sexta-feira, 24 de outubro de 2008

festival de blues em caxias



Te liga, formiga!
Ao longo dos dias e noites...vou dizendo tudinho que vai rolar.

curta o curta de estréia do samu

Em Caxias tem o Samu. É só ligar para qualquer emergência. Não importa o que. Desde crise de asma até bebedeira. Ou mesmo crise amorosa. É tudo com o Samu. Ele mora lá em Loreto, perto da Colônia do Scopell.

E não é que o Samu, experiente montador, agora vai estrear como diretor? Samuel Bovo, ao lado de Lissandro Stallivieri, lançam dia 3 de novembro o curta Finados, em três sessões, às 20h, 20h30min e 21h, no Centro de Cultura Ordovás.

Confere aí o trailer:



Fui
Suerte Samu.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

tio ivo

Perde tempo nessa vida quem ainda não conhece o Tio Ivo. Alguém ainda lembra do Sean Connery, o eterno OO7? Pois bem, imagine o Sean daqui 10 anos...é o Tio Ivo, em pele e osso. Chapéu de lorde inglês aposentado, barba rala e branca, cabelo também ralinho e branco. Ah, e o mais interessante: suspensório.

O Tio Ivo veio almoçar aqui em casa. Trouxe de baixo do braço O Sul. Preferia Zero Hora, mas não encontrou. Chegou aqui em casa e bateu o olho num jornal do Litoral Norte. Folheou. Bateu o olho no editorial e ficou p* da vida. Ficou sabendo da palhaçada que foi a eleição em Torres. Denúncias de compra de voto, empréstimo de título de eleitor (por 100 pilas), engajamento de fucinonários da Brigada Militar, CEEE e DAER..., e etc. Mesmo com vídeos e fotos pra confirmar a denúncia, nada adiantou. O candidato que se beneficiou desse rolo todo, venceu.

Sentado à mesa, esperando o almoço, Tio Ivo pediu um copo de vinho tinto.

– Vinho antes do almoço, Ivo? – questiona Dona Geni, esposa do Seu Ivo.

– Ué, o que que tem? E tu deveria tomar pelo menos um copo de vinho todos os dias, ou então suco de uva. Faz bem pra saúde – retrucou Seu Ivo, com toda a paciência e maroteza que a vida lhe deu.

O almoço foi de lambuzar o bigode de qualquer gringo, como eu. (Lembrem, estou cada dia mais careca e ainda de bigode). Polenta mole, frango com molho de tomate e repolho cozido (um prato clonado dos alemães, que o chamam de Chucrute - em alemão, Sauerkraut).

Bebemos pouco, nem uma garrafa de vinho tinto.

Mas o melhor do que o cardápio e o vinho, foi a presença do Seu Ivo. Sempre sorrindo, mesmo antes de beber vinho. Bem humorado, ri e nos faz rir. Tem memória mais límpida e organizada do que muito piá de merda. Seu Ivo já plantou pencas de árvores e tem 3 filhos. Só falta um livro. Histórias não faltam. Aliás, sobram lembranças. E tem mais ainda pro vir. Afinal de contas, em janeiro Seu Ivo vai fazer só 82 anos. Quer mais?

Daqui a pouco ele volta aqui. Vai jogar canastra. Se bobear vai dar um banho em todos da mesa. Sem vinho, porque aí já é demais. É muita carta na mão.

Pausa.

Eu não disse. Seu Ivo veio. E me jurou de pé junto que bebeu suco de uva. Veio dizendo isso porque tropeçou no buraco da calçada. Mas não caiu.

– Tomei suco de uva e fiquei bêbado – disse, rindo sozinho.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

oásis tem nome e sobrenome

Fiquei muito triste em saber que a revista OÁSIS pode não ter um segundo número ainda este ano. 2009 com certeza. Na real, a OÁSIS deveria sair todo mes (perdoem a falta de acentuação em circunflexo...este pc não tem esse recurso). Quem ainda não leu não sabe o que tá perdendo.

Falando em oásis. Descobri que o oásis tem nome e sobrenome: White Sand's Beach. Supermercado vazio, repleto de silencio. Cachorros deitados a sombra, mais inertes do que as pulgas espalhadas debaixo do pelo. Mas isso é quase nada perto do baú de memórias.

Como pode um lugar como esses, desprezado por quase todos, taxado de inútil, evocar tantas lembranças. Começando pelo cheiro. Cheiro de marezia. Não...mais do que isso. Cheiro de infancia. De quando eu atravessava a praia pilotando uma Caloi azul, bem pequena. Cheiro de manhã morna, praia vazia, o sol aparecendo lá longe, dentro do mar. E eu ali, insignificante como um grão de areia, deslizando de um lado ao outro, gritando: "Zero Hora...Zero Hora". Ou então: ÓOOO...o sonho...".

E quase nada nessa vida vale mais do que banho de chuva na praia. Nem precisa ser dentro do mar. Ali na grama verde, ao lado da casa. Bola de futebol deslizando e as gotículas d'água escorrendo pelo corpo. Esgui, franzino. De tenis no pé, claro, mesmo debaixo da chuva, pra proteger das rosetas.

Depois de tudo, banho quente. Um livro pra ler até a chuva passar. Sempre lembro da casa da praia cheia de livros. Os livros do pai, os livros da mãe, os livros da mana, os meus livros. Mas as vezes eu roubava os livros da casa outra, aqueles clássicos de capa dura, que eram da coleção do pai e passava dias com sol e com chuva lendo e relendo.

O tempo passa e eu volto pra praia. A mesma praia que já foi cenário de tantas desventuras e tantos dias felizes. A mesma praia, mas parece outra. Só vira a mesma quando caio na rede e leio. Passo os mesmos dias com sol e chuva lendo. E sabes que alguns dos livros daquela infancia e adolescencia acabam voltando pro meu colo? Reler não é uma tentativa de entender, enfim. Mas de ir além. Porque o não-dito é tão ou mais forte do que o dito.

E as paredes da casa são cheias de não-ditos. Ainda bem. Quem sabe seja esse meu destino: decifrar o não-dito dos lugares mais comuns. Tão comuns, como a casa da praia, aqui mesmo, em Areias Brancas. Lugar desprezado e ignorado. E quem disse que as melhores flores nascem nos jardins mais explorados e desejados?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

o tempo

Tenho recebido mensagens de todos os cantos do mundo, e agradeço um a um. Mesmo espalhadas no mundo virtual, tenham certeza de que elas têm endereço certo no meu coração. Obrigado mesmo, a todos por todas as mensagens.

O Moishe, lá do outro lado do oceano, me fez lembrar de "Lavoura Arcaica". Que vimos como se fossemos dois irmãos quase-náufragos, navegando-sobrevivendo em uma canoa quase-furada. Nos agarramos com toda a força que podíamos e chegamos muito bem - e salvos - no outro lado do rio. Dolorida travessia, mas valorosa.

E o tempo, como diz o Pai (personagem de Raul Cortez), é impiedoso. A justa medida das coisas está no tempo. E só no tempo.

estranha paisagem

Faz frio. Chove. Pára. Volta o frio. Aquele orvalho gelado de manhãzinha. Neblina. Mas o jardim aqui de casa tá bem florido. E o Beija-Flor tá nem aí. Vem toda manhã bebericar do néctar da mesma flor cor salmão aqui perto da janela. Parece me dizer que não importa a estação, desde que tenha flor, o pássaro vai seguir fazendo o que sabe e o que deve fazer. Todo santo dia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

som de um lugar distante

Aqui faz frio. E por isso sai um som como esse. Nostálgico.



Divirta-se aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

bem-te-vi cantando na janela

Podem me dizer que ando louco, um doido varrido, mas ando sentindo a presença do meu pai, em quase tudo para onde eu olhe. E calma, isso não anda me fazendo mal não, pelo contrário. Agora mesmo, vim aqui pra casa dele e da minha mãe e ouço um passarinho cantar forte, bem alto, como se quisesse realmente me fazer correr pra janela.

Espera.

Fui até a janela e sabe o que vi? Não vi só um passaro, mas uma revoada de vários deles, sobrevoando a casa dos meus pais. O céu não é dos mais lindos que já vi, porque está bem cinza, chove aquela chuva bem fininha, mas a cena é linda. Imaginem dezenas de pássaros felizes voando ao redor da casa. E de vez em quando volta aquele passarinho a cantar bem forte aqui perto da janela.

Agora, diz aí, tô louco, ou é mais um lindo sinal de que meu pai tá bem, lá pertinho de Deus, passando o relatório de tudo que precisa ser aprimorado aqui embaixo? E ainda, cuidando de cada passo de cada uma das pessoas que ele amou nessa vida. E ainda ama. Porque o amor não se dissipa nem com a morte.

música de hoje

Ando cantando ela como se fosse um mantra.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

chove

Enfim chove aquela chuva de lavar a alma, como dizia meu avô. Chuva que atravessa o solo quente e seco e vai molhar a seiva. Não é chuva forte, de destruir. É chuva intensa, de alimentar a vida.

E exatamente às 18h35min...mesma hora em que meu pai faleceu, mas dois dias depois, eis que rompe dos céus um raio, sem aquela estrondosa trovoada. Só o raio que iluninar o céu, bem próximo da janela aqui de casa.

Já é noite nessa primavera estranha com cara de outono. Mas não é noite vazia. É noite de seguir em frente. Noite de passar por mais uma nova etapa da vida. Vida que muda de sentido. Aliás, muda o jeito de ver as coisas e por isso muda o sentido.

segunda-feira sem sol

Acordei com uma estranha sensação. Meu pai se foi, mas já está aqui. Na verdade, mesmo quando estávamos distantes, sempre sentia ele por perto. E agora tenho a mesma sensação. Ele tá distante, em algum lugar que desconheço, mas sei que é perto de Deus, e mesmo assim sinto ele pertinho, cuidando e zelando por todos os passos.

A despedida em um velório nunca é fácil. Mas sabe por que foi tranqüila? Porque todas as pessoas (e tinha tanta gente, que só demonstra o quanto ele era uma pessoa querida e amável) só diziam coisas lindas sobre meu pai. E tanta gente que nunca vi na vida. E tanta gente dizendo coisas que me emocionaram. E tantos dizendo que ele havia sido um pai pra eles. Me sinti com ainda mais orgulho do meu pai. E eu que achava que já sentia tanto orgulho por ele. Senti ainda mais.

Tantas flores que chegavam e não cabiam na sala. Tantas homenagens. Tantas pessoas dizendo que é cedo, que ele tinha tanto por fazer ainda aqui, mas todos venerando a vida do meu pai. Todos orgulhosos de terem convivido com o meu pai. Todos exaltando o homem batalhador que ele foi, que nunca se deixou abater por nada nessa vida, não tinha inimigos, nem desafetos. Porque não guardava mágoa de ninguém. Nunca.

Foi bonito ver como pessoas de "mundos" tão diferentes foram lá ver meu pai. Tinha desde um motorista de camninhão da antiga empresa que meu pai ajudou a transformar em uma das mais importantes do país, passando pelo pintor da nossa casa, chegando até ao presidente da CIC. E no meio disso tudo, cineastas, empresários, artistas plásticos, cientistas, advogados, professores, DJs, políticos, gente que bota a mão na massa, jornalistas, médicos. Acho que só não tinha astronauta. Mas gente que vive no mundo da lua, sim.

Como foi bom ter sentido só olhares de gratidão e de amor. Muitos de saudade, que vai ficar pra sempre. Pai, fica bem ao lado de Deus. Estamos bem por aqui. Eu já vejo tudo diferente. Quase nada mais faz o mesmo sentido de antes. Obrigado por mais essa lição de vida, e em vida. Amar o que se faz, é uma delas. E como diz o tio Castilhos, pai do Rica:

- Só segue o exemplo do teu pai, mais nada. Só segue o exemplo dele.

Obrigado por tudo, a todos.
um beijo

Até logo.

domingo, 12 de outubro de 2008

rèquiem

"É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais"


As frase são de Renato Russo, mas cabem agora, dentro dessa madrugada veloz, como uma luva. Parece terem sido escritos para o dia de hoje. Parecem ter sido escritos para o Cláudio, o meu pai-herói. Foi cedo, bem mais cedo que desejávamos. Mas se foi cedo é porque fez aqui muito, mas muito mais do que quase todos. E se foi cedo é porque fez tudo o que tinha pra fazer, e fez BEM FEITO.

Amou com mais intensidade e entrega do que qualquer poeta um dia sonhou. Foi cedo. Talvez cedo pra gente. Não pra Deus que ansiava pelo dia em que pudesse enfim conhecer o maravilhoso Cláudio. Deus estava louco pra conhecer o homem que, na sua simplicidade, transformou não só a sua vida, mas a vida de muita gente.

Cláudio semeou aqui o que muitos jamais sonham existir. Meu pai fez aqui o que muitos sequer imaginam que é possível de se fazer. Meu pai não é só talvez o último romântico, mas quem sabe um dos últimos humanistas, na essência da palavra.

Pois é, Deus só podia querer conhecer logo esse filho que teve uma missão tão linda aqui na Terra. Pai te amo. E fico tão feliz de ter podido dizer isso tantas vezes e sempre com convicção e olho no olho. Até o último minuto, com aquele brilho lindo no olhar. Brilho que dizia até logo, meu filho.

A benção, pai.

Com amor, teu filho.

sábado, 11 de outubro de 2008

semadura

Aquele céu quase azul. Quase céu de brigadeiro se foi. Voltou a chover, a fazer frio. Voltou a estranha densação de gosto ruim na boca, de leite talhado. Voltou aquela apatia no ar. Através da mesma janela não vejo hoje o Guaíba. Não teremos hoje o belíssimo pôr do sol. O sol já se pôs mesmo antes de nascer. Pelo menos hoje foi assim. O sol não veio, talvez tenha ido brilhar noutra janela.

Uma neblina tímida vem surgindo lá do horizonte. Parece realmente refletir o que sinto. Parece trazer a incerteza pra perto de mim. E a cada minuto que passa essa neblina vem se aproximando. Vem pra mais perto de onde estamos. Mas não tenha a sensação de que essa neblina só traz coisas ruins, ou só a incerteza do que vem com ela. Muito menos tenho a sensação de que ficarei cego debaixo dessa neblina.

Não mesmo. Essa neblina talvez seja só uma cortina. Quem sabe um portal? Vem pra iluminar e não cegar. Vem pra irradiar a paz, não semear a discórdia. Vem pra nos dizer o quanto somos só uma pequenina parte dessa imensidão. Vem pra nos dizer que sozinhos somos só partículas quase sem sentido, quase sem importância. Vem pra nos dizer que juntas, todas as partículas reunidas, somos essenciais uns para a vida dos outros.

O amor não é tão visível quanto a neblina, mas existe dentro de cada um. Resta saber quem teráo poder de semear o amor, em prol da sobrevivência de todos nós, e quem terá a safadeza de semear a discórdia, para o derradeiro fim de todos nós. Só sei que meu pai sempre semeou o amor. Ama com bondade. Ama com um desejo tresloucado de vida. Ama porque sabe que o amor não serve só pra ele. Não serve só pro bel prazer dele. Ama porque amar amplia assim a vida de todos. De todos nós. Meu pai ama e distribui amor em cada minuto, porque sente que assim agrega a todos. Porque o sentido da vida do meu pai sempre foi doar-se para o bem comum. Para o bem de todos.

E que assim seja, por todo o sempre. Amém.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quase céu azul

A mesma paisagem. A mesma copa das árvores. Os mesmos prédios. A mesma ponte sob o mesmo Guaíba de sempre. Aqui de cima não se percebe a correria, os carros atravessando sinais fechados. Muito menos o discurso de vitória ou de derrota desse ou daquele que como sempre acaba se perdendo na própria confusão dos dias. O que resta do discurso é sempre nada. De qualquer discurso, é nada.

Os dias cinza se foram.

Um outro novo avião rasga esse céu quase azul. Seria mais azul não fosse essa fina camada de nuves que mantém os dias quentes. O avião passa longe demais pra eu saber se nele viajam vencidos ou vencedores. E vencer é uma palavra tão estranha. Vence quem se mantém vivo? Ou vence quem compra a vida? E quem compra paga em dólar? Ou paga em outras vidas?

Não sei e ando cansado de filosofia. Ando cansado de estatística. Ando cansado de exame de tomografia, de radiografia e cansado de ouvir falar em morfina. Ando cheio de vontade de falar de amor. Amor que sorve do peito de quem anda a pelo menos um andar acima da ignorância de sentir-se vivo só porque ganhou um jogo de truco.

Porque a maior lição de vida que aprendi com meu pai é: "Faz o que tu ama. E te entrega de coração. O resto é conseqüência".

É quase 13h. E continuo ouvindo a Giulietta Masina. Me disse ela antes de começar a tocar, que o importante da vida não está no que de mais expressivo se apresenta, mas no detalhe mais singelo e aparentemente banal. Porque é nessa hora que brota o amor. Ironicamente, no momento menos revelante do dia. Por que será?

Porque o que importa precisa ser bem acondicionado e bem preservado.

Agora chega de papo. É hora da canja, saborosa canja de galinha. Parece que o gostinho da canja levou meu pai de volta lá pra casa.

la strada

Lembra da Giullieta Masina em "La Strada", de Federico Fellini? Alguém aí podia dizer pra ela que eu gostaria muito de ouvi-la tocar o tema do filme?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

bom te ver, sabiás e bem-te-vis

Antes mesmo do primeiro sinal de novo dia, e ainda sob o silêncio da madrugada, quase manhã, naquele instante entre o cessarde ruídos da cidade e o sono profundo dos passarinhos, fui acordado de um jeito tão simples, e por isso mesmo sublime:

- Oi, filho...que bom te ver aqui...

Não fiquei comovido só pelo instante, mas fiquei comovido porque é recorrente esse carinho. Desde que nasci só tenho lembranças singelas do meu convívio com o meu pai. Passei com ele por todas as fases dos mais famosos comerciais de telvisão que emocionam a todos. Verdade, pode lembrar de qualquer comercial em que se podia ver um pai e filho felizes, era como se fosse na minha casa. Por isso eu sempre chorava de emoção, e sempre recebia um abraço apertado.

Naquele tempo, se eu caísse de bicicleta meu pai tava ali pertinho e me ajudava a levantar, se eu levasse uma porrada no futebol, meu pai ensinava a driblar melhor e fazer finta pra escapar da falta. Agora é um novo tempo. Tempo de me dedicar mais a ele, da mesma forma com que meu pai se dedicava a mim e a minha irmã. É hora de pagar, com amor, as madrugadas de sono que tirei dele, as tardes de sol que ele passava comigo, os domingos de futebol, que ele me levava pra jogar. Agora é a minha vez.

Durante o café da manhã, enquanto meu pai pedia silêncio pra ouvir o canto dos sabiás e bem-te-vis, comecei a preparar o sanduíche dele. Estavamos de costas um pro outro. Ele na cama, eu numa mesa. E me deu a impressão de que eu estava sendo vigiado. Pensei que meu pai estivesse cochilando, mas na real, estava me fitando, com um sorriso cativante. Me olhou e com os olhos cheios de amor, disse:

- Quem bom te ver aqui meu filho...

Me aproximei.

- Bom te ver também pai...

E o pouco que conversamos ali, numa troca de 2 ou 3 frases cada um será inesquecível. Mas não diz respeito, pelo menos por hora, a mais ninguém.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

dia cinza

Amanhece na capital. Porto Alegre não combina com dias cinza. Não combina com o vento frio rasgando o pescoço. O sol parecia que sairia, aparecia entre as nuvens um tanto tímido, mas logo tratou de esquivar-se e voltar pro lugar de onde veio.

É tão estranho. Mas a vida sempre nos devolve ao lugar de onde viemos. Num dia somos quase nada, menor do que uma semente de girassol. Noutro dia, voltamos a nos sentir menores do que um grão de areia. E não tem nada mais piegas ou professoral do que passar o dia escrevendo sobre nascer e morrer. Mas quando se pára pra pensar e se percebe que NADA absolutamente NADA faz sentido sem nascer e morrer, é que nos damos conta do significado disso tudo.

Voltar pro lugar de onde viemos... E cada um pensa num lugar diferente. Alguns com fé, outros racionalidade. Todos estão certos. Nem assim vai ter sobrevida.

É um dia cinza. Aquele cinza carregado com as cores da melancolia. Da apatia. Da vaguidão. Sabe aquele dia que teima e persiste, mas parece não deixar saudade mesmo antes de findar o dia? Pois é assim mesmo que esse dia se apresenta. Sem o perfume da primavera, sem o calor gostoso e acalentador do sol de manhã como outra qualquer.

A beleza do dia ainda existe. Mas é preciso desviar o olhar dessa teimosia dura e fria que se insinua. É preciso tentar ver ali na frente, aquele passarinho singelo levando comida pra seus filhotes. É preciso tentar ver logo adiante, aquela senhora de rugas bem expressivas atravessando a rua com o leite e o pão debaixo do braço. É preciso se deixar levar pelo garoto que passa de um lado ao outro balançando no balanço. Lança-se ao vento como se não houvesse dia ruim, como se o cinza fosse só a ausência de mais cor. De um azul irradiante, que ele consegue produzir com seus lápis de cêra.

Tudo continua ali, do mesmo jeito, como ontem. O que difere é o tempo de sentir as coisas. O mesmo arranha-céu dialoga com a rua movimentada cheia de gente fissurada com suas vidas aceleradas. O mesmo semáforo marca, religiosamente, verde-amarelo-vermelho. Não muda sua rotina por nada. Nem mesmo depois da morte. Muito menos antes. Não é o sinal que determina o fim ou começo de uma nova vida. É a nossa vida estranhamente atribulada, cheia de encontros e desencontros.

O tempo de matar o tempo...

Nesse vai-e-vém de gente dispersa, de gente paranóica, o mundo gira na mesma velocidade de sempre. O que anda mudando é a nossa percepção desse tempo. Porque o tempo de um sinal abrir e fechar é o mesmo que dura um comercial de calcinha ou de sabão em pó. Só não pode ser esse tempo esguio, de 30s, o tempo de amar. O tempo de dizer "eu te amo". Porque pra dizer "eu te amo", com a certeza cravada no gênese da pureza; pra dizer "eu te amo" com o coração ofegante de compaixão; pra amar com amor infinito posto que é chama, é preciso ter sido amado antes.

Não faz frio, nem chove. Mas a sensação dentro de mim é de uma chuva fina, intermitente, enjoativa, apática e sem gosto. Na garganta fica só o gosto amargo de um tempo que parece se esgotar. E infelizmente esse tempo não será renovado com nova bateria vinda da China. Não ainda. Quem sabe num dia desses em que teremos menos fuscas pelas ruas e mais espaçonaves como nos desenhos dos Jetsons. Enquanto isso, resito acreditando no poder do amor. Sem contra-indicações. Não esse amor que se vende em músicas baratas de comercial de televisão, como Jota Quest. Mas amor de berço, amor que nasce antes mesmo do primeiro sorriso, antes do primeiro beijo, antes do proimeiro abraço de pai.

Olhando melhor, nem parece que o dia tá cinza, tamanho brilho que irradia do olhar do pai. Freud não explica que eu ainda tenha um pai-herói aos 32 anos. Não só tenho (e esse sentimento é eterno e existirá mesmo depois da morte) como vou alimentar rumo às novas gerações. Já vejo melhor o brilho terno que emoldura as nuvens lá do alto. Deve ser o poder desse amor todo, né pai?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

meu bigode vale ouro

Pronto. Depois do ócio, vem a derrocada da palhaçada. Agora chega de passar dias e noites clicando o nada em Ampurdan, ou ver velhas dirigindo motocicletas em Las Ramblas, ou assistir ao padeiro doente amasando pão-de-ló em Lousanne. "E vão tudo tomar do cu", como dizia a tia Julieta que não tive o prazer de conhecer. Um brinde, tia.

Acordei depois do sol nascido. Cocei pela última vez no dia a barba remoída, amassada de tanta apatia, e saí por aí. Chutei uma lata de cerveja amassada e tomei o primeiro buzão.

- Qual a última parada?
- Garagem Ópera... - respondeu a cobradora, como se fosse cuspir o palito de dente.

Pulei ainda antes. Louco pra raspar de uma vez a barba e deixar só o bigode. Entrei no Salão Fosper. Pra quem não conhece é um belíssimo exemplar de um antigo salão de barbeiro. Três cadeiras velhas, três espelhos velhos, três pias velhas e três generosos e coroas barbeiros. Não tenho barbeiro preferido. Vou sempre no que estiver desocupado. Mas confesso que tenho muito medo de pegar piolho.

Máquina zero na barba e no cabelo (ou o que ainda resta do cabelo).

- E o bigode?
- Pode deixar, só apara perto da boca.
- É bonito bigode, né? Minha mulher chorou quando cortei.

A minha vai chorar quando me ver de bigode. Mhá... vamo que vamo.

Enquanto a barba e o cabelo corriam pelo avental de nylon, eu ouvia uma jovem promessa da música gauchesca, caxiense, cantarolar na Rádio Difusora. Maiquinho do Acordeom. É o nome do sucesso. Só espero ansiosamente para o garoto ser descoberto pelo Raul Gil.

Depois de borrifar talco antiséptico no meu cangote, o Zé, o barbeiro (não o nosso prefeito), me cobrou 10 mangos. Ê belezura. De cara lavada e bigode. Agora não tem pra loco. É nóis no DVD. Não caminhei nem 10 quadras e vejo o RODRIGO tomando sorvete na Sorvelândia. Depois a gentalha sou eu, careca e de bigode.

Hoje só amanhã.
Fui comprar condicionador.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

festa de niver

Ainda bem que só foi quem tinha CONVITE e SENHA.

Enfileirados estavam ociosos trabalhadores da noite, malucos, destrambelhados e toda sorte de gente abençoada por Deus e bonita por natureza, todos com lenço e documento (morte ao Caetano), cujos olhares vislumbravam mais do que um bride, mas 13 motivos para me dar os parabéns pelos meus 23 anos.

Pra começar cheguei atrasado. Fui multado por excesso de velocidade quando atravessava a Júlio de Castilhos empinando a minha moto RDZ 135. Paguei a multa com 13 reais e segui meu caminho ao bar. Quem me esperava na porta? Meu amor, sublime amor, com um beijo ardente pra venerar nosso passsado e nos lançar rumo ao futuro.

Tava tudo dominado quando adentrei pelo bar Berlim. Velas gigantes em cada mesa, pessoas bacanas e descoladas me abraçando. Glamour recheado com purpurina. E olha que até tinha gente que se veste como um jovem lorde inglês, inclusive com sapatos italianos, mas bebeu caipirinha como água da bica.

Felizmente eu tinha reservado torta de Marta Rocha meses antes da festa. Porque festa boa pra CARAMBA (como diz o Maneka) é garfear aquele merengão no meio do bolo todo lambuzado de creme e ameixa. Hmmmmmmm...dilícia. Mas a alegria da festa era mesmo a mesa dos doces. O preferido e que acabou antes mesmo de eu adentrar na festa, foi o docinho de amendoim, feito com toda a destreza do mundo pela Grazi, a futura MAMA TÁLIANA.

Cervejas importadas eram distribuídas aos CONVIVAS como se fossem pirultos às crianças famintas. Tinha de todas as procedências, cores e odores. Desde a clássica cerveja das montanhas geladas da romênia, a Grylhwstynz, da Romênia, até a famosa cerveja preta Pavlatonduras, da Grécia. Como antepasto, saboreamos lagostas descascadas por mãos delicadas de anãs albinas e virgens, que moram no convento Luz e Som, ali em Loreto.

A trilha sonora da festa foi selecionada por 13 DJs, numa seletiva realizada no Bar 13. O Mono, o DJ, filho de Jesus perdeu. Ganhou o Lissa, que organizou a melhor seleção de música ELECTROBARROCA, tipo de música rara que só gente descolada ouve. A coletânea se chama MUGNOLINI COLECTION. Do começo ao fim da festa a alegria tomou conta da pista que estava recheada de gente CONTEMPORÂNEA e muito blasé. A iluminação da festa também estava um luxo. Quem montou a parafernalha de dezenas de luzes coloridas e ESVOAÇANTES foi a trinca Janete, Duda e Geraldo.

Mas, no meio da ZOEIRA, quando ninguém mais enxergava nada, nem mesmo a pulga atrás da orelha, eis que surge a nossa salvação. Além do 13, claro. Nossa salvação foi a coleção RARA de AMBERVISIONS. Quem não sabe que óculos maravilhoso é esse que vá se informar. Aqueles lentes amarelo-ovo deram o tom IN da festa mais BACANA das últimas primaveras desta cidade CAPITAL DA FRUTICULTURA.

Hoje só amanhã porque na terra de quem tudo copia, a única novidade é o Pepe. Por isso, não esqueça, é 13.

Daqui a pouco choverão fotos feitas na festa de arromba, sem Roberto, mas com muito Erasmo Carlos.

Fui comer galeto lá na minha vó.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

vaia de bêbado não vale




O Opala é uma lenda. Duvido quem não tenha uma boa história de vida associada ao moderno veículo, que parece uma caixa de sapato. Num Opala, sempre cabe mais um. Além disso é um carro robusto, forte, imponente. Não tem uma gatinha que resista a um cara de Opalão, ainda mais com vidro FUMÊ e som DAHORA.

Dia desses, o repórter-fotográfico MANEKA clicou esse Opalão aí da foto. Maneka é FÃNZÃO da banda MUSICAL REENCONTRO. Banda de sucesso de Caxias, CAPITAL BRASILEIRA DA FRUTICULTURA. Nos disse o produtor da banda que por causa do TÍTULO de CAPITAl, o MUSICAL REENCONTRO está com a agenda lotada até novembro. É show dia sim e outro também. Pra alegria do Maneka, AUSPICIOSO fã da banda.

A batida no Opalão? Não é nada, na real parece que tá batido porque a foto tá fora de foco. SÓ ISSO.

E como diz a letra da música da banda:

"Lambe, lambe, lambe e desembaraça o meu coração..."