segunda-feira, 19 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 7

Tava devendo a inormação. O nome do ator que faz o papel de um jovem que adora os Ligantes e odeia os pais que ele tem, se chama Franco Sartori.

Eis o cara, mais uma vez. E olha, nunca tinha trabalhado com ele, mas o guri me surpreendeu.

Obrigado, Franco. Até o próximo trabalho.

BASTIDORES DO CLIPE 7

Esse é mesmo um mundo estranho. Isso não é uma cena do clipe, é a vida real, sem filtros e nada na lente.

Da esquerda para a direita: Luciano Paim (baterista), Esqueleto (vocalista), Sandrinha (atriz), e atrás, Mércio (o astro).

BASTIDORES DO CLIPE 6

Só pro Esqueleto não ficar com ciúmes, eis a foto dele, grandão, posando de verdadeiro magnata.

BASTIDORES DO CLIPE 5

A vida é dura, mas vale a pena. Que o diga o Mércio. O cara trabalha o dia toda, a semana toda, no bar do Cursão. No final de semana vai jogar um sinuquinha com os amigos, anda pelas ruas chutando latinhas de ceva, e vai nos melhores shows de rock da cidade. É o roadie oficial dos Ligantes. E fazendo jus ao seu dedicado trabalho à banda, resolvemos que ele seria o astro principal da festa. No clipe, ele tentava traçar todas as meninas, mas só levou fora. Nem por isso, deixou de curtir o show. Um brinde, saudoso Mércio.

- Ô, Mugnol tira uma foto comigo do lado da mina mais gata da festa. Essa eu preciso registrar no álbum da minha vida.

- Ô, ô...agora tira uma foto minha beijando essa mina aqui...


BASTIDORES DO CLIPE 4

Domingo é dia de ficar com a família. E isso também vale para as casas noturnas especializadas em diversão para pais estressados e noivos entediados. Sendo mais direto, isso também vale para a putaria. Dizendo com palavras mais bonitas e relembrando uma gloriosa fase da música brasileira, "saudosa maloca, maloca querida". E o que seria da humanidade sem sexo, sem aquele proibido, e fora do casamento. Quantas famílias são alimentadas porque uns e outros saem por aí redistribuindo a renda?

Pois bem, como uma homenagem a esse mundo fabuloso da redistribuição de renda, da vida em família, da putaria desenfreada e do sexo selvagem com meninas bem prestativas, a produção do videoclipe invadiu o Cassino, no domingo a tarde. Para trabalho. Apenas trabalho. Não havia expediente interno. Pois bem, e prosseguindo, entramos lá para gravar mais uma cena do videoclipe. Ceninha um tanto bizarra, mas interessante. Pra não entregar muito o jogo só vou colocar uma foto, que não diz quase nada.

domingo, 18 de novembro de 2007

BASTIDORES DO CLIPE 3

O Esqueleto deu um certo trabalho, mas depois que cravou os dentes num xisão ele ficou bem quietinho.

- Bah, fazia uns dois dias que eu não comia direito...


BASTIDORES DO CLIPE 2

Segundo dia. Aliás, primeiro, porque o primeiro "de verdade" falhou.
Cena no quarto do menino, cena do banheiro e cena da sala de jantar. Atores, um guri tri bom, que infelizmente esqueci o nome, mas depois prometo verificar a informação, um casal de manequins (esses de vitrine) com dois filhos pequenos (tb manequins) e o Paulinho, vestido com a máscara do macaco.
Ah, e claro, a banda. Primeira cena com a banda. Na hora marcada, aliás, meia-hora depois da marcada, chegam Pubby, Luciano e Esqueleto, ah, e o Mércio, que não é da banda, mas é da família. E uma hora depois do trio chega o empresário e baixista Parisoto. Figurino no corpo, ensaio e tal, hora de gravar.
Primeiro o piá, vendo tv no quarto.


Depois, a banda invade o quarto do piá.

então vem o macaco no banheiro

e enfim, fomos pra outra locação pra gravar a cena do jantar da família



BASTIDORES DO CLIPE 1

Ou ainda: a cena que não foi. Ainda não foi.

Tudo marcado para começarem as gravações na sexta-feira. Porém, e como dizia Plínio Marcos, sempre haverá um porém, o que era pra ser não foi. Depois de uma pré-produção de quase duas semanas, efim iríamos gravar na sexta, dia 16, mas aí furou. Furou o empéstimo do principal carro que utilizaríamos. Em uma das cenas a banda, assim como no filme do Tonacci, os quatro rapazes ligados iriam trafegar pelas ruas da cidade, por lugares decadentes, por lugares depredados dessa linda cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, mas não conseguimos o carro que seri ausado pra banda.

O Maneka, que tá produzindo o clipe, que na real é um curta, tinha agendado tudo certinho, mas aí, o tal cara do carro, que ainda bem não sei o nome senão citaria aqui com alguns palavrões, resolveu sumir da cidade querida, palco da Festa da Uva, carro chefe da Capital da Cultura, e desligar o celular. Tudo bem, desfeitos do susto e do balde água fria, resolvemos esquentar a cabeça bebendo cerveja.

E como tudo na vida se resolve de cabeça quente encontramos o macaco no São Patrício. Explico, é que no clipe que é um curta, assim como no filme do Tonacci, tem um cara que veste uma máscara de macado. No filme é o Peréio, e teríamos de encontrar alguém a altura, alguém que medisse mais de 1m78. E encontramos na nossa mesa, nosso amigo de brindes, nosso amigo de festinhas proibidas na escola da vida. Paulinho, um cara bem apresentado, cabelo bem cortado e moreno, porte de modelo.

-Vai fazer o que amanhã, Paulinho?
- Nada, por que?
- Tu vai ser o nosso macaco?
- Que??????
- É pro clipe da Ligante. Tu só terá de ir no banheiro com uma máscara de macaco, fazer a barba no espelho e cantarolar uma música do Ray Connif.
- Tá, beleza. Que horas amanhã?
- Ah, o Maneka te explica depois.

BASTIDORES DO CLIPE

Esse negócio fazer videolcipe é uma cachaça que não se vende a qualquer preço. Não tem em qualquer esquina, nem é fácil encontrar um bom contrabandista. E só uma bicadinha basta pra ficar ligadão, e querer mais, sempre mais. E antes que eu começasse a ver bebezinhos engatinhando pelo teto, quase delirando da secura da cana, eis que a Ligante Anfetamínico me convida pra dirigir mais um videoclipe.

Conversa vai, conversa vem, e eu bem louco com a idéia passei a delirar antes do delírio da secura da cana. Dito e feito. Já que a Ligante é punk, nada mais sincero e de acordo do que produzir um clipe sob a aura do cinema marginal. Porque o cinema marginal nada mais é do que a atitude punk, na tela. E só pra avacalhar mais, o clipe seria um curta-metragem em homenagem ao filme "Bang-Bang", do Andrea Tonacci.

Ah, a música, claro. A música escolhida foi "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas", composição do Pubby, guitarrista da Ligante, cujo título é outra homenagem. "Andróides Sonham com Guitarras Elétricas" é o nome de um disco dos Replicantes, lnaçado no comecinho dos anos 90 e que contava pela primeira vez com os vocais de Carlos Gerbase, que assumiu o posto de front man com a saída de Wander Wildner.

Homenagem é como brinde, não pode ser banalizado. Por isso, um brinde a Ligante, ao Repli, e a Tonacci.

Até daqui a pouco.

sábado, 3 de novembro de 2007

estrangeiro

O Zuzuwah é estrangeiro, mas tão estrangeiro, que suas músicas fazem cada vez mais sentido em Caxias. Não que elas não possam ser escutadas longe daqui. De fato, quem mais cola o ouvido na sua batida estranha, entrecortada com guitarras viajantes, e melodias de sopro assobiáveis, são os estrangeiros.

Gente que mesmo vivendo sob a neblina serrana está plugada numa sonoridade globalizada. Da fusão de estilos e gêneros, aparentemente dissonantes, mas que, reorganizadas, e bem trabalhadas, parecem ter surgido da mesma raiz. Como o jazz e o drum'n'bass, por exemplo. Originariamente distantes, mas primos bem próximos dessa pós-modernidade infernal. No bom sentido.

Zuzuwah, guitarrista da Cabaret Hitec (hibernando) e saxofonista da Grelhados Passam Voado e Bacon 27, ataca novamente com o projeto solo, sempre em versão demo, batizado de Complexo Shanghai. Depois das bolachinhas The Mandarin Sessions (2005) e Busking (2006), é a vez de The Revolution Sessions (2007).

_ O disco tem influência da relação de amor e ódio entre Estados Unidos e a América Latina, passando pelo populismo e demagogia de suas lideranças até chegar na ensolarada Califórnia _ divaga Zuzuwah.

Algumas canções do novo álbum estão no site www.myspace.com/coletivoshanghai. Quem quiser comprar a bolachina pode procurar na banca 29, do Camelódromo. Custa R$ 10.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

set

Depois do bem sucedido curta-metragem Ana Cristina Perdeu a Memória, que tratava da infância, Ana Luiza Azevedo, entra no set para as filmagens do seu primeiro longa, Antes Que o Mundo Acabe. Pedro Tergolina, protagonista do curta, volta, dessa vez para encarar o personagem Daniel.

O filme, que tem roteiro da Aninha, em colaboração com Paulo Halm, Giba Assis Brasil e Jorge Furtado, é baseado em romance homônimo, de Marcelo Carneiro da Cunha. Conta a história de Daniel, um garoto de 15 anos, que convive com a mãe e o padrasto, um amigo acusado de um crime e uma namorada que não quer saber de namoro.

A produção segue até 2 de dezembro em Taquara, Rolante, Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre.

o sentido do amor

O senhor que é homofóbico e não consegue imaginar o amor entre dois homens, não assista ao filme Felizes Juntos. Porque se depois dos primeiros minutos o senhor suspeitar que esse universo lhe é mais próximo do que pensava, vai sair por aí culpando o cineasta chinês Wong Kar-Wai. E o pobre diretor não tem culpa de nada. Ele vive do ofício de contar histórias de amor. Sem pudor, porque assim são as verdadeiras histórias de amor.

Felizes Juntos faz parte da Coleção Lume, organizada pela empresa maranhense Lume Filmes, que pretende lançar dois DVDs por mês de filmes contemporâneos, sucessos de crítica nos cinemas do Brasil, mas ainda inéditos em DVD. O filme chinês é o terceiro da coleção, que tem ainda Felicidade (1998), de Todd Solondz, Na Companhia de Homens (1997), de Neil LaBute, e Reconstrução de um Amor (2003), de Christoffer Boe.

A trama de Felizes Juntos é simples e nada original. É centrada em dois homossexuais, Yui-Fai (Tony Leung Chiu-Wai) e Po-Wing (Leslie Cheung), que viajam de Hong Kong a Buenos Aires à procura das Cataratas do Iguaçu, uma espécie de quimera para uma nova vida. Até aí, nada de incomum, porque tem uma penca de filmes parecidos. O grande lance do filme é a maneira como Kar-Wai desenvolve a história. O nome do filme, Felizes Juntos, é, na verdade, uma armadilha para o espectador, que pode ficar ansioso em ver Fai e Po felizes e juntos.

E é justamente a inconstância, a incomunicabilidade e os encontros arredios que jogam com o sentimento do espectador. Mais ainda porque os movimentos de câmera, os cortes das cenas, a alternância fugaz de música (ora Piazzolla, ora Zappa) e silêncio reforçam essa relação fragmentada e incompleta de Fai e Po. Porque no final de tudo, mais do que um filme de amor, Felizes Juntos trata do sentido do amor na vida de cada um dos personagens.

Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai
Coleção Lume, drama, 93min, 1997.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Com o dedo no gatilho*

"Tropa de Elite" virou uma febre, primeiro por ter vazado para a Internet e ser facilmente encontrado em qualquer camelô do Brasil. E segundo, porque trata da criminalidade e do tráfico de drogas a partir da visão do temido Batalhão de Operações Especiais (BOPE), do Rio de Janeiro.

Quando os camelôs do Rio de Janeiro começaram a vender o DVD de "Tropa de Elite" quase ninguém entendeu nada. Era só mais um filme de ação à disposição, por um precinho bem camarada. Mas aí um cara comprou, recomendou para o amigo que comparou com Cidade de Deus, e então veio outro dizendo que "Tropa de Elite" era ainda melhor. Esse boca-a-boca aumentou ainda mais o interesse pela cópia pirata, até porque o filme só seria lançado em novembro. Para driblar esse inconveniente, o diretor José Padilha resolveu antecipar às pressas o lançamento nos cinemas.

No primeiro final de semana de exibição nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro, o filme levou cerca de 180 mil espectadores. Segundo pesquisa realizada pelo Ibope (não confundir com BOPE) estima-se que entre 12 e 15 milhões de pessoas já viram "Tropa de Elite", seja em cópia pirata ou na telona. Para entender como é importante essa marca, o filme de maior público do cinema brasileiro na sua estréia é "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, lançado em 1976, com 12 milhões de espectadores.

Mas afinal de contas, por que "Tropa de Elite" vem causando todo esse alvoroço? O filme é muito bom. É inegável. Esfrega na cara do espectador uma dura realidade que não pode mais ser ignorada. Até aí, novidade nenhuma, porque tem uma penca de filmes importantes que ajudam a entender os problemas sociais do Brasil, não só pelo viés da criminalidade (leia box abaixo). A originalidade do filme, no entanto, reside no foco delimitado pelo diretor. O espectador é conduzido pelo ponto de vista do capitão Nascimento (Wagner Moura), do BOPE.

Contra a sua vontade, Nascimento é destacado para "apaziguar" o Morro do Turano. É que no filme o Papa João Paulo II visitaria o Rio de Janeiro e ficaria hospedado pertinho dali. E nada poderia acontecer a Sua Santidade, lógico. Ao mesmo tempo, Nascimento corre contra o tempo para encontrar um substituto. O capitão quer sair do BOPE porque anda estressado, sua mulher está grávida, e a relação entre eles esmorece a cada dia.

Voz do tédio
Nascimento é o narrador e protagonista. É sua a voz da indignação, do tédio de repetir todo os dias as mesmas tarefas e nada, absolutamente nada, ao seu redor modificar-se. O espectador fica sabendo por ele que a inoperância da Brigada Militar é o motor do BOPE. Porque quando nada mais adianta, quando a BM perde o controle, o BOPE é chamado para resolver tudo. Mas o BOPE nunca resolve tudo como se esperaria. Porque não adianta matar traficante e recuperar armas de grosso calibre. No dia seguinte, novos traficantes estarão no lugar dos mortos armados até os dentes.

A resposta desse descontrole, no entanto, não está em "Tropa de Elite", e sim nos documentários "Notícias de Uma Guerra Particular" (João Moreira Salles e Kátia Lund) e "Falcão, Meninos do Tráfico" (MV Bill e Celso Athayde). Nessas duas produções entende-se que há uma lista imensa de meninos ávidos por pegar em armas e lutar pelo "movimento", ou seja, meninos loucos para ser traficantes. Outro filme referencial e, de certa forma complementar para entender "Tropa de Elite", é "Cidade de Deus". Se o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, revelava a gênese do narcotráfico nas favelas, "Tropa de Elite", na visão do capitão Nascimento, disputa um jogo de duas caras com as classes média e alta.

Cinema não salva ninguém
Se de um lado, é bom para a elite econômica que o BOPE suba no morro para exterminar quem encontrar pela frente, contanto que esse sangue todo não espirre no asfalto, de outro, Nascimento tenta provar que o tráfico só existe porque os filhos dessa mesma elite continuam comprando maconha, cocaína e o escambau. Nascimento é enfático: "Quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para que um playboy possa enrolar um baseado?".

Não espere uma luz no fim do túnel. "Tropa de Elite" é um minucioso tratado sobre a realidade, mas é só um filme. E cinema não salva ninguém. O que salva é investimento em segurança, educação, saneamento básico, saúde. Nascimento e sua tropa estão tão exaustos e desnorteados quanto a molecada que empunha fuzis nas favelas Brasil afora. Mas como diz o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel, no documentário "Notícias de Uma Guerra Particular": "A única instituição do governo que sobe a favela é a polícia. Mas a polícia não pode fazer nada sozinha".



O LIVRO
"Elite da Tropa", foi escrito em 2005, por Luiz Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel, com o roteiro do filme já em andamento. "Tropa de Elite" centraliza a trama no capitão Nascimento (Wagner Moura), mas o livro retrata diversas histórias de outros policiais do BOPE, preservando ainda suas identidades.
Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 39,90 (sem o desconto de 20% da Feira do Livro).

PARA ENTENDER A CRIMINALIDADE NO BRASIL
Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco
Notícias de Uma Guerra Particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund
O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), de Paulo Caldas e Marcelo Luna
Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Ônibus 174 (2002), de José Padilha e Felipe Lacerda
Carandiru (2003), de Hector Babenco
O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), de Paulo Sacramento
Falcão, Meninos do Tráfico (2006), de MV Bill e Celso Athayde

* reportagem publicada no jornal Pioneiro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

ainda parece um transe

Paulo Autran amou o teatro como poucos, menosprezou a televisão e fez menos cinema do que desejou. Sua estréia ocorreu na Vera Cruz, com "Veneno" e "Apassionata", ambos de 1952. Na carreira atuou em cerca de 20 filmes. Seu mais recente é "El Pasado", de Hector Babenco. O filme abre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dia 18.

Quem viu "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha, não esquece de um sem fim de cenas impressionantes e delirantes. Nem por isso, Paulo Autran se perdeu nessa profusão de desejos vertiginosos. Ele interpreta o Senador Porfírio Diaz, um tecnocrata que apoiou o presidente da República d'Eldorado. E lógico, prepara o terreno para suceder o "amigo".

Autran externaliza a ira daquele Glauber em transe, como poucos. Seja dentro da igreja, envolto pelas imagens sacras, seja no alto de um morro tremulando uma bandeira, em meio a uma forte ventania. Autran dizia que "Terra em Transe" era um dos melhores filmes da história do cinema brasileiro. Não à toa, era uma linguagem que se aproximava do teatro.

Da cinematografia recente, destacam-se "A Máquina" (2005), de João Falcão, e "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias" (2006), de Cao Hambuger. Em "A Máquina", Autran parece buscar uma certa inspiração naquele transe de Glauber. O texto é voraz, o movimento de câmera impressionante, e Autran, como de costume, deixou a sua marca. O filme não seria o mesmo sem ele.

Em "O Ano", escolhido para concorrer a uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, o ator faz apenas uma pontinha. Interpreta o avô do menino Mauro. Não há a eloquência, nem a sombra do transe de Glauber. E nem precisa. Em poucos minutos Autran nos conquista com aquele aura do avô que todo mundo idealiza. A morte do personagem é mais do que mis en'cene. Reveja "O Ano" e perceba o quanto dolorosa é a ida daquele avô. Ainda parece um transe. Mas é morte.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

o brasil vai com cao hamburger tentar ganhar o oscar

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS*
de Cao Hamburger
A história de Mauro (Michel Joelsas) um menino apaixonado por futebol que vai passar as férias na casa do avô, mas sente muita saudade dos pais. Essa é a melhor, e mais singela, definição para "O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias", filme de Cao Hamburger. O pano de fundo é o Brasil em 1970, às vésperas da Copa do México. Tempo da ditadura dos fuzis e da polêmica se Tostão poderia jogar como um terceiro atacante no vibrante time brazuca.

"O Ano", diferentemente de outras produções sobre a ditadura no Brasil, como "Cabra Cega", "O que é Isso Companheiro?" e "Quase Dois Irmãos", é despretensioso. Não tasca na cara do espectador o discurso panfletário. Não quer rediscutir o trauma daquele passado delicado. E por isso mesmo, "O Ano" é um filme inquieto e provocativo. Atrai menos pelas rajadas de fuzis e raiva da militância de esquerda, e mais pelo olhar de Mauro, que flerta entre a solidão e a descoberta do desejo.

Antes que alguém grite lá do fundo da sala, "O Ano" não é um filme para criança. É sobre crianças. É sobre as descobertas de um garoto e como elas se equivalem para os outros personagens do filme, e por conseqüência, aos espectadores. Aliás, que roteiro bem amarradinho escrito por vários colaboradores, entre eles, a valorosa contribuição de Bráulio Mantovani (Cidade de Deus). Descobrimos junto com Mauro, que há mais gente engajada na resistência aos militares do que se imaginava. Mauro nos empresta seus olhos ainda para desvendarmos a cultura judaica, herança do avô (Paulo Autran).

Mesmo com tantas entrelinhas e sub-textos, em nenhum momento o filme desanda. A excelente reconstituição, desde pequenos objetos de cena, bem como automóveis, roupas e moradias, sustentam a verdade dessa história de mentirinha. Como está dito lá em cima, não espere um tratado recheado de citações intelectualóides. Não espere também ver o Zé Dirceu pegando em armas. "O Ano" é um filme para ver comendo pipoca. E mais, para ver Mauro descobrir como a vida pulsa além da janela do Fusca azul.

* Texto publicado na revista Almanaque em março de 2007.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

a banda do ano

Sábado à noite. A chuva enfim dava uma trégua. No estacionamento da Yes Music Hall cerca de 3,5 mil pessoas aguardavam ansiosamente pelo show da NX Zero. Tinha menina de salto alto e cabelo com chapinha, mas também tinha menina de jaqueta de jeans rasgada e piercing na língua. Em comum, a identificação com as letras das músicas desses cinco rapazes paulistas. Algo como: “essa música é a minha vida!”.

Larissa Leidens da Silva, 14 anos, era mais uma dessas meninas muito ansiosas por ver ao vivo a NX Zero. Larissa conheceu a banda ouvindo o CD “NX Zero”, lançado em 2006. De cara se apaixonou pelos caras que compuseram “Conseqüência”. A música não foi feita pra ela, mas é como se fosse, porque sublinhou muito bem uma estranha passagem da sua vida.

- Ouvi “Conseqüência” e me fez lembrar na hora do que tinha me acontecido – sorri, sem deixar pistas do que ocorreu.

Larissa só não sabia que a banda abriria o show tocando a sua música, ou melhor a canção que diz tanto sobre a sua vida. Esses caras de 20 e poucos anos (bem poucos mesmo), sabem muito bem o que dizer pra meninos e meninas como a Larissa, que começam a lidar com essa vida estranha vida, como diz a letra: “Eu nunca tenho certeza que estou / Totalmente certo ou realmente perto do que sou / Mas vou tentar “só viver” talvez assim na hora certa / Vou saber o que fazer e no que acreditar”.

Se alguém ainda tinha dúvidas de que a NX Zero é a “banda do ano”, como Charlie Brown Jr., Pitty e CPM22, foram em outros anos, precisava ouvir duas músicas apenas para dar o braço da torcer: “Razões e Emoções” e “Além de Mim”. As música inteiras, repito, inteiras, foram cantada com a ajuda da gurizada, aos berros. Larissa parecia não acreditar, mas eles estavam ali, pertinho dela. Desde sábado, sempre que ela vestir o All Star preto rabiscado com caneta nas bordas, aquela calça jeans com a camiseta vermelha e a jaquetinha de capuz, Larissa vai se lembrar do show de sábado.

Até quando? Tão incerto quanto os próximos passos da banda. Porque talvez em 2008 outros venham a ser “a banda do ano”. Larissa torce para que os caras da NX Zero continuem a compor músicas como se fossem pra ela. Como diz “Razões e Emoções”: “É que às vezes acho que não sou o melhor pra você / Mas às vezes acho que poderíamos ser / O melhor pra nós dois”. Ou como escreveu o poeta Vinicius de Moraes: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. E sem bis a NX Zero se foi.

* show do último sábado, em Caxias.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

árido movie


É impossível escrever sobre Árido Movie só como um filme, isolado do mundo, isolado da filmografia dos demais cineastas de Pernambuco. Árido Movie não é só o nome do filme de Lírio Ferreira, mas também o nome de batismo da produção cinematográfica dessa galera de Recife. É o mesmo que o manguebit para a cena musical da capital de Pernambuco, que lançou Chico Science & Nação Zumbi, mundo livre s/a., etc.

Lírio Ferreira é um desses cineastas que insiste em consolidar em Pernambuco uma carreira autoral _ mas nunca solitária. Com ele surgiram Paulo Caldas, Hilton Lacerda, Cláudio Assis, que encontraram no amazonense Marcelo Gomes, e no cearense Karim Aïnouz, mais do que parceiros, mas cúmplices na produção de filmes. A estréia em longa-metragem ocorreu em 1996, quando Ferreira e Caldas lançaram Baile Perfumado, vencedor dos princiais prêmios do Festival de Brasília daquele ano.
O mais interessante desse movimento é que os cineastas não se fecharam em apenas uma proposta estética. Não é como no Cinema Novo ou no Cinema Marginal, que estabeleciam uma espécie de cartilha de signos. Até existe uma certa relação entre os filmes, que de alguma forma procuram o mesmo: revelar a identidade cultural de Pernambuco. Mas é impossível encontrar uma relação profundamente estética entre Céu de Suely, de Karim Aïnouz, e Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, por exemplo.

Árido Movie flerta com Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Mais pela viagem dos personagens por desterros do esquecimento, terras perdidas no meio do nada, do que pela história em si. Árido Movie conta uma conhecida trama marcada por crimes e vinganças. Mas com uma narrativa voraz, sem perder o certo encantamento, revelado pelas imagens poéticas durante a travessia de Jonas (Guilherme Weber), que parte de São Paulo, rumo a Rocha, no interior de Pernambuco para enterrar o pai, Lázaro, (Paulo César Peréio), que fora assassinado depois de mais uma boa noitada.

Divagando no meio do nada, Jonas acaba por reconhecer-se na estranheza daquela gente que ele não via desde os cinco anos, quando saiu de lá com a mãe, Stela (Renata Sorrah). De volta a Rocha, ele precisa decidir se aceita a sina da famíla do pai (amados e odiados na mesma medida), que há gerações impõe a lei do "cala a boca". Ao mesmo tempo, conhece Soledad (Giulia Gam) videasta que encontra nas pessoas mais simples de Rocha, a voz da sabedoria. Tudo isso, emoldurado pela terra seca do sertão sem fim. Mas um dia o "sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão", já dizia Antonio Conselhieiro.


Como "dança" o pessoal do árido movie... (só em longas)

Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas
O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna

Amarelo Manga (2002), de Cláudio Assis, com roteiro de Hilton Lacerda e Claudio Assis

Cinema, Aspirinas e Urubus (2006), de Marcelo Gomes*, com roteiro de Karim Aïnouz** e Paulo Caldas

Árido Movie (2006), de Lírio Ferreira, com roteiro de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Baixio das Bestas (2007), de Cláudio Assis, com roteiro de Hilton Lacerda
Cartola - Música para os Olhos (2007), de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Deserto Feliz (ainda inédito), de Paulo Caldas, com roteiro de Marcelo Gomes e Xico Sá

* Marcelo Gomes é amazonense mas sempre esteve próximo da turma do árido movie. Tem curtas em uma coletânea de filmes de Pernambuco
** Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, com roteiro de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Céu de Suely (2006), de Karim Aïnouz

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Vai lá


ó, tem bons filme na sala de cinema Ulysses Geremias, do Ordovás, a partir de sábado, dia 15. é a seleta de filmes que foram premiados no CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre.

já escrevi aqui mesmo sobre o Conceição, Autor Bom é Autor Morto (foto acima). Leia, se tiver paciência.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A vida abestada de um velho safado


O Baixio das Bestas, que estréia amanhã (1º de setembro) na Sala de Cinema Ulysses Geremia, é a síntese do mundo cão. Revela com ira e lirismo a vida das pessoas de um vilarejo cravado no desterro do esquecimento. Há quem lute para para não ver as atrocidades que lá ocorrem, e quem sustente a moral de cuecas. E tudo pensado, arquitetado e com o rigor técnico de um dos cineastas mais interessantes da sua geração, o pernambucano Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga (2002).
O filme abre com cenas do filme Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr., pontuadas pelas frases: "Há quem diga que o tempo vence no fim. Um dia ele engole a usina, como engole a ti e a mim". É o preâmbulo para Cláudio Assis enfiar seu dedo embebecido de merthiolate em cada uma das feridas ainda abertas. O filme relaciona a vida das mulheres do lugar, que sofrem todo o tipo de agressões, com a não menos desgraçada vida dos bóias frias que trabalham na colheita da cana.

Nesse cenário se passa a história de Auxiliadora (Mariah Teixeira), Seu Heitor (Fernando Teixeira) e Cícero (Caio Blat). Ela, uma menina de 13 anos explorada pelo avô, Seu Heitor, um moralista ambíguo, que em tudo vê falta de autoridade mas ganha dinheiro explorando sua neta. Por sua vez, Cícero, um jovem de uma conhecida família local, assiste ao drama de Auxiliadora e acaba seduzido por ela.
Preste atenção nas situações extremas. Os amigos Cícero e Everaldo (Matheus Nachtergaele), por exemplo, passam os dias digavando entre as ruínas de um velho cinema (onde tudo pode), o puteiro da vila (que disputa sediciosa entre Hermila Guedes e Dira Paes), e o banho de cachoeira. Assis conduz a amizade dos dois entre a porrada na mulherada e a sensibilidade de um carinho que nos leva a duvidar da macheza de Cícero e Everaldo.

Não procure o redentor nessa história, porque, como naquela canção de Assis Valente que versa sobre o Papai Noel, "com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem".

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

um bom festival se faz com bons filmes

O Festival de Cinema de Gramado, cujos vencedores serão conhecidos sábado, anda mudando. Não aponta com clareza que novo caminho é esse. Ou seria uma tentativa de voltar no tempo e restabelecer sua importância? É cedo para saber. Porque talvez os frutos dessa colheita só virão em 2009 e por aí vai. E toda e qualquer argumentação da consultoria técnica (José Carlos Avelar e Sérgio Sanz) é parcial e não seriam eles a dar o tiro no próprio pé.

De toda forma, a seleção dos filmes já revela que algo mudou. Esse ano não tem um filme vexatório, que dá vergonha assistir, como “Sonhos e Desejos”, de Marcelo Santiago. Tem sim uma inclinação para o cinema autoral. Herança visível da interferência de Sanz e Avelar, que em 2006 convenceram Andréa Tonacci a inscrever “Serras da Desordem”, que acabou levando três Kikitos (fotografia, diretor e filme).

Dos seis filmes brasileiros e cinco latino-americanos em competição esse ano, a maior parte evidencia um olhar particular. Seja através de uma leitura político-social (“O Cobrador”), ou humanista (“Deserto Feliz” e “El Baño del Papa”), ou ainda experimental (“Otávio e as Letras” e “Castelar e Nélson Dantas no País dos Generais”). Mas tem cinema mais tradicional e nada inventivo, como “Condor”, “Cocalero” e “Valsa para Bruno Stein”.

Sempre é um tiro no escuro imaginar quem vencerá cada uma das categorias, porque nunca se sabe o que os jurados (oficial e popular) vão indicar como os mais representativos. Durante essas seis noites de competição, alguns filmes receberam uma reação mais calorosa do público: dos brasileiros, “Deserto Feliz”, de Paulo Caldas e “Olho de Boi”, de Hermano Penna, e dos latino-americanos, “O Cobrador”, de Paul Leduc, e “El Baño de Papa”, de Henrique Fernández e César Charlone.

Nessa revisão de final de festival, fica a impressão de que esse ano o cinema se sobressaiu ao tapete vermelho. Não por imposição de ninguém. É que nessa edição os atores do segundo escalão, que tentam sobreviver fazendo novelas na Record não conseguiram muita atenção. Tietagem de peso foi com Lázaro Ramos (infelizmente ainda mais conhecido como o Foguinho do que por personagens como Madame Satã), Zezé Motta (justa homenagem com o Oscarito), Marília Pêra (que veio a tiracolo com Eduardo Coutinho).

Quem não vê com esperança um novo Festival de Cinema de Gramado, é porque não consegue dissociar o trabalho de formiguinha que vem sendo realizado com paciência com Sanz e Avelar, do triste período das sofríveis premiações de “Gaijin – Ama-me como Sou”, de Tizuka Yamasaki, em 2005, “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, em 2001, ou “Vida de Menina” de Helena Solberg, em 2004. Até porque, por mais estrelas que Gramado coloque a desfilar no tapete vermelho, um bom festival se faz com bons filmes. E bons filmes foram exibidos. Espera-se que sejam esses os premiados.

O público agradece.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

quarta noite de competição

Tapa na cara

Ontem foi a noite mais política do Festival de Cinema de Gramado. Na tela “O Cobrador – In God We Trust”, de Paul Leduc, e “Condor”, de Roberto Mader, abordavam sob pontos de vista bem diferentes, a interferência das ações políticas, algumas mais evidentes, outras endêmicas, do passado e do presente.

“O Cobrador” é mais uma prova de que para conhecer melhor que mundo é esse, repleto de interferências e influências da globalização, com choques estremados de desejos e necessidades, é preciso ver os filmes mexicanos. É invetável lembrar de “Babel”, de Alejandro González Iñárritu. Menos pela virulência e mais pela itinerância das histórias, espalhadas por Estados Unidos, Argentina, México e Brasil.

“O Cobrador” é mais porrada do que “Babel”. Literalmente. Já começa com o personagem de Lázaro Ramos (nominado como C) esbofeteando um dentista. E assim segue. Peter Fonda interpreta X. É um ricaço cheio de tédio e muito raiva, que adora atropelar mulheres indefesas. Ao mesmo tempo, Leduc costura essas tramas a outras tantas. Num momento as histórias se mesclam tanto que o espectador se confunde.

Mas é uma confusão que explicita esse mundo cada vez mais sedento de ar. Sufocados por sonhos improváveis, por uma vida que traga o mínimo de bem-estar os personagens C, de Lázaro e Ana, de Antonella Costa, estão empenhados em cobrar do mundo essa dívida. Entre os pedidos: “respeito, sorvete, camisas limpas e lágrimas limpas”. Tudo fruto do texto de Rubem Fonseca. Matéria prima desse inconstante mundo em decomposição. Política e moral.

Depois desse “tapa na cara”, o público conferiu o penúltimo concorrente brasileiro. “Condor” não tem o mesmo vigor, nem a mesma virulência, mas carrega nas costas o peso de um dos mais tristes capítulos da história da América Latina: a ditadura militar. O documentário disseca a Operação Condor, e mostra que o objetivo era prender, torturar e matar desafetos políticos.
O diretor Roberto Mader teve coragem de ouvir representantes da direita, entrevistou Pinochet Jr. e o general Manoel Contreras (braço direito de Pinochet).

Há momentos líricos, muito bem pontuados pela trilha sonora de Victor Biglione, mas alguns depoimentos pouco, ou em nada acrescentam. Fica a impressão de ser uma aula para quem desconhece o período, do que um documento que abre novos caminhos para a punição dos culpados.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

terceira noite

Estranha felicidade

Nem sempre a verborragia dá conta de explicar alguma coisa. Às vezes o silêncio é imperativo. Porque mesmo quando há muito pra se dizer, nem sempre é possível dizer só com as palavras. “Nascido y Criado”, de Pablo Trapero, e “Deserto Feliz”, de Paulo Caldas, exibidos ontem à noite na Mostra Competitiva, no Palácio dos Festivais, são bons exemplos disso.

“Nascido y Criado” revela, em um ritmo lendo e cadenciado, como se nunca estivesse acontecendo nada, a separação de uma família. A partir de um acidente automobilístico, Santiago (Guillermo Pfening) foge para um descampado no sul da Argentina. De uma forma sutil, quase sem palavras, alternando banalidades e situações de tristeza, solitude e medo, Santiago definha. Trancafiado em um dilema particular, se fecha para o mundo. Mas aí vem um telefonema banal e reata os pedaços espalhados da sua vida. E podia ter acabada aí, sem o previsível reencontro de Santiago e Milli (Martina Gusman).

Mesmo depois do intervalo e da homenagem a Zezé Motta, a inquietude seguiu durante a exibição de “Deserto Feliz”, do pernambucano Paulo Caldas (“Baile Perfumado”). Aliás, bem-vinda inquietude. Seguindo a mesma trilha da incomunicabilidade, Caldas conta a história de Jéssica (Nash Laila), menina de 15 anos que foge de casa e sobrevive como prostituta.
Nesse descaminho acaba encontrando Mark (Peter Ketnath) um turista de Berlin que a leva para a Alemanha. Essa relação que flerta entre o desejo, a paixão voraz, a troca de favores, deixa no ar um incômodo. Porque sempre fica a impressão do quase. Seria quase amor, quase abandono? Sentada à beira da cama Jéssica parece entregue a sina de uma estranha felicidade no deserto de Berlin.

segunda noite

Faca de dois gumes

A segunda noite da competição suscitou duas sensações. Inicialmente de alívio, porque os filmes exibidos ontem, “Cocalero” e “Olho de Boi”, são melhores do que os da primeira noite. Mas depois, veio aquele incômodo “e se for só isso”?

“Cocalero“, dirigido por Alejandro Landes, acompanha o então candidato à presidente da Bolívia, Evo Morales, nas eleições de 2005. Já de cara um inconveniente, como não chegou a Gramado a cópia em 35mm do filme, o público teve de se contentar com uma versão em DVD. Azar do diretor, que vai ter uma apreciação negativa do seu filme, porque a cópia digital tinha problemas de som e fotografia.

“Cocalero” não começa bem. Transita em diferentes pontos, chuta para todos os lados, como se quisesse entender para onde tinha de apontar. A câmera à espreita, quase nunca invasiva, o chamado cinema direto, é formalismo e proposta de linguagem narrativa. No entanto, pode também servir de escudo para a falta de idéias do diretor. Alejandro Landes só acompanha o nascimento do presidente Evo. Mas e aí, era só isso?

Como contraponto veio “Olho de Boi”, de Hermano Penna. O diretor sabia para onde ir, inclusive com quais ferramentas tinha de trabalhar. E arriscou. Pecou na resolução do conflito levantado, e no desenvolvimento da narrativa, mas tem apuro estético. O roteiro pretendia desenvolver uma história baseada na tragédia Édipo Rei, mas a plasticidade acaba se sobrepondo ao enredo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Dois perdidos no Palácio dos Festivais

“CASTELAR E NELSON DANTAS NO PAÍS DOS GENERAIS”, de Carlos Prates, abriu o festival. O documentário é uma colagem de trechos de filmes realizados pelo Centro Mineiro de Cinema Experimental, na década de 70, em Minas Gerais. A estrutura é ousada, porque não apresenta os filmes como em um documentário tradicional. Prates tece as cenas desconexas como se fosse uma colcha de retalhos.

No entanto, essa abordagem diferenciada só confunde o espectador. É provocador, porque em nenhum momento explica de onde vem e para onde vai. Mas infelizmente o conceito narrativo e estético não encontra eco. Prates não tinha saída. Precisava contar a história desse movimento sem traí-lo. Não podia ser só mais um documentário. O que Prates não esperava era ser engolido por essa viagem vertiginosa e perder-se na profusão dos desejos.


“VALSA PARA BRUNO STEIN”, de Paulo Nascimento, veio logo a seguir. O filme abre com um lento plano desfocado. Aos poucos conseguimos visualizar as mãos de um homem amassando argila. A forma indefinida desse monte de terra instiga porque nos transporta a inconstância do personagem Bruno Stein (Walmor Chagas). Bruno trafega entre o mundo introspectivo que aflora nas esculturas e o cotidiano arrastado e tedioso.

Mas aí, perdoem o trocadilho infame, o filme avança e não anda. Se Bruno se vê quase perdido na inquietude dos sonhos, memórias e desejos; se a morte lhe persegue à espreita; se nem a palavra de Deus o aconselha mais, por que o filme não dá conta de assombrar o espectador com o triste fim que aponta a trama? Paulo Nascimento prefere a vaguidão que sugere esse descampado ao invés de jogar o espectador para dentro da alma confusa de Bruno.

Muita luz, poucas estrelas

Até os taxistas andam reclamando do baixo movimento em Gramado. Imagine então quem veio para a cidade conferir as atrações do Festival de Cinema. Quem passa as noites circundado o tapete vermelho atrás das estrelas teve muito trabalho. Não para furar o cerco e conseguir uma fotinho exclusiva. Mas passou trabalho para encontrar as tais estrelas sempre prometidas por Gramado.

Se não fosse Walmor Chagas e Ingra Liberato, do elenco de “Valsa para Bruno Stein”, filme em competição exibido na noite de domingo, a tietagem teria de se contentar apenas com os atores do segundo escalão da Globo. Mas hoje tem homenagem a Zezé Motta e aguarda-se a vinda de José Wilker e Marília Pêra.

Se fora do cinema as coisas andam como aquele caminhão cheio de melancias que se acomodam durante a viagem, dentro dele ainda é cedo para apontar se Gramado reencontrou a trilha perdida. Se depender dos primeiros filmes exibidos na noite de domingo o festival se mostra mais perdido do que certo de um rumo.

sábado, 11 de agosto de 2007

festival de cinema de gramado 2007 - só pra variar

a neblina cobre a cidade de gramado. só pra variar. sempre é assim. talvez seja só a primeira noite, mas acho que serão todas as noites assim. algo a ver com o conceito do tal encontro? Quem sabe...

terça-feira, 31 de julho de 2007

réquiem para um sonho

A morte de Michelangelo Antonioni é mais do que o fim de uma carreira. Antonioni era o último de um clã que surgiu para o mundo com suas investigações pelo neo-realismo italiano. Movimento estético surgido após o fim da Segunda Guerra Mundial por cineastas como Vittorio De Sica, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini.

O mais notável desse período é que todos eles surgiram a partir do neo-realismo, mas cada um perseguiu seu estilo. Se Fellini transformava sonhos em filmes, Antonioni nos devolvia às angústias, medos e conflitos de encarar um mundo em veloz transformação. E sempre experimentando conceitos estéticos diferentes.

Não por acaso foi muito bem premiado Europa afora: A Noite (1961), recebeu o Urso de Ouro do Festival de Berlim (Alemanha); O Eclipse (1962), o Prêmio Especial do júri de Cannes (França); e O Dilema de uma Vida (1964), Leão de Ouro de Veneza (Itália) e Blow Up _ Depois Daquele Beijo (1966), Palma de Ouro em Cannes.

Com Antonioni se aprende que o amor dura mais do que a frivolidade de um beijo roubado; que à noite afloram sentimentos sinceros, nem sempre bem recebidos; que a memória é mais vigorosa do que a lucidez; e que a única certeza é divagar além das nuvens. E que assim seja.

Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)


Ainda não sei o que dizer. É simples escrever não sei o que dizer. Mas ontem ainda (terça-feira) morreu o Antonioni. A família só informou hoje (quarta) à imprensa. No mesmo dia o cinema perde a investigação da alma por Bergman, e a inquietude de Antonioni.
Mais tarde eu volto.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Gritos e Sussuros



Meu Bergman favorito




Ingmar Bergman (1918 - 2007)


Ninguém que se arrisca a fazer filmes deveria comerçar sem antes devorar a obra de Ingmar Bergman. Sobretudo quem vê no cinema o trabalho de um autor, a reflexão humanista e a extensão da vida. E por ironia do destino é justamente por estes motivos que tanta gente se esquiva dos filmes de Bergman. Porque sem dó nem piedade ele expõe relações ora conflituosas, ora obsessivas e a incapacidade de lidarmos com a morte.
Querer escapar da identificação com suas histórias é driblar a inevitabilidade da finitude. Não é possível enganar a morte, nem mesmo depois de vencê-la em um jogo de xadrez. Bergman, entre tantas coisas, quer nos mostrar como a travessia por esssa vida depende da fragilidade das nossas escolhas. Lançados a toda sorte precisamos mover as peças com precisão antes que as más escolhas transformem-se em traumas irreparáveis.
Seja na vertigem de um grito ou na sutileza de um sussurro, Bergman coloca amados e traídos diantes do mesmo espelho. Não para desnudarmos as tragédias de cada um, mas para reconhecermos no outro o que negamos ser. Ou ainda como melhor explicou o cieasta francês Jean-Luc Godard: "Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas".

sexta-feira, 6 de julho de 2007

foto EFE


Woody Allen passa o tempo tocando jazz enquanto não volta a filmar com a a loirinha Scarlett Johansson. O novo endereço de Allen é no Café Vienês, do Hotel Casa Fuster, em Barcelona. Na próxima segunda, as filmagens do seu próximo longa iniciam, e quem sabe ele venha passar mais tempo com Scarlett do que com sua bandinha, a Eddy Davis New Orleans Jazz Band.

Sobre o filme: a produção será uma "una carta de amor a Barcelona", e vai girar em torno das férias de uma turista norte-americana (Scarlett Johansson) nesta cidade catalã e as relações que estabelece com alguns de seus habitantes, especialmente com um homem cujo papel será de Javier Bardem. O filme terá ainda Penelope Cruz no elenco.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

ainda cineesquemanovo

Filme de boteco

Grande parte da graça em assistir a um filme estranho com gente esquisita são os comentários na saída da sala de cinema. Depois da exibição de Conceição, autor bom é autor morto, último concorrente da competição de longas-metragens do CineEsquemaNovo, o mais comum era ouvir: "ah, um filme assim eu também faria". Ou ainda, "nossa, véio...nonsense demais". E pra mim o melhor comentário: "tá aí um novo gênero: filme de boteco".

Gostei: "filme de boteco". Porque na verdade, a enxurrada de tramas paralelas decorre de uma conversa banal de um grupo de amigos reunidos em um bar e bebendo a cerveja Conceição. Papo vem, papo vai e cada um à mesa cita como deveria ser o seu filme. Só o simples fato de serem lançadas idéias sem o mínimo pudor nos remete a velha frase do Glauber Rocha: "Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Mas não é tão simplista assim. Nem era só isso o cinema do Glauber, nem só isso o filme de uma verdadeira ação entre amigos, que reúne os diretores Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro e Cyntia Sims, na concepção de Conceição, autor bom é autor morto.

Também não é só um filme dentro de um outro filme. Aliás, são vários trechos do que viriam a ser filmes inteiros, se realizados em separado. Mas toda essa desconstrução narrativa, essa não-linearidade, essa quase esquizofrênica verborragia dos autores sentados à mesa e bebendo cerveja poderia ser só um emaranhado de situações desconexas. Mas não é. Tem ali o esmero de um roteiro que tece amarras consistentes entre tantas situações diferentes e personagens que a princípio pouco ou nada têm a ver um com o outro. Mas há uma pergunta corrente ao longo de todo o filme que une essas idéias, a princípio descabidas, e as dá sentido: "Se você fizesse um filme, como ele seria?".

É a responsabilidade pela obra dividida não só entre os amigos do boteco, mas, sobretudo, com o espectador. E já que o negócio era mesmo romper com a lógica de homogeneidade na narrativa, foram inseridas personagens da vida real, pessoas comuns que deram vazão à sua criatividade e disseram como seriam seus filmes. Essas cenas foram filmadas em preto e branco para contrastar de cara com a estética da parte ficcional de Conceição. Menos uma delas, a de uma banda de chorinho e samba que acaba sendo incorporada à trama.

Outro momento de subversão ocorre quando uma das autoras-atriz desliga a luz. Cinema sem luz é a morte do cinema. Não é. E de certa forma, logo de cara esse breu lembra o apagão de Velinhas, curta-metragem de Gustavo Spolidoro. Mas diferentemente de Velinhas, em que após o apagão os personagens acendem velas para iluminar o ambiente, em Conceição, a luminosidade vem de um cigarro de maconha. A cada nova tragada se acende uma luz em tom vermelho-alaranjado, que dá conta de não apenas sugerir o calor do cigarrinho em brasa, mas acaba iluminando o rosto dos personagens-autores.

O contraponto dessa discussão em torno da importância da imagem decorre em cenas plasticamente bem construídas, como nos tantos planos no cemitério, não só da perseguição ao fugitivo, mas também da personagem sem nome e reconhecível como mulher nua que é vista com um longo véu preto participando de um funeral. O fugitivo é um dos personagens centrais. Primeiro, porque é quem une, mesmo que de formas não-convencionais, as demais tramas. E segundo, porque ele se revolta contra o autor, que lhe atribui tão somente a sina de fugir. E não faz nada mesmo além de fugir. Porque na hora de dar cabo aos autores, entra em cena o homem da capa preta, interpretado pelo músico marginal Jards Macalé.

A essa diversidade poderia se classificar como a falta de estilo. Ou ainda, como o filme nos permite interpretar a partir do título: a morte do autor. Pode "morrer" a figura que assume a autoria de uma obra (e não é o caso de Conceição), mas sempre haverá um autor. Mesmo que essa atribuição seja dividida entre uma ação entre amigos como essa, ou ainda seja feita a partir de pesquisa pelo Ibope. São autores os responsáveis por dar sentido a um punhado de idéias. Em Conceição o sentido é deturpar a regra, mas sem com isso, perder-se na confusão dos desejos dos personagens (da vida real ou fictícia).


Filme da mostra de longas-metragens do CineEsquemaNovo. Escolhido como melhor filme pelo júri popular.

A falta que ama

O amor no filme O Nascimento do Amor, de Philippe Garrel, é a expressão da dor. Em nada lembra o cheiro da felicidade. Porque Garrel não fez um filme sobre o amor. Fez um filme sobre a falta que ama. Sobre o vazio. Sobre a solidão. Os personagens não só fingem que amam, mas também confundem o amor com a necessidade de amar.

O olhar da câmera conduz o espectador pela vida dos amigos Marcus (Jean-Pierre Léaud) e Paul (Lou Castel). Marcus é casado com Hélène (Dominique Reymond) e Fauchon (Marie-Paule Laval) com Paul. Há uma cena logo no início do filme que revela o tom da história. Marcus pergunta a esposa se ela o ama. Ela diz que sim, mas a expressão de Hélène não condiz com sua resposta. A revelação da mentira vem logo a seguir, quando ela se aproxima dele, e o beija na testa. Paul recebe tão somente um beijo fraterno, quando na verdade, queria um beijo que lhe queimasse os lábios.
Aparentemente, o filme não tem uma história, não cria uma rede de intrigas, não há suspeitos de um crime perfeito. Aparentemente parece ser mais um filme banal, sobre a busca banal por amor. Mas é justamente nessa aparente banalidade que Philippe Garrel nos toma pela mão e conduz filme adentro. Ao assistir o filme temos a sensação de estarmos conduzindo a câmera. Por isso os movimentos mais lentos, a hora e a vez de cada um dos personagens ter o seu close para dizer o que tem de ser dito, nem que seja em silêncio.
Porque o silêncio é tão importante nessa trama quanto os diálogos. Aliás, tão ou mais importante que a verborragia. Porque na grande parte do filme os personagens confundem-se nos próprios desejos. Por isso o tempo de cada plano não se encerra quando termina o que dizer. Porque sempre há mais a dizer, mesmo em silêncio. Mesmo quando o personagem sai da cena. E é nesses pontos que reforço, a câmera parece ser conduzida pelo espectador, porque queremos ver nascer esse amor, nem que seja por meio de um desencontro.
A trama centraliza-se em grande parte na solitude de Paul. Ele tem esposa, um filho e uma filha recém nascida. Mas Paul não se reconhece como um pai de família. Pior, não se reconhece no amor pela mulher, nem pelo filho. Segura no colo a menina recém nascida, mas nem isso lhe conforta. Os gritos de histeria não são porque a pobre menina demora três horas para cair no sono. Paul grita pela falta que ama. Grita pelo vazio. Grita porque a solidão dói.
Paul não ama a mulher, mas diz amar Ulrika (Johanna ter Steege), a amante. Só que esse sentimento voraz por Ulrika é só um despiste. Na verdade ele se entrega a esse amor bandido porque sabe que vai terminar logo. E termina, porque Ulrika não o ama. Num jantar na casa de amigos isso fica bem claro. Paul pega na mão de Ulrika por debaixo da mesa. Ela se entrega a esse toque sedicioso. No dia seguinte, ambos no carro, Paul repete o gesto. Mas Ulrika não quer esse carinho. Nos dois momentos são planos detalhes sutis que revelam que relação é essa entre Paul e Ulrika.
A sutileza é o grande encanto de O Nascimento do Amor. E é um filme tão bem costurado porque não são apenas os movimentos de câmera ou os planos demorados e fechados, como se quisessem entrar na mente dos personagens, que esmiúçam a trama. A música tem um papel fundamental. Esse piano ora doce, ora amargo, reflete esse desejo desesperado e inquieto pelo nascimento do amor. O piano revela a pulsação do coração. Notas duras e com muitas pausas, revelam a dor. Já as notas doces, a melodia envolvente, em um andamento mais acelerado, revelam a excitação.

Essa excitação Paul experimenta pela última vez na trama quando conhece uma jovem que diz ser sua fã. Logo se percebe que Paul vai aproveitar desse acaso para experimentar mais uma vez da porção do amor. Mas no caso de Paul, não é amor. E talvez nunca será. Porque Paul quer essa jovem na cama. Quer sexo. Sem compromisso, é claro. Porque Paul é sacana. Prefere seguir com seu jogo de sedução, ao invés de resolver a sua vida. Prefere as coxas quentes da menina, ao invés de enfrentar a responsabilidade de pai.
Paul tenta justificar essa irresponsabilidade contando a Marcus que o seu pai também saiu de casa quando ele ainda era pequeno. E esse é só mais um dos vazios. É só mais uma falta que ama. Porque a vida segue. E todas as irresoluções na vida de Paul e Marcus precisarão um dia ser resolvidas. Porque em algum momento, quando menos se esperar, alguém vai fitar teu olhar e perguntar: "Você me ama?". Pode ser assim, de um jeito aparentemente banal que o amor venha enfim a nascer. E talvez Paul não esteja preparado.
O Nascimento do Amor foi exibido na oficina de crítica cinematográfica, no CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre.

terça-feira, 19 de junho de 2007

primeiras impressões de 'Saneamento Básico, o Filme'

foto: Leopoldo Plentz, divulgação



Pra quem tá bem lôco querendo saber como é o novo filme do Jorge Furtado ("Saneamento Básico, o Filme"), eis abaixo trechos do texto postado no blog do Estadão, pelo crítico Luiz Carlos Merten.

"Reconheço que talvez vá cobrar de Jorge Furtado uma coisa que ele não quer. Jorge fez um dos grandes filmes do cinema brasileiro, não importa que seja um curta - "Ilha das Flores". A expectativa que ele gerou, a partir daí, pelo menos para mim, ainda não foi satisfeita. Jorge tem feito filmes que me parecem de turma, na Casa de Cinema. "O Homem Que Copiava" era uma coisa mítica. Há anos se falava que ele queria fazer o filme. No intervalo, Jorge fez rapidinho "Houve Uma Vez Dois Verões". É outro filme de turma, com o filho, os amigos, e para mim é melhor! É o meu longa preferido dele. Jorge é um cara inteligente, não raro brilhante. Integrei a comissão da Petrobrás que avaliou o roteiro de "Saneamento Básico" e votei para que fosse selecionado.
(...)
Jorge é inteligente, mas esses filminhos de mercado que a gente mal vê e já esquece me cansam, confesso. Comparem com "Lisbela e o Prisioneiro", que eu sei que muita gente não gosta. Existe ali um desenho de personagem que me atrai. Eu fico com Lisbela e Leléu no fim da projeção. Carrego Débora Falabella e Selton Melo comigo. Posso achar a Camila nota 10, a Fernanda Torres idem, mas "Saneamento Básico" é 5. Não é para ser do contra. Espero que faça sucesso. Só me deixem fora dessa. Não vou dizer que é maravilhoso, porque não me parece".

Globo Filmes, divulgação

À propósito: A cena final de "Lisbela e Prisioneiro" carrego no colo como imagiário do cinema. Por todo o sempre. E, amém.

domingo, 17 de junho de 2007

ousadia tem cheiro de estranheza


Bem-vinda estranheza, sobretudo se vier da televisão. Dizer que A Pedra do Reino, microsérie exibida entre terça e sábado da semana passada, na Rede Globo, subverte a linguagem da televisão é chover no molhado. A importância desse novo projeto do diretor (e visionário) Luiz Fernando Carvalho só será medida quando propostas como A Pedra do Reino desaguarem por todas as emissoras de televisão do Brasil.

Porque televisão não pode ser só um aparelho que mastiga fórmulas ultrapassadas e segue idiotizando as pessoas para todo o sempre e amém. A televisão precisa ser uma janela para a fantasia, para o absurdo, para o sublime. Não cabe mais nessa telinha o beijo do mesmo gosto. É preciso dar vazão a virulência de gente como Carvalho, que traz as infinitas cores do cinema para dentro da televisão.

Porque a saída do cinema no Brasil é invadir a televisão. Já que os filmes da novíssima leva de cineastas não chegam ao público, por mil e um motivos que não cabem em 25 linhas de texto, a saída é invadir a televisão. Carvalho fez isso. Depois da luta descabida por levar aos cinemas do Brasil o filme Lavoura Arcaica, que tinha apenas cinco cópias, Carvalho encontrou na televisão a nova morada da sua fértil imaginação.

Depois de A Pedra do Reino virão ainda outras três microséries: Dois Irmãos, Capitu e Dançar Tango em Porto Alegre. Espero que sejam obras tão abertas como A Pedra do Reino. Obras que permitam a fruição de cada espectador, com suas angústias e limitações. Que tenham o mesmo gosto da estranheza dos filmes de Glauber Rocha, Dziga Vertov e Andrei Tarkovski, inspiradores das narrativas de Carvalho.

sábado, 16 de junho de 2007

pior do que chocolate quente com leite em pó

Não há um argumento sem discordância. Tudo o que se diz sobre Gramado e sobre o interesse das pessoas por Gramado é bobagem, é pior do que boato, é inútil. Tudo se dissipa no tapinha nas costas. Tudo se dissipa na exorbitância dos preços sem noção. Tudo deságua no atendimento pífico, na comida sem gosto, nas malhas sintéticas e no chocolate quente de leite em pó.

Tá aí: Gramado anda pior do que chocolate quente com leite em pó.

fui pra Canela.

terça-feira, 5 de junho de 2007

resenha

UM DIA NA VIDA, de Jorge de Jesus

O segundo filme é sempre mais fundamental do que a estréia. Assusta menos ao realizador e suscita mais a curiosidade do público. Em alguns casos é definitivo. Se o diretor não apresenta um bom trabalho, no mínimo uma evolução da obra anterior, pode ser que o limbo do esquecimento seja o único paradeiro.
O videasta caxiense Jorge de Jesus tá nessa. Recém lançou Um Dia na Vida, seu segundo curta-metragem, e espera agora colher mais frutos do que com Sapateiro (2004). Os dois foram produzidos com recursos do Fundoprocultura. Os dois tem como fio condutor, a crítica social.
Em Sapateiro, Jorge pega pesado e mete o dedo na ferida escancarando a venda de cola de sapateiro. Em Um Dia na Vida, há mais poesia quando o diretor relaciona o abandono de um mendigo (Marcelo Casagrande) jogado nas sarjetas de Caxias ao dilema de uma menina mimada (Fernanda Rodrigues) que não consegue resolver seus problemas.
Um Dia na Vida é melhor do que Sapateiro. Tem um roteiro mais apurado e estabelece uma maior empatia com o espectador. O que aproxima o público é a inesperada atuação da atriz Fernanda Rodrigues. Geralmente sem sal nem açúcar, ela parece avançar sobre o espectador. Quanto maior a angústia da sua personagem, maior a entrega de Fernanda.
Outro destaque é o ator Marcelo Casagrande. Mesmo sem pronunciar uma palavra sequer seu personagem rouba a cena. Essa boa repercussão do filme não deixa de ser um pedido de desculpas pelo atraso no lançamento. Gravado em 2004 só estreou dia 11. Na saída da sessão, uma funcionária da Secretaria da Cultura disse:
– O filme tá muito bom, diz pro Jorge que ele tá desculpado pela demora.

Curta-metragem, drama, 2007. À venda pelo site www.doarcodavelha.com.br

sábado, 26 de maio de 2007

sobre Caravaggio, o filme, não a Santa

É fácil falar mal do filme Nossa Senhora de Caravaggio. Há problemas graves de produção, figurino, direção de arte e interpretação dos atores. O roteiro narra três momentos históricos distintos, 1432, 1875 e 2004. No entanto, fora o enredo, não há um conceito estético que os una. Mas nada disso importa. Fábio Barreto não é dado a essas "frivolidades" do cinema. Ele prefere o formato televisivo, do dramalhão, ou como se diz nas universidades, do melodrama.
Antes mesmo da estréia, o produtor executivo Hilton Kauffmann avisava:
– Nossa Senhora de Caravaggio não é um filme para intelectual. Ele tem o tom de uma novela das sete.
E talvez seja por isso que, mesmo sendo uma produção a partir de uma Santa da região da Serra, bem menos popular do que o Padre Cícero, por exemplo, possa alcançar o sonhado número de 70 mil espectadores no Brasil. Nossa Senhora de Caravaggio só quer contar a história de pessoas devotas à Santa. Narra o cotidiano de mulheres sofridas que, não apenas rezaram por dias melhores, mas decidiram elas mesmas mudarem o rumo de suas vidas.
O destaque é o padre Gusmão (Sidnei Gomes Borba). Ele não é só uma figura carismátrica. Não apenas conduz os personagens pela trilha da fé. É o padre quem atrai os espectadores e os coloca no mesmo plano dos conflitos de Joaneta, Gomes, Angélica e tantos outros.

piada de agouro

voltei.

hahahaha.

domingo, 25 de março de 2007

esse é o que tava no site da piauí

Navalha na carne

Delta do Nilo. Sol à pino. Pés descalços fervendo sobre a areia. O perdão não custa quase nada, mas o velho não se rende. Crava a bengala na areia fofa e arrasta o corpo. Lábios secos, olhos cravejados de raiva. O velho nunca quis nada além do afago, do sorriso, do beijo eternamente apaixonado. Sentado na varanda o velho ainda moço fitava o horizonte, vislumbrava as tardes de não fazer nada ao lado da mulher amada. Imaginava-se comendo pêras, nunca engolindo farpas.

Conheceram-se numa tarde de chuva. Vento forte de destelhar casas. Alice, menina de cabelos loiros e longos, pele branca e olhos verdes, translúcidos, corria pra lugar nenhum tentando se proteger da calamidade. Khalid, alto, forte, deparou-se com Alice numa das esquinas movimentadas do centro de Cairo. Olho no olho, Khalid e Alice, encharcados de chuva, sorriram. Nenhum beijo, nada. Só o silêncio da ternura. A quietude durou quase nada porque um carro buzinava enlouquecidamente.

Alice nem disse adeus, só entreolhou através dos cabelos molhados, sorriu e correu para o carro. Khalid reconheceu o amor em breves segundos de caos. Nos dias seguintes, enquanto os moradores e comerciantes recolocavam as coisas em ordem, Khalid passava as tardes à espera de Alice. Na mesma esquina. Alimentando o desejo de voltar a vê-la, com o mesmo sorriso e ternura, com a mesma graça. Um mês depois, Alice sai do mesmo carro daquela tarde chuvosa, estacionado no mesmo lugar.

Se fosse um filme a cena seria em câmera lenta com uma música de Tom Waits antecipando o encontro. Alice de óculos escuros, salto agulha, vestido esvoaçante, não parecia nada vulnerável. Khalid se aproxima. Alice baixa o óculos e por cima observa Khalid. Tira da bolsa uns trocados e entrega a Khalid.

– Por que essa merda de dinheiro? Eu te amo, não quero nada além de um beijo lascivo e interminável.

– Cala a boca, seu podre, mentiroso e moribundo – retruca Alice.

– Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!

Depois da queda, a foice. Num só golpe.

minha culpa

- O que o Dunga viu nesse goleiro que é reserva do reserva no Grêmio? Pra que convocar ele? - diz a mãe do Maneka.
- Mãe, essa reportagem quem fez foi o meu amigo, o Mugnol, aquele que a senhora diz que é meio louco e escreve umas coisas estranhas sobre cinema... - explica Maneka.
- Ah, então tá explicado. Só podia ser coisa desse maluco... - desafaba a mãe do Maneka.

sábado, 3 de março de 2007

trailer

Tá disponível no YouTube o trailer do filme "Cão se Dono", do Beto Brant.
É uma adaptação ao livro de Daniel Galera.

http://youtube.com/watch?v=uMKTr3z07q4

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

vai lá

conto meu no site da revista Piauí.

vai lá.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

o sonho da quase rainha

Em algum lugar do litoral norte, numa dessas praias de mar revolto, areia suja de cacarecos e vento nordestão, uma família feliz decide o futuro da filha.
– Mãe, tô estressada. Preciso descansar, de preferência bem longe daqui.
– Olha minha filha, eu também acho. Depois de cinco anos de faculdade você merece!
– Quer passar o Carnaval em Bombinhas? Papai aluga uma casa com piscina.
– Ai pai, Bombinhas?
– O que é que tem minha filha?
– Bombinhas tem tanto caxiense quanto aqui. Lembra que a gente foi no verão passado e a mamãe reencontrou as colegas do ginásio?!?
– Ah, sim a Lorena, a Evilásia, nossa quanto tempo eu não as via.
– Mãe, cala a boca...
– Respeito com sua mãe.
– Tá desculpa, mas é que vocês me deixam p* da cara. Eu preciso viajar, correr o mundo...
– Papai tem amigos em Pádova, na Itália...
– Pai, eu odeio a Itália. Não suporto gringo!
– Não suporta essa gringada, mas implorou pra concorrer à rainha da Festa da Uva, né?
– Sabe por que eu queria ganhar? Pra mostrar como deve se portar uma verdadeira rainha.
– Parem vocês dois. Que coisa feia, as pessoas estão olhando.
– Esse bando de véio tarado vem a praia só pra ficar babando mesmo...
– Chega minha filha. Afinal de contas, qual lugar você sonha conhecer?
– Londres...
– Londres? Nem morta.
– Por quê, pai?
– Filha minha não vai pra Londres trabalhar em bordel nenhum!
– Tá me chamando de p*, seu velho safado? Quer dizer que o senhor, um profundo conhecedor desse universo, reconhece no meu olhar um certo talento para a safadeza?
Depois de um tabefe na orelha, Laurinha recebeu o afago da mãe. A dois dias, Evaldo, amigo do pai, ligou avisando que vai tudo bem com a menina.
– Ela é uma menina especial. Esse duplo carpado inclinado tá fazendo o maior sucesso por aqui – revela.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

boa viagem

No pátio tem musgo, aquele velho balanço brinca ao vento e duas meninas jogam dardos nas costas do tempo. O vento derruba as folhas secas daquela árvores esguia. É quase noite. Um extraterreste vestindo uma camiseta com a estampa da Virgem Maria tira uns sons estranhos de uma escada de ferro. É ruído, pré-música, substrato para a vaguidão. Entre uma batida e outra nos degraus da escada de ferro, outro lunático dá porrada numa calha roubada. O som é assustador.

O extraterreste gosta de filmar o desespero numa câmera bem pequena, quase de bolso. O lunático prefere o tique-taque do relógio. Em comum, eles só têm o mesmo deus, Pasolini. Sem ele, o mundo seria um tédio, acreditam. Conheceram o cineasta italiano numa festa regada a Daime. Pouco vinho e muito Daime, aliás. Pasolini entregou a eles, um frame do primeiro curta-metragem jamais exibido. Agradeceram beijando seus pés.

O lunático chama-se Moisés. Ele não é da tribo dos Levi, como o famoso Moisés, aquele da Bíblia. Moisés é da tribo dos Moimats. Colhe uva no verão e instala parabólicas no inverno. Depois do primeiro choque, trocou o nome para Moishe. Acredita na reencarnação como pressuposto para a virilidade. Durante o período em que morou nas cavernas do Sudão apaixonou-se pela poesia de Vladímir Maiakóvski.

O extraterrestre se chama Robinson. Não, ele não é o primo do ET. As aparências enganam. Robinson cultiva lesmas para costurá-las na boca de meninos arruacieros. Robinson virou mussulmano na adolescência, depois de ser passado para trás no jogo War. Desde então, prefere ser chamado de Lappat. Não gosta de gente que fede. Coleciona filmes em VHS porque acredita na cura depois da morte.

É uma pena, mas Lappat e Moishe vão embora. Foram chamados pelo Pasolini. Parece que é uma nova missão espacial. Algo a ver com o gergelin do Big Mac.

Até a volta.

Crônica de hoje publicada no Pioneiro.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

O mesmo brilho, nem um pouco falso


Faz 25 anos que Elis Regina morreu,
e mesmo com o relançamento de CDs e DVDs,
amigas como Catarina ainda sentem a sua falta


19 de janeiro de 1982. Quem sabe o dia mais silencioso da recente história da música popular brasileira. Depois de passar a noite em claro e sozinha no seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, Elis Regina Carvalho Costa foi encontrada morta. Encerrava ali a prematura carreira, aos 36 anos. O mito segue intenso até hoje, com o mesmo brilho, nem um pouco falso. A indústria fonográfica aproveita os 25 anos de morte e lança uma série de CDs e DVDs (confira abaixo). Para os fãs, isso pode amenizar a dor, mas para os amigos talvez não.

– Eu soube da morte dela pela televisão. Foi horrível. Eu não acreditava – recorda Catarina Pellegrini, 60 anos, professora aposentada.

Catarina foi colega de Elis dos 11 aos 16 anos, no Instituto de Educação General Flores da Cunha e no Colégio Júlio de Castilhos, ambos em Porto Alegre. Dividiram mais do que a mesma classe, dividiram intimidades, confissões e sonhos.

– A Elis tinha certeza que seria a melhor cantora do Brasil, sempre me dizia isso – lembra Catarina.

Naquela época, Elis se descobria artista. Gravava jingles publicitários e, assim, não apenas alimentava o sonho de ser a melhor cantora do Brasil, mas também contribuía para aumentar o orçamento da família.

– Ela sempre foi muito batalhadora – reconhece Catarina.

Numa das últimas vezes que esteve em Porto Alegre, Elis foi rever a amiga Catarina. Na época, Elis namorava o advogado Samuel Mac Dowell de Figueiredo. Catarina não recorda a data, mas sabe-se que Figueiredo manteve um relacionamento com a maior cantora do Brasil por seis meses, até a morte dela.

– Fomos jantar num restaurante e ela me pediu para ir ao banheiro com ela. Aí, ela me disse: "minha vida tá uma merda!". Bem assim, com essas palavras. E respondi pra ela que é nesses momentos que se pode contar com os amigos, mas ela respondeu que a vida dela andava muito complicada e não queria envolver os amigos – revela Catarina.

Catarina ainda sente falta da amiga. Infelizmente, as poucas cartas e muitas fotos, com Elis foram extraviadas. No fundo, não importa, porque Catarina guarda no coração as memórias dessa convivência.

– Elis era uma pessoa muito doce e afetuosa, mas carente. Ela vivia sob pressão, e por isso acabou fazendo uma loucura. Sinto não ter ficado ao seu lado quando ela mais precisou – emociona-se Catarina.

Numa entrevista reproduzida pela revista Veja na época da morte da cantora, ela resumiu numa frase o quanto a vida lhe parecia confusa.– Eu conheci o sucesso sem estar preparada para enfrentar a vida – desabafou Elis.



Relançamentos e novidades chegam
às lojas em função dos 25 anos da morte
da cantora gaúcha Elis Regina

Na Batucada da Vida, Doce Pimenta e Falso Brilhante, caixa com três DVDs da Elis Regina. Sob direção de Roberto de Oliveira, mostra vida e obra, da infância aos anos 80. Lançamento da EMI.

Os Primeiros Anos, CDs do início da carreira. Contém Viva a Brotolândia (1961) e Poema de Amor (1962). Lançamento da Globo Warner.

No fim do ano passado, a Trama lançou o álbum Elis (o último, de 1980). O CD vem encartado a um DVD contendo a célebre entrevista ao programa Jogo da Verdade, que a TV Cultura gravou dia 4 de janeiro de 1982, 15 dias antes de sua morte.

Há ainda no mercado dois DVDs: Grandes Nomes, da Rede Globo (1980) e, Ensaio, de 1973, da TV Cultura.

Reportagem publicada no Jornal Pioneiro.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Babel em cartaz...

...em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro...

Amigo Pavão Misterioso, Babel entra em cartaz amanhã (sexta) no Brasil - menos, é claro, aqui na nossa Itália.

Sugiro ligar pro GNC, pro Ordovás e pra UCS pedindo quando Babel vem pra Caxias.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

A Babel do Globo de Ouro

Filme do mexicano Alejandro González Iñárritu
é eleito o melhor da premiação, considerada
uma prévia do Oscar


O mito da Torre de Babel, citado na Bíblia, não apenas inspirou Babel, filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, mas também os críticos da Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood. Basta ver a lista dos vencedores do Globo de Ouro, revelados na noite de segunda-feira, e comprovar como o troféu foi bem dividido entre os realizadores, artistas e produtores de diferentes países.

O diretor mexicano Iñárritu levou o prêmio de melhor filme de drama. Sua história tem cenas no Marrocos, Estados Unidos, Japão e México. Deixou na poeira Os Infiltrados, de Martin Scorsese, que por sua vez levou a estatueta de melhor diretor. O filme de Scorsese trata do duelo entre a polícia de Boston e a máfia irlandesa.

Seguindo pela Torre de Babel, o norte-americano Clint Eastwood leva o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (pasme!) por Cartas de Iwo Jima. A justificativa é que a produção teve investimento japonês e a trama falada em japonês. Absurdos à parte, o espanhol Pedro Almodóvar foi esnobado pelo Globo de Ouro.

Mas Meryl Streep não deixou por menos. Agradeceu ao prêmio de melhor atriz em comédia ou musical, por O Diabo Veste Prada, pedindo mais espaço para bons filmes, sobretudo os estrangeiros, nas salas de cinema dos Estados Unidos. E nominou, dentre as ausências da tela, Volver, de Almodóvar e, O Labirinto de Fauno, do mexicano Guillermo del Toro. A atriz espanhola Penélope Cruz, aplaudiu.

O império inglês também foi reverenciado pela "quase rainha" Helen Mirren. Ela levou dois prêmios de melhor atriz, um pela minissérie Elizabeth I, outra de melhor atriz em drama por A Rainha, no qual faz o papel de Elizabeth II. Seu compatriota, Sacha Baron Cohen, recebeu o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical por Borat, interpretando um suposto jornalista do Cazaquistão.

Agora, o que parecia piada aconteceu. A versão americana do pastelão colombiano Betty, a Feia, ganhou o Globo de Ouro na categoria melhor comédia da TV. Como se não bastasse, a atriz hondurenha America Ferrera levou a estatueta de melhor atriz de comédia pelo mesmo seriado. Essa Babel do Globo de Ouro, considerada uma prévia do Oscar, vai aquecer as apostas pela premiação mais glamourosa do cinema, que ocorre dia 15 de fevereiro.

Em 2006, Crash levou o Oscar de melhor filme. Babel, o vencedor do Globo de Ouro, tem o mesmo perfil de Crash. É contestador e político. Tratam da arrogância e discriminação de um mundo cada dia mais injusto. Resta saber se a Academia de Hollywood vai se repetir e voltar a premiar um filme crítico em detrimento de outros – como o grande vencedor do Globo de Ouro, com três estatuetas, o musical Dreamgirls – Em Busca da Fama, espécie de Antonia dos americanos. Façam suas apostas.


Os vencedores

Prêmios de cinema
Melhor filme (drama): Babel
Melhor atriz (drama): Helen Mirren (A Rainha)
Melhor ator (drama): Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Melhor filme (comédia ou musical): Dreamgirls – Em Busca da Fama
Melhor atriz (comédia ou musical): Meryl Streep (O Diabo Veste Prada)
Melhor ator (comédia ou musical): Sacha Baron Cohen (Borat)
Melhor filme de animação: Carros
Melhor filme em língua estrangeira: Cartas de Iwo Jima
Melhor atriz coadjuvante em longa-metragem: Jennifer Hudson (Dreamgirls – Em Busca da Fama)
Melhor ator coadjuvante em longa-metragem: Eddie Murphy (Dreamgirls – Em Busca da Fama)
Melhor diretor: Martin Scorsese (Os Infiltrados)
Melhor roteiro: Peter Morgan (A Rainha)
Melhor trilha sonora original: Alexandre Desplat (The Painted Veil)
Melhor canção original: The Song of the Heart, música e letra de Prince (Happy Feet)

Prêmios de televisão
Melhor série dramática: Grey's Anatomy
Melhor atriz de série dramática: Kyra Sedwick (The Closer)
Melhor ator de série dramática: Hugh Laurie (House)
Melhor série (comédia ou musical): Betty, a Feia
Melhor atriz de série cômica ou musical: América Ferrera (Betty, a Feia)
Melhor ator de série cômica ou musical: Alec Baldwin (30 Rock)
Melhor minissérie ou telefilme: Elizabeth I
Melhor atriz em minissérie ou telefilme: Helen Mirren (Elizabeth I)
Melhor ator em minissérie ou telefilme: Bill Nighy (Gideon's Daughter)
Melhor atriz coadjuvante em minissérie ou telefilme: Emily Blunt (Gideon's Daughter)
Melhor ator coadjuvante em minissérie ou telefilme: Jeremy Irons (Elizabeth I)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

rátátátá

"Mãos para o alto". E não é rap dos Racionais. O Lula diz que é terrorismo. O novo governador do Rio, o Cabralzinho, acha que é o Lula que tá fazendo terrorismo. Pobre Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, sede dos jogos Pan Americanos de 2007, ser tachada de cidade baderneira, cidade que desencadeia ondas de arrastão e esse negócio de queimar ônibus.

Mas sabe que esse negócio de queimar ônibus, dizem os paulistas, é coisa de carioca enrustido. Que mania tem, dizem os paulistas, de copiar tudo que São Paulo faz. Até as cagadas e a incompetência da polícia, carioca copia de paulistas. Mas isso é paulista que diz. Porque os cariocas dizem que faziam isso a muito tempo. Tempo em que o 38tão era arma impôr medo e conseguir umas gatinhas na favela.

Falando em favela. O Andriano Duarte, repórter de segurança do jornal Pioneiro, publico matéria hoje, no Pioneiro, traçando um mapa do tráfico de drogas em Caxias. O sociólogo responsável pela pesquisa que embasou a reportagem acredita que, se a prefeitura de Caxias não tomar providência, logo logo a cidade terá os visatão pegando fogo por aí.

Na Globonews não se fala de outro assunto. Não o tráfico em Caxias, mas do caos no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, mais um ônibus é incendiado. O governador, o Cabralzinho, pede que as Forças Armadas dêem um jeito nisso...

A guerra civil brazuca segue fazendo estrago e levando gente como Lula e Cabralzinho adiante.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

o natal da dona adelaide

Dona Adelaide sorri. Aquele riso descomedido, como se voltasse àquelas sessões de matinê. Naquele tempo Porto Alegre tinha menos carros e ônibus e o vai-e-vêm das pessoas acompanhava a cadência do lamento de Lupicínio, quanto muito o choro de Pixinguinha. Nada dessa zoeira, zumbido e ziguezague desenfreado rumo a todo lugar e ao mesmo tempo lugar nenhum. Apoiada na soleira da janela da casa erguida na Chácara das Pedras, Dona Adelaide sorri.

As pernas não têm a mesma força de antes, quando passeava pela cidade de braços entrelaçados com as amigas Julieta e Ester. O tempo lhe tirou um amor aqui, outro ali, mas nunca o encanto pela vida. Nunca o gesto afável, o olhar doce, o sorriso de menina. Dona Adelaide tem 85 anos. E, se Deus quiser, vai passar o Natal em Caxias do Sul. Não promete um brinde caloroso, porque a bebida pega fácil.

– Só um golinho de champanhe porque fico tontinha. Eu gosto mais de cerveja preta, aquela bem docinha – revela, de cantinho.

O Natal da Dona Adelaide começou a duas semanas quando aceitou o convite da neta Patrícia para vir a Caxias. A ansiedade é só mais um dos muitos motivos que Adelaide tem para sorrir. Nem sabe o que a espera. Não sabe sequer onde vai dormir. Não sabe em que lugar da mesa farta vai sentar. Não sabe se terá champanhe ou cerveja preta. O futuro não a preocupa. Dona Adelaide tem fé.

– Se Deus quiser, se Deus quiser vou a Caxias.

O melhor presente para Dona Adelaide seria um maiô rosa. É sério, não é piada. O maiô rosa lhe transportaria para o dia do casamento. Dona Adelaide ganhou um maiô rosa, mas nunca pode usá-lo. Por implicância de uma tia pudica (e insensível), trocou o lindo maiô rosa por um vestido que cobrisse os joelhos. Esse novo maiô rosa ela também não precisa usar. Poderá contar aos bisnetos e trinetos que o triste fim do maiô rosa ganhou um novo capítulo no Natal de 2006.

– Vivi coisas tão bonitas, né?

Viverá outras mais, querida Adelaide. Começando por esse Natal.

o último beijo

Pior do que fim de ano é desgosto, tapa na cara, camisa rasgada e encharcada de champagne. Valéria, loira, 23 anos. Vilmar, cabelos castanho claros, 29. Valéria é sonhadora, ou como dizem as amigas invejosas, quer marido rico e uma coroa de rainha. Vilmar é rico, mas trabalha.

Valéria faz aulas de desenho e pintura no intervalo de um desfile e outro para uma grife local. Na verdade, ela desfila uma vez por ano. Faz por caridade. As amigas invejosas dizem que nada é por caridade, só mídia mesmo. Vilmar passa seis meses viajando pelos países sofridos da África. Leva a utopia da cura e um punhado de carinho.

Valéria tinha de casar antes de ficar velha. Antes do fim da mesada, antes de precisar trabalhar. Graças a Deus Vilmar lhe caiu do céu. Vilmar é romântico, compra flores sempre na mesma floricultura, brinda o amor com o mesmo encanto da primeira noite. Valéria não faz teatro, mas é boa atriz. Ama ser paparicada, ama os presentes, das pequenas jóias, àquele carrão novinho em folha.

Vilmar jamais era citado em coluna social, mas bastou anunciar o casamento com Valéria para virar figurinha fácil. Vilmar nasceu em berço de ouro, mas dispensa os holofotes porque, como diz sua mãe, gente chique não se expõe. Vilmar ama Valéria. Valéria ama a mídia. Valéria troca o carinho de Vilmar por presentinhos e bem-estar. Prazer, dizem as amigas invejosas, ela busca em quartinhos escuros, portinhas escusas de danceterias e por aí mesmo.

Mas um dia o amor acabou. Aliás, o casamento acabou. Pobre daquela gente que virou padrinho e testemunha de um dos enlaces mais badalados da cidade. Que mico, hein?. Tava demorando, grita o coro de amigas invejosas. Amor, se teve, era unilateral. Mas não tem problema, traição não dá cadeia. Era um garotinho tão gostosinho, conta uma das amigas invejosas.

Nesse Reveillon Vilmar vai brindar o amor com champagne e caviar. Vilmar é romântico e nunca perde o encanto pela vida. Valéria continua loira, quer marido rico e coroa de rainha. Vai brindar daquele jeito-jeca: "Uhu, gurias".