terça-feira, 24 de janeiro de 2006

o sentido das coisas

Pálido, o velho debruçou-se no muro e despendeu a chorar. Engolia o soluço amargo, judiado pelo tempo, ou quem sabe até, ácido pela recorrente lembrança. Não gritava, não xingava, não balbuciava. Não precisava de palavra alguma pra revelar a dor do peito. Remoída ida? Quem sabe. Certo é que o pranto não era de vida.
Debruçado contra o muro o velho entrava sem perceber noite adentro. E veloz, a noite arrastava-o para um bosque de árvores de caules enormes e esguios, cujas copas não sustentam folhas há séculos. Um lugar onde as flores nascem e morrem com a mesma displicência de um piscar de olhos. E o velho seguia ali, ausente, ainda inerte. Corriam pelo rosto lágrimas desesperadas molhando a barba branca. Sem cessar.
O muro não era mais um amontoado de tijolos intercalados por cimento, mas uma parede de trepadeiras secas. Galhos retorcidos, emaranhados, como se tivessem sido desenhados com aquele traço que jamais se sabe onde começa ou termina. Aquele traço de correr os olhos e seguir, seguir, até esvair-se. E assim, do nada, desaparecer e mais tarde voltar à vida.
Aos poucos, conforme a noite era invadida pelos primeiros raios de sol, o velho metamorfoseava-se em galhos retorcidos. Como um camaleão integrava-se à muralha de trepadeiras secas, mas ainda era o velho. O velho trancafiado nas memórias resignadas. Quando o sol surgiu, lavando o bosque de amarelo alaranjado irradiante, o velho havia sumido. Desapareceu no labirinto.
Ainda estava ali, mas agora, era mais do que um velho chorando sabe-se lá por quê. O velho era agora, parte do traço infinito; parte dessa angústia coletiva de natimorto.
Porque o traço nunca termina em si mesmo, é infinito. É como a borboleta que nasce, voa e morre, porque é preciso. Porque somos sempre menores do que o sentido das coisas. E que assim seja. Ad eternum.

Conto desta quarta no jornal Pioneiro.

2 comentários:

Nádia disse...

Esse texto me lembrou Kafka. Claro que o teu texto émais lindo..hehe

clarissa disse...

quem sabe perceber que que os sentidos mudam, ou que não há clareza neles, seja o modo de caminhar mais manso. terra nos pés e olhos de contemplação.
até o fim...

ah,gostei de ler a reportagem sobre o cinema. mesmo. além de escritor, poeta, maluco e afins hehe, o senhor é jornalista de verdá.