lenço branco de súplica. Quase um último sinal de S.O.S daquele chato filme de náufrago. Seria engraçado, não fosse o manifesto sintoma de paranóia, quase esquizofrenia. Avoado, o cara sobe as escadas e desaparece.

Cena 4
A família Trapo, do guri tarado e do pai, sósia do Reginaldo Rossi, adormece no saguão. A mãe acorda e desajeitada levanta-se. Minutos depois, volta correndo, gritando como louca. A última chamada ressoa pelos corredores. É o avião quase partindo, e a mãe em desespero, sacolejando o filho e o marido. Ela corre, parecendo aqueles maratonistas de marcha atlética, tamanha desenvoltura. Assim que cruzam o portão 8, o quase-esquizofrênico reaparece, em segundo plano.


Cena 5
Paranóico, o cara quase-esquizofrênico, persegue uma aeromoça. Agarra-se às suas pernas, e de passagem em punho levanta uma das mãos ao céu. Deseja água como o herege que recebe a provação divina caminhando décadas pelo deserto escaldante. Cai e é atropelado pela mala de rodinhas da aeromoça. Sem largar da mala bege, estilo anos 70, levanta-se de sopetão e corre atrás de uma multidão que se dirige ao portão R6. Antes das crianças e dos anciãos, o quase-esquizofrênico tem preferência. É amarrado a uma cadeira de rodas, olhos e boca fechados, segue paciente pela esteira de carga.

Som de murmúrio. Fade out.

Fim.
*Conto de hoje, publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

CASA VAZIA*

Passa da meia-noite. Janelas escancaradas e a brisa leve de uma noite de verão que anuncia chuva ocupa a casa vazia. Lá fora, meia dúzia de fogos de artifício rasgam o céu nublado. Aqui dentro, um doce ruído de ninar em versos suspirados, como se a Björk tivesse embalando o filho que ainda não tive. Na mesa, um javali de 100kg, com uma maçã reluzente cravada entre os dentes, reina soberano. Tombou na mata virgem com um único tiro. Certeiro e indolor. É o que me disse o vendedor, um muçulmano radicado nos Campos de Cima da Serra.

Sentei na ponta da mesa. À minha frente, além do javali de olhar cândido, quase de súplica, outros 11 pratos. Cada uma das cadeiras vazias representa uma pessoa em quem eu cravei um punhal. Nunca pelas costas, sempre de frente e com um desejo libidinoso de arrancar-lhe o coração. Aprendi com Maria Bonita, a rainha da caatinga e mulher de Virgolino Ferreira, o Lampião, a ficar à espreita, de tocaia. E com Antônio das Mortes, herói às avessas criado por Glauber Rocha, a não ter pena.

Guardo os onze corações puros, cheios de amor indelével, em caixinhas especiais, envidraçadas, e acomodadas carinhosamente no freezer. É doce a vertigem de aprisionar o sentimento mais arrebatador que se pode sentir, no auge do seu prazer. O primeiro "eu te amo", dito com o peito ardendo em febre e com os olhos cheios de lágrima de felicidade, não pode ressoar assim irriquieto e perder-se na profusão do desejo. Por isso, retribuo sempre o "eu te amo", e cravo no peito a adaga de prata.

Sorve sempre o amor em tinta vermelha. Acomodo no meu peito o coração que bate em desatino. Aos poucos, passa da euforia à cadência melancólica de uma música iluminada por coros femininos dialogando com harpas e violinos. É como a aurora de um novo dia, sem o peso da dúvida. Por que afinal eu deveria protelar a imortalidade do amor com a incerteza do amanhã, se mais cedo ou mais tarde o sentimento será maculado pelo ciúme, traição e desamor? Melhor o amor eterno guardado no congelador.

Antes de cravar os dentes no javali, um brinde ao amor. Já aos desalmados, que arrastam os dias com sua incapacidade de amar, a quem congelou seus corações antes do suspiro de "eu te amo", a quem amarga as noites em rituais de auto-flagelação e aos pobres mortais devotos do ódio, um cuspe seco no chão. Resta a esse bando de inúteis afogarem-se nesse cotidiano cinza e tenebroso. Às minhas adoráveis mulheres, a dádiva da imortalidade, do amor cândido, insuspeito de ciúmes porque transmuta-se logo após o primeiro "eu te amo".

Depois de saciar-me com a carne selvagem, dentes afiados, não resisti e voei pela janela à procura de um novo amor de ano novo.

* conto novo de ano novo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ó, CASARA

Charge do Iotti, de hoje, publicada no jornal Pioneiro.




Homenagem ao Casara, líder de uma nova tribo
nos altos de um cidadezinha da África.
Cansado de comer zebra e beber cachaça de milho,
Casara anda rindo à toa com a papada na série B.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

AMANTES CONSTANTES


O mundo do cineasta francês Philippe Garrel é em preto e branco. Seus personagens não se deleitam na diversidade de cores do arco-íris, mas transitam entre o claro e o escuro, conduzidos pela sinuosa trilha entre a exaltação e a tristeza profunda. Parece dramático demais, mas assim é a vida. Ou alguém ainda acredita que a vida é algo parecido com aquele vôo de helicóptero através de um túnel de trem, cena de uma das mirabolantes seqüências de "Missão Impossível", com Tom Cruise?

Seja em "Amantes Constantes" ou mesmo em "O Nascimento do Amor" (1993, inédito no Brasil), Garrel disseca as relações amorosas. Dois filmes bem distintos, mas com o mesmo teor e a mesma câmera que não invade o espaço dos atores, muito menos irrompe o silêncio sem pudor. Garrel sabe como poucos, atualmente, ponderar necessidade e desejo; amor e vaidade; cólera e vaguidão. E o melhor, Garrel sempre deixa pistas falsas ao longo dos filmes. Entre uma cena e outra imprescindível, representativa para o enredo principal, o diretor arma uma porção de arapucas.

"Amantes Constantes" inicia com um bando de jovens metendo o pé na porta do sistema político burocrático, atrasado e centralizador da França, em 1968. Aquela virulência juvenil, desprovida de conseqüências, os coquetéis molotov que voam sobre a muralha de soldados, a fuga por entre os prédios esguios de uma Paris ainda com resquícios provincianos não é nada mais do que o pano de fundo. De todas as pistas, a única verdadeira é a de que o espectador conhece a partir daí o protagonista, François (Louis Garrel).

Os planos lentos, contemplativos, a música que aparece sutilmente, mas raramente, sem atropelar as cenas e os diálogos, tudo isso emoldurado sob uma harmônica estética, que fuzila a vigente necessidade de corroer o tempo. Porque em última análise, o tempo é o protagonista dos filmes de Garrel. Sua obsessão é transpor ao cinema o tempo da vida, o tempo de nascer o amor ou mesmo o tempo de perder o amor. Parece loucura, mas é só uma extensão do cinema idealizado por gente como Andrei Tarkovsky (1932-1986), que escreveu um livro para explicar essa pretensão: "Esculpir o Tempo". Infelizmente, Tarkovsky anda esquecido pelo nosso tempo.

"Amantes Constantes", no entanto, aos poucos, com a mesma incidência de encontros e desencontros da vida, acaba por colocar François diante de Lilie (Clotilde Hesme). Já passa da metade do filme, e não sabemos muito bem ainda se eles são de fato os amantes constantes que o título sugere ou são mais uma das pistas falsas. François e sua poesia parecem cada minuto mais em consonância das esculturas de Lilie. Assim como na vida, eles estão ligados pela arte em profusão naquele ano, já posterior aos confrontos de 1968.

É só um ano depois, mas muito da vida parece ter se esvaído. É porque o amor de Lilie e François perdeu-se no tempo. Não querem arriscar um amor que ainda nem parece consumado, mesmo depois da cama, mesmo depois da traição consentida. É como se a história de Lilie e François fosse a tentativa de reviver o amor de "Antes da Revolução" (1964), parafraseando o filme do italiano Bernardo Bertolucci, citado no filme de Garrel. No entanto, em "Amantes Constantes" tem o Sono dos Justos, que estabelece a antítese entre o antes e o depois da revolução, a de maio de 1968. E na vida de Lilie e François: antes e depois do amor.

Imovision, Drama, 178min, 2005.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

PRÊMIO

É brazuca o vídeo vencedor do Project Direct, um certo concurso internacional de curtas-metragens promovido pelo YouTube. "Laços", dirigido por Flávia Lacerda, tem roteiro de Adriana Falcão, esposa de João Falcão (diretor de "A Máquina"). A protagonista, Clarice, 18 aninhos, é filha Adriana e João.

O curta custou R$ 2 mil e levou como prêmio US$ 5 mil. Além disso, "Laços" será exibido em sessão especial no Sundance, festival de cinema independente norte-americano. O vídeo pode ser visto em diversos links pelo YouTube, mas estima-se que cerca de 200 mil pessoas já o tenham assistido.

A sinopse é a seguinte: menina conhece rapaz bizarro após a morte do pai.

Assista antes de julgar (sic): aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

UM FILME PUNK

Há muito tempo um filme deixou de ser só um filme. Explico: parece que o interesse é menor pelo que se vê através da tela do cinema ou mesmo pela telinha do computador, e se torna mais relevante a muvuca em torno da obra. Ou vai dizer que "Je Vous Salue Marie" (1985), do francês Jean-Luc Godard, se tornou célebre pela narrativa cinematográfica e não pela polêmica de ter sido vetado pelo Vaticano? Ou ainda o marketing do Manifesto Dogma 95, dos jovens realizadores dinamarqueses que impunham uma série de mandamentos para suas produções.

E quer saber, isso não é de todo ruim, o problema é esquecer que lá no fundo todo filme é uma pretensa obra de arte e assim sendo, precisa ser dissecado. "3 Efes", de Carlos Gerbase entra nessa corrente. É um dos primeiros filmes a ser lançado em diferentes mídias ao mesmo tempo: televisão, salas de cinema digital, DVD e internet. Felizmente, Gerbase, que é inegavelmente um dos realizadores mais importantes do estado, e ainda não tem boa repercussão no Brasil, seja do público ou crítica, meteu o dedo na ferida e diz que faz cinema, seja ele captado pela bitola que for, super-8, 16mm, 35mm, digital, ou o escambau.

"3 Efes" conta a história de uma série de personagens, interligados pela teoria do professor Valadares. Para ele, a humanidade depende de três apetites: fome, fasma e foda. Fome e foda não precisam de explicação. Mas fasma, pra quem não sabe, é o apetite de imitar a vida, assim como ocorre nos sonhos, pesadelos, fantasias, e claro, nos filmes. Revendo a filmografia de Gerbase, 3 Efes parece ter sido gestado como uma seqüência natural aos curtas-metragens "Deus ex-Machina" (1995) e "Sexo & Beethoven" (1997). No entanto, entre os curtas e "3 Efes" vieram os longas "Tolerância" e "Sal de Prata".

Nem "Tolerância" (2000), nem "Sal de Prata" (2005) tiveram a recepção idealizada. Não abarrotaram salas de cinema, não causaram frisson da crítica. Mas "3 Efes" é diferente, já nasce despido de toda pompa. Nasce mais como desejo de um cineasta que precisa fasmar como louco, sem se preocupar com o dia seguinte, com a bilheteria, com as péssimas críticas nos jornais. '3 Efes" não é uma obra-prima. Gerbase não ficará eternamente conhecido pela jogo de cena, nem pela estética, tão pouco pela harmonia do conjunto de atores.

Só que "3 Efes" é a justa medida do cineasta que revê sua obra e parece ter reencontrado o caminho que sempre perseguiu e lhe deu prazer. Não é só porque o filme fala e mostra sexo, a tal foda dos 3 efes, nem porque expõe os casais da história aos defeitos e contradições que em última instância refletem as vidas de todos nós, pobres mortais. "3 Efes" é coerente com Gerbase, porque revela a sua maneira de perseguir a vida dentro do cinema: arriscando, experimentando. Com simplicidade, sem perder de vista as viagens pretenso-filosóficas, e lirismo, temperado com boas doses de sarcasmo para não virar piegas.

Aqueles três acordes da vida como Replicante mostram-se imprescindíveis nessa retomada de Gerbase. Mesmo que pareça tão delirante quanto aquele refrão: "Os cegos também vão ao cinema", do LP "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", do tempo em que Gerbase virou vocalista dos Replicantes. Com 3 acordes ou 3 efes, Gerbase parece sedento por um mosh, louco para voar de braços abertos para a platéia. Estejam os espectadores abertos ou não ao seu irrequieto e incansável desejo de fasmar. Enfim, mais um filme punk do Gerbase.

Casa de Cinema, comédia dramática, 100min, 2007.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CARLÃO METE A BOCA

Leiam porque vale a pena o desabafo do Carlos Reichenbach...

"Como bem afirmou a montadora Cristina Amaral, após o impacto da premiação de Brasília 2007, festival de cinema brasileiro que envolve dinheiro na premiação, está virando turfe, com direito a rixas entre pangarés (nas quais eu me incluo) e até a claque contratada e organizada (na qual eu nunca me incluí). Cometi a mesma besteira que fiz com GAROTAS DO ABC, e aceitei (convencido por pessoas próximas) entrar na competição de Brasília. Acho que a cuspida que me deram (se não foi coisa pior) foi mais que merecida".
(...)

"Sei que a decisão é injusta para com os técnicos e atores que irão trabalhar comigo futuramente, mas eu prometo: de festival brasileiro com prêmios em dinheiro, meu caro Nirton, eu não participo nunca mais!".

"EM TEMPO - Gostei demais de CLEÓPATRA, MEU MUNDO EM PERIGO e ANABAZYS."

Esse é o Carlão, assim como Julio Bressane, um mal necessário ao cinema.

E vamo que vamo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

AINDA SOBRE SCHENATTO

O Márcio Schenatto foi a Flõ com outro curta, além do "Kylmair".

"Menino Lipe, Cachorro Sabão", estranho filme singelo sobre um menino e seu cãozinho, falado em dialeto, preto e branco, e coisa e tal, foi comparado pela Bia Werther, inventora do Flõ, com os filmes do Truffaut.

Mas áaah!

VENCEDORES DE BRASÍLIA

Saiu a lista dos vencedores do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Bressane foi vaiado pelo prêmio de melhor filme por "Cleópatra". Não via inda, mas tem jeito de que vou gostar.

De tabela, Alessandra Negrini, a Cleópatra, também foi vaidada pelo prêmio de melhor atriz.

Já o melhor filme pelo júri popular foi para "Chega de Saudade", de Laís Bodansky, que levou ainda o de melhor direção.

O cinemeiro de poesia, Joel Pizzini, ganhou o prêmio especial do júri, por "Anabazys".

PRÊMIOS OFICIAIS - TROFÉU CANDANGO

LONGA-METRAGEM 35MM
Melhor Filme – R$ 80.000,00
CLEÓPATRA, de Julio Bressane

Melhor Direção - R$ 20.000,00
LAÍS BODANSKY por Chega de Saudade

Melhor Ator – R$ 10.000,00
EUCIR DE SOUZA por Meu Mundo em Perigo

Melhor Atriz - R$ 10.000,00
ALESSANDRA NEGRINI por Cleópatra

Melhor Ator Coadjuvante – R$ 5.000,00
MILHEM CORTAZ por Meu Mundo em Perigo

Melhor Atriz Coadjuvante - R$ 5.000,00
DJIN SGANZERLA por Falsa Loura

Melhor Roteiro – R$ 10.000,00
LUIZ BOLOGNESI por Chega de Saudade

Melhor Fotografia – R$ 10.000,00
WALTER CARVALHO por Cleópatra

Melhor Direção de Arte – R$ 10.000,00
MOA BATSON por Cleópatra

Melhor Trilha Sonora – R$ 10.000,00
GUILHERME VAZ por Cleópatra

Melhor Som – R$ 10.000,00
E ainda Prêmio Dolby: consiste na licença para usar o sistema de som Dolby (equivalente a 4 mil dólares)
LEANDRO LIMA por Cleópatra

Melhor Montagem - R$ 10.000,00
RICARDO MIRANDA por Anabazys

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
ANABAZYS, de Paloma Rocha e Joel Pizini

CURTA-METRAGEM EM 35MM
Melhor Filme - R$ 20.000,00
TRÓPICO DAS CABRAS, de Fernando Coimbra

Melhor Direção – R$ 10.000,00
LEONARDO LACCA por Décimo Segundo

Melhor Ator – R$ 5.000,00
WOLNEY DE ASSIS por Enciclopédia do Inusitado e do Irracional

Melhor Atriz – R$ 5.000,00
LARISSA SALGADO por Trópico das Cabras

Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
CAMILO CAVALCANTE por O Presidente dos Estados Unidos

Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
LULA CARVALHO por Trópico das Cabras

Melhor Montagem – R$ 5.000,00
LUIZ GUIMARÃES DE CASTRO por Eu sou assim – Wilson Batista

CURTA OU MÉDIA OU LONGA-METRAGEM EM 16MM
Melhor Filme – R$ 15.000,00
CONVITE PARA JANTAR COM O CAMARADA STALIN, de Ricardo Alves Junior

Melhor Direção – R$ 10.000,00
RICARDO ALVES JUNIOR por Convite para jantar com o Camarada Stalin

Melhor Ator – R$ 5.000,00
ARDUINO COLASSANTI no filme Esconde Esconde, de Álvaro Furlan

Melhor Atriz – R$ 5.000,00
SUZANNA KRUGER no filme Esconde Esconde, de Álvaro Furlan

Melhor Roteiro – R$ 5.000,00
ALVARO FURLONI, pelo filme Esconde Esconde

Melhor Fotografia – R$ 5.000,00
TOMAS PERES SILVA, Convite para jantar com o Camarada Stalin, de Ricardo Alves Junior

Melhor Montagem – R$ 5.000,00
MARINA MELIANDE, por O LABIRINTO, de Gleysson Spadetti

Premio Especial do Júri para O CRIADOR DE IMAGENS, de Diego Hoefel e Miguel Freire

Menção Honrosa para SISTEMA INTERNO, de Carolina Durão

PRÊMIO JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem em 35mm – R$ 30.000,00
CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodansky

Melhor média ou curta-metragem em 35mm – R$ 20.000,00
EU SOU ASSIM - WILSON BATISTA, de Luiz Guimarães de Castro

PRÊMIO DA CRÍTICA
Troféu Candango

Melhor Longa 35mm
Pela excelência de uma realização que evidencia a disposição em correr riscos, a exemplo da ousada concepção da trilha sonora, da câmera e da fotografia, o prêmio da crítica em longa-metragem 35mm vai para:
MEU MUNDO EM PERIGO, de José Eduardo Belmonte

Melhor Curta 35mm
Pelo apuro de sua montagem, a força da expressão de seus personagens e os contrastes de sua história sobre a desconstrução de um amor exaltado pela melancolia de uma viagem silenciosa pelo abismo cotidiano, o prêmio da crítica em curta-metragem 35mm vai para:
TRÓPICO DAS CABRAS, de Fernando Coimbra

terça-feira, 27 de novembro de 2007

SALVE KYLMAIR, SALVE SCHENATTO

Um dia eu conto a verdadeira história do encontro (nada libidinoso) entre Kylmair, mais conhecido como Ligeirinho, e o videasta Márcio Schenatto. Mas isso só quando eu tiver um tempo pra ficar divagando.

Agora é hora de informação, e informação tem prioridade. O documentário "Kylmair", dirigido por Márcio Schenatto ganhou mais um prêmio. Foi eleito como o melhor filme pelo júri popular no Flõ - Festival de Porto Alegre.

LISTA DOS PREMIADOS:

- Ciber Espaço (Júri on Line): **BLOOD BROTHERS**, Maurício Fröhlich, Dois Irmãos-RS

- Prêmio 'Imersão': **SUBJETIVO**, de Erasmo Alcântara de Goiânia-GO

- Prêmio 'Sonidos' (Casa dos Cantos oferece estúdio pra gravação e edição de trilha para um curta):
**PORCOS NÃO OLHAM PARA O CÉU**, de Daniel Marvel, Gravataí-RS

- Prêmio 'Sujeira'': **O QUE SERÁ DA TV DIGITAL?**, de Adriana Veloso,Marcelo Reis e Richardson Pontone, BH-MG

- Prêmio 'Pequisa': **CASCADURA**, de Felipe Cataldo e Godot Quincas

- Prêmio 'Ousadia e Risco': Vídeo Terrorismo, de Vinicius Cabral, BH-MG

- Prêmio 'Contribuição'(TeleImage oferece 5 horas de Telecine Off Line e 10 horas de Edição de Som):
**NOTURNA**, Felipe Vernizi, Caraguatatuba-SP.

- Prêmio 'Inovação' (APEMA Porto Alegre oferece 5 mil reais em serviços para até 5 diárias):
**LULA A DORÉ**, Rafael Schiliting, Florianópolis-SC

- Prêmio 'Filme de Aluno': **UM FILME CHAMADO SFINCTER', Zeca Brito, Porto Alegre - RS

- Prêmio do Júri Popular: **KILMAIR** - de Marcio Schenato - Caxias do Sul-RS

- PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI:
O FILME DO FILME ROUBADO DO ROUBO DA LOJA DE FILMES - Marcelo Yuka, Júlio, Pecly e Paulo Silva, RJ-RJ
GALÁPAGOS - Fernando Secco, Niterói-RJ
ETERNAU - Gustavo Jahn, Florianópolis - SC
CLACK BOOM - Bruno Graziano, SP-SP

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

PAMPA ESTRANHO PAMPA QUE DE CERTA FEITA ESCONDIA BLAU

Se Blau Nunes anda divagando pampa afora, ninguém sabe. Nem mesmo André Costantin, documentarista caxiense que recém lançou "Blau Nunes, O Vaqueano", seu segundo filme selecionado pelo prêmio DOC TV. O documentário será exibido hoje (15/10) e amanhã (16/10), às 20h, na Sala de Cinema Ulysses Geremia (Centro de Cultura Ordovás, em Caxias). A entrada é franca.

"Blau Nunes, O Vaqueano" poderia ser só uma tentativa de personificar essa mítica figura que ninguém sabe se existiu ou foi só um espectro de Simões Lopes Neto. Só isso bastaria. No entanto, Costantin vai mais além. Aproxima dois distantes universos. Aproxima as contradições daquele passado poético e lendário de Lopes Neto (ou seria Blau Nunes?) com o tempo atual, e estabelece um diálogo com esse gaúcho estranho, que mesmo à cavalo parece léguas distante do pampa.

Blau é retratado nesse descampado. Solito. Crava o pé na pedra, acomoda o cotovelo no joelho, a mão no queixo, e olha ao longe, procurando uma pista qualquer do sentido do gaúcho. Um ator interpreta Blau, que interpreta o pampa sob a luz de Simões Lopes Neto, que é revisto por Costantin na voz de Vitor Ramil. É inquieta e reveladora a construção dessas múltiplas vozes. Mais delirante ainda é o diálogo entre duas fortes e determinantes imagens:

1) daquele pampa dos raios de sol atravessando as densas nuvens, de Blau;

2) da Pelotas (terra que parece perdida no tempo) chuvosa e serena, de Ramil;

A primeira, é recriada por Costantin. É aquela densa imagem do pampa que não precisaria ser filmada, porque todos, que de alguma forma, tiveram um mínimo contanto com a cultura gaúcha, têm impregnada na retina. O horizonte sem fim, enquadrando nos limites do céu nebuloso, acima, e da grama verde, abaixo. O gaúcho valente, guerreiro e truculento, ou o gaúcho apaixonado, acolhedor e honrado, só existe na memória de Blau. E passa a reencarnar na memória do espectador quando Costantin nos revela Blau nesse descampado do pampa do passado.

A segunda imagem nasce do olhar de Costantin pelo nosso tempo, seja da Pelotas (perdida no tempo) ou de Porto Alegre (mais veloz do que o próprio tempo). Começa por Pelotas, seguindo Ramil e sua estética que vem impregnada no tênis (não nas botas de couro) e arrasta-se pela América Latina. Entre as poças d'água na calçada, Ramil narra um certo desconforto, tenta reatar a lucidez perdida em alguma estância. Mas é mais poesia do que verborragia. É a imagem desse novo tempo, rápida, abrupta, câmera inquieta na mão, enquadramento relapso, passo ligeiro, chuva fina, sem fim.

Transitando entre esses dois cenários, do passado contemplativo, ao futuro vertiginoso, Costantin dá voz às histórias contadas por Blau Nunes (ou seriam documentadas por Simões Lopes Neto?). São colagens de depoimentos de gaúchos de todas as querências pontuadas pelo texto do escritor. Histórias de amor e morte, sem a tresloucada passionalidade de Julio Reny, mas com a veracidade do sangue escorrendo da ponta da faca. Tudo é verdade e ficção ao mesmo instante poético. Mesmo aquele amor conquistado com bravura, pode ser só um delírio de Blau Nunes.

Delírio ou não, Costantin não tem medo de revelar o truque que nos prende ao filme. Não é como chegar ao fim de uma jornada e perceber que não andamos um centímetro sequer. É mais denso e profundo, é dar-se conta da finitude do mito. Nem por isso, do seu completo esquecimento. No entanto, Blau segue, e seguirá eternamente, sendo velado à sombra de algum arranha-céu de alguma cidade desse rincão chamado Rio Grande. E nem mesmo a música de Ramil vai despertá-lo.

"Blau Nunes, O Vaqueano". De André Costantin. 52min, 2007.
Co-produção: André Costantin / Transe Imagem / TVE - RS / Fundação Padre Anchieta - TV Cultura

Publicado no blog Primeira Fila da Zero Hora, em 15 de outubro. Republicado aqui, por solicitação de butequim.

DIRETOR GAÚCHO PREMIADO NA ESPANHA

Rafael Figueiredo levou o prêmio de melhor diretor pelo curta-metragem "A Peste da Janice", sábado, na 33ª edição do Festival do Cinema Iberoamericano de Huelva, na Espanha.

Outros brazucas também foram premiados. "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, ganhou o Prêmio Especial do Júri; e Leonardo Medeiros foi escolhido o melhor ator, pelo filme "Não por acaso".

Enrique Fernández e César Charlone (meio-brasileiro, meio-uruguaio), receberam o prêmio de melhor roteiro original por "O Banheiro do Papa", co-produção entre Uruguai, Brasil e França.

Os longas-metragens premiados
* Melhor Filme: 'Luz Silenciosa', de Carlos Reygadas (México/França/Holanda)
* Prêmio Especial do Júri: `O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias' de Cao Hamburger (Brasil)
* Melhor Filme de Estréia: 'Maldeamores', de Carlos Ruiz y Mariem Pérez (Porto Rico/Reino Unido)
* Melhor Direção: Carlos Reygadas por 'Luz Silenciosa' (México/França/Holanda)
* Melhor Ator: Leonardo Medeiros por 'Não por acaso' (Brasil)
* Melhor Atriz: Sofía Gala por 'El Resultado del amor', de Eliseo Subiela (Argentina)
* Melhor Roteiro Original: Enrique Fernández e César Charlone por 'O Banheiro do Papa`(Uruguai/Brasil/França)
* Melhor fotografia: Paula Grandío por `La León', de Santiago Otheguy (Argentina)

Os curtas premiados
* Melhor Curta: 'Juanito bajo el naranjo', de Juan Carlos Villamizar (Colômbia)
* Melhor Direção: Rafael Figuereido por 'A peste da Janice' (Brasil)
* Melhor Roteiro: Ana Paulina por 'Una muerte menor' (México)

40 ANOS EM 10 CURTAS

Só pra variar o Festival de Brasília faz tudo o que sonha vossa vã filosofia. Ou ainda: mais uma lição de Brasília para Gramado.

Na 40ª edição, Brasília lança o DVD "Festival de Brasília: 40 anos em 10 curtas" contendo os 10 melhores curtas-metragens exibidos no festival. Lógico, é a lista dos 10 curtas que os curadores, o cineasta Vladimir Carvalho, o jornalista Sérgio Moriconi e o coordenador geral do Festival, Fernando Adolfo, acreditam ser a melhor seleta da sua história. E com certeza vai ter muuuuita gente reclamando a falta deste ou daquele.

O certo é que o DVD é um documento importante e que acaba por registrar não só diferentes fases do curta-metragismo, bem como a trajetória do Festival de Brasília. O projeto conta com o apoio do Fundo Nacional de Cultura do Minc, viabilizando a produção de 1.200 DVDs que serão distribuídos gratuitamente em todo o país.

FILMES DO DVD

DÉCADA DE 60
"Blá... Blá... Blá...", de Andréa Tonacci. Ficção, p/b, 30min, SP, 1968
"À João Guimarães Rosa", de Roberto Santos. Documentário, p/b, 14min, SP, 1969

DÉCADA DE 70
"Simitério do Adão e Eva", de Carlos Augusto Calil. Documentário, cor e p/b, 19 min,SP, 1975
"Brinquedo Popular do Nordeste", de Pedro Jorge de Castro. Documentário, cor, 25min, DF, 1977

DÉCADA DE 80
"Meow", de Marcos Magalhães. Animação, cor, 8min, RJ, 1981
"Porta de Fogo", de Edgard Navarro. Ficção, cor, 27min, BA, 1985

DÉCADA DE 90
"Maracatu, Maracatus", de Marcelo Gomes. Documentário/ficção, cor, 14min, PE, 1995
"Mr. Abrakadabra!", de José Araripe Jr. Ficção, p/b,13min, BA, 1996

DÉCADA DE 2000
"Rua da Amargura", de Rafael Conde Ficcão, cor, 15min, MG, 2003
"Rap, O Canto da Ceilândia", de Adirley Queiroz. Documentário, cor, 15min, DF, 2005

Mais no site do projeto: www.cultvideo.com.br

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

BRAZUCAS EM HAVANA

Saiu a lista dos filmes selecionados para o 29º Festival del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, que ocorre entre os dias 4 e 12 de dezembro, em Cuba. E tem gaúcho na lista. Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll, de Otto Guerra, concorre no concurso de animação.

Se vai ter ou não fumaceira ainda não sei, só sei que o Otto vai revirar todos os butecos de Havana em busca da Polar.

Na principal categoria, longas de fição, o Brasil entra com seis filmes. Até o Cobrador: In God We Trust, de Paul Leduc, co-prudção entre Espanha, Argentina, Grã Bretanha e Brasil, entrou na vaguinha brazuca.

CONCURSO DE FICÇÃO:
* A Via Láctea (Lina Chamie)
* Baixio das bestas (Claudio Assis)
* Cobrador: In God we trust (Paul Leduc) Espanha, Argentina, Grã Bretanha, Brasil
* Deserto feliz (Paulo Caldas)
* O ano em que meus pais sairam de ferias (Cao Hamburger)
* O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)


CONCURSO DE PRIMEIRO E SEGUNDO FILMES (OPERAS PRIMAS):
* A casa de Alice (Chico Teixeira)
* A ilha da morte (Wolney Oliveira)
* Mutum (Sandra Kogut)
* O grão (Petrus Cariry)
* Querô (Carlos Cortez)


CONCURSO DE DOCUMENTÁRIOS:
* Acidente (Cao Guimaraes, Pablo Lobato)
* Câmara viajante (Joe Pimentel)
* Descaminhos (Marilia Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, Joao Flavio Flores, Maria de Fatima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)
* Filipe (Margarita Hernandez)
* Jardim Ângela (Evaldo Mocarzel)
* Saba (Thereza Menezes, Gregorio Graziosi)
* Santiago (Joao Moreira Salles)
* Stela do Patrocínio - A mulher que falava coisas (Marcio De Andrade)


CONCURSO DE ANIMAÇÃO:
* Calango! (Alexandre Camargo)
* Crisálidas (Fernando Mendes)
* Dominós (Daniel Schorr)
* Engoleduaservilhas (Marcelo Marao)
* Garoto cósmico (Ale Abreu)
* Mercúrio (Savio Leite)
* Na corda bamba (Marcos Buccini)
* Vida Maria (Marcio Ramos)
* Wood & Stock: sexo, orégano & rock'n' roll (Otto Guerra)


CONCURSO DE FICÇÃO (CURTA E MEDIO-METRAGEM):
* Alguma coisa assim (Esmir Filho)
* O.D. - Overdose digital (Marcos DeBrito)
* Outono (Pablo Lobato)
* Quando o tempo cair (Selton Mello)
* Terra Prometida (Guilherme Castro)
* Trecho (Clarissa Campolina, Helvecio Marins Jr.)
* Um ramo (Juliana Rojas, Marco Dutra)


CONCURSO DE ROTEIROS INÉDITOS:
* Amor, Água Y Az Car, Gabriella Mancini
* Cupuaçu, Iana Cossoy Paro
* O filho da puta, Carla Guimaraes de Andrade


PANORAMA LATINO-AMERICANO (FORA DE CONCURSO):
* Achados e perdidos (José Joffily)
* Batismo de sangue (Helvécio Ratton)


SECÇÃO INFORMATIVA (DOCUMENTÁRIOS FORA DE CONCURSO):
* À margen do concreto (Evaldo Mocarzel)
* Cartola (Lírio Ferreira, Hilton Lacerda)
* Construção (Cristiano Burlan)
* Elevado 3.5 (Paulo Pastorelo, Maira Santi Buhler, João Sodre)
* Fabricando Tom Zé (Decio Matos, Jr.)
* O desafio de Zezão (Patricia Cornils)
* O engenho de Zé Lins (Vladimir Carvalho)
* O homem da árvore (Paula Mercedes)
* O homem-livro (Anna Azevedo)
* Oficina Perdiz (Marcelo Diaz)
* Tres irmãos de sangue (Ângela Patricia Reiniger)
* Um dia, um circo (Marcelo Laffitte)
* América minada (Vinicius Souza, Maria Eugenia Sa)


FORA DE CONCURSO:
* Tabaco (Renata Silva Meirelles Teixeira)

Confira a seleção completa aqui.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

CLIPE NA IMPRENSA 2

Olha aí, agora saiu materião no site do Kzuka falando sobre o clipe, contando alguns detalhes de produção, cenas de bastidores. Quem assina a matéria é o estagiário de produção e espião (sic) Marcelo Andrighetti.

Leia aqui.

CLIPE NA IMPRENSA

Ó, na coluna 3por4 de hoje o jornalista Carlinhos Santos publicou uma nota falando do clipe.

Leia aqui.