terça-feira, 21 de novembro de 2006

poemeto sem nome

o beijo do velho não tira o verme do ventre; não devolve a lucidez às baratas em redemoinho lambendo a ferida; não varre pra longe a faca banhada em sangue; nem mesmo se vestisse o manto cândido das beatas puras e trancafiadas pelo amargo sorriso de deboche; nada, nunca o amor; não silencia as hienas famintas; nem mesmo se parasse de beber cachaça de mel à sombra das castanheiras; numa das mãos um cetro de madeira retorcida, na outra, três chifres de alce; amor é blasfêmia; desejo, o coice do alce e a mordida da hiena; nem por isso, o velho deixa de lamber as feridas; caquético, alterna os velhos versos da ira de Atenas com o sorriso de deboche do coisa-ruim vendo Caim e Abel duelando na favela; se o porre de quase morte vale um a vida, o velho tem mais sete pra nascer; tragado pelo dilúvio, cospe a bílis, jorram da boca também os dentes; a gagueira é só um subterfúgio; ensandecido de amor e ódio, amamenta a prole com um ruidoso tapa na cara; era só um caroço debaixo do silicone; nada grave, não fosse a morte; o beijo do velho não devolve a vida ao ventre.


foto de Steven Pinker

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

pra assistir sem alucinógeno


Falando em David Lynch. Vi ontem "Coração Selvagem" (Wild at Heart), produzido em 1990.

Nunca tinha visto e comprei no Zaffari. Ao invés de chá com bolacha, eu preferi Dadiv Lynch.
É um filme brilhante, com o despudor, a demência e a insanidade que só cabe na cabecinha do Lynch. Na trama, Sailor Ripley (Nicolas Cage) é um homem carente, que não teve pai nem mãe para cuidar da sua educação. Ele acaba se apaixonando por Lula Fortune (Laura Dern).

Até aí, nada demais. Mas não esqueça, é um filme do David Lynch.

Já na primeira seqüência, enquanto desce as escadas de um suntuoso teatro um homem tenta ferir Sailor com um canivete (aqueles de camelô, de apertar o botãozinho). Sailor reage e dá uma coça de fazer jorrar miolos. Talvez tenha sido o melhor espetáculo já visto naquele espaço.



que jaqueta, hein amigo?

O filme segue e além de paranóia e medo, Lynch imprime um tom delirante e fantástico. Se antes imaginava-se que Lula e Sailor eram dois desmiolados, à medida que passa o filme, temos a confirmação. E mais, Marietta Pace Fortune (Diane Ladd), mãe de Lula, deve ter sido amante do capeta em outra vida.

Em função da violência sem fim (seja psicológica ou mesmo física) é fácil deduzir que Quentin Tarantino viu e reviu o filme zilhões de vezes para escrever os roteiro de "Assassinos por Natureza" (dirigido por Oliver Stone) e "Pulp Fiction", ambos de 1994. Outro filme que bebeu na fonte é "Kalifornia", de Dominic Sena, produzido em 1993.

p.s.: tente achar Isabela Rosselini no filme.

muuuuuuu!!

Pra quem não conhece, esse é o David Lynch. O do lado da vaca, claro.

Como ninguém quer promover seu mais recente filme INLAND EMPIRE, Lynch resolveu sair pelos EUA com uma vaquinha a tiracolo.

Ana Maria Bahiana escreve, em seu blog:
"Armado de vaca, cadeira dobrável, um banner em que propõe a indicação de Laura Dern para melhor atriz e um cartaz em que diz "sem queijo não haveria um Inland Empire".

quase dez quase sem

Não é por acaso que lembro dessa canção dos cabaretianos. A música, entoada pelo demente Robi, vulgo Lappat, já embalou furtos de geladeira, traições e batismos.

Mas esse negócio de quase dez quase sem, anda tendo uma outra conotação em Buenos Aires. E não tem nada a ver com o Homem Bugio. É que faltam moedas no país. Tem padaria e banca de revista sem troco. Ônibus? Impossível de se andar, a menos que você tenha 80 centavos de peso.

Se é coisa rara dez centavos, imagina 80! O país, que anda sem orgulho, sobrevivendo feito zorilho, agora padece de falta de moedas. Se quiser mais detalhes, clique aqui.