sábado, 21 de março de 2009

God loves his children...believe



Please could you stop the noise, I'm trying to get some rest
From all the unborn chicken voices in my head
What's this? (I may be paranoid, but not an android)
What's this? (I may be paranoid, but not an android)

When I am king, you will be first against the wallwith your opinion which is of no consequence at all
What's this? (I may be paranoid, but no android)
What's this? (I may be paranoid, but no android)
Ambition makes you look pretty uglyKicking, squealing, gucci little piggy

You don't remember
You don't remember
Why don't you remember my name?
Off with his head, man
Off with his head, man

Why don't you remember my name? I guess he does...
Rain down, rain down

Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me

That's it sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children, God loves his children, yeah!

depois daquele beijo

Clara amanheceu com um desejo amortecido entre os lábios. Não por causa do beijo demorado, nem por causa do abandono. E sim, porque perdera o amor antes de dizer "eu te amo". Clara amanheceu com o desejo amortecido entre os lábios cerrados. Nem a doce brisa da manhã tirou Clara da cama. Os olhos lacrados pareciam imunes a tudo. Inclusive ao amor despedaçado. Antes do "eu te amo", Clara conhecera o silêncio. O silêncio amortecido entre os lábios. Lábios gelados.

segunda-feira, 16 de março de 2009

M.i.p.V

Já faz tempo. Mais de um ano, quem sabe. Não consigo fixar minha lembrança em datas, mas em acontecimentos. Conheci o duo Músicas Intermináveis para Viagem (M.i.p.V) quando assisti ao "3Efes", filme do Carlos Gerbase. Filme aliás que trouxe de volta aquele jeito punk do Gerbase fazer as coisas. Felizmente sem aquele ar professoral de "Sal de Prata". Enfim, um filme mais puro, com o cheiro dos curtas oitentistas do Gerbase.

Mas então, conheci a M.i.p.V assitindo ao 3Efes. Curti muito. É um som simples, que bate na cachoila como um mantra-trilha-sonora de uma batalha entre cegos revoltados e raivoso embaixo d'água. Sem trucagem. Sem efeito colateral. Sorve na fonte de um monte de banda alternativa, garage rock, pincelando aqui e ali referências sutis. Não vou citar nenhuma dessas referências que percebi só pra deixar vocês mais curiosos.

Mas enfim, a M.i.p.V faz uma trilha sonora impecável pra uma cidade como Porto Alegre, ou Caxias, ou Guatemala. Principalmente trilha sonora pra uma noite interminável, cheia de ruídos dissonantes, de gente que não se entende e precisa de um tapa na orelha - com carinho, é claro.

Aproveite:

www.myspace.com/mipv
www.youtube.com/musicasinterminaveis
www.myspace.com/ypsilons

commadegraçanemquesejaenquantovocêdorme


quinta-feira, 12 de março de 2009

de volta

Foto de um quase sonâmbulo em Buenos Aires


Pra quem não sabe e sei lá se interessa...eu estava em Buenos Aires. Fui a passeio. Mas aí, sabicumé, conversa vai, conversa vem, conheci uns hermanos meio locos e cerveja vem, cerveja vai e topei um trabalho. Não me disseram do que se tratava e topei porque senti um tom de máfia no lance.

Esse papo notívago foi lá na sexta-feira. Por volta do domingo, ou madrugada de segunda, reencontrei os hermanos. Na mesma mesa do mesmo bar. Botaram 50 pesos na mesa e disseram "até amanhã".

Ô belezura. Enfim, conseguiria pagar as diárias atrasadas do hotel. Paguei, não pedi nota, por isso ganhei desconto.

Segunda-feira, às 7h, lá estava eu, sentado na sarjeta de uma das ruas mais movimentadas de Buenos Aires. Joguei a latinha de Quilmes no lixo mais próximo. De arremesso, claro. A la Magic Johnson depois de umas biras a mais. Quicou no aro, mas entrou. Enfim, os caras vieram. Quando dei por conta estava no meio da muvuca filmando um comercial de televisão de sei lá o que em Buenos Aires. Caraio...e de assistente de direção de fotografia. Putz, até miope eu sou e os caras confiaram a mim a responsabilidade do foco!

Quando a confusão cessou, lá pelas 17h, os caras me chamaram. Botaram mais 400 pesos na minha mão, me deram uma quilmes bem gelada e cairam fora. Quando dei por mim, só tinha eu e um monte de lixo espalhado pela rua. Fui direto pro hotel. Caí na cama como um cabrito depois do coice, antes da morte.

Acordei na madrugada com a televisão ligada e um compacto de River e Racing rolando. Vesti o que apareceu pela frente e fui desbravar a madrugada em Buenos Aires. Peguei um táxi e fui pro centro de tudo, perto do obelisco. Encontrei uma lancheria aberta e pedi duas Quilmes. Duas, de uma tacada só. Ofereci pro Don Diego Maradona que tava sentado do meu lado. Bebemos juntos só aquela Quilmes, porque depois do primeuro gole o cara caiu de costas no chão. Putz veio até ambulância, enfermeiro, que merda. Só na Argentina pra bêbado receber tanto carinho.

Pedi pro chefe da especunca se me venderia uma garrafa de uísque. Ele riu da minha cara. Bati no balcão e repeti: "quanto custa a garrafa de Jack Daniels?, ou vai dizer que nesta merda tem Wild Turckey?" Tomei um tabefe na orelha de ficar zunindo dois dias. Não tem problema, atravessei a rua e fui comprar uísque no primeiro posto de combustível que encontrei. Na verdade eles não vendiam uísque... Acabei comprando Ypióca. Sério... O posto era de um brasileiro que adora fuder argentino. Me fez 50% de desconto na garrafa e me indicou um bom bar de jazz em Buenos Aires.

Bebi metade da garrafa com ele e deixei o resto lá, pra ele beber com os frentistas, todos do interiro de São Paulo. E torcedores ferrenhos do Juventus. Ô gente boa. Camisa da mesma cor do glorioso Caxias. Força Grená.

Fui enfim pro bar de jazz, de táxi porque não entendi merda nenhuma onde ficava o bar. Cheguei lá e encontrei o meio irmão do Charlie Parker. Um negão de 2m, magro como a Olivia Palito. Tocava uma corneta como poucos. Depois do show pedi pra ele se podia pagar uma bebida pra ele. Me respondeu que sim. Puta que los pariu. O cara é de Sergipe. Mentiu pra todo mundo naquela porra de bar que era gringo, e meio-irmão do Charlei Parker.

Mentiu tudo, mas em nome do jazz vale tudo. Depois daquela pedi a conta. Deixei ali metade do cachê que faltava pra liquidar a fatura e voltei quase liso pro hotel. O resto? Bem, o resto é quase nada perto do que foram esses 4 dias em Buenos Aires.

Agora chega, preciso fazer a janta.

segunda-feira, 2 de março de 2009

é hoje

Lindonês e Jorge, ou ainda, Maneka e DJ Mono, a partir de hoje passam também a ser reconhecidos como fotógrafos profissionais. A dupla recebe abraços dos convivas durante a vernisage da exposição "Trilhos do Tempo", que abre hoje, na Galeria da UCS. Aos bêudos de plantão um aviso importante: não terá vinho DIGRÁTIS. É só suco.

Um brinde, Maneka e Mono ou Lindonês e Jorge.

Mas quando é que vai rolar um brinde com vinho?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

É Mugnolini no DVD

Me acharam... Aliás, o Éverton Rigatti (cineasta e auxiliar de radialista) me achou, lá em Buenos Aires. Por essa nem minha mãe esperava.

Confira aí, no videozinho.



faraway, so close

Para Carlinhos


Cena 1 - Interna/amanhecer/diante do espelho
NARRAÇÃO EM OFF: "Perto, mas nem tão perto que seja difícil separar quem sou de quem você tenta me fazer parecer. Longe, mas nem tão longe a ponto de o coração arder de saudade".

Fade out/Fade in.

Cena 2 - Interna/noite/quarto
Beth Gibbons está deitada na cama. Lençóis revirados, maquiagem borrada, janela escancarada, cortinas dançando ao vento. Um sopro de incerteza paira no ar. Beth canta, ou melhor, murmura: "Give me a reason to love you, give me a reason to be a woman".

Fade out/Fade in.

Cena 3 - Externa/entardecer/parquinho
Menino triste. Sentado no balanço, quase parado, não fosse o movimento das pernas, desenhando o nada na terra seca. Atrás do menino não está a paisagem realista do presente, está passando uma versão surrealista da sua vida inteira. Vida que o menino-adulto revê com toda a inocência e desterro. Imagnes rápidas, aleatórias, sem ordem natural - apenas emotiva e sentimental.

Fade out/Fade in.

Cena 4 - Externa/amanhecer/cidade pequena, sem mar
Silêncio noturno no alvorecer de uma cidade pequena. Nem mesmo os pássaros se atrevem a interromper o luto.

Cena 5 - Externa/amanhecer/cidade com mar
Beira do mar. Pessoas coradas de sol ofuscam outras sem o mesmo brilho na pele, sem o mesmo sorriso serelepe no olhar. Lá no mar, depois de um mergulho e do primeiro banho de sol da manhã, um homem resolve levantar-se em meio a multidão e caminhar. Recita de caboa a rabo um poema de Ferreira Gullar. Não grita, apenas recita baixinho, equanto caminha na beirinha do mar, lavando os pés. Olhos no horizonte, engolindo o choro, recita:

"Que deus se enterra nesta tarde
em Ipanema? Que morto
vaza seu corpo no mar?

Mais alto ergue o mar os seus
ramos de pedra fugaz.
Como o canto que se perde
é a agitação colorida

das verduras, o sagrado
cruzar de espadas vermelhas
e negras. Rei de paus. Valete.
A Dama sacode a fronte

coroada de açucenas,
seus lutuosos cabelos,
sua túnica em quadrados
preto e branco. Amor e morte".

Já nos últimos versos vimos apenas o homem caminhar rumo ao infinito pela beira do mar. Aos poucos ele some e perde-se em meio a maresia.

Fade out/Fade in.

Cena 6 - Interna/amanhecer/velório na cidade pequena, sem mar
No meio da sala tinha um caixão. Um caixão. Madeira, madeira, madeira e madeira. Dentro dele ainda um corpo. Inerte. Desligado daqui, do nosso tempo. Agora livre, para procurar o seu lugar em outro plano. Nessa nova tragetória vai passar por algumas provações para poder sentar ao lado de Deus, pai-todo-poderoso. Ao redor do caixão pessoas rezam, algumas com um terço enrolado aos dedos. Outros de olhos cerrados, outros desviam o olhar do caixão. Mas todos rezam, da sua forma, pela vitória do homem que se foi. Silêncio. Ali no outro lado da sala tem uma janela e nessa janela vemos o menino do balanço. A câmera se aproxima. Lentamente. Em travelling. Ele chora e diz em silêncio, só pra gente ouvir. A gente que está do lado de fora desse filme:

"Pai, pode ir. Vá em paz. Me perdoa o desafeto de um dia sem noção. Porque eu te perdoo os dias de desafeto sem noção. Vá e descanse em paz. Deus é justo. Peças perdão e sentarás ao lado de Deus Pai Todo Poderoso. Te amo, sempre".

Fade out.

Fim.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

era pra ter sido só um sonho

Era pra ter sido só um sonho. Nada mais. Nada além de um inebriante sonho tão delicado quanto o beijo de quem ama sem cobrança. Um sonho em preto e branco. Nesse sonho morrer é impossível; divagar é preciso. Como verso livre sem a rima rica, nem a contagem de palavras e sílabas. Sem limites entre o céu e a terra, sem a vaidade que nos corrói os calcanhares.

Num instante sobrevoo um oceano límpido e infinito. Fecho os olhos e caio sem vertigem. A água gelada interrompe o transe. Acordo dentro da escuridão silenciosa. Ainda em gesto de quem nada mar adentro, sinto a rugosidade da areia entre meus dedos. Logo encontro a saída. Havia entrado na água pra sair na areia.

Mas como disse antes, era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Longe, bem distante, o sol imponente no horizonte trata de aquecer a areia debaixo dos meus pés. A essa altura já imaginava algo de messiânico nessa travessia. Mera ilusão. Não existe oásis no deserto. Nem tão pouco a barba desfigurada durante a travessia indica minha metamorfose em Cristo. O Segundo Cristo, quem sabe. Improvável.

Era pra ter sido só um sonho.

Nada mais. Nada além de um sonho inquieto, como todos os que Dali e Fellini enfrentaram e saíram ilesos. Ou quase. Porque há sonhos tão intensos que não dá vontade de voltar a abrir os olhos. Sonhos carregados de amor que nos deixa o corpo imóvel, inerente a própria sorte.

E no deserto, caminhando sobre a areia escaldante, com a barba de Cristo, mas desprovido de sua santidade, encontrei um poeta. De mãos doces como a chuva. Escrevia poemas na areia. Não tardavam e logo sumiam, embaralhados aos grãos de areia trazidos pelo vento.

Deu vontade de lutar pela permanência da palavra, da poesia. Mas logo fui demovido da idéia. Tão fugaz meu pensamento, voraz o vento. De costas pra poesia percebi sua perenidade. Menos aflito permiti que a poesia cumprisse seu papel. Mesmo que seja na areia. E só merece decifrá-la quem tem paciência de entender o tempo das coisas. De todas elas. Mesmo que seja o tempo de um sonho.

E era pra ter sido só um sonho. Nada mais.

Mas o tempo desse sonho, por eu já não me importar com sua permanência, tem durado anos e anos e anos. Mesmo quando durmo e não sonho esse sonho de areias escaldantes cujo portal é um oceano límpido e infinito, sinto a mesma brisa desse oceano e a mesma doce-aspereza da areia quente desse deserto perene.

E era pra ter sido só um sonho.

Nem mesmo quando o sol se pôs e a lua cheia iluminou o deserto tive medo. Talvez fosse aquela música do Nino Rota. Aquela do "Oito e Meio", do Fellini. Meio circo, meio deboche, com cheiro de travessuras de menino. Não sei. Não era pra ter sido nada além de um sonho. Mas ele perdura. Insiste na missão de desvendar o reino. O meu reino? Já disse que não acredito nesse reino messiânico que me coloca como um Segundo Jesus. Essa barba não tem poder de transformar água em vinho. Antes tivesse...

Nada disso. Era pra ser só um sonho. Mas nem no sonho eu transformava água em vinho. Talvez não tenha esse poder porque não saberia o que fazer com tanto vinho.

E logo amanheceu. Nino Rota sumiu. E levou com ele a doce sonoridade com gosto de infância, de moleque, de guri travesso. Olhei em torno e a areia quente tinha virado asfalto. No lugar do deserto sem fim, arranha-céus. No lugar do silêncio, trânsito infernal. Buzinas, gente gritando. Promoção de calça jeans! Promoção de calça jeans! Leva dez paga cinco!!!

Mas não era pra ter sido só um sonho?

Pés descalços pisando o asfalto quente. Uma estranha música que eu não conseguia decifrar, muito menos perceber de onde vinha, me contagiou. Curioso, cansado, quase amaldiçoado, enfrentei a neblina de gente sem graça, o trânsito trôpego, as caras amarradas, driblei o moleque na esquina degolando a velhinha, e me deparei com um velho usando chapéu de cowboy. Sentado na sarjeta, ele desferia:

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jangle morning
I'll come followin' you


Antes que ele pudesse continuar sua canção um palhaço arrancou o violão da sua mão, arremessou-o metros longe. Espatifou-se no asfalto. O velho levantou-se, abraçou o palhaço e saíram rindo, como se fosse o final de um filme do Chaplin. Enfrentaram a rua na contramão, como bêbados, como se dessem adeus pra isso que eu pensava ser só um sonho, nada mais.

E era pra ter sido só um sonho. Só. Nada mais. Não fosse...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

o mundo em preto e branco de Fellini



Só pra começar bem o dia segue video com os primeiros 10 minutos do filme 8½, de Federico Fellini, lançado em 1963. No elenco, o alterego de Fellini, Marcello Mastroianni e a belíssima Claudia Cardinale. Esse é sem dúvida um dos filmes mais impressionantes do Fellini.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sala de cinema ulysses geremia

Li no blog 3por4 do Carlinhos Santos que vai ter mudança na coordenação da sala de cinema Ulysses Geremia, do Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho. Não sem tempo e não vou ficar perdendo tempo comentando o passado.

De olho no futuro abro meu voto em quem eu acredito ser o cara com as melhores condições na cidade para ser o coordenador da sala de cinema: NIVALDO PEREIRA. Quem não o conhece tá perdendo tempo. O cara é jornalista, roteirista de mão cheia e um cinéfilo de dar gosto. O Nivaldo não é do perfil de cinéfilo que só gosta e admira o cinema que cabe nos seus olhos. Ele tem visão ampliada e arejada.

E o melhor, não tem a pinta de intelectual, adora subversões e é muito curioso. Aprendo sempre com ele sobre cinema, mesmo quando ele não diz nada e acabdo tendo de descubrir que filmes ele anda pegando lá na locadora San Remo.

Mesmo sem voz nem vez nessa eleição resolvi dar meu pitaco: É NIVALDO NA CABEÇA!

abrazzzos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Better man

Não quero muitas coisas. Hoje, principalmente, quero coisas que não façam barulho. Nada que me tire dessa singela viagem rumo ao infinito do amor eterno. Aquele amor que não se perde nem mesmo depois da morte. Porque é dolorido ver ali suspirar pela última vez alguém que se ama muito, mas a vertigem é condição de renovação da vida. Vida eterna. Pelo menos é nisso em que acredito. Porque ali está escrito nas escrituras sagradas. E porque sinto no coração que é assim mesmo.

Perde-se o abraço carinhoso, o beijo do pai sempre amoroso, as risadas depois de uma garrafa de vinho, os gritos de gol daquela partida apertada e quase impossível de vencer, as palavras-guia. Isso tudo eu perdi com a morte do pai. Mas ganhei uma estreita relação que não cessa nem mesmo enquanto eu durmo. Não fosse assim eu não teria acordado mais feliz hoje porque em sonho meu pai sorria e me dizia que tudo está bem. E me pediu pra ficarmos bem.

Aquele sorriso só dele, encantador, charmoso e de quem sempre viveu a vida na sua plenitude. Na plenitude de um homem bom. Eta palavrainha em desuso "bom". Quem não o conheceu talvez não saiba ainda o que é um "homem bom". Eu sei e tenho me policiado pra aprender a seguir apenas o exemplo dele. E esse homem bom é ainda mais sublime do que você imagina. Talvez eu nunca alcance essa dádiva que meu pai um dia alcançou, mas te confesso que tenho me dedicado a isso. Com afinco. E muito, mas muito amor.

Agora vou dormir porque tô um pouco cansado.
Inté.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

beijo amor, boa noite

Tem dias que nem o silêncio parece acalentar a dor. Tem dias que a saudade bate forte, o medo do amanhã rasga o peito como um poema-desterro. É como se o beijo no asfalto me fizesse amanhecer com um tedioso gosto amargo na boca.

Enquanto isso, o velho embaralha as memórias. Confunde os sentimentos e continua engordando o porco morto. Piada não se explica, mas no caso, ele, o gordo, é o porco morto.

Tem dias que o frio congela os ossos. Noutros parece que o perdão é uma palavra tão sem sentido e distante, como golfinhos deslizando sobre o desero do Saara. E nem memso a Sara, a da Bíblia, reconhece-se no espelho. Bendita seja ela o fruto desejado entre tantos homens. E assim seja. E foi. E sempre será.

No outro lado do rio, um menino caolho segue enfiando as mãos pelos pés. Joga futebol como quem flutua no espaço a caça de estrelas fugazes. Mesmo ainda bem menino ele sabe que a pipa não atravessa o rio.

Nada disso é sonho. Antes fosse. É realidade que meus olhos teimam em fisgar. A mesma realidade que me lançou dentro de uma noite veloz a perseguir uma menina linda, cujo olhar me enfeitiça e me devolve a um lugar tão singelo quanto caliente. Ao meu amor, muito mais do que as batatas, como diz naquele livro que ninguém lê, escrito pelo Machado de Assis.

Ao meu amor o perfume dos meus sonhos. Noite e dia. Ao meu amor, um beijo demorado que nos arrasta para dentro de nós mesmos. Sem pudor, nem vaidades. Beijo de amor. Simplesment, e por isso mesmo delirante, amor.

Já te disse hoje que te amo?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Por quem Miles Davis chora?

Para M. de Menezes
e Augusto Nesi



Trancado dentro do carro no dia mais quente das últimas semanas me perguntava o porquê de tanto lamento. Aquele trompete ressoando e se impondo à melodia, me conduzindo de um extremo ao outro da existência: da plenitude da felicidade à derrocada da tristeza. Por quê? Por quem?

Lá fora o sol impiedoso derretia a todos. Caras cansadas, sôfregas de enfrentar o deserto de asfalto, mais pareciam os personagens de “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee. Nem mesmo as flores dos floristas de esquina sobreviviam. Murchavam diante do inevitável. E quando as pétalas das flores ressecadas se acumulam na sarjeta é sintoma de que parte da poesia do mundo se perde. Talvez nunca mais essa porção seja revista. Vai pro lixo. Sacralizada a poesia, mas pro lixo.

Enquanto isso, enquanto transitava de um extremo ao outro dessa avenida esguia, cada vez menos charmosa e mais poluída, Miles deixava fluir sua incondicional virulência. Miles não é o tipo de cara que deixa rastro, muito menos esbraveja numa atitude intempestiva de se impor. Miles simplesmente exala seu perfume no ar. Igualzinho às rosas de Cartola. Da mesma essência, ao mesmo pó.

Miles só queria nos conduzir ao silêncio. Pra um lugar onde só pudéssemos ouvir o nosso coração. Mais nada. Mas como enfrentarmos nossa ignorância? A solução seria permanecer trancafiado nesse carro, atravessando o asfalto quente, e ouvir sem parar Miles Davis e suas notas de um azul sublime e profundo? Não sei. Não descobri até agora. Mas percebi que Miles chora. E aparentemente isso não faz sentido.

Astor Piazzolla é da mesma verve. Aparentemente desconexo, mas imponderavelmente sublime. Miles e Piazzolla nos conduzem com exatidão por todos os percursos da vida. E quanto mais atribulada, monótona e dispersa for essa vida que a gente leva mais seus floreios e virulências descabidas se impõem. Mas quando conseguimos perceber o sentido e a necessidade da poesia é porque estamos preparados pra ouvir as sutilezas de Piazzolla e Miles.

Mesmo dentro dessa sutileza serena, longe da noite veloz (de Gullar), não consigo entender porque ele chora. O tempo é outro. De sublimar esse lamento e me deixar conduzir pelo inesperado de suas notas. De preferência as mais melódicas, que carregam todos os outros instrumentos na mesma cadência. Longe do desespero, dos dedos ágeis e velozes, longe do fôlego trôpego, longe da insensatez daqueles devaneios de Miles, entendo melhor o que tem pra me dizer.

Segue teu lamento Miles. Eu sigo cá do outro lado do rio, varrendo as ruas e recolhendo as pétalas secas. Sigo armando jogos de armar. Sigo aparando a grama dos jardins suspensos. Sigo aqui do outro lado de lá desejando entender por quem choras... Como um Fausto às avessas espero nunca descobrir. Mas voltarei a casa, como um bom filho pródigo. Como o filho que honra mesmo à distância, como o filho que discute em casa, mas reconhece em casa sua finitude.

Menor do que um grão de areia, mais fugaz do que a última nota de suspiro de Miles.

Dorme, guri.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

do it yourself

Olha só, o melhor clipe que eu vi esse ano. A banda é a Álgida e tenho certeza que pouca gente ainda conhece os caras. Mas não tem problema, eles continuam a sobreviver mesmo sem a mesma popularidade do Flávio do BBB.

Só não curti uma coisa: não precisava colcoar no final do clipe, depois dos créditos "obrigado por perder seu tempo". Perde tempo quem avacalha com iniciativas como essa.

Tá chega agora, vai assistir: aqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

desassossego

"Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.

No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida".


Bernardes Soares (heteronômio de Fernando Pessoa), em Livro do desassossego

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Só assim, divagar, sem nada buscar, nem desejar...



Tem dias que nada parece fazer sentido e justamente por isso me faz entender como nada é o que parece. Não uso drogas, acho um saco ter de manipular psicotrópicos pra sair do nada e encontrar lugar nenhum. Se é pra viajar eu prefiro a solidão. Uma estrada vazia, um disco estranho girando, girando no toca CD do carro, o sol se pondo, lentamente, e alguém pra chamar de "meu amor". O resto? O resto a gente compra no supermercado.

Há dias não escrevia nada. Absolutamente nada. Nada além de recados pra grudar na geladeira. Aí fui encarar a estrada. Bendita salvaguarda. Estrada guia. Não é o cheiro do asfalto, muito menos da combustão da gasolina que me provoca alucinações. Nem mesmo a Björk sussurrando ao pé do ouvido. É a travessia. Mesmo que de umn lado ao outro, rumando aparentemente sem destino eu chegasse na outra ponta da estrada do memso jeito. Quem sabe um pouco mais careca, afinal de contas o tempo é inexorável.

Mas a estrada exerce um fascínio sobre as pessoas. Mesmo quem despiste. Mesmo quem não reconheça essa estranha sensação de enfrentar a estrada. A cada travessia, por mais curta a distância, nos conduz para uma nova atmosfera. Parece papo de psicótico, eu te entendo, mas é um pouco além. Tipo, já fizeste uma viagem sem pressa, aproveitando todas as surpresas que a estrada oferece? Sem pressa é possível ver uma cabra comendo um pasto qualquer, sem importunar ninguém.

Sem pressa é possível aproveitar da paisagem. E sempre há um lugar mágico pra uma boa parada. Parada de deixar as portas do carro abertas, de ficar bem na margem de um vale silencioso, e talvez por isso mesmo tão mágico. Avistando um horizonte desses, que nem parece ficar à margem de uma rodovia movimentada, é possível entender porque tantos ajoelham-se todos os dias e oram pra agradecer a Deus a sua existência nessa vida. Porque à beira de um vale verde ou de um mar infinito aos olhos nossos tão pequenos, reconhecemos quanto inignificantes somos nesse mar de sonhos, amores, encantos e esperança.

Porque a morte nos encontrará, mais cedo ou mais tarde, seja num desfiladeiro, seja assistindo a tediosa programação de um canal qualquer da televisão. Mas muito antes dela nos encontrar é preciso dar tempo e espaço a vida. Vida atribulada, vida de supermercado, vida de afazeres domésticos, vida de cuidar dos filhos, vida de pagar IPTU, também. Mas é preciso dar espaço a uma outra vida, que é só nossa, que ninguém nos rouba, nem mesmo a quem mais amamos: nossa única e simples vida. Entender-se como indivíduo único e especial, que tem sua missão aqui nesse amontoado de terra é estar pronto para encarar-se ao espelho, sem medos nem cobranças.

Cabeça confusa é só uma rota de fuga. Mas se tiver de escolher uma fuga encare a estrada. Sem pressa de ir, muito menos de voltar. Se puder ser sem rumo melhor ainda. Aproveite o tempo, o silêncio da noite, a vaguidão da paisagem. Porque sentado na frente de um computador, com telefone tocando, com gente te chamando a todo instante, com contas pra pagar, com o carteirto batendo à sua porta, não dá. Não tem Cristo que se reconheça na sua intimidade se ao invés de viajar pra dentro de si mesmo Cristo tiver de a realidade disfarçada de cotidiano.

Permita-se viajar. Permita-se entender que nada, aboslutamente nada nessa vida vale mais do que o tempo a si mesmo. Seu amor vai lhe agradecer.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

de branco, pela paz, e com deus debaixo do braço

Não sei de onde veio, mas descobri para onde ia.

Um senhor baixinho, que parecia ainda mais baixinho, por causa do sol forte desse quase-verão que antecipa uma seca de rachar o côco, caminhava a passo curto, mas firme, em direção a sua igreja. Vestia jaleco branco, alvo como a nuvem mais linda desse céuzão de anil. Pra não queimar a careca, usava chapéu.

Descobri que ele ia pra igreja porque não me contive e fui atrás dele. Parece coisa de louco. E é. Assumo. Não resisti ao jeito dele, a aura dele, ou a simpatia dele, sei lá. Quando percebi estava caminhando como ele. Como se fosse a sua sombra.

Passos curtos, corpo inclinado à direita, como se tentasse equilibrar o peso da Bíblia apertada debaixo do braço esquerdo. O Livro Sagrado estava guardado em uma sacola plástica, como se fosse protegesse do sol ou de uma eventual chuva que parece não querer mais vir.

Não sei o nome dele. E ele nâo sabe porque raios chove tanto em Santa Catarina e nâo chove nada por aqui. Muitos menos entende porque Al-Qaeda explode tanta coisa mundo afora. Nem sabe como a bomba atômica pode cair no colo daquela mãe cheia de filhos pra cuidar.

Esse senhor só sabe que é preciso orar. Por ele e pelos outros. Sua fé move um monte de gente ao seu redor, mesmo que quase ninguém saiba o seu nome, muito menos de onde ele vem.