quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

desassossego

"Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.

No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida".


Bernardes Soares (heteronômio de Fernando Pessoa), em Livro do desassossego

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Só assim, divagar, sem nada buscar, nem desejar...



Tem dias que nada parece fazer sentido e justamente por isso me faz entender como nada é o que parece. Não uso drogas, acho um saco ter de manipular psicotrópicos pra sair do nada e encontrar lugar nenhum. Se é pra viajar eu prefiro a solidão. Uma estrada vazia, um disco estranho girando, girando no toca CD do carro, o sol se pondo, lentamente, e alguém pra chamar de "meu amor". O resto? O resto a gente compra no supermercado.

Há dias não escrevia nada. Absolutamente nada. Nada além de recados pra grudar na geladeira. Aí fui encarar a estrada. Bendita salvaguarda. Estrada guia. Não é o cheiro do asfalto, muito menos da combustão da gasolina que me provoca alucinações. Nem mesmo a Björk sussurrando ao pé do ouvido. É a travessia. Mesmo que de umn lado ao outro, rumando aparentemente sem destino eu chegasse na outra ponta da estrada do memso jeito. Quem sabe um pouco mais careca, afinal de contas o tempo é inexorável.

Mas a estrada exerce um fascínio sobre as pessoas. Mesmo quem despiste. Mesmo quem não reconheça essa estranha sensação de enfrentar a estrada. A cada travessia, por mais curta a distância, nos conduz para uma nova atmosfera. Parece papo de psicótico, eu te entendo, mas é um pouco além. Tipo, já fizeste uma viagem sem pressa, aproveitando todas as surpresas que a estrada oferece? Sem pressa é possível ver uma cabra comendo um pasto qualquer, sem importunar ninguém.

Sem pressa é possível aproveitar da paisagem. E sempre há um lugar mágico pra uma boa parada. Parada de deixar as portas do carro abertas, de ficar bem na margem de um vale silencioso, e talvez por isso mesmo tão mágico. Avistando um horizonte desses, que nem parece ficar à margem de uma rodovia movimentada, é possível entender porque tantos ajoelham-se todos os dias e oram pra agradecer a Deus a sua existência nessa vida. Porque à beira de um vale verde ou de um mar infinito aos olhos nossos tão pequenos, reconhecemos quanto inignificantes somos nesse mar de sonhos, amores, encantos e esperança.

Porque a morte nos encontrará, mais cedo ou mais tarde, seja num desfiladeiro, seja assistindo a tediosa programação de um canal qualquer da televisão. Mas muito antes dela nos encontrar é preciso dar tempo e espaço a vida. Vida atribulada, vida de supermercado, vida de afazeres domésticos, vida de cuidar dos filhos, vida de pagar IPTU, também. Mas é preciso dar espaço a uma outra vida, que é só nossa, que ninguém nos rouba, nem mesmo a quem mais amamos: nossa única e simples vida. Entender-se como indivíduo único e especial, que tem sua missão aqui nesse amontoado de terra é estar pronto para encarar-se ao espelho, sem medos nem cobranças.

Cabeça confusa é só uma rota de fuga. Mas se tiver de escolher uma fuga encare a estrada. Sem pressa de ir, muito menos de voltar. Se puder ser sem rumo melhor ainda. Aproveite o tempo, o silêncio da noite, a vaguidão da paisagem. Porque sentado na frente de um computador, com telefone tocando, com gente te chamando a todo instante, com contas pra pagar, com o carteirto batendo à sua porta, não dá. Não tem Cristo que se reconheça na sua intimidade se ao invés de viajar pra dentro de si mesmo Cristo tiver de a realidade disfarçada de cotidiano.

Permita-se viajar. Permita-se entender que nada, aboslutamente nada nessa vida vale mais do que o tempo a si mesmo. Seu amor vai lhe agradecer.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

de branco, pela paz, e com deus debaixo do braço

Não sei de onde veio, mas descobri para onde ia.

Um senhor baixinho, que parecia ainda mais baixinho, por causa do sol forte desse quase-verão que antecipa uma seca de rachar o côco, caminhava a passo curto, mas firme, em direção a sua igreja. Vestia jaleco branco, alvo como a nuvem mais linda desse céuzão de anil. Pra não queimar a careca, usava chapéu.

Descobri que ele ia pra igreja porque não me contive e fui atrás dele. Parece coisa de louco. E é. Assumo. Não resisti ao jeito dele, a aura dele, ou a simpatia dele, sei lá. Quando percebi estava caminhando como ele. Como se fosse a sua sombra.

Passos curtos, corpo inclinado à direita, como se tentasse equilibrar o peso da Bíblia apertada debaixo do braço esquerdo. O Livro Sagrado estava guardado em uma sacola plástica, como se fosse protegesse do sol ou de uma eventual chuva que parece não querer mais vir.

Não sei o nome dele. E ele nâo sabe porque raios chove tanto em Santa Catarina e nâo chove nada por aqui. Muitos menos entende porque Al-Qaeda explode tanta coisa mundo afora. Nem sabe como a bomba atômica pode cair no colo daquela mãe cheia de filhos pra cuidar.

Esse senhor só sabe que é preciso orar. Por ele e pelos outros. Sua fé move um monte de gente ao seu redor, mesmo que quase ninguém saiba o seu nome, muito menos de onde ele vem.

informação tem prioridade

Pra quem não tem lá muitas informações sobre o que anda ocorrendo em Santa Catarina...dê uma passadinha nos blogs abaixo.

Ilhados em Blumenau

e

Desabrigados em Itajaí

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

mais blues

O Moinho da Estação Blues Festival, que ocorre nos dias 21, 22 e 23 de novembro, não será apenas um grande espaço para assistir a shows de músicos importantes do gênero. O festival irá disponibilizar ainda um espaço importante para o aprendizado e aprimoramento das técnicas musicais. O pavilhão das oficinas vai se chamar Espaço Teclas e Cordas e promoverá quatro workshops no sábado e cinco no domingo.

Sábado (dia 22)
16h - workshop de guitarra e baixo blues com Ivan Mariz e César Lago (Beale Street, do RJ)
17h - workshop de harmônica - padrões rítmicos na gaita e efeitos com Jefferson Gonçalves (RJ)
18h - tecnologia e processo de fabricação de harmônicas com Melk Rocha (SP) dono da Bends Harmônicas (patrocinador oficial do festival junto com FSG e Stella Artois)
19h - Home Studio (Estúdio Caseiro) com Nei Neto (W37) e Marcel Van Der Zwam (W37)

Domingo (dia 23)
16h - musicalização infantil com Esmeralda Frizzo (domingo menores de 12 anos não pagam)
17h - amplificadores valvulados com Andy Boy (POA)
18h - workshop de escalas blues e aplicação na gaita com Ricardo Biga
19h - aula demonstrativa de rock/dança de salão com Giovani Monteiro e Sinara Suzin do clube Balroom
20h - aula demonstrativa de auto-estima com música do estúdio de danças Janaína Dambroz

Mais informãções no site oficial.

aplauso

Vai dar na Aplauso (a revista, mané!). Caxias está novamente em primeiro no ranking das cidades do interior gaúcho mais EFERVESCENTES culturalmente. Entra tudo nessa conta, desde aparelhamento (número de salas de cinema, teatros e o escambau) até eventos fixos e reconhecidos.

Agora uma pergunta, o que vale mais um prêmio de uma ONG que ninguém nunca ouviu falar, e pede dinheiro pra inscrever...e diz que vai ajudar na colheira e depois não ajuda... Ou a constatação de um veículo sério e respeitado, como o caso da Aplauso, que depois de uma série de pesquisas e levantamentos constatou que Caxias é o berço cultural mais importante do interior do estado?

Eu voto na Aplauso.

E vamos todos enviar flores ao Antonio Feldmann.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

festival de blues em caxias

Moinho da Estação Blues Festival
21, 22 e 23 de novembro
Caxias do Sul - RS


Se pudéssemos voltar no tempo quem sabe a antiga Estação Férrea de Caxias do Sul ainda receberia trens de todos os cantos, trazendo gente de todas as partes. Como isso não é possível, não pelo menos por enquanto, a Associação Moinho da Estação(AME) resolveu trazer um som de longe, que nasceu lá no hemisfério norte. Os músicos não virão de trem, mas com certeza, o lamento de seus violões e guitarras irá nos remeter ao bom e velho tempo dos trens deslizando sobre os trilhos. Nasce assim o Moinho da Estação Blues Festival, realizado em frente à antiga Estação Férrea de Caxias do Sul, no bairro São Pelegrino, inaugurada em 1910.

A primeira e histórica edição vai ocorrer nos dias 21, 22 e 23 de novembro. O palco principal será montado na frente da loja Blues Fashion, na Rua Augusto Pestana. O espaço poderá abrigar até 2,5 mil pessoas por dia. Entre as principais atrações do festival estão os blueseiros norte-americanos Magic Slim e J.J.Jackson, o carioca Jefferson Gonçalves, e a participação especial da Big Band da Orquestra Municipal de Sopros de Caxias do Sul.

Mas afinal de contas, por que um festival de blues em Caxias? Toyo, um dos organizadores, responde:

– Existe uma tendência de festivais de jazz e blues crescendo no Brasil. O Festival de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, teve em média 25 mil pessoas em cada um dos em quatro dias de shows. No Rio tem ainda o Festival de Búzios, em Minas Gerais o de Ibitipoca, e, no Ceará, o de Guaramiranga. Até no Maranhão tem festival de blues e no sul não tinha nenhum.

Um dos diferenciais mais interessantes do Moinho da Estação Blues Festival é a parceria entre três casas noturnas. Os principais shows do festival ocorrerão ao ar livre. Mas em nenhuma das três noites o lamento blueseiro vai se arrastar madrugada adentro, não pelo menos na rua. Pouco depois da 23h os shows na rua terminam, mas aí o blues segue dentro dos bares Mississippi Delta Blues Bar, Bongô e Havana.

– Nosso objetivo é transformar a Rua Augusto Pestana no espaço de entretenimento e cultura da cidade, com a vinda do Havana e futuramente do Teatro – justifica Toyo.

O Moinho da Estação Blues Festival é o principal evento de encerramento do ano em que Caxias ostentou o título de Capital Brasileira da Cultura.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

as memórias da casa

Aparentemente nada faz sentido. Porque tudo está lá no mesmo lugar. A mesa no mesmo lugar, as canetas dentro do mesmo porta canetas, as gavetas repletas de coisas e nem tudo sei ao cero do que se trata. Na outra peça, mais armários e mais gavetas. Todas cheias de coisas. Quase tranbordando. No armário o cheiro das roupas ainda parece dizer que nada do que andam me dizendo é verdade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

festival de animação em caxias



Ô beleza...eu disse que a Capital ia mesmo bombar no final do ano. Olha aí um puta festival, organizada por gente que sabe do assunto. É HOJE, lá no ORDOVÁS.

Rapá, É DE GRAÇA!!!! "Aproveita, Amilton".

a volta do reny



Depois de um disco úmido, com cheiro de inverno e repleto de histórias de amores insanos, eis que Julio Reny volta a cena pra lançar um novo disco, em uma nova estação. O primeiro show de lançamento do CD "A Primavera do Gato Amarelo" ocorre nesta quinta-feira, dia 30, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Julio dividirá o palco com os músicos da banda Irish Boys e mais uma penca de convidados [King Jim (sax), Gabriel Gambá (sax, trompete), Ângela Wasun (vocais), Oly Jr. (harmônica e vocais) e Davi Machado (percussão)].

Curte a seguir o RELEASE OFICIAL do cancioneiro da chinelagem.

"Gravado em 8 meses deste ano em meio a um doloroso divórcio, “A Primavera do Gato Amarelo” é o disco mais pop e eclético da trajetória de Reny: nas 14 faixas do álbum, produzido pelo legendário Thomas Dreher (Ultramen, Cowboys, Jupiter), estão todas as obsessões do compositor, com os ritmos e estilos que sempre experimentou, a visão cinematográfica e romântica da lente do amor, as noites idealizadas em cidades reais e imaginárias e sobretudo a profissão de fé como artista, parafraseando Henry Miller de jamais 'dirigir na vida sem a arte'".

Vai lá... ou espere o pocket show (com sessão de autógrafos) em Caxias que vai rolar no Berlin Pub, dia 14 de novembro.

Fui colher amoras verdes.
Inté

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

festival de blues em caxias



Te liga, formiga!
Ao longo dos dias e noites...vou dizendo tudinho que vai rolar.

curta o curta de estréia do samu

Em Caxias tem o Samu. É só ligar para qualquer emergência. Não importa o que. Desde crise de asma até bebedeira. Ou mesmo crise amorosa. É tudo com o Samu. Ele mora lá em Loreto, perto da Colônia do Scopell.

E não é que o Samu, experiente montador, agora vai estrear como diretor? Samuel Bovo, ao lado de Lissandro Stallivieri, lançam dia 3 de novembro o curta Finados, em três sessões, às 20h, 20h30min e 21h, no Centro de Cultura Ordovás.

Confere aí o trailer:



Fui
Suerte Samu.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

tio ivo

Perde tempo nessa vida quem ainda não conhece o Tio Ivo. Alguém ainda lembra do Sean Connery, o eterno OO7? Pois bem, imagine o Sean daqui 10 anos...é o Tio Ivo, em pele e osso. Chapéu de lorde inglês aposentado, barba rala e branca, cabelo também ralinho e branco. Ah, e o mais interessante: suspensório.

O Tio Ivo veio almoçar aqui em casa. Trouxe de baixo do braço O Sul. Preferia Zero Hora, mas não encontrou. Chegou aqui em casa e bateu o olho num jornal do Litoral Norte. Folheou. Bateu o olho no editorial e ficou p* da vida. Ficou sabendo da palhaçada que foi a eleição em Torres. Denúncias de compra de voto, empréstimo de título de eleitor (por 100 pilas), engajamento de fucinonários da Brigada Militar, CEEE e DAER..., e etc. Mesmo com vídeos e fotos pra confirmar a denúncia, nada adiantou. O candidato que se beneficiou desse rolo todo, venceu.

Sentado à mesa, esperando o almoço, Tio Ivo pediu um copo de vinho tinto.

– Vinho antes do almoço, Ivo? – questiona Dona Geni, esposa do Seu Ivo.

– Ué, o que que tem? E tu deveria tomar pelo menos um copo de vinho todos os dias, ou então suco de uva. Faz bem pra saúde – retrucou Seu Ivo, com toda a paciência e maroteza que a vida lhe deu.

O almoço foi de lambuzar o bigode de qualquer gringo, como eu. (Lembrem, estou cada dia mais careca e ainda de bigode). Polenta mole, frango com molho de tomate e repolho cozido (um prato clonado dos alemães, que o chamam de Chucrute - em alemão, Sauerkraut).

Bebemos pouco, nem uma garrafa de vinho tinto.

Mas o melhor do que o cardápio e o vinho, foi a presença do Seu Ivo. Sempre sorrindo, mesmo antes de beber vinho. Bem humorado, ri e nos faz rir. Tem memória mais límpida e organizada do que muito piá de merda. Seu Ivo já plantou pencas de árvores e tem 3 filhos. Só falta um livro. Histórias não faltam. Aliás, sobram lembranças. E tem mais ainda pro vir. Afinal de contas, em janeiro Seu Ivo vai fazer só 82 anos. Quer mais?

Daqui a pouco ele volta aqui. Vai jogar canastra. Se bobear vai dar um banho em todos da mesa. Sem vinho, porque aí já é demais. É muita carta na mão.

Pausa.

Eu não disse. Seu Ivo veio. E me jurou de pé junto que bebeu suco de uva. Veio dizendo isso porque tropeçou no buraco da calçada. Mas não caiu.

– Tomei suco de uva e fiquei bêbado – disse, rindo sozinho.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

oásis tem nome e sobrenome

Fiquei muito triste em saber que a revista OÁSIS pode não ter um segundo número ainda este ano. 2009 com certeza. Na real, a OÁSIS deveria sair todo mes (perdoem a falta de acentuação em circunflexo...este pc não tem esse recurso). Quem ainda não leu não sabe o que tá perdendo.

Falando em oásis. Descobri que o oásis tem nome e sobrenome: White Sand's Beach. Supermercado vazio, repleto de silencio. Cachorros deitados a sombra, mais inertes do que as pulgas espalhadas debaixo do pelo. Mas isso é quase nada perto do baú de memórias.

Como pode um lugar como esses, desprezado por quase todos, taxado de inútil, evocar tantas lembranças. Começando pelo cheiro. Cheiro de marezia. Não...mais do que isso. Cheiro de infancia. De quando eu atravessava a praia pilotando uma Caloi azul, bem pequena. Cheiro de manhã morna, praia vazia, o sol aparecendo lá longe, dentro do mar. E eu ali, insignificante como um grão de areia, deslizando de um lado ao outro, gritando: "Zero Hora...Zero Hora". Ou então: ÓOOO...o sonho...".

E quase nada nessa vida vale mais do que banho de chuva na praia. Nem precisa ser dentro do mar. Ali na grama verde, ao lado da casa. Bola de futebol deslizando e as gotículas d'água escorrendo pelo corpo. Esgui, franzino. De tenis no pé, claro, mesmo debaixo da chuva, pra proteger das rosetas.

Depois de tudo, banho quente. Um livro pra ler até a chuva passar. Sempre lembro da casa da praia cheia de livros. Os livros do pai, os livros da mãe, os livros da mana, os meus livros. Mas as vezes eu roubava os livros da casa outra, aqueles clássicos de capa dura, que eram da coleção do pai e passava dias com sol e com chuva lendo e relendo.

O tempo passa e eu volto pra praia. A mesma praia que já foi cenário de tantas desventuras e tantos dias felizes. A mesma praia, mas parece outra. Só vira a mesma quando caio na rede e leio. Passo os mesmos dias com sol e chuva lendo. E sabes que alguns dos livros daquela infancia e adolescencia acabam voltando pro meu colo? Reler não é uma tentativa de entender, enfim. Mas de ir além. Porque o não-dito é tão ou mais forte do que o dito.

E as paredes da casa são cheias de não-ditos. Ainda bem. Quem sabe seja esse meu destino: decifrar o não-dito dos lugares mais comuns. Tão comuns, como a casa da praia, aqui mesmo, em Areias Brancas. Lugar desprezado e ignorado. E quem disse que as melhores flores nascem nos jardins mais explorados e desejados?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

o tempo

Tenho recebido mensagens de todos os cantos do mundo, e agradeço um a um. Mesmo espalhadas no mundo virtual, tenham certeza de que elas têm endereço certo no meu coração. Obrigado mesmo, a todos por todas as mensagens.

O Moishe, lá do outro lado do oceano, me fez lembrar de "Lavoura Arcaica". Que vimos como se fossemos dois irmãos quase-náufragos, navegando-sobrevivendo em uma canoa quase-furada. Nos agarramos com toda a força que podíamos e chegamos muito bem - e salvos - no outro lado do rio. Dolorida travessia, mas valorosa.

E o tempo, como diz o Pai (personagem de Raul Cortez), é impiedoso. A justa medida das coisas está no tempo. E só no tempo.

estranha paisagem

Faz frio. Chove. Pára. Volta o frio. Aquele orvalho gelado de manhãzinha. Neblina. Mas o jardim aqui de casa tá bem florido. E o Beija-Flor tá nem aí. Vem toda manhã bebericar do néctar da mesma flor cor salmão aqui perto da janela. Parece me dizer que não importa a estação, desde que tenha flor, o pássaro vai seguir fazendo o que sabe e o que deve fazer. Todo santo dia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

som de um lugar distante

Aqui faz frio. E por isso sai um som como esse. Nostálgico.



Divirta-se aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

bem-te-vi cantando na janela

Podem me dizer que ando louco, um doido varrido, mas ando sentindo a presença do meu pai, em quase tudo para onde eu olhe. E calma, isso não anda me fazendo mal não, pelo contrário. Agora mesmo, vim aqui pra casa dele e da minha mãe e ouço um passarinho cantar forte, bem alto, como se quisesse realmente me fazer correr pra janela.

Espera.

Fui até a janela e sabe o que vi? Não vi só um passaro, mas uma revoada de vários deles, sobrevoando a casa dos meus pais. O céu não é dos mais lindos que já vi, porque está bem cinza, chove aquela chuva bem fininha, mas a cena é linda. Imaginem dezenas de pássaros felizes voando ao redor da casa. E de vez em quando volta aquele passarinho a cantar bem forte aqui perto da janela.

Agora, diz aí, tô louco, ou é mais um lindo sinal de que meu pai tá bem, lá pertinho de Deus, passando o relatório de tudo que precisa ser aprimorado aqui embaixo? E ainda, cuidando de cada passo de cada uma das pessoas que ele amou nessa vida. E ainda ama. Porque o amor não se dissipa nem com a morte.