quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

é hoje

Vai pro Revival que é hoje o show dos Ligantes. No repertório, as mais mais do bairro Cruzeiro.

Quanto custa e coisa e tal: aqui.

Se eles vão exibir o clipe de Mulher Ocupada, não sei. Mas quem quiser ver é só clicar aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

vai pro ordovás!

Vídeo(mastig)ação:
concebido por Paulo Vega Junior, o Pi.

Ó. Na sala de cinema do Ulysses Geremia, lá no Ordovás, rola hoje (só hoje) uma exibição de vídeos de alunos e ex-alunos do curso de Artes da UCS. A Mostra Vídeo-Arte Caxias começa às 19h e apresenta sete projetos:

Alice
Alice se maquia enquanto outro tempo discorre em sua memória.

Lúdico
Sonho e realidade apresentados a partir do lúdico, criando uma atmosfera irreal que desperta a imaginação do espectador.

Inspire
Explora a solitária experiência do ser em sensações não-verbalizáveis que oscilam entre o desconforto e o aconchego.

Sentidos
Confusão, fusão e humor se fundem num vídeo que explora os sentidos.

Vídeo(mastig)ação
O observador/performer é atingido pelo áudio (ou pela ausência dele) e pelo vídeo. Recebe a influência imagética e sonora do registro videográfico do que assiste.

Insano
Esconderijos e camuflagens. Distorções da imagem em constante ajuste. Que ingênuo-louco é você?

Calendário
Pensamentos impuros em uma rotina de desgaste. Repetições e decepções em um tempo marcado. Indispensável é o tempo ou o cotidiano?

É de graça. Vai perder por que?

até o anjo foi pro inferno

Ana desistiu. Ana se entregou. Ignorou o verso, o beijo e trancafiou numa caixinha as nossas coisas. Não sobrou nada. Nem o anjo lascado de asas quebradas esquecido numa gaveta. Agora fica aquela sensação de tão longe, mas tão perto. Aquela vertigem. Mesmo com a casa vazia e de olhos cerrados a ausência pulsa, invade o corpo e arranca carícia por carícia, lembrança por lembrança.

Tem dias que nem dói. É como se nada tivesse acontecido. Como se o gato ainda rosnasse na soleira da janela. Tudo continua ali, presente, mas não era como antes. Porque sempre haverá dias cinzas pra devolver a dor. Chove na cadência de um piano lírico e louco, cacofônico, não desafinado. A memória reconstrói e destrói cenas em frações de segundos. Num piscar de olhos dezenas de pessoas abarrotando a casa, lisérgicas, dançando no escuro. Em seguida, silêncio, água escorrendo do telhado pela parede, encharcando o assoalho.

Trocaria todo o tempo que tenho daqui até a eternidade por uma aparição divina de Tom Waits cantando Everything Goes To Hell. Não hoje, mas ontem. Antes da revoada de Ana. Antes das trovoadas e dessa chuva descontínua. Tom Waits me lembra do avô caolho, demente, quase sem dentes. Sentado na cadeira de balanço inspira o resto do tempo e expira fragmentos dessa vida que ainda persiste.

Ana desistiu. Antes da chuva cessar. Antes do beijo áspero de Tom Waits. Antes da pergunta do avô. Eu nunca quis saber. Nunca perguntei nada. E deixei bem claro que também não queria uma pergunta sequer. Só amor. Mais nada. Ah, e tesão, claro. Ana não disse nada. Arrancou tudo da casa vazia. Todo sentimento do mundo. Sem dizer nada, disse adeus. Até o anjo foi pro inferno. Eu não. Sigo agarrado ao piano de Tom Waits.

Ainda chove. A água invade a casa e ocupa essa ausência. A lembrança morreu na demência do avô. Depois do fim da chuva e da troca de pele, quem sabe eu volte a respirar. Ana, não. Preferiu a vertigem através da janela.

Conto de hoje no jornal Pioneiro.
O título no jornal ficou Sempre haverá dias cinzas.
Mas na real o melhor título é o que está postado aqui.