quinta-feira, 10 de julho de 2008

santa maria capital do cinema

Santa Maria é um oásis no interior do estado quando o assunto é cultura. Não só cultura de bar. É só perguntar pra quem mora lá, ou já morou ou mesmo quem só passou uma noite por lá. As pessoas respiram cultura, se interessam pelas atividades culturais... Só pra ter um exemplo, e provar quanto é diferente de Caxias: se aqui tivessem criado um festival de cinema há 7 anos, ele já teria virado peça de extinção.

Por quê? Só vou dar um exemplo...alguém lembra que há alguns meses veio pra cá uma mostra especial do Festival É Tudo Verdade? Pois bem, a maioria dos espectadores era de universitários. Mas universitários de PELOTAS, e não de Caxias, ou mesmo da UCS. Aliás, a mostra ocorria no cinema da UCS...e mesmo assim, os universitários de PELOTAS é que ajudaram a não deixar a sala vazia.

Só pra não dizer que sou SÓ chato. Segue aí informação quentinha sobre o Festival de SANTA MARIA. Atentem para o prazo de inscrições dos filmes. Sei de um bando de gente que tem filme prontinho, ou em vias de ...e deveria inscrever.


RELEASE OFICIAL dos meus compadres de Santa Maria:

O Festival Santa Maria Vídeo e Cinema (SMVC) chega à sua sétima edição reafirmando seu principal objetivo: ser democrático, plural e independente.

Neste ano, além da realização de mostras de filmes e vídeos no Theatro Treze de Maio, Praça Saldanha Marinho e Cineclube Lanterninha Aurélio – Centro Cultural CESMA, também estaremos realizando exibições em vários bairros de Santa Maria. Também é característica do festival a realização da Mostra RodaCine e do Seminário Gaúcho de Cinema, em parceria com a Estação Cinema – Associação dos Profissionais Técnicos de Cinema e Vídeo de Santa Maria. Outra característica do SMVC são as oficinas, exposições e debates.

A Mostra Competitiva, em 2007, teve um número recorde de inscritos, tanto na Mostra Nacional quanto na Mostra de Santa Maria e região. Foram 384 inscritos, sendo que 23 curtas-metragens de Santa Maria e região. As inscrições para as mostras competitivas de curtas do 7º Santa Maria Vídeo e Cinema podem ser feitas através do site http://www.smvc.org.br/ até 27 julho (data de postagem de 28 de julho).


Tá esperando o que, rapá?

sábado, 5 de julho de 2008

malandragem...dá um tempo!

Como diz o Zé Simão, "Brasil: o país da piada pronta". Acabo de ler na internet. E nem vou me dar o trabalho de reescrever com minhas palavras, porque o escravo lá do Yahoo já fez isso e tá recebendo (pouco, mas recebe salário) pra escrever por mim:

"A partir de 30 de setembro e até 48 horas depois do primeiro turno, nenhum eleitor poderá ser preso, a não ser em caso de flagrante ou se houver sentença criminal condenatória por crime inafiançável. Nas cidades onde o pleito se estender ao segundo turno, os eleitores também não poderão ser detidos, a não ser nos casos excepcionais, entre os 21 e 28 de outubro. O resultado do primeiro turno das eleições será oficializado pelos juízes eleitorais em 11 de outubro. Se houver segundo turno, o resultado oficial deverá sair até 13 de novembro."

Bom, tá dado o recado. Quem puder avacalhar geral e ainda conseguir fugir, é prato cheio. Só o redator aí do Yahoo esqueceu de me dizer se o medida serve também para casos de USO DA MÁQUINA PÚBLICA, LAVAGEM DE DINHEIRO, CORRUPÇÃO, AUTO-AUMENTO ABUSIVO DE SALÁRIOS, e outros quetais...

Eu devia ter ouvido o meu falecido avô comunista: "guri, te filia ao partido mais reacionário que existir e vira prefeito".

Eu e minha mania de desobedecer aos mais velhos...tsc, tsc.

depois da barba branca, só o jazz

Fiquei velho.

Não percebi isso depois dos primeiros fios de barba branca. Nem mesmo depois de perder os últimos fios de cabelo. Envelheci. E não tem nada a ver com as juntas rangendo, nem com a certidão amarelada. Percebi que envelhecera quando aquele disco de jazz teimava em seguir sua sina. Aquele trumpete ressoando pela casa, servindo de trilha sonora de um beijo ardente e amorosamente apaixonado que só cessava para que pudessemos sorver uma taça de um bom vinho (bom por ser de bom gosto e também bom de preço), é o claro sinal de que envelheci.

Jazz. Quem diria, hein?

E o que fazer agora com todos os Radiohead? E os Sonic Youth? Se bem que misturando esses dois aí com a fúria vertiginosa do Zappa...com certeza seria uma boa provocação para Miles Davis. Seria o fim da trilha do rock nas minhas veias abertas? Para felicidade dos poetas Marco de Menezes e Augusto Nesi, sim. Aliás, pra eles será uma bênção saber que fui infectado pelo veneno do jazz.

Talvez o pessoal do Revival enfim reconheça que virei um velho chato e parem de me deixar frequentar o bar. Pô, mas eu tenho umas gordurinhas pra queimar. Não me impeçam de beber uma ceva gelada imaginando estar em um bar de rock no centro de Londres, lá por volta de 1976, 1977. Ou vai dizer que Ramones só faz sentido até os 30.

Talvez sim.

Deep Purple, não. Sempre foi som pra quem nasceu coroa. Pra quem já nasceu com mais de 30. Lembro de só querer aproveitar da demência juvenil que se encaixava tão bem à bizarrice de bandas como Sonic Youth ou Nirvana, mas meus companheiros de banda preferiam o flerte com a música erudita que fluia sem parar de bandas como Deep Purple. Ali parecia que a Terra do Nunca era o meu paraíso e meu paradeiro. Porto seguro.

Ledo engano.

Porque agora, vivendo sob a Era do Jazz, percebi a finitude ainda mais perto. Mas não tem problema. Vou levar a vida na mesma cadência desses serelepes que adoram soprar seus trumpetes mundoa fora.

Paciência, caro Baldi. Paciência. Quem sabe seja só uma fase e eu esqueça logo dessa palhaçada que é o jazz. Mas sabe que ando beeeem preocupado. Porque eu já tinha uma certa predileção a gostar de jazz, mas ainda me mantinha resistente e ouvindo a todo volume a saudosa guitarreira, seja em acordes bonitinhos, mas ordinários, como nas músicas do Led Zeppelin, seja na demência abestalhada e cheia de microfonias como em Sonic Youth.

Mas agora, acho que fudeu. Depois da barba branca, só o jazz pra me salvar.

enquanto isso... em fortaleza

Não, esse não é o seu tio bonachão, esse é o Sílvio Tendler.

Quem já anda com raiva do frio e não suporta a apatia das telas de cinema em Caxias, pode voar pra Fortaleza. Na terça-feira dia 8, às 19h, ocorre no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza, o debate "1968: Cenas da Rebeldia", com o cineasta carioca Sílvio Tendler.

Na pauta: o comportamento libertário e criativo da Geração 68 no Brasil, que se traduziu na produção de canções, festivais, peças teatrais, exposições e filmes antológicos, além do papel de resistência à ditadura militar, exercida nas ruas pelos movimentos estudantis e as manifestações populares.

Não conhece o Sílvio Tendler? Pois deveria. É como um brasileiro não conhecer Didi, o inventor da folha seca. Sílvio Tendler nasceu em 1950, no RJ, é licenciado em História pela Universidade de Paris, e mestre em Cinema e História pela École des Hautes-Études/Sorbonne. E só pra encerrar, no campo acadêmico, Tendler fez especialização em Cinema Documental Aplicado às Ciências Sociais no Musée Guimet/Sorbonne.

Na carreira, Tendler já produziu cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Seu olhar procura desvendar o que está por detrás da história oficial do Brasil. O cineasta tem ainda três das maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1,8 milhão de espectadores), "Jango" (um milhão de espectadores) e "Anos JK" (800 mil espectadores).

Quem tem acesso ao Canal Brasil pode ter a sorte de ver de vez em quando algum dos filmes do Tendler. Mas se estiver em Fortaleza não perca a mostra dos seus filmes, que ocorre paralelamente ao debate. Confira a seguir os filmes da mostra:


Anos JK: Uma Trajetória Política - Dia 05, sáb, 10h15min
O filme aborda a História do Brasil: a eleição de JK, o nascimento de Brasília, o sucessor Jânio Quadros que renuncia, a crise política, o golpe militar e a cassação dos direitos políticos de Juscelino. O foco é a trajetória política de Juscelino Kubitschek, o "presidente bossa nova", popular entre os artistas, que propunha aceleração no desenvolvimento do País rumo à modernidade e a ocupação de um lugar entre as potências mundiais.


Jango: Como, Quando e Porque se Depõe um Presidente da República - Dia 12, sáb, 10h15
Narrado por José Wilker, o filme foca a trajetória de João Goulart que, deposto pelo Golpe de 1964, se tornou o único presidente brasileiro morto no exílio. O filme, visto por um milhão de pessoas, ganhou vários prêmios e está entre os documentários mais importantes do Brasil.


Memória do Movimento Estudantil - Dia 19, sáb, 10h15
Em 2004 foi criado o projeto Memória do Movimento Estudantil, uma realização da Petrobras, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, a União Nacional dos Estudantes - UNE, o Museu da República e a TV Globo, que tem como objetivo recuperar e divulgar a história da militância dos estudantes no Brasil. Este DVD é composto por dois documentários dirigidos por Sílvio Tendler: "Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil" e "O afeto que se encerra em nosso peito juvenil", com 50 minutos de duração, exibidos no cinema, e na TV, no Canal Futura.


Glauber o Filme, Labirinto do Brasil - Dia 26, sáb, 10h15
Documentário sobre a vida e a morte de Glauber, um dos brasileiros que mais pensou e amou o Brasil - e o cinema. O velório, filmado em 1981, o enterro, a dor; unidos a depoimentos de quem acompanhou, viveu, admirou, foi amigo e lutou junto com esse mito do cinema nacional, conta mais uma página da história do cineasta, uma história que permaneceu na gaveta durante dezoito anos e que agora ressurge como uma homenagem a este artista revolucionário e solitário.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

gramado

Falando em Gramado, o festival deste ano tem tudo para ser o melhor das últimas décadas, mas também pode e deve ser alvo de politicagem.

Explico.

É que como tudo na vida pública, seja a lixeira que você chuta ou a lâmpada de mercúrio lá do alto do poste que você quebra com um tijolo, tudo tudo é controlado pelo governo. E se a lâmpada continua quebrada, só em parte a culpa é do prefeito, a outra parte da culpa é de quem quebrou. Agora se a lâmpada simplesmente queimou a culpa é do funcionário público que não trocou e também do prefeito.

Ossos do ofício. Afinal de contas, ninguém pediu pra ser prefeito.

Voltando à Gramado. E como tem lâmpada queimada e quebrada por lá...ou vai dizer que você também acredita que Gramado sejam só aquelas duas ou três ruas mais centrais? Em Gramado também tem favela, mas lá elas ficam escondidas, embaixo do tapete vermelho.

Well, ao Festival.

O Festival de Cinema de Gramado é coordenado pelo Secretário de Turismo (sic). Seja lá quem ele for. Não importa se é como em Caxias, que gente que nunca leu um livro na vida vira coordenador de espaço público, ou se o cara é letrado na França. Aliás, a tendência é que intelectuais só sirvam pra ser intelectuais e não pôr a mão na massa.

Então, em Gramado, terra onde Michael Jackson deveria morar, visto que a fantasia importa mais do que a realidade, o secretário de Turismo...sic...é o papa do festival. Invariavelmente é um cara que vibra com o Arnold Shwarzenegger e chora com Tom Hanks, e pensa que o Ruy Guerra é panamenho e cantor de bolero.

No entanto, pra salvar o festival do derradeiro fim e do completo desterro artístico, há 3 anos resolveram chamar o crítico Carlos Avellar e o cineasta Sérgio Sanz pra dar mais credibilidade ao certame. É como se pra moralizar o futebol brasileiro, ao invés de matar o Dunga, a gente comesse (no sentido canibalesco) o Ricardo Teixeira. Well, com a vida desses dois bons velhotes, que ainda não têm idade pra ser papai noel, Gramado voltou a respirar.

Mas.....porém....contudo....todovia....Gramado ainda não saiu do coma. Ainda é um moribundo festival. Pra piorar as coisas, não é certo que Gramado manterá Avellar e Sanz como curadores, porque tudo vai depender das alianças políticas. Parece piada, mas é sério. Se a oposição levar...muda o cenário. Ou não?

Parece papo de bêbado esse assunto, mas eu juro que estou sóbrio.

Então, neste ano, enquanto estiver caminhando por aquele longuíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisimo tapete vermelho, cheio de purpurina, pense que o festival pode ter seu fim logo a seguir, dias depois da sua caminhada. Avellar e Sanz estão salvando o festival, mas político - invariavelmente - não se importa com gente como Sanz e Avellar, então é bem capaz que mesmo com a vitória da situação, a dupla vá bailar.

Ou não.

Vai saber.

Em Gramado tudo pode.

Quer prova? Liga lá no Ministério da Cultura e no Ministério Público e pede como andam as contas do Festival de Gramado. Pede se eles conseguiram provar os gastos das últimas edições...

Mesmo assim, é ferro na boneca e dê-lhe investimento da Petrobras, Nescafé...e por aí vai.

Isso ainda vai dar filme. Mas só poderá ser dirigido à moda Hunter.

Fui.

curtas em bh

Assim como Floripa não é só praia, nem em Goiás não tem só chifrudo, em Belo Horizonte há mais pra curtir do que os botecos. Por lá rola um dos festivais mais interessantes direcionados exclusivamente ao curta-metragem. Confira no link abaixo os curtas da seleção deste ano:

AQUI Ó.

Entre os destaques, o curta paranaense "Satori Urso", de Rodrigo Grota, que levou o prêmio da crítica no Festival de Cinema de Gramado, em 2007.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

floripa, sem escalas

E pensar que pra muita gente o único destino em Floripa é a praia...

Por lá acontece um dos festivais mais interessantes das américas. O Florianópolis Audiovisual Mercosul (mais conhecido como FAM) completa 12 edições. Quando começou era motivo de piada, mas hoje demonstra não só que aquele antigo pensamento era carregado de pedantismo, mas também de muita inveja.

Até o dia 13 de junho, diversos filmes, entre longas e curtas, brasileiros e latino-americanos, vão dar o tom do festival. Além disso, como sempre foi, o FAM abre as portas para discutir exibição, circulação e realização, tanto no cinema quanto na televisão. E por conta disso, a moral hoje do FAM é bem diferente. Passou de motivo de piada para necessidade de primeira ordem.

Só não vai quem tá desempregado ou é muito desatento, pra não dizer burro.

Quem ficou aqui, ilhado no outro lado do Mampituba, pode conferir tudo o que está rolando no blog: http://www.blogfam2008.blogspot.com/

Ou aqui pelo Mugnolini mesmo.

Boa sessão.

pelas ruas de paris

Já escrevi mil vezes sobre o Márcio Schenatto, mas escreverei outras mil em breve. É que o Márcio é daqueles exemplos fétidos de que santo de casa não faz milagre. Talvez ele seja o diretor de cinema de Caxias que menos exibiu seus filmes aqui na terrinha. Já venmceu festival em tudo que foi lugar, mas por aqui é menos conhecido do que o personagem que o consagrou.

Num dia desses, há uns 4 anos, o Márcio aparece e me pede emprestada a câmera de vídeo. Como era para um documentário, emprestei. E ali, sem nem mesmo sabermos (nem eu nem ele), nascia um dos documentários em curta-metragem mais intrigantes da última leva do cinema brazuca. E não sou eu quem diz, é gente da revista Aplauso, gente grande do cinema, gente grande do cinema internacional.

Esse doc, chamado de "Kylmair", que pretendia dar voz à intelectualidade do Ligeirinho, o varredor mais pop que Caxias já teve, enfim correu o mundo. A próxima parada é Paris. Não o Café Paris, mas a cidade luz, lugar onde nasceu a Nouvelle Vague. O filme participa da Mostra Nossas Novas, cujo objetivo é revelar aos franceses quais são as melhores produção recente de documentários independentes brasileiros. O festival encerra-se dia 14 de junho.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

a morte da apatia

Não há nada que sirva mais de alento do que um bom copo de vinho e a companhia dos amigos. Até porque, mudar não significa perder ou deixar algo no passado. E sim, transportar-se imediatamente para o futuro, para o inesperado, para o incerto. Sem medo. E não há melhor sensação nessa vida do que a mudança. Porque com ela vem a morte da apatia, esse câncer que a incompetência alimenta. Agora chega de filosofia porque eu preciso lavar a louça. Não sem antes, celebrar a vitória sobre a apatia.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

saneamento em paris

E não é que Jorge Furtado acabou levando um prêmio em Paris? Já expliquei. Não tem nada a ver com Cannes. Mas valeu a viagem, pelo menos.

Saneamento Básico, o Filme foi escolhido como o melhor filme pelo público na Mostra Competitiva do 10º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que terminou ontem. O júri acabou dividindo o prêmio de melhor filme com Mutum, de Sandra Kogut e Deserto Feliz, de Paulo Caldas.

rumo a paulicéia desvairada

O videasta barbosense Felipe M. Guerra foi convidado para a 4ª edição da mostra Nas Bordas do Cinema, direcionado à produção amadora, que ocorre entre os dias 27 e 30, na capital paulista. Guerra exibe por lá a comédia-terror Canibais & Solidão, lançada em 2006.

Participam ainda da mostra os filmes Recuerdos da República (2002); Gringo não Perdoa, Mata (1995); Rambú 3, O Rapto do Jaraqui Dourado; A Bruxa do Cemitério (2004); O Homem Sem Lei (2006); Zombio (1999); Minha Esposa é um Zumbi (2006); e O Suicídio (2007).

quinta-feira, 8 de maio de 2008

cinema brasileiro em paris

Saguão do cinema L'Arlequin: tá vendo o cartaz do Lavoura Arcaica? Eu vi!
Então. Se não tiver o que fazer por esses dias e tiver a fim de encarar um vôo internacional, te sugiro Paris. Por mil motivos. E não tem nada a ver com Napoleão (se bem que...deixa pra lá). Tem a ver com cinema. Mas nada (dessa vez) com Truffaut e Godard. E sim, com a invasão de uma penca de filmes brasileiros na Cidade Luz.

E aqui o Philippe Barcinski emparedado

É que tá rolando por lá a 10ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, com exibições programadas para o Cinema L'Arlequin. A programação iniciou ontem, com a projeção de "Não por Acaso", de Philippe Barcinski, e segue até o dia 27 desse mês. E não é só de filmes que é feito o Festival de Paris, além dos 44 longas-metragens, haverá exposição de fotos, pockets shows e debates com os diretores.

O festival abriga diversas mostras especiais, além da competitiva. Confere aí:

Mostra Competitiva:
Não por Acaso, de Philippe Barcinski
Deserto Feliz, de Paulo Caldas
Incuráveis, de Gustavo Acioli
Maré, nossa história de amor, de Lúcia Murat
Mutum, de Sandra Kogut
Onde andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado
Sem Controle, de Cris d'Amato
A Via Láctea, de Lina Chamie
Alucinados, de Roberto Santucci

Fora de Competição:
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro
Bellini e o Demônio, de Marcelo Silva Galvão
Cidade dos Homens, de Paulo Morelli
Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho
Olho de Boi, de Hermano Penna

Noutro local, na Action Christine, ocorrem as mostras:

Grandes clássicos: Maio de 1968
Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade
Terra em Transe, de Glauber Rocha
Histórias Cruzadas, de Alice de Andrade

Homenagem a Roberto Farias : os clássicos
Assalto ao trem pagador, de Roberto Farias
Barra pesada, de Reginaldo Faria
Com licença, eu vou à luta, de Lui Farias
Pra frente, Brasil, de Roberto Farias
A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura
Roberto Carlos em ritmo de aventura, de Roberto Farias
Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor

Homenagem a Sílvio Tendler: Personagens que fizeram o Brasil
Jango
Os Anos JK - uma trajetória política
Glauber o filme - Labirinto do Brasil
Marighella, retrato falado do guerillero

E por fim, em Le Latina ocorre a mostra de documentários

Documentários do cinema brasileiro
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Ninguém Sabe O Duro Que Dei - Wilson Simonal, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
Encontro com Milton Santos, de Sílvio Tendler
O Coco, a roda, o pneu e o farol, de Mariana Fortes
Condor, de Roberto Mader
Estratégia Xavante, de Belisario Franca
Ginga, de Tocha Alves, Hank Levine e Marcelo Machado
Hercules 56, de Silvio Da-Rin
Mestre Bimba, a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart
Onde a coruja dorme? Bezerra da Silva, de Márcia Derraik e Simplício Neto
A Pedra do Reino, de Luiz Fernando Carvalho
Pindorama - a verdadeira história dos sete anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare
Velhas Guardas, os encontros, de Joatan Berbel
Transocéan, de Adriana Komives

terça-feira, 6 de maio de 2008

o grande chefe

Até 1995 ninguém prestava atenção ou tinha a mínima curiosidade pelo cinema dinamarquês. Aí, um grupo de jovens realizadores de lá resolveu criar um manifesto. Então listaram 10 regras, chamaram de Dogma 95 e foram reconhecidos mundo afora, vez ou outra até com a chancela de importantes festivais como Cannes, na França. Dessa turma saiu o diretor Lars von Trier. É dele Os Idiotas, segundo filme do Dogma95, lançado em 1998, e ainda hoje um dos mais populares.

Dez anos depois, chega às locadoras brasileiras O Grande Chefe, produzido por Trier em 2006. Enquanto em Os Idiotas, a câmera disseca um bando de jovens abusando do humor negro em situações envolvendo portadores de Síndrome de Down, em O Grande Chefe, a foco da narrativa é idiotização do manda-chuva de uma pequena empresa afogada em incompetência e mágoas.

Um empresário da Islândia está prestes a comprar a companhia dinamarquesa, gerenciada por Ravn (Peter Gantzler). Mas a transação só será efetivada com a presença do Grande Chefe, até então uma figura mítica e desconhecida dos funcionários. Só que na real, esse Grande Chefe não existe. Era só uma forma de Ravn "domar" os empregados e dizer que todo mal ocasionado não era culpa dele, mas de uma entidade superior.
Só que o tal empresário da Islândia se nega a fechar negócio sem a presença do Grande Chefe. Eis então que Ravn tem uma idéia de gênio (aliás, de mané mesmo, risos), e contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus) para fazer o papel de chefe. A comédia da história, não está só nas piadas, mas sobretudo na satirização da relação entre patrão e empregados. E tem mais, o ator passa a gostar da função de chefe e resolve atrapalhar os planos de Ravn.

O Grande Chefe parece mais uma revisão de rumos, como se Trier tivesse relendo sua carreira a partir de Os Idiotas, do que fiel às suas últimas produções como Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003) e Manderlay (2005). Primeiro, porque resolve criar um novo método de realização. Ao invés de câmera na mão como em Os Idiotas (conforme as regras do Dogma 95), Trier fixa a câmera em um tripé e só trabalha com planos estáticos. Utiliza-se ainda de um recurso que ele chamou de Automavision. Ou seja, é o computador que seleciona a melhor posição da câmera e o enquadramento e não o diretor de fotografia.

Mas o discreto chame de O Grande Chefe é a narração em off do próprio Trier, que vê tudo (o filme e por conseqüência o seu cinema) do lado de fora do prédio da empresa. E logo no início Trier assume que O Grande Chefe é um filme estranho. Aos incomodados e insatisfeitos, uma pena terem desgostado. No entanto, quem se identifica com esse jeito bem particular de contar uma história banal, diz Trier, despido de qualquer modéstia: "é porque merece".

Comédia, Dinamarca, 2006, 100min.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

na hora em que eu te quis

Num dia desses tão cheios de tédio que nem o verme tem vontade de secar as tripas da vaca moribunda, resolvi guardar tudo num velho baú, trancá-lo no sótão e dar a chave pro meu filho brincar. No velho baú ficaram dias e noites intermináveis, parte do assoalho da sala, dois ou três gatos raivosos, a geladeira vermelha lascada, meu tênis de jogar futsal e seis ou sete roteiros de filmes que jamais serão realizados e, talvez por isso, virem obras primas depois das cinzas.

Na real eu nunca tive mesmo tanta vontade assim de tornar públicas minhas incertezas. Porque não é como ouvir Adriana Calcanhotto ou Vitor Ramil. Muito menos como carnear uma ovelha. Demora. A Adriana diz: "é o que o tempo leva". E como decidi não mais deixar as coisas espalhadas pela casa, senão não conseguiria mais chamar de casa esse espaço onde acomodo as coisas da minha vida, inclusive meu amor e meu filho, o sentido está em trancafiar. Tudo. Ou quase, porque o Vitor sempre repete: "O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é onde quero estar".

Mas nem sempre é tão bom dar-se conta do inextinguível. É como se eu já soubesse o que insisto em esconder. Ou pior, não ver. Porque meu avô já dizia, antes de esquecer onde colocava o molho de chaves, "que o pior cego é o que não quer ver". E mesmo assim, sem saber onde colocava as chaves da casa o meu vô via sentido no mundo. Nesse mundo. No dele, pelo menos. E nem precisava se preocupar com a horta, nem se o mel escorria pela pia e dava de comer aos gatos quase caolhos de tão magros.

Então o que importa se os melhores filmes vão morrer trancafiados no velho baú? Porque na verdade os seis ou sete são o mesmo. Afinal, só existe um tipo de desejo. É que dentro dele a gente cria tantos outros confusos e difusos, que tudo parece ainda mais complexo do que é. Se pudesse comeria um roteiro por dia. Aos sábados sempre seria do Fellini, porque aproveitaria a narrativa pra sesta. Dormiria sonhando ser o piloto da motocicleta do Amarcord. Enquanto não chega o tempo de comer roteiro sigo aqui a zero por horta lambendo as tigelas de sopa de beterraba. E tem mais uma coisa, não é porque virei vegetariano que vou topar a mesma comida da Adriana. Comer Caetano, não.

Se for pra apelar prefiro carnear umas ovelhas que meu pai cria lá em Criúva. Mas só depois de estender os livros no varal e esperar pela chuva. Meu filho adora jogar futebol na chuva. Na semana passada, antes de trancafiar as coisas da casa no baú, assisti ele deslizar pela grama molhada e vibrar sozinho os gols feitos e perdidos. Porque a cada gol perdido, me dizia ele, o outro eu dele tinha uma nova chance de vencer a partida. Vi ele entrar pela porta da sala, encharcado de chuva e lama. Aí, a Adriana distante de todas as minhas incertezas, pegou o guri pela mão e me olhando disse: "vem vambora, que o que você demora é o que o tempo leva".

Eu demoro. Porque sempre confundo dias e noites. Enquanto escrevo me despeço de quem nem mesmo conheci; amo quem já desamou; esqueço de velhos amigos; e sepulto quem sequer nasceu. "E tudo isso / foi no mês que vem / foi quando eu chegar / foi na hora em que eu te vi". E mesmo sem te ver desisti de trancafiar as coisas da casa no baú. Porque ainda espero rever teu verso rasgando meu peito. Prometo até juntar os pedaços de tudo o que juntos quebramos e reconstruir. Ainda melhor. Mesmo sem manual. Só não esquece o guri no colégio. E vem jantar que hoje a noite tem música ao sabor de um tango muito antigo.

Vambora, amor?

sábado, 22 de março de 2008

ANDRÓIDES SONHAM COM GUITARRAS ELÉTRICAS

Aqui.

Paul e os irmãos Coen na terra do sol

O melhor duelo cinematográfico sob a terra árida é o de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Nesse filme, o baiano Glauber Rocha (1939-1981) revela a vida desgraçada do sertão, mostrando de beatos a matadores de aluguel. Mas que raios "Deus e do Diabo na Terra do Sol" tem a ver com os oscarizados "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" (vencedor de quatro estatuetas, incluindo melhor filme)?


- Tudo! Absolutamente tudo - diria o cineasta brasileiro, em tom debochado.

No filme de Glauber, Santo Sebastião e Corisco representam Deus e o diabo. Na cola deles, segue Antônio das Mortes, uma figura sinistra. Quem viu "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, já matou a charada. Esqueça a metáfora religiosa e rebatize os personagens. Então teríamos Anton Chigurth (Javier Bardem) como Antônio das Mortes. Ambos são impiedosos e cumprem o que prometem. Sem dó.

No outro extremo, "Sangue Negro", de Paul Thomas Anderson, revela a epopéia de um zé-ninguém que arrisca a vida para enriquecer. Daniel Plainview (interpretado por Daniel Day-Lewis, Oscar de melhor ator) passa o filme todo duelando com o jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano, de "Pequena Miss Sunshine"). Rapidamente, dá pra identificá-los como Corisco e Santo Sebastião, o diabo e Deus, respectivamente. No entanto - e aí reside o grande trunfo de "Sangue Negro" - , Daniel e Eli mostram-se ao mesmo tempo homens canalhas e bem intencionados, ainda que sutilmente, e por isso fica difícil rotulá-los.

A situação é totalmente diferente de "Onde os Fracos Não Têm Vez", em que Llewelyn Moss (interpretado por Josh Brolin) é o tempo todo o homem de bem que pegou um dinheiro que não era seu, e Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria, que retarda o que pode as investigações para sair de fininho e tranqüilo, rumo aos dias intermináveis de lazer. Sem esquecer, é claro, de Anton, matador de aluguel sempre pronto a riscar do mapa gente sem princípios. Porque ele, ao contrário dos demais personagens, é homem de palavra. E o rastro de sangue que deixa para trás confirma isso.

No filme de Glauber, Antônio das Mortes acredita que ao eliminar Deus e o diabo, enfim o sertão será livre. Pensamento descaradamente anarquista. E aqui reside a divergência entre Glauber, os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson. "Sangue Negro" e "Onde os Fracos Não Têm Vez" são filmes individualistas (para não dizer capitalistas) até o pescoço. Não há sequer uma luz de coletividade. Daniel Plainview, o sedento por petróleo, quer enriquecer a todo custo, assim como Eli, o pastor que deseja aumentar seu rebanho. Ou ainda Llewelyn Moss, que escapa como uma galinha de um lobo para ficar com um dinheiro que não é seu.

As duas produções de Hollywood caem na armadilha de beber da fonte inesgotável de Glauber Rocha, autor do clássico "Deus e o Diabo...", produzido há quase 50 anos. Mas como, se é improvável que Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen tenham assistido ao filme de Glauber? Isso Freud não explica, mas Carl Jung, sim. O psiquiatra suíço diria que se trata de um rico exemplo de como o inconsciente coletivo conecta pensamentos aparentemente dispersos. E pensar que toda essa ficção tem lá seu fundamento com a realidade parece um absurdo. Mas, no cinema, é assim mesmo. É quase realidade, mas sempre invenção.

texto de hoje na revista Almanaque.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

ACCIRS

'Tropa de Elite' ganha o prêmio da Associação de Críticos do Rio Grande do Sul*

A recém-criada Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) elegeu 'Tropa de Elite', de José Padilha, como o Melhor Filme Nacional de 2007. A associação escolheu ainda 'Império dos Sonhos', de David Lynch (EUA), como Melhor Filme Estrangeiro, e 'Saneamento Básico, o Filme', de Jorge Furtado, como Destaque Gaúcho - Prêmio Luiz César Cozzatti.

A entidade instituiu um prêmio para Destaque Gaúcho com o objetivo de valorizar a produção local e, ao mesmo tempo, reconhecer um título que de alguma forma tenha contribuído para o cinema, seja quanto à linguagem, temática ou forma de produção e distribuição. O nome do prêmio é uma homenagem ao crítico gaúcho Luiz César Cozzatti, falecido em fevereiro de 2006.
A ACCIRS é composta por críticos e jornalistas que atuam nos mais diferentes espaços dedicados ao cinema - revistas, jornais, programas de TV e rádio, sites e blogs.

É a primeira vez na história que o Rio Grande do Sul, terceiro pólo produtor cinematográfico do país e que já conta com três cursos de graduação em cinema, ganha uma associação de críticos.

Votantes
Adriano de Oliveira Pinto
Marcelo Oliveira
Ivonete Pinto
Mônica Kanitz
Jacqueline Chala
Ticiano Osório (abstenção em Gaúcho)
Daniel Feix
Goida
Adriana Androvandi
Marcus Santuário
Paulo Casa Nova
Chico Izidro
Roberta Pinto
Marcelo Perrone
Enéas de Souza
Fatirmarlei Lunardelli
Marcus Mello
Roger Lerina
Robledo Milani
Marcelo Mugnol

* Release oficial de Ivonete Pinto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sermão do pai

Nunca escrevi uma ópera. Prefiro o drama que aparece em um gesto contido, quase sussurro. Aquele segundo antes da lágrima é mais importante do que o choro descabido. Na ficção vale quase tudo, e por isso a gente precisa aturar essa penca de histórias mal contadas na televisão, teatro e cinema, que juntas não dão caldo nem pro agnolini. Até aí tudo bem, porque a ficção é a mentirinha que buscou na realidade a inspiração. Mas no fundo não é verdade, é recriação.

Mas o pior mesmo é o que aparece travestido. É o que parece, mas não é beeeem assim. Por exemplo, tem gente (diretor de cinema, padeiro, encanador, advogado ou jornalista) que adora enfatizar a lágrima, só ela. Como se nem a pessoa mais existisse ali. Só a lágrima que escorre de um rosto qualquer. Se a lágrima veio de forma natural, se trouxe até alívio, que mal tem?

Só que esse tipo de gente que precisa explorar a lágrima de um sofrido qualquer deveria ser punido com o silêncio. A dor não existe para ser usurpada e controlada com maniqueísmo. A imagem da morte, e que deve perdurar, não é a do caixão aberto, dos olhos estalados, da face branca, e tudo emoldurado pelo sensacionalismo. A imagem da morte é o abraço apertado de quem fica. Isso sem falar do arranjo de lírio, flor do amor puro, que por si só diz tudo sem exagero, sem maneirismo.

É mais do que um ponto de vista, é questão de princípio. Tem a ver com o sermão do pai. Até porque ética e moral se aprende em casa. E não vem com a desculpa de que em casa humilde não tem lei. Respeito independe de condição social, é só procurar. Acha que não? Então me explica por que tem gente estudada, que fez faculdade, e vive de explorar a tristeza alheia?

Se essas pessoas que amam recontar histórias sob o prisma sensacionalista, passassem o mesmo tempo a procura da poesia ideal, que transcende a banalidade, talvez, talvez elas compreendessem a dor. Ou no mínimo, respeitariam aquele olhar desvairado, às vezes com ira, às vezes dopado de tristeza. E soubessem tirar daquela angústia um sopro de lucidez. Porque nessas horas o que menos interessa é qual orelha foi decepada.

Importa o que está por vir. Olhos no futuro, sempre. Não importa como, se agarrado a mão de Deus ou simplesmente dizendo "eu te amo" a quem realmente merece. Mas que coisa mais boboca dizer uma coisa dessas no jornal, TV, internet ou escambau. Onde já se viu fazer um documentário com gente comum que passa a vida fazendo poesia, mesmo sem escrever um verso sequer? Ainda mais numa época dessas que tem gente matando por um real. Questão de princípio, né, pai?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Nasce morre

Um andarilho desafia a sede. A terra seca racha a sola dos pés. O sol a pino corta os lábios cerrados. Nenhuma nuvem no céu. Quase tudo a perder de vista. Coberto de poeira, José avança. Deixa para trás a tristeza revestida de apatia. E mesmo com as pernas trêmulas dribla a incerteza da próxima curva. Não desiste. Crava as unhas no véu da esperança e arrasta o corpo convalescente.

Desafia o improvável e sorri. Não é sarcasmo, muito menos ironia. Não blasfema. Jamais. Sua travessia é assistida pelo divino. Vem lá do céu a proteção. Depois de encontrar a fé perdida no descampado da vida, desistiu até de usar facão. Não precisa do aço afiado. Agora não cabe mais na boca o ódio, só o perdão.

José não virou santo. Não mudou da noite para o dia. Resolveu só experimentar o caminho inverso. Ao invés de descer a lomba, aproveitando o declive para voltar atrás, despiu-se da insegurança e subiu. E nunca mais parou de caminhar. Tem dias que a sola dos pés quase não toca a terra seca. José parece flutuar rumo ao horizonte. Adentro da estrada sem fim.

Não come, não bebe, não pára. Sonha de olhos vidrados, encarando o futuro como quem seduz a mulher mais linda. E mesmo sem dizer uma só palavra José emociona. Nunca teve sua história contada. Ninguém sabe onde nasceu, nem onde morava antes de começar a andar por aí. Não usa lenço, nem documento.

Quando cansa, respira, encara o sol alaranjado, inspira, olha de soslaio para trás, balança a cabeça, como quem diz "nunca mais", pisa forte a terra seca, e caminha. Avante. Contra o sol, a chuva, as rajadas de vento. Contra todos que deixa para trás comendo poeira. José deixa sua marca no rastro do tempo. Mas ele sabe que nem todos enxergam as pegadas.

Preferem seu pesar que anoitece no passado. Porque é mais fácil perseguir a lágrima que desaparece na terra seca, do que o sorriso amoroso de despir o espinho das rosas. Enquanto isso, José nasce e morre todos os dias na lembrança de alguém.

conto de hoje publicado no jornal Pioneiro.