quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

É Mugnolini no DVD

Me acharam... Aliás, o Éverton Rigatti (cineasta e auxiliar de radialista) me achou, lá em Buenos Aires. Por essa nem minha mãe esperava.

Confira aí, no videozinho.



faraway, so close

Para Carlinhos


Cena 1 - Interna/amanhecer/diante do espelho
NARRAÇÃO EM OFF: "Perto, mas nem tão perto que seja difícil separar quem sou de quem você tenta me fazer parecer. Longe, mas nem tão longe a ponto de o coração arder de saudade".

Fade out/Fade in.

Cena 2 - Interna/noite/quarto
Beth Gibbons está deitada na cama. Lençóis revirados, maquiagem borrada, janela escancarada, cortinas dançando ao vento. Um sopro de incerteza paira no ar. Beth canta, ou melhor, murmura: "Give me a reason to love you, give me a reason to be a woman".

Fade out/Fade in.

Cena 3 - Externa/entardecer/parquinho
Menino triste. Sentado no balanço, quase parado, não fosse o movimento das pernas, desenhando o nada na terra seca. Atrás do menino não está a paisagem realista do presente, está passando uma versão surrealista da sua vida inteira. Vida que o menino-adulto revê com toda a inocência e desterro. Imagnes rápidas, aleatórias, sem ordem natural - apenas emotiva e sentimental.

Fade out/Fade in.

Cena 4 - Externa/amanhecer/cidade pequena, sem mar
Silêncio noturno no alvorecer de uma cidade pequena. Nem mesmo os pássaros se atrevem a interromper o luto.

Cena 5 - Externa/amanhecer/cidade com mar
Beira do mar. Pessoas coradas de sol ofuscam outras sem o mesmo brilho na pele, sem o mesmo sorriso serelepe no olhar. Lá no mar, depois de um mergulho e do primeiro banho de sol da manhã, um homem resolve levantar-se em meio a multidão e caminhar. Recita de caboa a rabo um poema de Ferreira Gullar. Não grita, apenas recita baixinho, equanto caminha na beirinha do mar, lavando os pés. Olhos no horizonte, engolindo o choro, recita:

"Que deus se enterra nesta tarde
em Ipanema? Que morto
vaza seu corpo no mar?

Mais alto ergue o mar os seus
ramos de pedra fugaz.
Como o canto que se perde
é a agitação colorida

das verduras, o sagrado
cruzar de espadas vermelhas
e negras. Rei de paus. Valete.
A Dama sacode a fronte

coroada de açucenas,
seus lutuosos cabelos,
sua túnica em quadrados
preto e branco. Amor e morte".

Já nos últimos versos vimos apenas o homem caminhar rumo ao infinito pela beira do mar. Aos poucos ele some e perde-se em meio a maresia.

Fade out/Fade in.

Cena 6 - Interna/amanhecer/velório na cidade pequena, sem mar
No meio da sala tinha um caixão. Um caixão. Madeira, madeira, madeira e madeira. Dentro dele ainda um corpo. Inerte. Desligado daqui, do nosso tempo. Agora livre, para procurar o seu lugar em outro plano. Nessa nova tragetória vai passar por algumas provações para poder sentar ao lado de Deus, pai-todo-poderoso. Ao redor do caixão pessoas rezam, algumas com um terço enrolado aos dedos. Outros de olhos cerrados, outros desviam o olhar do caixão. Mas todos rezam, da sua forma, pela vitória do homem que se foi. Silêncio. Ali no outro lado da sala tem uma janela e nessa janela vemos o menino do balanço. A câmera se aproxima. Lentamente. Em travelling. Ele chora e diz em silêncio, só pra gente ouvir. A gente que está do lado de fora desse filme:

"Pai, pode ir. Vá em paz. Me perdoa o desafeto de um dia sem noção. Porque eu te perdoo os dias de desafeto sem noção. Vá e descanse em paz. Deus é justo. Peças perdão e sentarás ao lado de Deus Pai Todo Poderoso. Te amo, sempre".

Fade out.

Fim.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

era pra ter sido só um sonho

Era pra ter sido só um sonho. Nada mais. Nada além de um inebriante sonho tão delicado quanto o beijo de quem ama sem cobrança. Um sonho em preto e branco. Nesse sonho morrer é impossível; divagar é preciso. Como verso livre sem a rima rica, nem a contagem de palavras e sílabas. Sem limites entre o céu e a terra, sem a vaidade que nos corrói os calcanhares.

Num instante sobrevoo um oceano límpido e infinito. Fecho os olhos e caio sem vertigem. A água gelada interrompe o transe. Acordo dentro da escuridão silenciosa. Ainda em gesto de quem nada mar adentro, sinto a rugosidade da areia entre meus dedos. Logo encontro a saída. Havia entrado na água pra sair na areia.

Mas como disse antes, era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Longe, bem distante, o sol imponente no horizonte trata de aquecer a areia debaixo dos meus pés. A essa altura já imaginava algo de messiânico nessa travessia. Mera ilusão. Não existe oásis no deserto. Nem tão pouco a barba desfigurada durante a travessia indica minha metamorfose em Cristo. O Segundo Cristo, quem sabe. Improvável.

Era pra ter sido só um sonho.

Nada mais. Nada além de um sonho inquieto, como todos os que Dali e Fellini enfrentaram e saíram ilesos. Ou quase. Porque há sonhos tão intensos que não dá vontade de voltar a abrir os olhos. Sonhos carregados de amor que nos deixa o corpo imóvel, inerente a própria sorte.

E no deserto, caminhando sobre a areia escaldante, com a barba de Cristo, mas desprovido de sua santidade, encontrei um poeta. De mãos doces como a chuva. Escrevia poemas na areia. Não tardavam e logo sumiam, embaralhados aos grãos de areia trazidos pelo vento.

Deu vontade de lutar pela permanência da palavra, da poesia. Mas logo fui demovido da idéia. Tão fugaz meu pensamento, voraz o vento. De costas pra poesia percebi sua perenidade. Menos aflito permiti que a poesia cumprisse seu papel. Mesmo que seja na areia. E só merece decifrá-la quem tem paciência de entender o tempo das coisas. De todas elas. Mesmo que seja o tempo de um sonho.

E era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Mas o tempo desse sonho, por eu já não me importar com sua permanência, tem durado anos e anos e anos. Mesmo quando durmo e não sonho esse sonho de areias escaldantes cujo portal é um oceano límpido e infinito, sinto a mesma brisa desse oceano e a mesma doce-aspereza da areia quente desse deserto perene.

E era pra ter sido só um sonho.

Nem mesmo quando o sol se pôs e a lua cheia iluminou o deserto tive medo. Talvez fosse aquela música do Nino Rota. Aquela do "Oito e Meio", do Fellini. Meio circo, meio deboche, com cheiro de travessuras de menino. Não sei. Não era pra ter sido nada além de um sonho. Mas ele perdura. Insiste na missão de desvendar o reino. O meu reino? Já disse que não acredito nesse reino messiânico que me coloca como um Segundo Jesus. Essa barba não tem poder de transformar água em vinho. Antes tivesse...

Nada disso. Era pra ser só um sonho. Mas nem no sonho eu transformava água em vinho. Talvez não tenha esse poder porque não saberia o que fazer com tanto vinho.

E logo amanheceu. Nino Rota sumiu. E levou com ele a doce sonoridade com gosto de infância, de moleque, de guri travesso. Olhei em torno e a areia quente tinha virado asfalto. No lugar do deserto sem fim, arranha-céus. No lugar do silêncio, trânsito infernal. Buzinas, gente gritando. Promoção de calça jeans! Promoção de calça jeans! Leva dez paga cinco!!!

Mas não era pra ter sido só um sonho?

Pés descalços pisando o asfalto quente. Uma estranha música que eu não conseguia decifrar, muito menos perceber de onde vinha, me contagiou. Curioso, cansado, quase amaldiçoado, enfrentei a neblina de gente sem graça, o trânsito trôpego, as caras amarradas, driblei o moleque na esquina degolando a velhinha, e me deparei com um velho usando chapéu de cowboy. Sentado na sarjeta, ele desferia:

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning
I'll come followin' you


Antes que ele pudesse continuar sua canção um palhaço arrancou o violão da sua mão, arremessou-o metros longe. Espatifou-se no asfalto. O velho levantou-se, abraçou o palhaço e saíram rindo, como se fosse o final de um filme do Chaplin. Enfrentaram a rua na contramão, como bêbados, como se dessem adeus pra isso que eu pensava ser só um sonho, nada mais.

E era pra ter sido só um sonho. Só. Nada mais. Não fosse...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

o mundo em preto e branco de Fellini



Só pra começar bem o dia segue video com os primeiros 10 minutos do filme 8½, de Federico Fellini, lançado em 1963. No elenco, o alterego de Fellini, Marcello Mastroianni e a belíssima Claudia Cardinale. Esse é sem dúvida um dos filmes mais impressionantes do Fellini.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sala de cinema ulysses geremia

Li no blog 3por4 do Carlinhos Santos que vai ter mudança na coordenação da sala de cinema Ulysses Geremia, do Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho. Não sem tempo e não vou ficar perdendo tempo comentando o passado.

De olho no futuro abro meu voto em quem eu acredito ser o cara com as melhores condições na cidade para ser o coordenador da sala de cinema: NIVALDO PEREIRA. Quem não o conhece tá perdendo tempo. O cara é jornalista, roteirista de mão cheia e um cinéfilo de dar gosto. O Nivaldo não é do perfil de cinéfilo que só gosta e admira o cinema que cabe nos seus olhos. Ele tem visão ampliada e arejada.

E o melhor, não tem a pinta de intelectual, adora subversões e é muito curioso. Aprendo sempre com ele sobre cinema, mesmo quando ele não diz nada e acabdo tendo de descubrir que filmes ele anda pegando lá na locadora San Remo.

Mesmo sem voz nem vez nessa eleição resolvi dar meu pitaco: É NIVALDO NA CABEÇA!

abrazzzos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Better man

Não quero muitas coisas. Hoje, principalmente, quero coisas que não façam barulho. Nada que me tire dessa singela viagem rumo ao infinito do amor eterno. Aquele amor que não se perde nem mesmo depois da morte. Porque é dolorido ver ali suspirar pela última vez alguém que se ama muito, mas a vertigem é condição de renovação da vida. Vida eterna. Pelo menos é nisso em que acredito. Porque ali está escrito nas escrituras sagradas. E porque sinto no coração que é assim mesmo.

Perde-se o abraço carinhoso, o beijo do pai sempre amoroso, as risadas depois de uma garrafa de vinho, os gritos de gol daquela partida apertada e quase impossível de vencer, as palavras-guia. Isso tudo eu perdi com a morte do pai. Mas ganhei uma estreita relação que não cessa nem mesmo enquanto eu durmo. Não fosse assim eu não teria acordado mais feliz hoje porque em sonho meu pai sorria e me dizia que tudo está bem. E me pediu pra ficarmos bem.

Aquele sorriso só dele, encantador, charmoso e de quem sempre viveu a vida na sua plenitude. Na plenitude de um homem bom. Eta palavrainha em desuso "bom". Quem não o conheceu talvez não saiba ainda o que é um "homem bom". Eu sei e tenho me policiado pra aprender a seguir apenas o exemplo dele. E esse homem bom é ainda mais sublime do que você imagina. Talvez eu nunca alcance essa dádiva que meu pai um dia alcançou, mas te confesso que tenho me dedicado a isso. Com afinco. E muito, mas muito amor.

Agora vou dormir porque tô um pouco cansado.
Inté.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

beijo amor, boa noite

Tem dias que nem o silêncio parece acalentar a dor. Tem dias que a saudade bate forte, o medo do amanhã rasga o peito como um poema-desterro. É como se o beijo no asfalto me fizesse amanhecer com um tedioso gosto amargo na boca.

Enquanto isso, o velho embaralha as memórias. Confunde os sentimentos e continua engordando o porco morto. Piada não se explica, mas no caso, ele, o gordo, é o porco morto.

Tem dias que o frio congela os ossos. Noutros parece que o perdão é uma palavra tão sem sentido e distante, como golfinhos deslizando sobre o desero do Saara. E nem memso a Sara, a da Bíblia, reconhece-se no espelho. Bendita seja ela o fruto desejado entre tantos homens. E assim seja. E foi. E sempre será.

No outro lado do rio, um menino caolho segue enfiando as mãos pelos pés. Joga futebol como quem flutua no espaço a caça de estrelas fugazes. Mesmo ainda bem menino ele sabe que a pipa não atravessa o rio.

Nada disso é sonho. Antes fosse. É realidade que meus olhos teimam em fisgar. A mesma realidade que me lançou dentro de uma noite veloz a perseguir uma menina linda, cujo olhar me enfeitiça e me devolve a um lugar tão singelo quanto caliente. Ao meu amor, muito mais do que as batatas, como diz naquele livro que ninguém lê, escrito pelo Machado de Assis.

Ao meu amor o perfume dos meus sonhos. Noite e dia. Ao meu amor, um beijo demorado que nos arrasta para dentro de nós mesmos. Sem pudor, nem vaidades. Beijo de amor. Simplesment, e por isso mesmo delirante, amor.

Já te disse hoje que te amo?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Por quem Miles Davis chora?

Para M. de Menezes
e Augusto Nesi



Trancado dentro do carro no dia mais quente das últimas semanas me perguntava o porquê de tanto lamento. Aquele trompete ressoando e se impondo à melodia, me conduzindo de um extremo ao outro da existência: da plenitude da felicidade à derrocada da tristeza. Por quê? Por quem?

Lá fora o sol impiedoso derretia a todos. Caras cansadas, sôfregas de enfrentar o deserto de asfalto, mais pareciam os personagens de “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee. Nem mesmo as flores dos floristas de esquina sobreviviam. Murchavam diante do inevitável. E quando as pétalas das flores ressecadas se acumulam na sarjeta é sintoma de que parte da poesia do mundo se perde. Talvez nunca mais essa porção seja revista. Vai pro lixo. Sacralizada a poesia, mas pro lixo.

Enquanto isso, enquanto transitava de um extremo ao outro dessa avenida esguia, cada vez menos charmosa e mais poluída, Miles deixava fluir sua incondicional virulência. Miles não é o tipo de cara que deixa rastro, muito menos esbraveja numa atitude intempestiva de se impor. Miles simplesmente exala seu perfume no ar. Igualzinho às rosas de Cartola. Da mesma essência, ao mesmo pó.

Miles só queria nos conduzir ao silêncio. Pra um lugar onde só pudéssemos ouvir o nosso coração. Mais nada. Mas como enfrentarmos nossa ignorância? A solução seria permanecer trancafiado nesse carro, atravessando o asfalto quente, e ouvir sem parar Miles Davis e suas notas de um azul sublime e profundo? Não sei. Não descobri até agora. Mas percebi que Miles chora. E aparentemente isso não faz sentido.

Astor Piazzolla é da mesma verve. Aparentemente desconexo, mas imponderavelmente sublime. Miles e Piazzolla nos conduzem com exatidão por todos os percursos da vida. E quanto mais atribulada, monótona e dispersa for essa vida que a gente leva mais seus floreios e virulências descabidas se impõem. Mas quando conseguimos perceber o sentido e a necessidade da poesia é porque estamos preparados pra ouvir as sutilezas de Piazzolla e Miles.

Mesmo dentro dessa sutileza serena, longe da noite veloz (de Gullar), não consigo entender porque ele chora. O tempo é outro. De sublimar esse lamento e me deixar conduzir pelo inesperado de suas notas. De preferência as mais melódicas, que carregam todos os outros instrumentos na mesma cadência. Longe do desespero, dos dedos ágeis e velozes, longe do fôlego trôpego, longe da insensatez daqueles devaneios de Miles, entendo melhor o que tem pra me dizer.

Segue teu lamento Miles. Eu sigo cá do outro lado do rio, varrendo as ruas e recolhendo as pétalas secas. Sigo armando jogos de armar. Sigo aparando a grama dos jardins suspensos. Sigo aqui do outro lado de lá desejando entender por quem choras... Como um Fausto às avessas espero nunca descobrir. Mas voltarei a casa, como um bom filho pródigo. Como o filho que honra mesmo à distância, como o filho que discute em casa, mas reconhece em casa sua finitude.

Menor do que um grão de areia, mais fugaz do que a última nota de suspiro de Miles.

Dorme, guri.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

do it yourself

Olha só, o melhor clipe que eu vi esse ano. A banda é a Álgida e tenho certeza que pouca gente ainda conhece os caras. Mas não tem problema, eles continuam a sobreviver mesmo sem a mesma popularidade do Flávio do BBB.

Só não curti uma coisa: não precisava colcoar no final do clipe, depois dos créditos "obrigado por perder seu tempo". Perde tempo quem avacalha com iniciativas como essa.

Tá chega agora, vai assistir: aqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

desassossego

"Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.

No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida".


Bernardes Soares (heteronômio de Fernando Pessoa), em Livro do desassossego

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Só assim, divagar, sem nada buscar, nem desejar...



Tem dias que nada parece fazer sentido e justamente por isso me faz entender como nada é o que parece. Não uso drogas, acho um saco ter de manipular psicotrópicos pra sair do nada e encontrar lugar nenhum. Se é pra viajar eu prefiro a solidão. Uma estrada vazia, um disco estranho girando, girando no toca CD do carro, o sol se pondo, lentamente, e alguém pra chamar de "meu amor". O resto? O resto a gente compra no supermercado.

Há dias não escrevia nada. Absolutamente nada. Nada além de recados pra grudar na geladeira. Aí fui encarar a estrada. Bendita salvaguarda. Estrada guia. Não é o cheiro do asfalto, muito menos da combustão da gasolina que me provoca alucinações. Nem mesmo a Björk sussurrando ao pé do ouvido. É a travessia. Mesmo que de umn lado ao outro, rumando aparentemente sem destino eu chegasse na outra ponta da estrada do memso jeito. Quem sabe um pouco mais careca, afinal de contas o tempo é inexorável.

Mas a estrada exerce um fascínio sobre as pessoas. Mesmo quem despiste. Mesmo quem não reconheça essa estranha sensação de enfrentar a estrada. A cada travessia, por mais curta a distância, nos conduz para uma nova atmosfera. Parece papo de psicótico, eu te entendo, mas é um pouco além. Tipo, já fizeste uma viagem sem pressa, aproveitando todas as surpresas que a estrada oferece? Sem pressa é possível ver uma cabra comendo um pasto qualquer, sem importunar ninguém.

Sem pressa é possível aproveitar da paisagem. E sempre há um lugar mágico pra uma boa parada. Parada de deixar as portas do carro abertas, de ficar bem na margem de um vale silencioso, e talvez por isso mesmo tão mágico. Avistando um horizonte desses, que nem parece ficar à margem de uma rodovia movimentada, é possível entender porque tantos ajoelham-se todos os dias e oram pra agradecer a Deus a sua existência nessa vida. Porque à beira de um vale verde ou de um mar infinito aos olhos nossos tão pequenos, reconhecemos quanto inignificantes somos nesse mar de sonhos, amores, encantos e esperança.

Porque a morte nos encontrará, mais cedo ou mais tarde, seja num desfiladeiro, seja assistindo a tediosa programação de um canal qualquer da televisão. Mas muito antes dela nos encontrar é preciso dar tempo e espaço a vida. Vida atribulada, vida de supermercado, vida de afazeres domésticos, vida de cuidar dos filhos, vida de pagar IPTU, também. Mas é preciso dar espaço a uma outra vida, que é só nossa, que ninguém nos rouba, nem mesmo a quem mais amamos: nossa única e simples vida. Entender-se como indivíduo único e especial, que tem sua missão aqui nesse amontoado de terra é estar pronto para encarar-se ao espelho, sem medos nem cobranças.

Cabeça confusa é só uma rota de fuga. Mas se tiver de escolher uma fuga encare a estrada. Sem pressa de ir, muito menos de voltar. Se puder ser sem rumo melhor ainda. Aproveite o tempo, o silêncio da noite, a vaguidão da paisagem. Porque sentado na frente de um computador, com telefone tocando, com gente te chamando a todo instante, com contas pra pagar, com o carteirto batendo à sua porta, não dá. Não tem Cristo que se reconheça na sua intimidade se ao invés de viajar pra dentro de si mesmo Cristo tiver de a realidade disfarçada de cotidiano.

Permita-se viajar. Permita-se entender que nada, aboslutamente nada nessa vida vale mais do que o tempo a si mesmo. Seu amor vai lhe agradecer.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

de branco, pela paz, e com deus debaixo do braço

Não sei de onde veio, mas descobri para onde ia.

Um senhor baixinho, que parecia ainda mais baixinho, por causa do sol forte desse quase-verão que antecipa uma seca de rachar o côco, caminhava a passo curto, mas firme, em direção a sua igreja. Vestia jaleco branco, alvo como a nuvem mais linda desse céuzão de anil. Pra não queimar a careca, usava chapéu.

Descobri que ele ia pra igreja porque não me contive e fui atrás dele. Parece coisa de louco. E é. Assumo. Não resisti ao jeito dele, a aura dele, ou a simpatia dele, sei lá. Quando percebi estava caminhando como ele. Como se fosse a sua sombra.

Passos curtos, corpo inclinado à direita, como se tentasse equilibrar o peso da Bíblia apertada debaixo do braço esquerdo. O Livro Sagrado estava guardado em uma sacola plástica, como se fosse protegesse do sol ou de uma eventual chuva que parece não querer mais vir.

Não sei o nome dele. E ele nâo sabe porque raios chove tanto em Santa Catarina e nâo chove nada por aqui. Muitos menos entende porque Al-Qaeda explode tanta coisa mundo afora. Nem sabe como a bomba atômica pode cair no colo daquela mãe cheia de filhos pra cuidar.

Esse senhor só sabe que é preciso orar. Por ele e pelos outros. Sua fé move um monte de gente ao seu redor, mesmo que quase ninguém saiba o seu nome, muito menos de onde ele vem.

informação tem prioridade

Pra quem não tem lá muitas informações sobre o que anda ocorrendo em Santa Catarina...dê uma passadinha nos blogs abaixo.

Ilhados em Blumenau

e

Desabrigados em Itajaí

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

mais blues

O Moinho da Estação Blues Festival, que ocorre nos dias 21, 22 e 23 de novembro, não será apenas um grande espaço para assistir a shows de músicos importantes do gênero. O festival irá disponibilizar ainda um espaço importante para o aprendizado e aprimoramento das técnicas musicais. O pavilhão das oficinas vai se chamar Espaço Teclas e Cordas e promoverá quatro workshops no sábado e cinco no domingo.

Sábado (dia 22)
16h - workshop de guitarra e baixo blues com Ivan Mariz e César Lago (Beale Street, do RJ)
17h - workshop de harmônica - padrões rítmicos na gaita e efeitos com Jefferson Gonçalves (RJ)
18h - tecnologia e processo de fabricação de harmônicas com Melk Rocha (SP) dono da Bends Harmônicas (patrocinador oficial do festival junto com FSG e Stella Artois)
19h - Home Studio (Estúdio Caseiro) com Nei Neto (W37) e Marcel Van Der Zwam (W37)

Domingo (dia 23)
16h - musicalização infantil com Esmeralda Frizzo (domingo menores de 12 anos não pagam)
17h - amplificadores valvulados com Andy Boy (POA)
18h - workshop de escalas blues e aplicação na gaita com Ricardo Biga
19h - aula demonstrativa de rock/dança de salão com Giovani Monteiro e Sinara Suzin do clube Balroom
20h - aula demonstrativa de auto-estima com música do estúdio de danças Janaína Dambroz

Mais informãções no site oficial.

aplauso

Vai dar na Aplauso (a revista, mané!). Caxias está novamente em primeiro no ranking das cidades do interior gaúcho mais EFERVESCENTES culturalmente. Entra tudo nessa conta, desde aparelhamento (número de salas de cinema, teatros e o escambau) até eventos fixos e reconhecidos.

Agora uma pergunta, o que vale mais um prêmio de uma ONG que ninguém nunca ouviu falar, e pede dinheiro pra inscrever...e diz que vai ajudar na colheira e depois não ajuda... Ou a constatação de um veículo sério e respeitado, como o caso da Aplauso, que depois de uma série de pesquisas e levantamentos constatou que Caxias é o berço cultural mais importante do interior do estado?

Eu voto na Aplauso.

E vamos todos enviar flores ao Antonio Feldmann.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

festival de blues em caxias

Moinho da Estação Blues Festival
21, 22 e 23 de novembro
Caxias do Sul - RS


Se pudéssemos voltar no tempo quem sabe a antiga Estação Férrea de Caxias do Sul ainda receberia trens de todos os cantos, trazendo gente de todas as partes. Como isso não é possível, não pelo menos por enquanto, a Associação Moinho da Estação(AME) resolveu trazer um som de longe, que nasceu lá no hemisfério norte. Os músicos não virão de trem, mas com certeza, o lamento de seus violões e guitarras irá nos remeter ao bom e velho tempo dos trens deslizando sobre os trilhos. Nasce assim o Moinho da Estação Blues Festival, realizado em frente à antiga Estação Férrea de Caxias do Sul, no bairro São Pelegrino, inaugurada em 1910.

A primeira e histórica edição vai ocorrer nos dias 21, 22 e 23 de novembro. O palco principal será montado na frente da loja Blues Fashion, na Rua Augusto Pestana. O espaço poderá abrigar até 2,5 mil pessoas por dia. Entre as principais atrações do festival estão os blueseiros norte-americanos Magic Slim e J.J.Jackson, o carioca Jefferson Gonçalves, e a participação especial da Big Band da Orquestra Municipal de Sopros de Caxias do Sul.

Mas afinal de contas, por que um festival de blues em Caxias? Toyo, um dos organizadores, responde:

– Existe uma tendência de festivais de jazz e blues crescendo no Brasil. O Festival de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, teve em média 25 mil pessoas em cada um dos em quatro dias de shows. No Rio tem ainda o Festival de Búzios, em Minas Gerais o de Ibitipoca, e, no Ceará, o de Guaramiranga. Até no Maranhão tem festival de blues e no sul não tinha nenhum.

Um dos diferenciais mais interessantes do Moinho da Estação Blues Festival é a parceria entre três casas noturnas. Os principais shows do festival ocorrerão ao ar livre. Mas em nenhuma das três noites o lamento blueseiro vai se arrastar madrugada adentro, não pelo menos na rua. Pouco depois da 23h os shows na rua terminam, mas aí o blues segue dentro dos bares Mississippi Delta Blues Bar, Bongô e Havana.

– Nosso objetivo é transformar a Rua Augusto Pestana no espaço de entretenimento e cultura da cidade, com a vinda do Havana e futuramente do Teatro – justifica Toyo.

O Moinho da Estação Blues Festival é o principal evento de encerramento do ano em que Caxias ostentou o título de Capital Brasileira da Cultura.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

as memórias da casa

Aparentemente nada faz sentido. Porque tudo está lá no mesmo lugar. A mesa no mesmo lugar, as canetas dentro do mesmo porta canetas, as gavetas repletas de coisas e nem tudo sei ao cero do que se trata. Na outra peça, mais armários e mais gavetas. Todas cheias de coisas. Quase tranbordando. No armário o cheiro das roupas ainda parece dizer que nada do que andam me dizendo é verdade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

festival de animação em caxias



Ô beleza...eu disse que a Capital ia mesmo bombar no final do ano. Olha aí um puta festival, organizada por gente que sabe do assunto. É HOJE, lá no ORDOVÁS.

Rapá, É DE GRAÇA!!!! "Aproveita, Amilton".