segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

arritmia cacofônica

Febre. Espasmos de ironia. Vertigem. Olhar lânguido. Tristeza. Uma pequena fresta de luz. Suor. Lábios secos. Da cozinha ouço pratos caindo ao chão. O ruído alimenta a cacofonia doentia do corpo. O sermão do pai. Levanto da cama. Tranco a porta do quarto. Abro a janela. A rua está vazia. Clico no play do aparelho de CD. Um doce balanço eletro-orgânico silencia a angústia da cozinha. Gotan Project sintetiza a sutileza desse momento.
Sento no chão. Apóio a cabeça no pé da cama. Essa sonoridade me devolve a paz. Eu precisava disso pra varrer a apatia dessa mente insana, doente e feroz. De sopetão levanto e abro o armário. Não sem antes verificar se a porta do quarto está mesmo trancada. Com mais calma abro o armário. Ao fundo, atrás de um punhado de roupas velhas e casacos de inverno, está meu violoncelo.
Tiro-o com cuidado da capa preta. Acomodo-o no chão enquanto procuro o arco. Não está sobre o armário, nem sob a cama. Nas gavetas nada além de meias, cuecas, carnês de compras inúteis e poemas bêbados. No intervalo entre uma música e outra ouço uma porrada na porta. Me assusta. Assim que os primeiros acordes anunciam a nova música um novo murro na porta atropela meus sentidos.
Clico no stop do CD. O silêncio da dor se anuncia. Empunho meu violoncelo e deslizo o arco pelas cordas. Embrenhado da força e paixão do tango de Piazzolla e do tango envolvente do Gotan Project toco uma música repugnante e ácida. O tema central desse improviso, no entanto, é um fraseado sutil e estranhamente amoroso. É como se toda a minha febre se transferisse ao violoncelo. De olhos fechados sinto um bandoneon me seguindo. No intervalo desse tema acordes pesados de piano ajudam a decifrar esse tortuoso caminho que se anuncia.
Para onde vai essa música? Que delicadeza é essa desprovida de pudor? Delicadeza travestida de raiva delirante. Inquietude pra desarmar o sermão do pai. Encontrei a saída dessa enrascada: a sonoridade aparentemente desconexa e impiedosa traz um sopro de lucidez. O nome dessa arritmia cacofônica? Retrato de um Esquizofrênico Ainda Jovem.

* Escrito num verão desses...já publicado em outros lugares.

2 comentários:

Camila Cornutti disse...

pra mim, tocar um instrumento é isso. toquemos todos, juntos ou não, mas sempre, pela vida afora.

Mugnolini disse...

é isso aí, morte ao metrônomo!!!!