quarta-feira, 14 de maio de 2008

saneamento em paris

E não é que Jorge Furtado acabou levando um prêmio em Paris? Já expliquei. Não tem nada a ver com Cannes. Mas valeu a viagem, pelo menos.

Saneamento Básico, o Filme foi escolhido como o melhor filme pelo público na Mostra Competitiva do 10º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que terminou ontem. O júri acabou dividindo o prêmio de melhor filme com Mutum, de Sandra Kogut e Deserto Feliz, de Paulo Caldas.

rumo a paulicéia desvairada

O videasta barbosense Felipe M. Guerra foi convidado para a 4ª edição da mostra Nas Bordas do Cinema, direcionado à produção amadora, que ocorre entre os dias 27 e 30, na capital paulista. Guerra exibe por lá a comédia-terror Canibais & Solidão, lançada em 2006.

Participam ainda da mostra os filmes Recuerdos da República (2002); Gringo não Perdoa, Mata (1995); Rambú 3, O Rapto do Jaraqui Dourado; A Bruxa do Cemitério (2004); O Homem Sem Lei (2006); Zombio (1999); Minha Esposa é um Zumbi (2006); e O Suicídio (2007).

quinta-feira, 8 de maio de 2008

cinema brasileiro em paris

Saguão do cinema L'Arlequin: tá vendo o cartaz do Lavoura Arcaica? Eu vi!
Então. Se não tiver o que fazer por esses dias e tiver a fim de encarar um vôo internacional, te sugiro Paris. Por mil motivos. E não tem nada a ver com Napoleão (se bem que...deixa pra lá). Tem a ver com cinema. Mas nada (dessa vez) com Truffaut e Godard. E sim, com a invasão de uma penca de filmes brasileiros na Cidade Luz.

E aqui o Philippe Barcinski emparedado

É que tá rolando por lá a 10ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, com exibições programadas para o Cinema L'Arlequin. A programação iniciou ontem, com a projeção de "Não por Acaso", de Philippe Barcinski, e segue até o dia 27 desse mês. E não é só de filmes que é feito o Festival de Paris, além dos 44 longas-metragens, haverá exposição de fotos, pockets shows e debates com os diretores.

O festival abriga diversas mostras especiais, além da competitiva. Confere aí:

Mostra Competitiva:
Não por Acaso, de Philippe Barcinski
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Incuráveis, de Gustavo Acioli
Maré, nossa história de amor, de Lúcia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado
Sem Controle, de Cris d'Amato
A Via Láctea, de Lina Chamie
Alucinados, de Roberto Santucci

Fora de Competição:
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Bellini e o Demônio, de Marcelo Silva Galvão
Cidade dos Homens, de Paulo Morelli
Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho
Olho de Boi, de Hermano Penna

Noutro local, na Action Christine, ocorrem as mostras:

Grandes clássicos: Maio de 1968
Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade
Terra em Transe, de Glauber Rocha
Histórias Cruzadas, de Alice de Andrade

Homenagem a Roberto Farias : os clássicos
Assalto ao trem pagador, de Roberto Farias
Barra pesada, de Reginaldo Faria
Com licença, eu vou à luta, de Lui Farias
Pra frente, Brasil, de Roberto Farias
A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura
Roberto Carlos em ritmo de aventura, de Roberto Farias
Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor

Homenagem a Sílvio Tendler: Personagens que fizeram o Brasil
Jango
Os Anos JK - uma trajetória política
Glauber o filme - Labirinto do Brasil
Marighella, retrato falado do guerillero

E por fim, em Le Latina ocorre a mostra de documentários

Documentários do cinema brasileiro
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Ninguém Sabe O Duro Que Dei - Wilson Simonal, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
Encontro com Milton Santos, de Sílvio Tendler
O Coco, a roda, o pneu e o farol, de Mariana Fortes
Condor, de Roberto Mader
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Ginga, de Tocha Alves, Hank Levine e Marcelo Machado
Hercules 56, de Silvio Da-Rin
Mestre Bimba, a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart
Onde a coruja dorme? Bezerra da Silva, de Márcia Derraik e Simplício Neto
A Pedra do Reino, de Luiz Fernando Carvalho
Pindorama - a verdadeira história dos sete anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare
Velhas Guardas, os encontros, de Joatan Berbel
Transocéan, de Adriana Komives

terça-feira, 6 de maio de 2008

o grande chefe

Até 1995 ninguém prestava atenção ou tinha a mínima curiosidade pelo cinema dinamarquês. Aí, um grupo de jovens realizadores de lá resolveu criar um manifesto. Então listaram 10 regras, chamaram de Dogma 95 e foram reconhecidos mundo afora, vez ou outra até com a chancela de importantes festivais como Cannes, na França. Dessa turma saiu o diretor Lars von Trier. É dele Os Idiotas, segundo filme do Dogma95, lançado em 1998, e ainda hoje um dos mais populares.

Dez anos depois, chega às locadoras brasileiras O Grande Chefe, produzido por Trier em 2006. Enquanto em Os Idiotas, a câmera disseca um bando de jovens abusando do humor negro em situações envolvendo portadores de Síndrome de Down, em O Grande Chefe, a foco da narrativa é idiotização do manda-chuva de uma pequena empresa afogada em incompetência e mágoas.

Um empresário da Islândia está prestes a comprar a companhia dinamarquesa, gerenciada por Ravn (Peter Gantzler). Mas a transação só será efetivada com a presença do Grande Chefe, até então uma figura mítica e desconhecida dos funcionários. Só que na real, esse Grande Chefe não existe. Era só uma forma de Ravn "domar" os empregados e dizer que todo mal ocasionado não era culpa dele, mas de uma entidade superior.
Só que o tal empresário da Islândia se nega a fechar negócio sem a presença do Grande Chefe. Eis então que Ravn tem uma idéia de gênio (aliás, de mané mesmo, risos), e contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus) para fazer o papel de chefe. A comédia da história, não está só nas piadas, mas sobretudo na satirização da relação entre patrão e empregados. E tem mais, o ator passa a gostar da função de chefe e resolve atrapalhar os planos de Ravn.

O Grande Chefe parece mais uma revisão de rumos, como se Trier tivesse relendo sua carreira a partir de Os Idiotas, do que fiel às suas últimas produções como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Manderlay (2005). Primeiro, porque resolve criar um novo método de realização. Ao invés de câmera na mão como em Os Idiotas (conforme as regras do Dogma 95), Trier fixa a câmera em um tripé e só trabalha com planos estáticos. Utiliza-se ainda de um recurso que ele chamou de Automavision. Ou seja, é o computador que seleciona a melhor posição da câmera e o enquadramento e não o diretor de fotografia.

Mas o discreto chame de O Grande Chefe é a narração em off do próprio Trier, que vê tudo (o filme e por conseqüência o seu cinema) do lado de fora do prédio da empresa. E logo no início Trier assume que O Grande Chefe é um filme estranho. Aos incomodados e insatisfeitos, uma pena terem desgostado. No entanto, quem se identifica com esse jeito bem particular de contar uma história banal, diz Trier, despido de qualquer modéstia: "é porque merece".

Comédia, Dinamarca, 2006, 100min.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

na hora em que eu te quis

Num dia desses tão cheios de tédio que nem o verme tem vontade de secar as tripas da vaca moribunda, resolvi guardar tudo num velho baú, trancá-lo no sótão e dar a chave pro meu filho brincar. No velho baú ficaram dias e noites intermináveis, parte do assoalho da sala, dois ou três gatos raivosos, a geladeira vermelha lascada, meu tênis de jogar futsal e seis ou sete roteiros de filmes que jamais serão realizados e, talvez por isso, virem obras primas depois das cinzas.

Na real eu nunca tive mesmo tanta vontade assim de tornar públicas minhas incertezas. Porque não é como ouvir Adriana Calcanhotto ou Vitor Ramil. Muito menos como carnear uma ovelha. Demora. A Adriana diz: "é o que o tempo leva". E como decidi não mais deixar as coisas espalhadas pela casa, senão não conseguiria mais chamar de casa esse espaço onde acomodo as coisas da minha vida, inclusive meu amor e meu filho, o sentido está em trancafiar. Tudo. Ou quase, porque o Vitor sempre repete: "O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é onde quero estar".

Mas nem sempre é tão bom dar-se conta do inextinguível. É como se eu já soubesse o que insisto em esconder. Ou pior, não ver. Porque meu avô já dizia, antes de esquecer onde colocava o molho de chaves, "que o pior cego é o que não quer ver". E mesmo assim, sem saber onde colocava as chaves da casa o meu vô via sentido no mundo. Nesse mundo. No dele, pelo menos. E nem precisava se preocupar com a horta, nem se o mel escorria pela pia e dava de comer aos gatos quase caolhos de tão magros.

Então o que importa se os melhores filmes vão morrer trancafiados no velho baú? Porque na verdade os seis ou sete são o mesmo. Afinal, só existe um tipo de desejo. É que dentro dele a gente cria tantos outros confusos e difusos, que tudo parece ainda mais complexo do que é. Se pudesse comeria um roteiro por dia. Aos sábados sempre seria do Fellini, porque aproveitaria a narrativa pra sesta. Dormiria sonhando ser o piloto da motocicleta do Amarcord. Enquanto não chega o tempo de comer roteiro sigo aqui a zero por horta lambendo as tigelas de sopa de beterraba. E tem mais uma coisa, não é porque virei vegetariano que vou topar a mesma comida da Adriana. Comer Caetano, não.

Se for pra apelar prefiro carnear umas ovelhas que meu pai cria lá em Criúva. Mas só depois de estender os livros no varal e esperar pela chuva. Meu filho adora jogar futebol na chuva. Na semana passada, antes de trancafiar as coisas da casa no baú, assisti ele deslizar pela grama molhada e vibrar sozinho os gols feitos e perdidos. Porque a cada gol perdido, me dizia ele, o outro eu dele tinha uma nova chance de vencer a partida. Vi ele entrar pela porta da sala, encharcado de chuva e lama. Aí, a Adriana distante de todas as minhas incertezas, pegou o guri pela mão e me olhando disse: "vem vambora, que o que você demora é o que o tempo leva".

Eu demoro. Porque sempre confundo dias e noites. Enquanto escrevo me despeço de quem nem mesmo conheci; amo quem já desamou; esqueço de velhos amigos; e sepulto quem sequer nasceu. "E tudo isso / foi no mês que vem / foi quando eu chegar / foi na hora em que eu te vi". E mesmo sem te ver desisti de trancafiar as coisas da casa no baú. Porque ainda espero rever teu verso rasgando meu peito. Prometo até juntar os pedaços de tudo o que juntos quebramos e reconstruir. Ainda melhor. Mesmo sem manual. Só não esquece o guri no colégio. E vem jantar que hoje a noite tem música ao sabor de um tango muito antigo.

Vambora, amor?

sábado, 22 de março de 2008

ANDRÓIDES SONHAM COM GUITARRAS ELÉTRICAS

Aqui.

Paul e os irmãos Coen na terra do sol

O melhor duelo cinematográfico sob a terra árida é o de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Nesse filme, o baiano Glauber Rocha (1939-1981) revela a vida desgraçada do sertão, mostrando de beatos a matadores de aluguel. Mas que raios "Deus e do Diabo na Terra do Sol" tem a ver com os oscarizados "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" (vencedor de quatro estatuetas, incluindo melhor filme)?


- Tudo! Absolutamente tudo - diria o cineasta brasileiro, em tom debochado.

No filme de Glauber, Santo Sebastião e Corisco representam Deus e o diabo. Na cola deles, segue Antônio das Mortes, uma figura sinistra. Quem viu "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, já matou a charada. Esqueça a metáfora religiosa e rebatize os personagens. Então teríamos Anton Chigurth (Javier Bardem) como Antônio das Mortes. Ambos são impiedosos e cumprem o que prometem. Sem dó.

No outro extremo, "Sangue Negro", de Paul Thomas Anderson, revela a epopéia de um zé-ninguém que arrisca a vida para enriquecer. Daniel Plainview (interpretado por Daniel Day-Lewis, Oscar de melhor ator) passa o filme todo duelando com o jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano, de "Pequena Miss Sunshine"). Rapidamente, dá pra identificá-los como Corisco e Santo Sebastião, o diabo e Deus, respectivamente. No entanto - e aí reside o grande trunfo de "Sangue Negro" - , Daniel e Eli mostram-se ao mesmo tempo homens canalhas e bem intencionados, ainda que sutilmente, e por isso fica difícil rotulá-los.

A situação é totalmente diferente de "Onde os Fracos Não Têm Vez", em que Llewelyn Moss (interpretado por Josh Brolin) é o tempo todo o homem de bem que pegou um dinheiro que não era seu, e Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria, que retarda o que pode as investigações para sair de fininho e tranqüilo, rumo aos dias intermináveis de lazer. Sem esquecer, é claro, de Anton, matador de aluguel sempre pronto a riscar do mapa gente sem princípios. Porque ele, ao contrário dos demais personagens, é homem de palavra. E o rastro de sangue que deixa para trás confirma isso.

No filme de Glauber, Antônio das Mortes acredita que ao eliminar Deus e o diabo, enfim o sertão será livre. Pensamento descaradamente anarquista. E aqui reside a divergência entre Glauber, os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson. "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" são filmes individualistas (para não dizer capitalistas) até o pescoço. Não há sequer uma luz de coletividade. Daniel Plainview, o sedento por petróleo, quer enriquecer a todo custo, assim como Eli, o pastor que deseja aumentar seu rebanho. Ou ainda Llewelyn Moss, que escapa como uma galinha de um lobo para ficar com um dinheiro que não é seu.

As duas produções de Hollywood caem na armadilha de beber da fonte inesgotável de Glauber Rocha, autor do clássico "Deus e o Diabo...", produzido há quase 50 anos. Mas como, se é improvável que Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen tenham assistido ao filme de Glauber? Isso Freud não explica, mas Carl Jung, sim. O psiquiatra suíço diria que se trata de um rico exemplo de como o inconsciente coletivo conecta pensamentos aparentemente dispersos. E pensar que toda essa ficção tem lá seu fundamento com a realidade parece um absurdo. Mas, no cinema, é assim mesmo. É quase realidade, mas sempre invenção.

texto de hoje na revista Almanaque.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

ACCIRS

'Tropa de Elite' ganha o prêmio da Associação de Críticos do Rio Grande do Sul*

A recém-criada Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) elegeu 'Tropa de Elite', de José Padilha, como o Melhor Filme Nacional de 2007. A associação escolheu ainda 'Império dos Sonhos', de David Lynch (EUA), como Melhor Filme Estrangeiro, e 'Saneamento Básico, o Filme', de Jorge Furtado, como Destaque Gaúcho - Prêmio Luiz César Cozzatti.

A entidade instituiu um prêmio para Destaque Gaúcho com o objetivo de valorizar a produção local e, ao mesmo tempo, reconhecer um título que de alguma forma tenha contribuído para o cinema, seja quanto à linguagem, temática ou forma de produção e distribuição. O nome do prêmio é uma homenagem ao crítico gaúcho Luiz César Cozzatti, falecido em fevereiro de 2006.
A ACCIRS é composta por críticos e jornalistas que atuam nos mais diferentes espaços dedicados ao cinema - revistas, jornais, programas de TV e rádio, sites e blogs.

É a primeira vez na história que o Rio Grande do Sul, terceiro pólo produtor cinematográfico do país e que já conta com três cursos de graduação em cinema, ganha uma associação de críticos.

Votantes
Adriano de Oliveira Pinto
Marcelo Oliveira
Ivonete Pinto
Mônica Kanitz
Jacqueline Chala
Ticiano Osório (abstenção em Gaúcho)
Daniel Feix
Goida
Adriana Androvandi
Marcus Santuário
Paulo Casa Nova
Chico Izidro
Roberta Pinto
Marcelo Perrone
Enéas de Souza
Fatirmarlei Lunardelli
Marcus Mello
Roger Lerina
Robledo Milani
Marcelo Mugnol

* Release oficial de Ivonete Pinto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sermão do pai

Nunca escrevi uma ópera. Prefiro o drama que aparece em um gesto contido, quase sussurro. Aquele segundo antes da lágrima é mais importante do que o choro descabido. Na ficção vale quase tudo, e por isso a gente precisa aturar essa penca de histórias mal contadas na televisão, teatro e cinema, que juntas não dão caldo nem pro agnolini. Até aí tudo bem, porque a ficção é a mentirinha que buscou na realidade a inspiração. Mas no fundo não é verdade, é recriação.

Mas o pior mesmo é o que aparece travestido. É o que parece, mas não é beeeem assim. Por exemplo, tem gente (diretor de cinema, padeiro, encanador, advogado ou jornalista) que adora enfatizar a lágrima, só ela. Como se nem a pessoa mais existisse ali. Só a lágrima que escorre de um rosto qualquer. Se a lágrima veio de forma natural, se trouxe até alívio, que mal tem?

Só que esse tipo de gente que precisa explorar a lágrima de um sofrido qualquer deveria ser punido com o silêncio. A dor não existe para ser usurpada e controlada com maniqueísmo. A imagem da morte, e que deve perdurar, não é a do caixão aberto, dos olhos estalados, da face branca, e tudo emoldurado pelo sensacionalismo. A imagem da morte é o abraço apertado de quem fica. Isso sem falar do arranjo de lírio, flor do amor puro, que por si só diz tudo sem exagero, sem maneirismo.

É mais do que um ponto de vista, é questão de princípio. Tem a ver com o sermão do pai. Até porque ética e moral se aprende em casa. E não vem com a desculpa de que em casa humilde não tem lei. Respeito independe de condição social, é só procurar. Acha que não? Então me explica por que tem gente estudada, que fez faculdade, e vive de explorar a tristeza alheia?

Se essas pessoas que amam recontar histórias sob o prisma sensacionalista, passassem o mesmo tempo a procura da poesia ideal, que transcende a banalidade, talvez, talvez elas compreendessem a dor. Ou no mínimo, respeitariam aquele olhar desvairado, às vezes com ira, às vezes dopado de tristeza. E soubessem tirar daquela angústia um sopro de lucidez. Porque nessas horas o que menos interessa é qual orelha foi decepada.

Importa o que está por vir. Olhos no futuro, sempre. Não importa como, se agarrado a mão de Deus ou simplesmente dizendo "eu te amo" a quem realmente merece. Mas que coisa mais boboca dizer uma coisa dessas no jornal, TV, internet ou escambau. Onde já se viu fazer um documentário com gente comum que passa a vida fazendo poesia, mesmo sem escrever um verso sequer? Ainda mais numa época dessas que tem gente matando por um real. Questão de princípio, né, pai?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Nasce morre

Um andarilho desafia a sede. A terra seca racha a sola dos pés. O sol a pino corta os lábios cerrados. Nenhuma nuvem no céu. Quase tudo a perder de vista. Coberto de poeira, José avança. Deixa para trás a tristeza revestida de apatia. E mesmo com as pernas trêmulas dribla a incerteza da próxima curva. Não desiste. Crava as unhas no véu da esperança e arrasta o corpo convalescente.

Desafia o improvável e sorri. Não é sarcasmo, muito menos ironia. Não blasfema. Jamais. Sua travessia é assistida pelo divino. Vem lá do céu a proteção. Depois de encontrar a fé perdida no descampado da vida, desistiu até de usar facão. Não precisa do aço afiado. Agora não cabe mais na boca o ódio, só o perdão.

José não virou santo. Não mudou da noite para o dia. Resolveu só experimentar o caminho inverso. Ao invés de descer a lomba, aproveitando o declive para voltar atrás, despiu-se da insegurança e subiu. E nunca mais parou de caminhar. Tem dias que a sola dos pés quase não toca a terra seca. José parece flutuar rumo ao horizonte. Adentro da estrada sem fim.

Não come, não bebe, não pára. Sonha de olhos vidrados, encarando o futuro como quem seduz a mulher mais linda. E mesmo sem dizer uma só palavra José emociona. Nunca teve sua história contada. Ninguém sabe onde nasceu, nem onde morava antes de começar a andar por aí. Não usa lenço, nem documento.

Quando cansa, respira, encara o sol alaranjado, inspira, olha de soslaio para trás, balança a cabeça, como quem diz "nunca mais", pisa forte a terra seca, e caminha. Avante. Contra o sol, a chuva, as rajadas de vento. Contra todos que deixa para trás comendo poeira. José deixa sua marca no rastro do tempo. Mas ele sabe que nem todos enxergam as pegadas.

Preferem seu pesar que anoitece no passado. Porque é mais fácil perseguir a lágrima que desaparece na terra seca, do que o sorriso amoroso de despir o espinho das rosas. Enquanto isso, José nasce e morre todos os dias na lembrança de alguém.

conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Maldita sina do "eu faço"

Tem uma regrinha bem chinela que uns e outros teimam em consolidar como lei. É uma certa deturpação da fabulosa filosofia punk: "faça você mesmo". Não conhece punk rock? Sem problemas, explico. É uma guitarreira de três acordes. Tudo muito cru, nada lapidado, que se presta e muito bem para quem não sabe tocar nada. Não que o gênero só tenha revelado músicos desprovidos de talento, só pra ser eufemista. Nada disso. Sem essa de enfiar palavras na minha boca. O charme do punk é a atitude. Nenhum perfume e muito suor.

Voltando. Tem uma leva de gente desinteressante - inclusive em Caxias, lógico, cidade onde tudo nasce -, que insiste vender seu passe pra qualquer posição. É como se o talento pra fazer origami fosse similar ao de rachar lenha. Parece invenção, mas não é. Sério. Pode sair por aí e comprovar. Qualquer lugar serve. Até no Parque dos Macaquinhos onde sazonalmente ocorrem shows, numa rara demonstração de risos e aplausos. E olha que na hora da comédia, no último domingo, o parque tava vazio.

Esse desejo descabido de fazer tudo a qualquer preço é pior do que anúncio de classificados. Nunca se sabe se aquele tão desejado carro, com todos os itens de série, único dono, teto solar e o escambau, não tava submerso no Rio das Antas. E pior, se foi reconstruído com peças encontradas no ferro velho, e não, originais de fábrica. É como diz minha vó: "vendem gato por lebre". O problema, vó, não é o coitado do gato ridicularizado, mas o safado do cara que fantasiou o felino como uma lebre, enfiando chumaço de algodão nas orelhas e...deixa pra lá.

É como aquela padeira, que sabe como poucos vender o melhor pãozinho, quentinho, saboroso, que derrete a manteiga e faz qualquer um babar de gula. Pede pra ela reger um concerto de uma orquestra com mais de 100 músicos cujo repertório contempla toda a obra dodecafônica do austríaco Arnold Schoenberg. Não sabe o que é dodecafonia? Lembra das três notas do punk, que era só um subterfúgio pra virar o mundo de ponta-cabeça? Pois bem, a dodecafonia também queria subverter a ordem, mas ao invés de fixar-se em apenas três notas, Schoenberg desenvolveu séries preestabelecidas de 12 sons diferentes e independentes entre si.

Coisa de loco, né? Mas lá no fundo tem um sentido, mesmo que nas entrelinhas. Pronto, expliquei a piada. Não devia, mas contei. É que eu não descanso. Sei que nada adianta expor os velhos problemas que se arrastam desde quando o primeiro índio que morava por aqui viu sua arte boiando no mar de ignorância. Porque, já que o índio, do alto da sua sensibilidade não percebia que poderia ganhar uns trocados com os potes de barro que produzia, apareceu o astuto colonizador e disse: "eu faço". E desde então, os vasos, roubados, são vendidos como obras preciosas, cujo valor transcende o limite do cartão de crédito.

crônica desta quarta-feira no Pioneiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Joãozinho e o mordomo

Tem gente que sente calafrios só de imaginar-se assistindo a um "filme cabeça". O que dizer então de Santiago, que não é só um filme, mas a reflexão de um diretor sobre sua obra? E não uma obra qualquer, mas inacabada. Um projeto iniciado em 1992, mas só retomado em 2005, por não saber muito bem o que fazer com tantas horas de entrevistas, tantos olhares difusos, tamanha insensibilidade de não perceber nos pequenos gestos de Santiago, o filme ali, construindo-se diante do diretor.

João Moreila Salles, diretor de Santiago, não é só irmão de Walter Salles, o mais famoso cineasta da família. João é um dos melhores documentaristas brasileiros. Autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos. Faz boa dupla de ataque, marcando gols de placa, ao lado de Eduardo Coutinho (Edifício Master e Jogo de Cena). Santiago era o mordomo da Casa da Gávea, mansão do pai de João. A princípio é um filme sobre um único personagem. João vai então ao apartamento de Santiago, e revela, em preto e branco, um pouco da sua intimidade.

Mas sutilmente João acaba por trazer à tona mais um personagem, silencioso, nem por isso menos atormentado, a Casa da Gávea. Também em preto e branco mostra a casa vazia, os móveis empoerados. E nessa inconstância, João nos entrega o jogo. A narração, em primeira pessoa, acaba por revelar as dúvidas, as contradições e as impossibilidades de montar o filme, reorganizar as tantas cenas filmadas e quase esquecidas pelo tempo. João diz que Santiago o fez voltar à casa da família e reencontrar as imagens daqueles tempos de menino, nadando na piscina.

Todos os planos do filme mostram Santiago mais distante, nunca em close. Lá no fim vamos entender que os planos são todos referenciais à obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu. E João diz que só em 2005, quando voltou a montar o filme percebeu que ele, João, nunca deixou de ser o filho do dono da casa, e Santiago, nunca deixou de ser o Mordomo da Casa da Gávea. E foi por puro maniqueísmo de João que Santiago distanciou-se. Puro preciosismo, incapacidade de entrar na trilha aberta por Santiago. Como no momento em que Santiago quer dizer algo importante a ele, e Jão não quer escutar.

_ Joãozinho, Joãozinho...eu queria dizer que faço parte de um grupo de seres malditos.

_ Não, isso não Santiago...

Nem a câmera registrou o ato falho. Só ficou o áudio e a tela tingida de preto. João reconhece, agora, com o filme pronto, que errou. Não quis romper a barreira entre o filho do dono e o mordomo da casa. Pena. Santiago morreu em 1994. Fica agora só o filme em retalhos, tentativa de reatar cenas dispersas, e as costurar com um presente mais esclarecido, menos compexo do que em 1992. O João de hoje, quem sabe, teria feito outro filme, a partir de outras imagens. Quem sabe. Ele mesmo diz isso durante o filme.

Mas não seria esse Santiago. Seria outro. E esse é genial justamente pelo processo ao avesso. Do diretor revendo seus erros, expondo os problemas diante da platéia. É risível ver João forçando a barra, regravando takes de um mesmo plano. Um documentarista tentando extrair a realidade através das técnicas de ficção. Porque quer ver seu personagem atuando melhor. Nem que para isso tenha de perder a naturalidade. Talvez por isso, pela vergonha de rever-se, João disse quando do lançamento de Santiago que jamais voltaria a filmar.

Jamais voltará a filmar, espera-se, como durante a produção de Santiago. Inseguro, equivocado e insensível. Mas espera-se que volte a filmar com a mesma coragem, ousadia e capacidade reflexiva desse Santiago, finalizado e despido de todo pudor. Esse João de Santiago, montado sob a linha tênue da técnica apurada, despido da vaidade, e querendo dissecar a filosofia desse cotidiano que insiste em revelar-se em um filme melhor e diferente com o tempo. Até a morte da imagem, nem por isso, fim da fruição. Os silêncios do filme, na tela preta, que o digam.

MALDITA UTOPIA

Onde tiver arte haverá a maldita sombra da utopia. E se não for assim, não será arte. Será produto que se vende no supermercado, tipo sabonete, pra limpar o que quiser, menos ampliar os sentidos. E sem essa de elite e baixo clero. Arte é arte, independentemente da geografia, escolaridade e circunstância. Não é porque a obra foi uma encomenda que terá menor relevância. Ou ainda, ser desprezada porque não tem vínculo algum com as tradições do lugar onde foi concebida. Arte é quase sempre cisão e quase nunca reconstrução.

Lógico que esse é um papo filosófico. E se tiveres receio de continuar por medo de sentir-se seduzido pelos argumentos que seguem, podes descer e procurar o trem que vai de volta à Terra do Nunca. Podes voltar pra caverna e ler aquele pocket sobre o Platão. Isso não vai doer nada. Aliás, todo regresso é tranqüilo, nada traumático, e podes ter certeza de que aquele velho ancião que senta na história da cidade não vai escrever que foi por medo de avião que decidiste voltar de trem.

Maldita utopia. E bendita cidade que tem tudo ainda por fazer. Pipocam por aqui microorganismos ávidos por almoçar, jantar e embebedar-se de arte. Sei de gente que engordou 100 quilos em um ano só consumindo arte. Gente que despreza todo o tipo de dieta e só não vai a museu na segunda-feira porque está fechado. Outro não pára de acumular versos dissimulados de poetas forasteiros que fizeram dessa cidade a sua morada. Pena que nem sempre a oferta de arte dê conta de alimentar a tantos famintos.

Agora veio um tal suprimento extra. É um fome zero enriquecido de cultura. Não li a composição das embalagens de comida, mas dizem que agora vai ser possível engordar a gregos e troianos. Não duvido. Hoje tem ração transgênica capaz de fazer boi virar zebu do dia pra noite. Só não vi fazer vaca virar girafa. É o tal dilema da tecnologia genética. É possível um quadrúpede ser mais forte, mas não vi ainda fazer ele enxergar além da cerca de arame farpado. É outro prisma e, aí, vem denovo a sina da maldita utopia.

Mas e o que fazer com quem não tem a mínima sede de arte? A quem interessa mais o produto interno bruto do que a fruição de uma obra, criação de alguma mente insana dessa cidade? O cara da economia, que injeta dinheiro na cidade, pode sentir-se participante desse processo com o que ele tem de melhor: o capital. Não precisa gostar, nem entender, basta patrocinar. Basta alimentar com dindin uma horda de dementes desconectados com a realidade produzindo filmes dia e noite, sem pausa para café ou banho.

Lógico que é uma maldita utopia. Porque os donos dos cascalhos da cidade, armados de pudor e hipocrisia, não cederão aos encantos da arte. Nunca. A cena é tão carregada de asco como transar com um alien. E descabida, como temperar a salada com talco para os pés. Enquanto isso, cresce o produto interno bruto com uma leva de sabonetes que saem das fábricas com carimbo e embalagem de arte. Maldita utopia a da lei CONTRA o incentivo fiscal de tanta porcaria.

crônica desta quarta-feira, no Pioneiro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O CARA DA MALA*

Rio de Janeiro, final de tarde. Chuva fina e persistente.

Cena 1
Um cara de 30 anos entra no saguão do Aeroporto. Veste bermuda, camiseta e chinelo. Carrega uma mala daquelas que ninguém mais usa, modelo anos 70, bege. Parece atrasado. Gesticula muito, pede ajuda a quem encontra pela frente. Senta-se. Não permanece ali um minuto sequer. Levanta-se. Procura um daqueles televisores que informam os horários dos vôos. Esfrega os olhos no monitor, como se o piloto pudesse ouvi-lo. Sai falando sozinho, tropeçando e xingando a própria sombra. Some do saguão.

Cena 2
O mesmo saguão. Um homem de 40 e muitos anos puxa a fila. Cabelos compridos e encaracolados, camisa azul com flores pretas, calça de tergal de tom terra e óculos escuros, estilão Reginaldo Rossi. Atrás, vem seu filho. Mesmo cabelo, mesmo sorriso debochado, menos brega, mais hype, vestindo tênis Nike e mochila Adidas. Mais atrás ainda, vem uma mulher também de 40 e muitos anos, cara amarrada, cabelos longos e crespos, vestido abaixo dos joelhos, canelas finas e perebentas. Sentam-se. O filho abre a mochila e tira uma revista de mulher pelada. Antes de folhear a primeira página recebe um tabefe de mão fechada, da própria mãe.


Cena 3
Volta o cara de 30 anos. Ainda mais descabelado. Passou os últimos minutos varrendo o aeroporto rastreando o avião perdido. Ainda fala sozinho, cada vez mais alto, cada vez mais desesperado. Confere minuto a minuto o número do vôo, o destino, o portão e o horário (que foi pro espaço). Sacode a passagem como se fosse um lenço branco de súplica. Quase um último sinal de S.O.S daquele chato filme de náufrago. Seria engraçado, não fosse o manifesto sintoma de paranóia, quase esquizofrenia. Avoado, o cara sobe as escadas e desaparece.

Cena 4
A família Trapo, do guri tarado e do pai, sósia do Reginaldo Rossi, adormece no saguão. A mãe acorda e desajeitada levanta-se. Minutos depois, volta correndo, gritando como louca. A última chamada ressoa pelos corredores. É o avião quase partindo, e a mãe em desespero, sacolejando o filho e o marido. Ela corre, parecendo aqueles maratonistas de marcha atlética, tamanha desenvoltura. Assim que cruzam o portão 8, o quase-esquizofrênico reaparece, em segundo plano.


Cena 5
Paranóico, o cara quase-esquizofrênico, persegue uma aeromoça. Agarra-se às suas pernas, e de passagem em punho levanta uma das mãos ao céu. Deseja água como o herege que recebe a provação divina caminhando décadas pelo deserto escaldante. Cai e é atropelado pela mala de rodinhas da aeromoça. Sem largar da mala bege, estilo anos 70, levanta-se de sopetão e corre atrás de uma multidão que se dirige ao portão R6. Antes das crianças e dos anciãos, o quase-esquizofrênico tem preferência. É amarrado a uma cadeira de rodas, olhos e boca fechados, segue paciente pela esteira de carga.

Som de murmúrio. Fade out.

Fim.
*Conto de hoje, publicado no jornal Pioneiro.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

CASA VAZIA*

Passa da meia-noite. Janelas escancaradas e a brisa leve de uma noite de verão que anuncia chuva ocupa a casa vazia. Lá fora, meia dúzia de fogos de artifício rasgam o céu nublado. Aqui dentro, um doce ruído de ninar em versos suspirados, como se a Björk tivesse embalando o filho que ainda não tive. Na mesa, um javali de 100kg, com uma maçã reluzente cravada entre os dentes, reina soberano. Tombou na mata virgem com um único tiro. Certeiro e indolor. É o que me disse o vendedor, um muçulmano radicado nos Campos de Cima da Serra.

Sentei na ponta da mesa. À minha frente, além do javali de olhar cândido, quase de súplica, outros 11 pratos. Cada uma das cadeiras vazias representa uma pessoa em quem eu cravei um punhal. Nunca pelas costas, sempre de frente e com um desejo libidinoso de arrancar-lhe o coração. Aprendi com Maria Bonita, a rainha da caatinga e mulher de Virgolino Ferreira, o Lampião, a ficar à espreita, de tocaia. E com Antônio das Mortes, herói às avessas criado por Glauber Rocha, a não ter pena.

Guardo os onze corações puros, cheios de amor indelével, em caixinhas especiais, envidraçadas, e acomodadas carinhosamente no freezer. É doce a vertigem de aprisionar o sentimento mais arrebatador que se pode sentir, no auge do seu prazer. O primeiro "eu te amo", dito com o peito ardendo em febre e com os olhos cheios de lágrima de felicidade, não pode ressoar assim irriquieto e perder-se na profusão do desejo. Por isso, retribuo sempre o "eu te amo", e cravo no peito a adaga de prata.

Sorve sempre o amor em tinta vermelha. Acomodo no meu peito o coração que bate em desatino. Aos poucos, passa da euforia à cadência melancólica de uma música iluminada por coros femininos dialogando com harpas e violinos. É como a aurora de um novo dia, sem o peso da dúvida. Por que afinal eu deveria protelar a imortalidade do amor com a incerteza do amanhã, se mais cedo ou mais tarde o sentimento será maculado pelo ciúme, traição e desamor? Melhor o amor eterno guardado no congelador.

Antes de cravar os dentes no javali, um brinde ao amor. Já aos desalmados, que arrastam os dias com sua incapacidade de amar, a quem congelou seus corações antes do suspiro de "eu te amo", a quem amarga as noites em rituais de auto-flagelação e aos pobres mortais devotos do ódio, um cuspe seco no chão. Resta a esse bando de inúteis afogarem-se nesse cotidiano cinza e tenebroso. Às minhas adoráveis mulheres, a dádiva da imortalidade, do amor cândido, insuspeito de ciúmes porque transmuta-se logo após o primeiro "eu te amo".

Depois de saciar-me com a carne selvagem, dentes afiados, não resisti e voei pela janela à procura de um novo amor de ano novo.

* conto novo de ano novo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ó, CASARA

Charge do Iotti, de hoje, publicada no jornal Pioneiro.




Homenagem ao Casara, líder de uma nova tribo
nos altos de um cidadezinha da África.
Cansado de comer zebra e beber cachaça de milho,
Casara anda rindo à toa com a papada na série B.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

AMANTES CONSTANTES


O mundo do cineasta francês Philippe Garrel é em preto e branco. Seus personagens não se deleitam na diversidade de cores do arco-íris, mas transitam entre o claro e o escuro, conduzidos pela sinuosa trilha entre a exaltação e a tristeza profunda. Parece dramático demais, mas assim é a vida. Ou alguém ainda acredita que a vida é algo parecido com aquele vôo de helicóptero através de um túnel de trem, cena de uma das mirabolantes seqüências de "Missão Impossível", com Tom Cruise?

Seja em "Amantes Constantes" ou mesmo em "O Nascimento do Amor" (1993, inédito no Brasil), Garrel disseca as relações amorosas. Dois filmes bem distintos, mas com o mesmo teor e a mesma câmera que não invade o espaço dos atores, muito menos irrompe o silêncio sem pudor. Garrel sabe como poucos, atualmente, ponderar necessidade e desejo; amor e vaidade; cólera e vaguidão. E o melhor, Garrel sempre deixa pistas falsas ao longo dos filmes. Entre uma cena e outra imprescindível, representativa para o enredo principal, o diretor arma uma porção de arapucas.

"Amantes Constantes" inicia com um bando de jovens metendo o pé na porta do sistema político burocrático, atrasado e centralizador da França, em 1968. Aquela virulência juvenil, desprovida de conseqüências, os coquetéis molotov que voam sobre a muralha de soldados, a fuga por entre os prédios esguios de uma Paris ainda com resquícios provincianos não é nada mais do que o pano de fundo. De todas as pistas, a única verdadeira é a de que o espectador conhece a partir daí o protagonista, François (Louis Garrel).

Os planos lentos, contemplativos, a música que aparece sutilmente, mas raramente, sem atropelar as cenas e os diálogos, tudo isso emoldurado sob uma harmônica estética, que fuzila a vigente necessidade de corroer o tempo. Porque em última análise, o tempo é o protagonista dos filmes de Garrel. Sua obsessão é transpor ao cinema o tempo da vida, o tempo de nascer o amor ou mesmo o tempo de perder o amor. Parece loucura, mas é só uma extensão do cinema idealizado por gente como Andrei Tarkovsky (1932-1986), que escreveu um livro para explicar essa pretensão: "Esculpir o Tempo". Infelizmente, Tarkovsky anda esquecido pelo nosso tempo.

"Amantes Constantes", no entanto, aos poucos, com a mesma incidência de encontros e desencontros da vida, acaba por colocar François diante de Lilie (Clotilde Hesme). Já passa da metade do filme, e não sabemos muito bem ainda se eles são de fato os amantes constantes que o título sugere ou são mais uma das pistas falsas. François e sua poesia parecem cada minuto mais em consonância das esculturas de Lilie. Assim como na vida, eles estão ligados pela arte em profusão naquele ano, já posterior aos confrontos de 1968.

É só um ano depois, mas muito da vida parece ter se esvaído. É porque o amor de Lilie e François perdeu-se no tempo. Não querem arriscar um amor que ainda nem parece consumado, mesmo depois da cama, mesmo depois da traição consentida. É como se a história de Lilie e François fosse a tentativa de reviver o amor de "Antes da Revolução" (1964), parafraseando o filme do italiano Bernardo Bertolucci, citado no filme de Garrel. No entanto, em "Amantes Constantes" tem o Sono dos Justos, que estabelece a antítese entre o antes e o depois da revolução, a de maio de 1968. E na vida de Lilie e François: antes e depois do amor.

Imovision, Drama, 178min, 2005.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

PRÊMIO

É brazuca o vídeo vencedor do Project Direct, um certo concurso internacional de curtas-metragens promovido pelo YouTube. "Laços", dirigido por Flávia Lacerda, tem roteiro de Adriana Falcão, esposa de João Falcão (diretor de "A Máquina"). A protagonista, Clarice, 18 aninhos, é filha Adriana e João.

O curta custou R$ 2 mil e levou como prêmio US$ 5 mil. Além disso, "Laços" será exibido em sessão especial no Sundance, festival de cinema independente norte-americano. O vídeo pode ser visto em diversos links pelo YouTube, mas estima-se que cerca de 200 mil pessoas já o tenham assistido.

A sinopse é a seguinte: menina conhece rapaz bizarro após a morte do pai.

Assista antes de julgar (sic): aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

UM FILME PUNK

Há muito tempo um filme deixou de ser só um filme. Explico: parece que o interesse é menor pelo que se vê através da tela do cinema ou mesmo pela telinha do computador, e se torna mais relevante a muvuca em torno da obra. Ou vai dizer que "Je Vous Salue Marie" (1985), do francês Jean-Luc Godard, se tornou célebre pela narrativa cinematográfica e não pela polêmica de ter sido vetado pelo Vaticano? Ou ainda o marketing do Manifesto Dogma 95, dos jovens realizadores dinamarqueses que impunham uma série de mandamentos para suas produções.

E quer saber, isso não é de todo ruim, o problema é esquecer que lá no fundo todo filme é uma pretensa obra de arte e assim sendo, precisa ser dissecado. "3 Efes", de Carlos Gerbase entra nessa corrente. É um dos primeiros filmes a ser lançado em diferentes mídias ao mesmo tempo: televisão, salas de cinema digital, DVD e internet. Felizmente, Gerbase, que é inegavelmente um dos realizadores mais importantes do estado, e ainda não tem boa repercussão no Brasil, seja do público ou crítica, meteu o dedo na ferida e diz que faz cinema, seja ele captado pela bitola que for, super-8, 16mm, 35mm, digital, ou o escambau.

"3 Efes" conta a história de uma série de personagens, interligados pela teoria do professor Valadares. Para ele, a humanidade depende de três apetites: fome, fasma e foda. Fome e foda não precisam de explicação. Mas fasma, pra quem não sabe, é o apetite de imitar a vida, assim como ocorre nos sonhos, pesadelos, fantasias, e claro, nos filmes. Revendo a filmografia de Gerbase, 3 Efes parece ter sido gestado como uma seqüência natural aos curtas-metragens "Deus ex-Machina" (1995) e "Sexo & Beethoven" (1997). No entanto, entre os curtas e "3 Efes" vieram os longas "Tolerância" e "Sal de Prata".

Nem "Tolerância" (2000), nem "Sal de Prata" (2005) tiveram a recepção idealizada. Não abarrotaram salas de cinema, não causaram frisson da crítica. Mas "3 Efes" é diferente, já nasce despido de toda pompa. Nasce mais como desejo de um cineasta que precisa fasmar como louco, sem se preocupar com o dia seguinte, com a bilheteria, com as péssimas críticas nos jornais. '3 Efes" não é uma obra-prima. Gerbase não ficará eternamente conhecido pela jogo de cena, nem pela estética, tão pouco pela harmonia do conjunto de atores.

Só que "3 Efes" é a justa medida do cineasta que revê sua obra e parece ter reencontrado o caminho que sempre perseguiu e lhe deu prazer. Não é só porque o filme fala e mostra sexo, a tal foda dos 3 efes, nem porque expõe os casais da história aos defeitos e contradições que em última instância refletem as vidas de todos nós, pobres mortais. "3 Efes" é coerente com Gerbase, porque revela a sua maneira de perseguir a vida dentro do cinema: arriscando, experimentando. Com simplicidade, sem perder de vista as viagens pretenso-filosóficas, e lirismo, temperado com boas doses de sarcasmo para não virar piegas.

Aqueles três acordes da vida como Replicante mostram-se imprescindíveis nessa retomada de Gerbase. Mesmo que pareça tão delirante quanto aquele refrão: "Os cegos também vão ao cinema", do LP "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", do tempo em que Gerbase virou vocalista dos Replicantes. Com 3 acordes ou 3 efes, Gerbase parece sedento por um mosh, louco para voar de braços abertos para a platéia. Estejam os espectadores abertos ou não ao seu irrequieto e incansável desejo de fasmar. Enfim, mais um filme punk do Gerbase.

Casa de Cinema, comédia dramática, 100min, 2007.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CARLÃO METE A BOCA

Leiam porque vale a pena o desabafo do Carlos Reichenbach...

"Como bem afirmou a montadora Cristina Amaral, após o impacto da premiação de Brasília 2007, festival de cinema brasileiro que envolve dinheiro na premiação, está virando turfe, com direito a rixas entre pangarés (nas quais eu me incluo) e até a claque contratada e organizada (na qual eu nunca me incluí). Cometi a mesma besteira que fiz com GAROTAS DO ABC, e aceitei (convencido por pessoas próximas) entrar na competição de Brasília. Acho que a cuspida que me deram (se não foi coisa pior) foi mais que merecida".
(...)

"Sei que a decisão é injusta para com os técnicos e atores que irão trabalhar comigo futuramente, mas eu prometo: de festival brasileiro com prêmios em dinheiro, meu caro Nirton, eu não participo nunca mais!".

"EM TEMPO - Gostei demais de CLEÓPATRA, MEU MUNDO EM PERIGO e ANABAZYS."

Esse é o Carlão, assim como Julio Bressane, um mal necessário ao cinema.

E vamo que vamo.