foto: Leopoldo Plentz, divulgação
Globo Filmes, divulgaçãoa casa do Mugnolini para você desfrutar da demência, delírio e desatino desse desvairado
foto: Leopoldo Plentz, divulgação
Globo Filmes, divulgação


Fabrizzio esreve e aqui publica-se:
Um dia o filme sai. Não sei se com o Caio Blat dirigindo, mas um dia sai.
Courtesy Donna Polivka Gallery
Abriu uma nova vaga no cinema brasileiro: de canalha. Com a morte há pouco, do ator, diretor, produtor, roteirista, machão, bêbado ressentido e amante arrependido, Jesse Valadão, o Brasil perde seu grande canalha. Deixa espalhados por aí, 6 ex-esposas, 9 filhos (sendo que 4 deles sequer assumiu a paternidade), outra penca de mulheres anônimas cujo dissabor foi a negação do amor.
Jece, em "A Idade da Terra", de Glauber Rocha
No currículo, Jece podia se orgulhar de ter trabalho com alguns dos cineastas mais importantes do Brasil, como Glauber Rocha (A Idade da Terra), Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 Graus, Rio Zona Norte e Boca de Ouro) e Ruy Guerra (Os Cafajestes).
Jece Valadão e Norma Benguel, em "Os Cafajestes", de Ruy Guerra
Jece desistiu da vida na tarde de hoje. Aos 76 anos. O coração do canalha parou às 17h20min. Algum canalha aí querendo ocupar a sua vaga? Agora, só nos resta o Paulo César Peréio, que além de canalha é o nosso eterno cafajeste.
É o fim, Jece.
Roda claquete. E manda subir os créditos.
o beijo do velho não tira o verme do ventre; não devolve a lucidez às baratas em redemoinho lambendo a ferida; não varre pra longe a faca banhada em sangue; nem mesmo se vestisse o manto cândido das beatas puras e trancafiadas pelo amargo sorriso de deboche; nada, nunca o amor; não silencia as hienas famintas; nem mesmo se parasse de beber cachaça de mel à sombra das castanheiras; numa das mãos um cetro de madeira retorcida, na outra, três chifres de alce; amor é blasfêmia; desejo, o coice do alce e a mordida da hiena; nem por isso, o velho deixa de lamber as feridas; caquético, alterna os velhos versos da ira de Atenas com o sorriso de deboche do coisa-ruim vendo Caim e Abel duelando na favela; se o porre de quase morte vale um a vida, o velho tem mais sete pra nascer; tragado pelo dilúvio, cospe a bílis, jorram da boca também os dentes; a gagueira é só um subterfúgio; ensandecido de amor e ódio, amamenta a prole com um ruidoso tapa na cara; era só um caroço debaixo do silicone; nada grave, não fosse a morte; o beijo do velho não devolve a vida ao ventre.
Falando em David Lynch. Vi ontem "Coração Selvagem" (Wild at Heart), produzido em 1990.
Nunca tinha visto e comprei no Zaffari. Ao invés de chá com bolacha, eu preferi Dadiv Lynch.
É um filme brilhante, com o despudor, a demência e a insanidade que só cabe na cabecinha do Lynch. Na trama, Sailor Ripley (Nicolas Cage) é um homem carente, que não teve pai nem mãe para cuidar da sua educação. Ele acaba se apaixonando por Lula Fortune (Laura Dern).
Até aí, nada demais. Mas não esqueça, é um filme do David Lynch.
Já na primeira seqüência, enquanto desce as escadas de um suntuoso teatro um homem tenta ferir Sailor com um canivete (aqueles de camelô, de apertar o botãozinho). Sailor reage e dá uma coça de fazer jorrar miolos. Talvez tenha sido o melhor espetáculo já visto naquele espaço.

que jaqueta, hein amigo?
O filme segue e além de paranóia e medo, Lynch imprime um tom delirante e fantástico. Se antes imaginava-se que Lula e Sailor eram dois desmiolados, à medida que passa o filme, temos a confirmação. E mais, Marietta Pace Fortune (Diane Ladd), mãe de Lula, deve ter sido amante do capeta em outra vida.
Em função da violência sem fim (seja psicológica ou mesmo física) é fácil deduzir que Quentin Tarantino viu e reviu o filme zilhões de vezes para escrever os roteiro de "Assassinos por Natureza" (dirigido por Oliver Stone) e "Pulp Fiction", ambos de 1994. Outro filme que bebeu na fonte é "Kalifornia", de Dominic Sena, produzido em 1993.
p.s.: tente achar Isabela Rosselini no filme.
Pra quem não conhece, esse é o David Lynch. O do lado da vaca, claro.
Não é por acaso que lembro dessa canção dos cabaretianos. A música, entoada pelo demente Robi, vulgo Lappat, já embalou furtos de geladeira, traições e batismos.
Pois bem, o cara vai dirigir mais um clipe do Beck. A música escolhida é Cell Phone's Dead. Em 1997 Gondry fez o clipe de Deadweight, que foi parar na trilha sonora de A Life Less Ordinary.
E tem gente que ainda manda se foder o Martinho Lutero. Olha só, enquanto os padres brasileiros censuraram, em abril, obra de arte que estava em exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil (RJ), as "santidades" alemães nem deram bola para a série Desenhando em Terços, da artista plástica Márcia X (1959-2005).
Imagine um som tosco e rasgado de guitarras soando um timbre de raiva e mandando se foder. Em segundo plano um ruído andróide perfurando os tímpanos. Já na primeira audição dos primeiros acordes é impossível não gritar: "Andróides sonham com guitarras elétricas".
Um dia desses, na beira de um rio fumegante de frio, ouvi Oblivion. Caminhei rio adentro, pés gelados e o sangue bombando desenfreadamente. A melodia fisgava meu corpo como se fosse uma bando de piranhas rasgando a pele. Fechei os olhos e segui caminhando. Atravessei o rio, atrás um rastro de sangue. Do outro lado do nevoeiro, Piazzolla seguia tocando Oblivion.