terça-feira, 14 de abril de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

novo jeito punk de ser

O Pubby é um punk diferente. O cara é guitarrista e tem suas limitações como a maioria dos músicos de banda punk. Mas ele sabe trabalhar essas limitações técnicas (pra que serve um arpejo tocado a 120km, mesmo?!?) pro bem das músicas da Ligante Anfetamínico.

Nem por isso, nem mesmo por ser um guitarrista de banda punk, o Pubby se limitou a comer cachorro quente bebendo cachaça Pitu nas esquinas da vida. O Pubby virou advogado. Mais um dos bons homens desse país a lutar pelo cumprimento das leis. Mas como nem tudo na vida são códigos e normatizações, o Pubby resolveu dar um peitaço e virar dono de bar.

O Pubby não virou um "porco capitalista", ele cumpriu o principal lema do punk: Faça você mesmo. Como andava descontente com o perfil dos bares de Caxias, resolveu comprar um. Arranjou um sócio, o César Casara, do estúdio Alta Voz, e meteu o pé na porta. Casara e Pubby são os donos do Vagão.

Leia a seguir entrevista com o Pubby.


MUGNOLINI: Músico serve pra ser dono de bar?
PUBBY: Antes mesmo de ser músico a música sempre me facionou! Adoro a música! A forma que encontrei para unir prazer e trabalho era comprar/montar um bar, ou então um estúdio de gravação! A primeira opção apareceu antes, e abracei a oportunidade, e hoje posso dizer que sou mais feliz.

MUGNOLINI: Qual vai ser a cara desse novo Vagão?
PUBBY: Então, é inegável que alguma mudanças irão acontecer, e já estão acontecendo! Tanto eu quanto o César (meu sócio) gostamos muito de rock! Mas não fechado em uma única década! Ou seja, pretendemos fazer do vagão um bar de rock, mas aberto as várias tendências e ramificações do estilo! Inclusive as mais atuais! Entendemos que dessa forma o bar vai se perpetuar por muito mais tempo!

MUGNOLINI: O que te incomodava antes e como vai ficar?
PUBBY: Na verdade eu pouco frequêntei o vagão antes de adquiri-lo! Não existia algo que me incomodava nele! Acho que uma das coisas que pretendemos manter é a estrutura que o bar oferece, melhorando em alguns quesitos como camarin novo, sistema de som e iluminação nova, o atendimento, e o clima de respeito às diversidades.

MUGNOLINI: Lembro de no passado tu ter criticado duramente o Vagão em uma ocasião, inclusive com coisas no Orkut, se não me engano. Comprar o bar foi botar a tua cara pra bater?
PUBBY: Realmente, tive um problema com o proprietário anterior, ele estava começando a tabalhar na noite, e talvez a forma com que se desenrolou o ocorrido ficou desastrosa para ambos os lados, mas hoje jogamos futebol jutnos toda segunda-feira e acredito que superamos os problemas, também acho que tanto eu quanto ele aprendemos a conviver melhor com as diferenças. E sim, eu sempre fui uma pessoa que gosta de externar opiniões, e quando se faz isso há um preço a ser pago! Mas eu acho que vale mais falar o que se pensa, sabendo que poderá haver críticas em sentido contrário, do que passar a vida toda sem ter opinião própria.

MUGNOLINI: Comprar um bar é uma atitude punk?
PUBBY: No meu caso era algo previsível! Explico, como desde pequeno a música sempre teve um papel fundamental na minha vida, era de se estranhar que minha "profissão" não fosse, de certa forma, vinculada a ela! Pra mim, ir para ao bar não é um trabalho, é uma realização! E viver do que eu mais gosto na minha vida: música!

MUGNOLINI: Que tipos de banda vocês querem tocando no bar?
PUBBY: Isso ainda estamos estudando! O problema é que tu abstrai o gosto pessoal e passa a pensar como um negócio! Tem que ir atrás de bandas boas, mas ao mesmo tempo tu não pode abrir mão do público que fez a história do Vagão e que talvez não vá entender uma mudança radical na direção do bar! A princípio estamos com uma agenda bastante variada abrangendo vários estilos possíveis, desde o metal até o pop tradicional! Acreditamos que dessa forma vamos conseguir trazer diferentes tribos para dentro do bar, em diferentes dias, sem transformar o bar em apenas uma coisa! O que queremos é um bar de música boa! Dentro do pop/rock.

MUGNOLINI: Tu acha que o bar pode vir a ser o lugar que vai dar conta de dar oportuinidades às novas bandas?
PUBBY: Espero que sim! E se não for assim eu estou traindo a mim mesmo! Por isso já começamos a abrir nas quintas-feiras! Sei que o melhor para uma banda é mostrar seu som na sexta ou no sábado, no entanto, em se tratando de negócios, para que o bar possa dar chance para bandas novas é necessário que ele fature mais para cobrir os dias de menor movimento, infelizmente estes dias são ocupados por bandas novas, pois ainda não tem público, muitas vezes não são tão boas assim! Por isso a quinta-feira é uma aposta nas bandas novas da cidade! É um dia a mais que o bar abre para que as banda comecem a ter cancha, palco, e estrada, para amanhã ou depois vir a se tornar uma referência.

MUGNOLINI: E os consagrados? Que antes iam tocar no Revival terão espaço também no Vagão?
PUBBY: Bom, tudo depende! Não podemos transformar o Vagão no Revival! Essa é nossa atual política! O Revival foi um marco na cena musical caxiense, e tem que ser respeitado e lembrado para sempre dessa forma. O Vagão re-começa com uma nova política! Uma nova forma de ver as coisas! Se ele irá se tornar um ponto de efervecência cultural só o tempo dirá! Com relação as bandas, aquelas que nós entendermos que tenham o perfil que pretendemos para o bar, terão espaço garantido! Mas é importante lembrar que para uma cena realmente existir, não podemos viver só do passado, temos que contruir o novo!

MUGNOLINI: Como dono de bar e músico, qual banda tu sonha ter no teu bar tocando?
PUBBY: Pergunta difícil! Tem muitas bandas que eu gosto que poderiam tocar no bar! Essa eu vou ter que pensar mais um bom tempo pra te responder!

MUGNOLINI: E a pergunta que não quer calar, o Esqueleto vai ser o RP (Relações Públicas) do teu bar?
PUBBY: O Esqueleto já é o RP do vagão!!! huahauhauha... Não que isso seja bom! Mas enfim! Na verdade, já temos notado que os frequentadores do bar notaram algumas diferenças e já estão aprovando nossa administração! E isso é o que queremos, que as pessoas se sintam bem lá dentro! E que lá seja um local para ir e se divertir! Derreter no calor do rock!

NOTA DO MUGNOLINI: Ao final do e-mail Pubby desculpa-se por ainda não ter feito nenhuma foto sua lá dentro do bar. Aliás, nenhuma ainda publicável... E termina assim o e-mail: "Escrevi na correria, desculpa os erros de português que certamente vai ter! huahuahuahua... Agora ficar na frente do pc ficou complicado! Muita coisa pra resolver!!! Abraço mugnol!!! Vê se aparece lá no vagão!!! Ps.: temos ypioca!!! ;o)".

sexta-feira, 27 de março de 2009

sangue de um poeta



Jean Cocteau está para o cinema surrealista assim como Rambo está para o cinema acéfalo. Enquanto Stalone provoca risadas patéticas enquanto se assiste ao coitado do Rambo fuzilar a polícia norte-americana, Jean Cocteau desvela a poesia através da imagem. Num momento em que cinema se resume a um emaranhado de bombas explodindo aqui e a li, ou um cinema verborrágico, em que a palavra assume um papel mais importante do que a própria imagem -cerne do cinema-, Cocteau deveria reaparecer com toda força e imponência.

Cinema pro Cocteau é imagem. Jogo de imagens dialogando, mesmo que em muitos momentos pareçam sem sentido ou fora de lugar. Mas é que pro Cocteau e alguns poucos cineastas, cinema é poesia, é risco. Não deveria ser um encadeamento lógico e ritualístico. Cinema deveria ser o discruso de um demento, quase altista talvez, desferindo suas emoções pra quem quisesse ouvir. Mesmo que a imagem de amor pareça desalento; ou mesmo que o pudor seja confundido com penitência.

Cinema pra gente como o Cocteau é poesia. O resto é bobagem. Mesmo dentro de um universo de sentidos denominado surrealista, Cocteau vai além. Desaparece depois de lançar-se para dentro do espelho, como nesse trailer de "Sangue de um Poeta", lançado em 1930.

Cinema é risco, sempre. E talvez por isso mesmo Cocteau nos aproxime da vida mais ainda do sentido da vida, mesmo que seus filmes aparentemente nos conduzam pra longe da vida.

quinta-feira, 26 de março de 2009

quanto vale...ou é por quilo?

O Sérgio Bianchi é taxado por muita gente de um pé no saco, um cara chato...hipócrita de meia-tigela, um FDP...e por aí vai. Eu acho ele um cineasta necessário. Explico, o cara faz filmes recheados de crítica social, mas nada parecido às aulas de OSPB ou de Moral e Cívica. Bianchi é faca na bota. Mata a cobra, mostra o pau e mostra os FDP que tirara a cobra de seu habitat natural e enfiaram a cobra dentro da sopa da tua vó.

Goste ou não o cara é porreta. Um dos filmes dele se chama "Quanto Vale ou é Por Quilo?". É mais um tapa na orelha e sem direito a choro de manha em seguida. Quem se incomoda é porque se enxerga ali como se estivesse diante do espelho. Pois bem, lembrei logo de cara desse filme, que traça uma analogia entre a escravidão no século XVIII e o marketing social dos tempos atuais, assim que li no Yahoo uma nota que dizia que o governo pensa em criar o Vale-Cultura.

"Será muito semelhante ao vale-refeição. Só que em vez de alimentar o estômago vai alimentar o espírito e gerar benefício para área cultural", afirmou, na última segunda-feira (23), o ministro da Cultura, Juca Ferreira, de acordo com a Agência Brasil.

Funcionaria assim ó: o trabalhador com carteira assinada receberia R$ 50 pra torrar assistindo filme, comprando CD, indo pro show, comprar livro, indo a museus, pra assitir ópera, e etc... Só não sei se vale pra ir em rodeio e ver boi sem bago pular como um sofrenildo ou se ir pro circo.

Esses 50m mangos seriam assim "pagos" ao trabalhador: 50% pago pelo empregador, 30% subsidiado pelo Governo e 20% desenbolsa o empregado. De acordo com o ministério, cerca de 12 milhões de pessoas poderão ser beneficiadas.

Aproveitando a ira do Bianchi e olhando o Brasil do jeito que o Bianchi olha gosatria de saber quanta gente QUE NÃO PRECISA iria se beneficiar desse Vale, e mais, como comprovar que os 50 mangos foram gastos pra ver um filme e comprar um livro e não pra tomar cachaça com os amigos? E mais, haveria restrição de gêneros e atrações pra torrar os 50 mangos...Do tipo: vale só para ópera ou só vale pra show de pagode?

E se eu quiser gastar os 50 mangos pra comprar um cavaquinho e virar músico e vender cultura por aí?

Ah, e tem mais uma só mais uma. Ainda vestindo os olhos do Biachi gostaria de saber se os nosso bondosos amigos gerentes de salas de cinema, donos de gravadoras e produtores de shows iriam duplicar ou quadruplicar os preços das peças em cartaz, dos filmes em cartaz ou dos ingressos em função desse valezinho que todo trabalhador poderá assim, quem sabe, um dia, vir a receber...

E por fim...pronto...agora é a última: o vale vale pra comprar CD e DVD pirata?

Não sei, só sei que é importante dar novo impulso à economia. E vamo que vamo.

Fui.

volume um

Jorge de Jesus: de microfone em punho e ainda lá nos anos 80 já usava camisa de flanela e sonhava ser rockstar

Dias desses, o Jorge me liga dizendo que tinha uma excelente ideia de filme. Dia desses que já faz um ano. E não me disse mais nada. Só que seria um documentário sobre música. Como não sou curioso, esqueci. Na real nem dei muita bola mesmo no dia em que ele me disse. E como é do feitio do Jorge ele fez todo um suspense em torno do "projeto". Como disse antes, depois do telefonema, esqueci.

Algum tempo depois, vem o Jorge com a notícia: "Meu documentário foi aprovado pelo Fundo". Na real eu já sabia porque tinha visto a lista dias antes. Mas fiz de conta que fiquei surpreso. Afinal de contas, amigo é pra isso mesmo. Aí sim, com o projeto aprovado e mil e novescentas e trinta e sete ideias na cabeça, o Jorge enfim me apresentou ao seu documentário.

O resto é história de bastidores e se tiverem curiosidade entrem no blog do filme e confiram tudinho lá.

Só posso antecipar que o filme tá andando, sendo rodado aqui e ali. Nos três primeiros depoimentos deu pra sentir que tem muito pano pra manga. A diversão é garantida pra toda a equipe e pra todo mundo que tem sido entrevistado. Alguns preferem beber água durante o bate-papo, outros cerveja...

A foto que abre este post tem o Jorge como vocalista. O nome da banda HPS. Diz o Maneka (produtor do filme) que essa sigla dizia escondia algo muito especial. Já eu, acho que HPS é nome de banda de pagode 2° grau.

terça-feira, 24 de março de 2009

aqui do lado

Leandra Leal: ela interpreta Camila que na real é quase a Clara. Quase.

"Nome Próprio", filme mais recente de Murilo Salles (diretor de "Como Nascem os Anjos") tem sessões agendadas entre os dias 31 de março e 5 de abril, no Cine Santander Cultural, em Porto Alegre. "Nome Próprio" é baseado no livro “Máquina de pinball”, da escritora gaúcha Clara Averbuck. A protagonista, Camila, é interpretada por Leandra Leal.

Sabecumé...o filme tá aqui do ladinho de Cassias. Assim, sem querer muito quem sabe alguém, um dia desses, poderia trazer o filme pra cá. Quem sabe antes do Nery...Não conhece o Nery? Da Locadora San Remo... O Nery anda derrubando muito coordenador de sala de cinema Caxias afora... Quem sabe as coisas estejam mudando. Vai saber...

NOME PRÓPRIO

2008, Digital, cor 130 min, 18 anos

História de Camila, jovem empenhada em se tornar escritora. Sua vida é sua narrativa. Camila é intensa, corajosa e quer a sua literatura como um ato de revelação.

Gramado 2008: melhor filme + atriz (Leal) + direção de arte.

sábado, 21 de março de 2009

God loves his children...believe



Please could you stop the noise, I'm trying to get some rest
From all the unborn chicken voices in my head
What's this? (I may be paranoid, but not an android)
What's this? (I may be paranoid, but not an android)

When I am king, you will be first against the wallwith your opinion which is of no consequence at all
What's this? (I may be paranoid, but no android)
What's this? (I may be paranoid, but no android)
Ambition makes you look pretty uglyKicking, squealing, gucci little piggy

You don't remember
You don't remember
Why don't you remember my name?
Off with his head, man
Off with his head, man

Why don't you remember my name? I guess he does...
Rain down, rain down

Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me

That's it sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children, God loves his children, yeah!

depois daquele beijo

Clara amanheceu com um desejo amortecido entre os lábios. Não por causa do beijo demorado, nem por causa do abandono. E sim, porque perdera o amor antes de dizer "eu te amo". Clara amanheceu com o desejo amortecido entre os lábios cerrados. Nem a doce brisa da manhã tirou Clara da cama. Os olhos lacrados pareciam imunes a tudo. Inclusive ao amor despedaçado. Antes do "eu te amo", Clara conhecera o silêncio. O silêncio amortecido entre os lábios. Lábios gelados.

segunda-feira, 16 de março de 2009

M.i.p.V

Já faz tempo. Mais de um ano, quem sabe. Não consigo fixar minha lembrança em datas, mas em acontecimentos. Conheci o duo Músicas Intermináveis para Viagem (M.i.p.V) quando assisti ao "3Efes", filme do Carlos Gerbase. Filme aliás que trouxe de volta aquele jeito punk do Gerbase fazer as coisas. Felizmente sem aquele ar professoral de "Sal de Prata". Enfim, um filme mais puro, com o cheiro dos curtas oitentistas do Gerbase.

Mas então, conheci a M.i.p.V assitindo ao 3Efes. Curti muito. É um som simples, que bate na cachoila como um mantra-trilha-sonora de uma batalha entre cegos revoltados e raivoso embaixo d'água. Sem trucagem. Sem efeito colateral. Sorve na fonte de um monte de banda alternativa, garage rock, pincelando aqui e ali referências sutis. Não vou citar nenhuma dessas referências que percebi só pra deixar vocês mais curiosos.

Mas enfim, a M.i.p.V faz uma trilha sonora impecável pra uma cidade como Porto Alegre, ou Caxias, ou Guatemala. Principalmente trilha sonora pra uma noite interminável, cheia de ruídos dissonantes, de gente que não se entende e precisa de um tapa na orelha - com carinho, é claro.

Aproveite:

www.myspace.com/mipv
www.youtube.com/musicasinterminaveis
www.myspace.com/ypsilons

commadegraçanemquesejaenquantovocêdorme


quinta-feira, 12 de março de 2009

de volta

Foto de um quase sonâmbulo em Buenos Aires


Pra quem não sabe e sei lá se interessa...eu estava em Buenos Aires. Fui a passeio. Mas aí, sabicumé, conversa vai, conversa vem, conheci uns hermanos meio locos e cerveja vem, cerveja vai e topei um trabalho. Não me disseram do que se tratava e topei porque senti um tom de máfia no lance.

Esse papo notívago foi lá na sexta-feira. Por volta do domingo, ou madrugada de segunda, reencontrei os hermanos. Na mesma mesa do mesmo bar. Botaram 50 pesos na mesa e disseram "até amanhã".

Ô belezura. Enfim, conseguiria pagar as diárias atrasadas do hotel. Paguei, não pedi nota, por isso ganhei desconto.

Segunda-feira, às 7h, lá estava eu, sentado na sarjeta de uma das ruas mais movimentadas de Buenos Aires. Joguei a latinha de Quilmes no lixo mais próximo. De arremesso, claro. A la Magic Johnson depois de umas biras a mais. Quicou no aro, mas entrou. Enfim, os caras vieram. Quando dei por conta estava no meio da muvuca filmando um comercial de televisão de sei lá o que em Buenos Aires. Caraio...e de assistente de direção de fotografia. Putz, até miope eu sou e os caras confiaram a mim a responsabilidade do foco!

Quando a confusão cessou, lá pelas 17h, os caras me chamaram. Botaram mais 400 pesos na minha mão, me deram uma quilmes bem gelada e cairam fora. Quando dei por mim, só tinha eu e um monte de lixo espalhado pela rua. Fui direto pro hotel. Caí na cama como um cabrito depois do coice, antes da morte.

Acordei na madrugada com a televisão ligada e um compacto de River e Racing rolando. Vesti o que apareceu pela frente e fui desbravar a madrugada em Buenos Aires. Peguei um táxi e fui pro centro de tudo, perto do obelisco. Encontrei uma lancheria aberta e pedi duas Quilmes. Duas, de uma tacada só. Ofereci pro Don Diego Maradona que tava sentado do meu lado. Bebemos juntos só aquela Quilmes, porque depois do primeuro gole o cara caiu de costas no chão. Putz veio até ambulância, enfermeiro, que merda. Só na Argentina pra bêbado receber tanto carinho.

Pedi pro chefe da especunca se me venderia uma garrafa de uísque. Ele riu da minha cara. Bati no balcão e repeti: "quanto custa a garrafa de Jack Daniels?, ou vai dizer que nesta merda tem Wild Turckey?" Tomei um tabefe na orelha de ficar zunindo dois dias. Não tem problema, atravessei a rua e fui comprar uísque no primeiro posto de combustível que encontrei. Na verdade eles não vendiam uísque... Acabei comprando Ypióca. Sério... O posto era de um brasileiro que adora fuder argentino. Me fez 50% de desconto na garrafa e me indicou um bom bar de jazz em Buenos Aires.

Bebi metade da garrafa com ele e deixei o resto lá, pra ele beber com os frentistas, todos do interiro de São Paulo. E torcedores ferrenhos do Juventus. Ô gente boa. Camisa da mesma cor do glorioso Caxias. Força Grená.

Fui enfim pro bar de jazz, de táxi porque não entendi merda nenhuma onde ficava o bar. Cheguei lá e encontrei o meio irmão do Charlie Parker. Um negão de 2m, magro como a Olivia Palito. Tocava uma corneta como poucos. Depois do show pedi pra ele se podia pagar uma bebida pra ele. Me respondeu que sim. Puta que los pariu. O cara é de Sergipe. Mentiu pra todo mundo naquela porra de bar que era gringo, e meio-irmão do Charlei Parker.

Mentiu tudo, mas em nome do jazz vale tudo. Depois daquela pedi a conta. Deixei ali metade do cachê que faltava pra liquidar a fatura e voltei quase liso pro hotel. O resto? Bem, o resto é quase nada perto do que foram esses 4 dias em Buenos Aires.

Agora chega, preciso fazer a janta.

segunda-feira, 2 de março de 2009

é hoje

Lindonês e Jorge, ou ainda, Maneka e DJ Mono, a partir de hoje passam também a ser reconhecidos como fotógrafos profissionais. A dupla recebe abraços dos convivas durante a vernisage da exposição "Trilhos do Tempo", que abre hoje, na Galeria da UCS. Aos bêudos de plantão um aviso importante: não terá vinho DIGRÁTIS. É só suco.

Um brinde, Maneka e Mono ou Lindonês e Jorge.

Mas quando é que vai rolar um brinde com vinho?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

É Mugnolini no DVD

Me acharam... Aliás, o Éverton Rigatti (cineasta e auxiliar de radialista) me achou, lá em Buenos Aires. Por essa nem minha mãe esperava.

Confira aí, no videozinho.



faraway, so close

Para Carlinhos


Cena 1 - Interna/amanhecer/diante do espelho
NARRAÇÃO EM OFF: "Perto, mas nem tão perto que seja difícil separar quem sou de quem você tenta me fazer parecer. Longe, mas nem tão longe a ponto de o coração arder de saudade".

Fade out/Fade in.

Cena 2 - Interna/noite/quarto
Beth Gibbons está deitada na cama. Lençóis revirados, maquiagem borrada, janela escancarada, cortinas dançando ao vento. Um sopro de incerteza paira no ar. Beth canta, ou melhor, murmura: "Give me a reason to love you, give me a reason to be a woman".

Fade out/Fade in.

Cena 3 - Externa/entardecer/parquinho
Menino triste. Sentado no balanço, quase parado, não fosse o movimento das pernas, desenhando o nada na terra seca. Atrás do menino não está a paisagem realista do presente, está passando uma versão surrealista da sua vida inteira. Vida que o menino-adulto revê com toda a inocência e desterro. Imagnes rápidas, aleatórias, sem ordem natural - apenas emotiva e sentimental.

Fade out/Fade in.

Cena 4 - Externa/amanhecer/cidade pequena, sem mar
Silêncio noturno no alvorecer de uma cidade pequena. Nem mesmo os pássaros se atrevem a interromper o luto.

Cena 5 - Externa/amanhecer/cidade com mar
Beira do mar. Pessoas coradas de sol ofuscam outras sem o mesmo brilho na pele, sem o mesmo sorriso serelepe no olhar. Lá no mar, depois de um mergulho e do primeiro banho de sol da manhã, um homem resolve levantar-se em meio a multidão e caminhar. Recita de caboa a rabo um poema de Ferreira Gullar. Não grita, apenas recita baixinho, equanto caminha na beirinha do mar, lavando os pés. Olhos no horizonte, engolindo o choro, recita:

"Que deus se enterra nesta tarde
em Ipanema? Que morto
vaza seu corpo no mar?

Mais alto ergue o mar os seus
ramos de pedra fugaz.
Como o canto que se perde
é a agitação colorida

das verduras, o sagrado
cruzar de espadas vermelhas
e negras. Rei de paus. Valete.
A Dama sacode a fronte

coroada de açucenas,
seus lutuosos cabelos,
sua túnica em quadrados
preto e branco. Amor e morte".

Já nos últimos versos vimos apenas o homem caminhar rumo ao infinito pela beira do mar. Aos poucos ele some e perde-se em meio a maresia.

Fade out/Fade in.

Cena 6 - Interna/amanhecer/velório na cidade pequena, sem mar
No meio da sala tinha um caixão. Um caixão. Madeira, madeira, madeira e madeira. Dentro dele ainda um corpo. Inerte. Desligado daqui, do nosso tempo. Agora livre, para procurar o seu lugar em outro plano. Nessa nova tragetória vai passar por algumas provações para poder sentar ao lado de Deus, pai-todo-poderoso. Ao redor do caixão pessoas rezam, algumas com um terço enrolado aos dedos. Outros de olhos cerrados, outros desviam o olhar do caixão. Mas todos rezam, da sua forma, pela vitória do homem que se foi. Silêncio. Ali no outro lado da sala tem uma janela e nessa janela vemos o menino do balanço. A câmera se aproxima. Lentamente. Em travelling. Ele chora e diz em silêncio, só pra gente ouvir. A gente que está do lado de fora desse filme:

"Pai, pode ir. Vá em paz. Me perdoa o desafeto de um dia sem noção. Porque eu te perdoo os dias de desafeto sem noção. Vá e descanse em paz. Deus é justo. Peças perdão e sentarás ao lado de Deus Pai Todo Poderoso. Te amo, sempre".

Fade out.

Fim.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

era pra ter sido só um sonho

Era pra ter sido só um sonho. Nada mais. Nada além de um inebriante sonho tão delicado quanto o beijo de quem ama sem cobrança. Um sonho em preto e branco. Nesse sonho morrer é impossível; divagar é preciso. Como verso livre sem a rima rica, nem a contagem de palavras e sílabas. Sem limites entre o céu e a terra, sem a vaidade que nos corrói os calcanhares.

Num instante sobrevoo um oceano límpido e infinito. Fecho os olhos e caio sem vertigem. A água gelada interrompe o transe. Acordo dentro da escuridão silenciosa. Ainda em gesto de quem nada mar adentro, sinto a rugosidade da areia entre meus dedos. Logo encontro a saída. Havia entrado na água pra sair na areia.

Mas como disse antes, era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Longe, bem distante, o sol imponente no horizonte trata de aquecer a areia debaixo dos meus pés. A essa altura já imaginava algo de messiânico nessa travessia. Mera ilusão. Não existe oásis no deserto. Nem tão pouco a barba desfigurada durante a travessia indica minha metamorfose em Cristo. O Segundo Cristo, quem sabe. Improvável.

Era pra ter sido só um sonho.

Nada mais. Nada além de um sonho inquieto, como todos os que Dali e Fellini enfrentaram e saíram ilesos. Ou quase. Porque há sonhos tão intensos que não dá vontade de voltar a abrir os olhos. Sonhos carregados de amor que nos deixa o corpo imóvel, inerente a própria sorte.

E no deserto, caminhando sobre a areia escaldante, com a barba de Cristo, mas desprovido de sua santidade, encontrei um poeta. De mãos doces como a chuva. Escrevia poemas na areia. Não tardavam e logo sumiam, embaralhados aos grãos de areia trazidos pelo vento.

Deu vontade de lutar pela permanência da palavra, da poesia. Mas logo fui demovido da idéia. Tão fugaz meu pensamento, voraz o vento. De costas pra poesia percebi sua perenidade. Menos aflito permiti que a poesia cumprisse seu papel. Mesmo que seja na areia. E só merece decifrá-la quem tem paciência de entender o tempo das coisas. De todas elas. Mesmo que seja o tempo de um sonho.

E era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Mas o tempo desse sonho, por eu já não me importar com sua permanência, tem durado anos e anos e anos. Mesmo quando durmo e não sonho esse sonho de areias escaldantes cujo portal é um oceano límpido e infinito, sinto a mesma brisa desse oceano e a mesma doce-aspereza da areia quente desse deserto perene.

E era pra ter sido só um sonho.

Nem mesmo quando o sol se pôs e a lua cheia iluminou o deserto tive medo. Talvez fosse aquela música do Nino Rota. Aquela do "Oito e Meio", do Fellini. Meio circo, meio deboche, com cheiro de travessuras de menino. Não sei. Não era pra ter sido nada além de um sonho. Mas ele perdura. Insiste na missão de desvendar o reino. O meu reino? Já disse que não acredito nesse reino messiânico que me coloca como um Segundo Jesus. Essa barba não tem poder de transformar água em vinho. Antes tivesse...

Nada disso. Era pra ser só um sonho. Mas nem no sonho eu transformava água em vinho. Talvez não tenha esse poder porque não saberia o que fazer com tanto vinho.

E logo amanheceu. Nino Rota sumiu. E levou com ele a doce sonoridade com gosto de infância, de moleque, de guri travesso. Olhei em torno e a areia quente tinha virado asfalto. No lugar do deserto sem fim, arranha-céus. No lugar do silêncio, trânsito infernal. Buzinas, gente gritando. Promoção de calça jeans! Promoção de calça jeans! Leva dez paga cinco!!!

Mas não era pra ter sido só um sonho?

Pés descalços pisando o asfalto quente. Uma estranha música que eu não conseguia decifrar, muito menos perceber de onde vinha, me contagiou. Curioso, cansado, quase amaldiçoado, enfrentei a neblina de gente sem graça, o trânsito trôpego, as caras amarradas, driblei o moleque na esquina degolando a velhinha, e me deparei com um velho usando chapéu de cowboy. Sentado na sarjeta, ele desferia:

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning
I'll come followin' you


Antes que ele pudesse continuar sua canção um palhaço arrancou o violão da sua mão, arremessou-o metros longe. Espatifou-se no asfalto. O velho levantou-se, abraçou o palhaço e saíram rindo, como se fosse o final de um filme do Chaplin. Enfrentaram a rua na contramão, como bêbados, como se dessem adeus pra isso que eu pensava ser só um sonho, nada mais.

E era pra ter sido só um sonho. Só. Nada mais. Não fosse...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

o mundo em preto e branco de Fellini



Só pra começar bem o dia segue video com os primeiros 10 minutos do filme 8½, de Federico Fellini, lançado em 1963. No elenco, o alterego de Fellini, Marcello Mastroianni e a belíssima Claudia Cardinale. Esse é sem dúvida um dos filmes mais impressionantes do Fellini.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sala de cinema ulysses geremia

Li no blog 3por4 do Carlinhos Santos que vai ter mudança na coordenação da sala de cinema Ulysses Geremia, do Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho. Não sem tempo e não vou ficar perdendo tempo comentando o passado.

De olho no futuro abro meu voto em quem eu acredito ser o cara com as melhores condições na cidade para ser o coordenador da sala de cinema: NIVALDO PEREIRA. Quem não o conhece tá perdendo tempo. O cara é jornalista, roteirista de mão cheia e um cinéfilo de dar gosto. O Nivaldo não é do perfil de cinéfilo que só gosta e admira o cinema que cabe nos seus olhos. Ele tem visão ampliada e arejada.

E o melhor, não tem a pinta de intelectual, adora subversões e é muito curioso. Aprendo sempre com ele sobre cinema, mesmo quando ele não diz nada e acabdo tendo de descubrir que filmes ele anda pegando lá na locadora San Remo.

Mesmo sem voz nem vez nessa eleição resolvi dar meu pitaco: É NIVALDO NA CABEÇA!

abrazzzos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Better man

Não quero muitas coisas. Hoje, principalmente, quero coisas que não façam barulho. Nada que me tire dessa singela viagem rumo ao infinito do amor eterno. Aquele amor que não se perde nem mesmo depois da morte. Porque é dolorido ver ali suspirar pela última vez alguém que se ama muito, mas a vertigem é condição de renovação da vida. Vida eterna. Pelo menos é nisso em que acredito. Porque ali está escrito nas escrituras sagradas. E porque sinto no coração que é assim mesmo.

Perde-se o abraço carinhoso, o beijo do pai sempre amoroso, as risadas depois de uma garrafa de vinho, os gritos de gol daquela partida apertada e quase impossível de vencer, as palavras-guia. Isso tudo eu perdi com a morte do pai. Mas ganhei uma estreita relação que não cessa nem mesmo enquanto eu durmo. Não fosse assim eu não teria acordado mais feliz hoje porque em sonho meu pai sorria e me dizia que tudo está bem. E me pediu pra ficarmos bem.

Aquele sorriso só dele, encantador, charmoso e de quem sempre viveu a vida na sua plenitude. Na plenitude de um homem bom. Eta palavrainha em desuso "bom". Quem não o conheceu talvez não saiba ainda o que é um "homem bom". Eu sei e tenho me policiado pra aprender a seguir apenas o exemplo dele. E esse homem bom é ainda mais sublime do que você imagina. Talvez eu nunca alcance essa dádiva que meu pai um dia alcançou, mas te confesso que tenho me dedicado a isso. Com afinco. E muito, mas muito amor.

Agora vou dormir porque tô um pouco cansado.
Inté.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

beijo amor, boa noite

Tem dias que nem o silêncio parece acalentar a dor. Tem dias que a saudade bate forte, o medo do amanhã rasga o peito como um poema-desterro. É como se o beijo no asfalto me fizesse amanhecer com um tedioso gosto amargo na boca.

Enquanto isso, o velho embaralha as memórias. Confunde os sentimentos e continua engordando o porco morto. Piada não se explica, mas no caso, ele, o gordo, é o porco morto.

Tem dias que o frio congela os ossos. Noutros parece que o perdão é uma palavra tão sem sentido e distante, como golfinhos deslizando sobre o desero do Saara. E nem memso a Sara, a da Bíblia, reconhece-se no espelho. Bendita seja ela o fruto desejado entre tantos homens. E assim seja. E foi. E sempre será.

No outro lado do rio, um menino caolho segue enfiando as mãos pelos pés. Joga futebol como quem flutua no espaço a caça de estrelas fugazes. Mesmo ainda bem menino ele sabe que a pipa não atravessa o rio.

Nada disso é sonho. Antes fosse. É realidade que meus olhos teimam em fisgar. A mesma realidade que me lançou dentro de uma noite veloz a perseguir uma menina linda, cujo olhar me enfeitiça e me devolve a um lugar tão singelo quanto caliente. Ao meu amor, muito mais do que as batatas, como diz naquele livro que ninguém lê, escrito pelo Machado de Assis.

Ao meu amor o perfume dos meus sonhos. Noite e dia. Ao meu amor, um beijo demorado que nos arrasta para dentro de nós mesmos. Sem pudor, nem vaidades. Beijo de amor. Simplesment, e por isso mesmo delirante, amor.

Já te disse hoje que te amo?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Por quem Miles Davis chora?

Para M. de Menezes
e Augusto Nesi



Trancado dentro do carro no dia mais quente das últimas semanas me perguntava o porquê de tanto lamento. Aquele trompete ressoando e se impondo à melodia, me conduzindo de um extremo ao outro da existência: da plenitude da felicidade à derrocada da tristeza. Por quê? Por quem?

Lá fora o sol impiedoso derretia a todos. Caras cansadas, sôfregas de enfrentar o deserto de asfalto, mais pareciam os personagens de “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee. Nem mesmo as flores dos floristas de esquina sobreviviam. Murchavam diante do inevitável. E quando as pétalas das flores ressecadas se acumulam na sarjeta é sintoma de que parte da poesia do mundo se perde. Talvez nunca mais essa porção seja revista. Vai pro lixo. Sacralizada a poesia, mas pro lixo.

Enquanto isso, enquanto transitava de um extremo ao outro dessa avenida esguia, cada vez menos charmosa e mais poluída, Miles deixava fluir sua incondicional virulência. Miles não é o tipo de cara que deixa rastro, muito menos esbraveja numa atitude intempestiva de se impor. Miles simplesmente exala seu perfume no ar. Igualzinho às rosas de Cartola. Da mesma essência, ao mesmo pó.

Miles só queria nos conduzir ao silêncio. Pra um lugar onde só pudéssemos ouvir o nosso coração. Mais nada. Mas como enfrentarmos nossa ignorância? A solução seria permanecer trancafiado nesse carro, atravessando o asfalto quente, e ouvir sem parar Miles Davis e suas notas de um azul sublime e profundo? Não sei. Não descobri até agora. Mas percebi que Miles chora. E aparentemente isso não faz sentido.

Astor Piazzolla é da mesma verve. Aparentemente desconexo, mas imponderavelmente sublime. Miles e Piazzolla nos conduzem com exatidão por todos os percursos da vida. E quanto mais atribulada, monótona e dispersa for essa vida que a gente leva mais seus floreios e virulências descabidas se impõem. Mas quando conseguimos perceber o sentido e a necessidade da poesia é porque estamos preparados pra ouvir as sutilezas de Piazzolla e Miles.

Mesmo dentro dessa sutileza serena, longe da noite veloz (de Gullar), não consigo entender porque ele chora. O tempo é outro. De sublimar esse lamento e me deixar conduzir pelo inesperado de suas notas. De preferência as mais melódicas, que carregam todos os outros instrumentos na mesma cadência. Longe do desespero, dos dedos ágeis e velozes, longe do fôlego trôpego, longe da insensatez daqueles devaneios de Miles, entendo melhor o que tem pra me dizer.

Segue teu lamento Miles. Eu sigo cá do outro lado do rio, varrendo as ruas e recolhendo as pétalas secas. Sigo armando jogos de armar. Sigo aparando a grama dos jardins suspensos. Sigo aqui do outro lado de lá desejando entender por quem choras... Como um Fausto às avessas espero nunca descobrir. Mas voltarei a casa, como um bom filho pródigo. Como o filho que honra mesmo à distância, como o filho que discute em casa, mas reconhece em casa sua finitude.

Menor do que um grão de areia, mais fugaz do que a última nota de suspiro de Miles.

Dorme, guri.